Dois meses ficam para trás e a vida continua sua rotina atribulada, ocupando os pensamentos e lutando para modificar os sentimentos e emoções.

A presença de Patrícia se torna uma constância na vida de Vasco, provocando rejeição de Yasemine e Alda, assim como das mulheres mais velhas de sua família. O coração escuro de Solomon também se sente afrontado, percebendo a perda de controle sobre os passos do seu objeto valioso de desejo.

Era momento de agir!

Naquele final de tarde, Vasco aciona o alarme do escritório e dirige-se para seu carro, estacionado do outro lado da rua. Sorri, ao perceber que Patrícia o esperava com um buquê de flores nas mãos.

— São lindas! – ele mantém o sorriso discreto.

— Não mais do que você, Vasco. – ela estende o buquê e sente-se feliz ao vê-lo aceitar o presente. – Quer jantar comigo?

Ele concorda com um movimento de cabeça e aceita ser conduzido para o carro da juíza. Cuidadosa, ela abre a porta e permite que ele se acomode no banco do passageiro. Aquela seria sua noite!

— Para onde iremos?

— Você irá conhecer o meu chalé. Fica cerca de duas horas daqui e poderemos ficar bem à vontade. Por que não avisa sua família que terá um encontro?

Ao ser comunicado de que Vasco não passaria a noite de sexta-feira em com seus familiares, Solomon não resiste e destrói o próprio celular, atirando-o contra a parede.

— Ah, meu querido! Não vamos ficar sem sua companhia! Não mesmo!

Na manhã seguinte, a notícia do acidente sofrido pela juíza Patrícia Varella e seu belo acompanhante Vasco Agilulfo, é informada por vários canais de comunicação. O carro havia saído do controle da mulher e descido por um pequeno desfiladeiro, indo chocar-se contra uma imensa e secular pedra. Segundo as informações, o estado de saúde da juíza era grave, porque seu airbag não tinha sido acionado com o impacto, enquanto que Vasco havia apenas fraturado a perna e sofrido vários hematomas.

Quando Emma e Killian chegam ao saguão do hospital, encontram Solomon sentado num dos bancos estofados, conversando com alguém ao telefone. Imediatamente, ele desliga o aparelho e volta-se para o casal.

— Como eles estão? – Killian se adianta ao perguntar.

— A piranha está fora de perigo de morte e Vasco está sedado, mas está muito bem. Terá de trabalhar em casa. – Solomon sorri.

— Poderemos vê-lo?

— Quando ele despertar, sim. Já conversei com os médicos e Vasco será liberado amanhã. Mas para evitar problemas maiores, vou levá-lo de helicóptero.

Killian sorri aliviado. Emma joga um olhar inquisidor para Solomon e consegue se comunicar com ele.

— Será que você poderia conseguir um copo com chocolate para mim? – ela pede para Killian, que sorri e a atende de forma pronta.

Sozinha com Solomon, ela rapidamente segura seu braço, apertando-o sob seus dedos.

— Você é o responsável por isso? O que queria? Matar Vasco?

— Claro que não, minha princesa! Eu queria matar a piranha! Mas ela é muito forte e sobreviveu! – Solomon fala cinicamente. – Eu disse que você deveria conquistar Vasco, mas o que fez para isso? Nada!

— Não sou profissional nisso!

— Nenhuma mulher é profissional na sedução, queridinha. Vocês nascem com esse poder. Tudo o que precisava fazer, era marcar a pele de Vasco com sua presença. E você fez?

— Mas que porra, Solon? Eu preciso de mais tempo!

— A piranha não precisou de tanto tempo, assim! O que pensa que eles ficaram fazendo a noite toda? Jogando canastra? E onde será que ela estava com a mão, quando perdeu o controle do carro?

— Você é cínico! – Emma rosna. – O que quer que eu faça? Quer que eu embriague Vasco e o viole?

Solomon acha graça na pergunta e ri.

— Com a volta de Cosima, conseguimos afastar Regina. Neste momento, nem Regina e Cosima estão no páreo. Restava você, mas como não se moveu, a piranha mexicana tomou a dianteira e já carimbou o passaporte de Vasco. Então, devido à sua inércia, tive de interferir no destino para impedir uma possível gravidez dela!

Emma olha para os lados e depois encara Solomon.

— Não quero que mate ninguém! Eu vou conquistar Vasco e até o final do ano, estaremos casados!

