Amor animal
1 O principio do fim (Capítulo único)
Notas iniciais
Estou aqui, deitada neste velho pedaço de pano a que muitas vezes chamaram de cobertor. Não entendo esse tipo de palavras. Aliás, não entendo nenhuma palavra que me é dirigida, ou que oiço. Sou um animal pequeno. Uma gata. Sim, podes pensar que não oiço o que eles dizem, mas enganas-te. Oiço, mas não entendo, simples. Mas sinto. Sinto o amor, o carinho, o conforto das palavras que me dizem, juntamente com uma, ou quantas eles quiserem, festas na cabeça. Mas também sinto a raiva, a tristeza, o medo e o desconforto do que perceciono. E tanta tristeza sinto agora. Tanto me dói sentir que os meus donos estão a sofrer tanto com a minha doença. Tento-me mexer para um lado, tento mexer para o outro, mas acabo sempre por cair. Eu, que era tão independente, tão mexida, agora estar assim, desta forma. Sinto o meu coração, sinto as minhas patas, sinto tudo. Sinto dor, muita dor. Física? Sim, alguma. Mas a maior de todas, a que me corta o coração ao meio, é a emocional. Vejo-os a chorar. Vejo-os a telefonarem a alguém. Quem será? Deus queira que não seja ao veterinário. Não tenciono morrer hoje, não vos quero abandonar. Amo-vos. Amo-vos mais que tudo, mais do que alguma vez amei alguém. E, no entanto, nem miar consigo. Tento-o quando te vejo, João, mas não consigo. Meu querido João. Meu salvador. Foste tu, lembras-te, que naquele dia me salvaste da morte certa, quando estava para ser atacada por um cão. Ainda nem os olhos tinha aberto e já te amava. Tu sempre me amaste ao longo da minha vida, não foi? É por isso que não choras. Sabes que o nosso laço nunca morrerá, mesmo que o meu corpo já não esteja à tua frente. Lembras-te quando ia para cima dos teus livros, quando estudavas? Era maravilhoso, porque logo a seguir me metias na minha cesta, ou lá como aquilo se chama, e punhas-me em cima da mesa, de frente para ti, enquanto me embalavas com as tuas palavras. Nunca deixes de estudar, serás um grande homem, João… serás um grande homem. Serás tu a levar-me à última morada? Terás coragem de ver o meu corpo a ficar frio e estático, enquanto o nada que sou por dentro, ou pelo menos o que dizem que somos, se desvanece? Antes preferia não saber. Preferia ficar contigo, todos os dias. Penso nisso e apetece-me comer. Talvez seja estranho para quem ouve o íntimo de uma moribunda, mas este é o meu último desejo: quero que o meu salvador me traga comida à boca. Mas, onde foste João? Porque veio aqui a Ana? Sabes que se não fores tu que me engasgo, que não consigo comer. Não tenhas medo, João. Vem, dá-me o que resta do prato e deixa-me ir deste mundo, satisfeita por ter o meu último desejo cumprido. Porque não vens? Não, não levem o prato! Por favor… Aliás, levem-no! Mas tragam-me o meu grande amigo. Só preciso dele, aqui, a aconchegar-me, para depois poder finalmente partir. Só o quero a ele. Deixem-me! Não quero ir à serradura, não tenho a bexiga cheia, nem força para a esvaziar. O que é isto? A caixa? Para quê a caixa? Não vamos viajar! O que se passa? Porque estão todos a olhar para mim? Porque choram? Não deviam estar felizes? Pode ser que a praia me faça melhor, pode ser que ressuscite, como aquele senhor que vocês têm num quadro da sala. Onde estão as malas? Ah, já as meteram no carro, não foi? Estão com medo que faça o mesmo espalhafato de todos os anos quando me levam para a garagem. Não estivesse eu assim e já me estavam a ouvir. Sabem que sou claustrofóbica, não têm nada que me pôr numa caixa. Depois queixam-se das arranhadelas que levam nas pernas. João, aí estás tu! Estiveste no quarto, não é bom sinal. Porque estás tão sério? Alegra-te, és tu que dás vida a esta casa! És tu que me dás vida. Espera, deixa-me tentar ver se consigo miar para sorrires. Desculpa, não tenho força para o fazer. Tenho a pata estendida, anda, toca-me nela. Diz-me que vai ficar tudo bem. Não estejas assim, apenas vem. Hum, lá vem o cão. Por isso é que me enjaularam, não é? Sabem que se ele me chatear leva uma sapatada no focinho. Para de me lamber, imbecil! Deixa estar que quando sair daqui faço-te a folha. O que foi agora? Só lágrimas e rostos fechados. Alegrem-se, não eram assim! Ana, porque estás ainda de pijama? Não vês que vamos viajar? Tens de te arranjar, anda que o carro já deve estar ligado e olha que a Tatiana fica super stressada se tiver que esperar. Não me digas adeus, já vamos juntos para o mesmo sítio. Tão desesperada, meu Deus. Também é normal, enjoas sempre no carro. Isso João, pega na caixa, vamos lá rumo a Peniche. Continuas sério… Os teus olhos brilham… Os teus braços tremem… Porque não vais ao lado da Tatiana e da Inês? E o carro, onde está o carro? Estás a ir na direção oposta, a garagem é lá embaixo, não vás para a curva da rua! A força falta-te no braço, isso não é bom. De certeza que estás nervoso com algo. Onde está a Ana? Só vieste tu?! A Tatiana e a Inês?! Não me digam que me vão levar ao doutor Humberto. Não, não, isso não. Não me façam isso, eu quero viver! Consigo suportar as dores, não