— Caso eu queira matar alguém, eu matarei. E o seu prazo é longo demais. Regina poderá retornar a qualquer momento! Então, seja mais útil!

Neste mesmo momento, Regina se observava no espelho dentro de um vestido de noiva, quando recebera a notícia sobre o acidente sofrido por Vasco. Informada pela mãe, ela se tranquiliza quando conhece o verdadeiro estado de saúde de seu homem.

— Penso que deverei retornar, porque Vasco precisa de mim, Robin.

Ele a ajuda a sair do vestido de noiva e cuidadosamente coloca a peça em um dos cabides ao lado dos outros vestidos.

— Sua mãe lhe disse que ele está fora de perigo. Além disso, você assinou o contrato para o desfile de meus vestidos de noiva. Não pode voltar atrás!

— Mas Vasco e as meninas precisam de mim!

— Vasco estava no carro com outra mulher, com quem havia passado a noite. Segundo sua mãe, eles estão juntos há meses! Você veio resolver sua vida com o nosso filho e Vasco resolveu a vida dele.

Regina termina de vestir suas roupas e observa a imagem do homem refletido no espelho.

— Vasco não está namorando essa mulher. É o desejo dela, mas não é o dele. Senão, ele não ficaria ligando para mim, constantemente! Eu tenho certeza do amor de meu marido!

— Ele nunca foi seu marido, muito menos agora. Vasco poderia ter providenciado um novo casamento, tão logo se viu solteiro da morta que estava viva. O que ele fez? Nada! – Robin se aproxima da mulher e a encara pelo espelho, segurando seus ombros. – Minha querida, ele reagiu exatamente como meus pais e eu reagimos quando soubemos quem era você. Hoje, eu entendo, mas na época, tive muito medo.

Regina sabia que o homem estava com razão. A reação que Vasco tivera naquela noite em que ele demonstrara sua natureza real, dizia exatamente o terror surgido na alma dele. Mesmo com os telefonemas apaixonados dele, ela sentia que a distância o fazia sentir saudades, mas o medo de conviver com o sobrenatural o mantinha distante. Ah, Vasco! Por que ele havia cruzado o seu caminho? Por que ele a havia ensinado a amar? Por que ele havia se tornado seu homem tão desejado e sonhado? Por que ele tinha de ser tão especial a ponto de ser desejado por tantas pessoas ao mesmo tempo?

— Depois do último desfile, retorne para sua vida normal. Caso Henry queira ir com você, não impediremos. Em posse de seu controle, vá conversar com Vasco e decidam juntos o que pretendem de suas vidas.

Outros dois meses são deixados para trás. Regina retomaria sua vida profissional ao retornar para sua cidade, em companhia de seu filho Henry. Em acordo com o pai do menino, ela ficaria um longo período de convivência com o jovem, a fim de recuperar o tempo perdido entre os dois.

É surpresa total quando ela retorna para sua empresa. É recebida com festa pelos funcionários, mas não com tanto entusiasmo por Emma, incrédula com a presença de sua prima.

— Regina? Não sabia que tinha retornado...

— Desembarcamos ontem pela tarde. Fiquei com minha mãe e decidi voltar ao trabalho, para minha vida antiga e para os meus amores. Como você está?

— Bem...

— Minha mãe me falou sobre a Associação e sobre os atendimentos. Contou-me as novidades. – Regina mantém o sorriso e a altivez diante da decepção da prima. – Como está seu namoro com Killian?

— Não conseguimos. Ele está namorando uma arquiteta turca e parece estar feliz.

Um sorriso maior ilumina os lábios de Regina. Havia ficado feliz pelo amigo.

— Tem visto Vasco? Faz tempo que ele não me liga...

— Eu o visito quase todos os dias. Ele ainda está com a perna engessada e está trabalhando mesmo assim. – Emma sereniza o rosto. – Soube que ele irá casar-se com a juíza Patrícia?

O coração de Regina escorre dentro de seu peito. A expressão que surge em seu rosto é pura decepção e tristeza.

— Casar-se com Patrícia?

— Nem Cosima, nem você e nem eu. Vasco escolheu viver com a juíza que soube exatamente como conquistar o nosso homem amado. Você e eu perdemos, Regina.

— Como estão as meninas dele?