me levem para lá! Estás totalmente nervoso, meu orgulho, passaste a caixa rapidamente para a Inês. Conheço melhor que ninguém essa rapidez. Afinal de contas, não és só tu que me vais levar à última morada. Serão vocês os três, as minhas razões de viver, os meus fortes pilares, que sofrerão ainda mais que eu. Vê, é a tua escola! Os teus amigos chamam-te, vai ter com eles. Leva-me contigo. Apenas acenaste, nem uma palavra disseste. Tens o coração despedaçado, mas como sempre não o mostras. Porque sofres em silêncio? Porque não dizes o que sentes a quem mais te ama? Já cá estamos. Interessante, nunca aqui vim, mas o imbecil do cão já. Não fosse ele e nem sabia o cheiro desta coisa. Veterinário, não é? Já ouvi falar muito mal deste sítio. O outro não se queixava, mas também nunca dizia nada de jeito. Por isso, nem vale a pena dar importância. Que vento é este? Que nuvens são aquelas? Onde se meteu o sol? Tenho frio. Cubram-me, ou querem que morra congelada? Ah, o Sol voltou. Olhas para as nuvens, João, olhas para os carros, Inês, olhas para mim, Tatiana. Vocês bem que olham, mas não dizem nada. Que silêncio assustador. Será que me consigo mexer mais um bocado para perto da grade? Ao menos tentei, o coração já não aguenta tanto. É ele, não é? Conheço-lhe o cheiro, é o doutor Humberto. Tão alto, tão robusto. Se fosse nos meus tempos de juventude, não escapava sem umas feridas nas pernas e nos braços. Saudades dos tempos em que era saudável e elegante. Agora estou para aqui, deitada numa caixa, à espera dos últimos momentos de vida. Como a vida é curta. Então, era o que mais faltava! Ainda agora entraram nesta coisita que vocês dizem veterinário, ou lá o que é, e já meteram um gato ao pé de mim? Que ofensa! Deixa-me sair daqui que vais ver a minha fúria em ação, seu verme. Isso, levem-me antes que tenha de fazer algo que vocês se iam arrepender. Que luz tão forte! Que mesa tão estranha! O que dizem vocês? Caramba, nunca entendo uma única palavra. Até o médico está com cara de enterro, uau! Sou só mais uma para si, não se esqueça disso. Este olhar… este profundo olhar. O que sente por mim, doutor Humberto? O quê? Tristeza? Mas… mas como é possível? São todos iguais, porque é o doutor é diferente? E a forma como me pegou foi tão gentil, tão serena. Ama animais? Não os vê como empecilhos de rua que deviam ser metidos numa jaula e apodrecer até alguém ter misericórdia deles? Que surpresa esta foi para mim. E que surpresa ainda maior nem um centímetro já me conseguir mover. Os meus músculos, o que se passam com eles? Parecem duros. Não, duros não. Parecem adormecidos. Uma injeção? Anestesia? É agora, não é? Vão-me dar o bilhete de ida para um lugar qualquer. Se assim tem de ser, cumpram-me só o desejo de vir o João segurar-me na pata, enquanto me vou. Onde está ele? Vá olhos, funcionem só mais uns segundos. Estás sentado, meu amigo. Estás tenso. Não consegues ver, não é? Não aceitas. Entendo-te. Também não aceito deixar que o meu coração pare de bombear o sentimento que tenho por vocês os quatro lá de casa. Mas terá de ser. Vivi doze longos e felizes anos. Tivemos os nossos momentos, bons e maus, as nossas brincadeiras e discussões, as nossas alegrias e tristezas. Amei viver ao teu lado. Amei amar-te. Mas agora, por favor, dá-me o prazer do teu toque, uma última vez. Fica ao meu lado nestes últimos segundos. Não tarda nada levo o remédio diabólico. Vou fechar os olhos, espero que venhas. Sinto o toque de alguém. Quem é? Ah, és tu Inês. E tu também Tatiana. Será que ele vem também? Tanta é a ansiedade, que já só quero abrir os olhos outra vez. Sinto um terceiro toque! Mas… não é o dele. Não vieste. Já me espetaram, sabes? Agora é só esperar que todo o sentimento dentro de mim morra. Irei para um sítio pior. Lá não vos terei de novo. Só te verei até morreres, João, e a ti, Tatiana, e a ti, Inês. Mas vocês nunca mais me verão. Lambam as feridas uns dos outros, apoiem-se, vivam como eu vivi, tratem uns dos outros, não discutam, sejam felizes, evoluam, não se separem emocionalmente. Lembrem-se, tal como o João disse, contem todas as estrelas no céu, pois cada uma delas simboliza os anos que vos vou amar. Inspirar mais uma vez, para expirar mais uma vez. Está quase! Vejo já a luz branca. Adeus, minha família, adeus, meus amigos, adeus, meus pilares, adeus, meus salvadores. Não voltarei, mas vocês têm o imbecil do cão, que eu também sempre amei, mas nunca demonstrei. Adeus, Snoopy. Que nome mais clicheoso para um cão, enfim. Sei que também sofrerás, mas sê forte. Cuida deles. Ver-te-ei um dia. Espero que esse dia só seja daqui a muitos, muitos anos. Já está. Metam agora o meu corpo num saco e queimem-me. Estarei a ver-vos, não lá de cima e muito menos daí debaixo, mas daqui, no meio de tudo, onde tudo para vocês, humanos, não é nada. Eles souberam amar-me como um membro da família, nunca desistiram de mim. Serão os outros sete mil milhões mortais capazes do mesmo feito? Tenho a eternidade para descobrir.
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