— Yasemine declarou guerra à madrasta. Já Alda é indiferente a tudo. Ruby não se pronuncia, embora não tenha apreciado. A tia Vida consegue ser mais educada com a mulher. Solomon não se conforma que Vasco se case novamente, agora que pensava estar com o caminho livre para sua investida.

— E você?

— Eu estou arrasada! Não perdi as esperanças, porque o casamento ainda não se realizou! – Emma se altera. – Amo Vasco e não mereço perder minha chance de felicidade! Ainda vou lutar pelo amor dele!

Era final da tarde, quando Regina entra no escritório e encontra Vasco no mezanino, conversando com um de seus arquitetos. Ele é atraído pelo som da porta e fica estático, observando a entrada de sua amada fujona.

Regina acena para ele e sorri. É imediatamente retribuída com outro aceno. Ela sobe a escada, depois de cumprimentar Ruby com um abraço caloroso.

— Pode começar a pôr em prática. – Vasco fala para seu funcionário. Ele sorri e recebe Regina em um abraço longo, escondendo seu rosto no espaço entre o ombro e a orelha dela. Inala o cheiro de sua amada e fortalece sua alma com aquele aroma.

— Você está linda! – ele fala e afasta-se com a dificuldade pela perna imobilizada.

— Seria redundante dizer o mesmo para você. – Regina se senta e aponta para a perna dele. – Quando irá tirar isso?

— Esta semana eu me livrarei disso. – Vasco sorri lindamente. Era ver um raio de sol naquele sorriso. – Como está sua vida?

— Eu consegui me conciliar com meu filho e o trouxe comigo. Ficará até o fim do ano conosco.

Vasco balança afirmativamente com a cabeça.

— Sempre torci por vocês. Espero que sejam muito felizes, Regina.

— Por que não me ligou mais? Foram dois meses em silêncio...

Ele abaixa a cabeça e olha para as próprias mãos. Depois, volta sua atenção para a mulher.

— Você escolheu ficar longe de mim e eu respeitei. Por que tentar impor a minha presença em sua vida? Você estava em uma missão muito importante e nada deveria desviar seu foco.

Regina ri e balança a cabeça, negando.

— Sua noiva pediu isso? Pediu que parasse de conversar comigo?

— Ela não tem esse direito. Mas foram quatro meses longe de você, Regina. Apenas conversávamos quando eu tomava a iniciativa...e isso me cansou. Não poderia ficar implorando por seu amor, uma vez que você sabia que nossa separação deveria ser momentânea até sair meu divórcio com Cosima. Veja como estamos! Cosima retornou para a Itália e você me abandonou.

— Não seja egoísta! Eu fui procurar meu filho!

— Você viveu quinze anos longe dele. Somente agora sentiu a necessidade de conviver com ele?

O rosto de Regina se fecha, numa carranca de raiva.

— Henry é meu filho e está em primeiro lugar! Devo isso a ele!

— Fico feliz que pense assim. Mas você poderia ter conciliado seus amores em seu coração. Ninguém lhe pediu para optar por um de nós dois.

— Eu saberia a resposta, caso tivesse de optar.

— Então, tudo está definido. Por que a zanga? – ele se ajeita na cadeira. – Pensei que iríamos esperar juntos pelo divórcio e pela anulação de nosso casamento, para realizarmos outra cerimônia, logo em seguida.

— Você surtou quando me revelei. Negando o que sou, você me negou. Eu sou isso e quem me aceitar, deverá levar o pacote.

Vasco maneia afirmativamente a cabeça. Arqueia rapidamente as sobrancelhas grossas.

— Eu penso que deveríamos manter um relacionamento amistoso. Não quero sair da vida de suas filhas, porque já as amo como se tivessem saído de mim.

— Fico lisonjeado ao ouvir isso, Regina.

Ela se levanta e vai ajoelhar-se diante dele. Apoia as mãos sobre suas coxas e encara-o.

— Diga olhando em meus olhos, que não me ama mais. Diga que não quer saber de mim, por causa de minha natureza e que quer viver com uma mulher comum. Então, eu aceitarei o seu casamento com Patrícia.

— Eu amo você, Regina. Sempre amarei, mas não fui ensinado a conviver com o sobrenatural. Você me aterrorizou e deixou-me sozinho com os meus medos e minhas dúvidas. Já que desejava revelar sua natureza, por que não me preparou antes e por que não me amparou depois? Tenho dúvidas, medos e inquietações que somente você pode aplacar. Mas em vez disso, você foge de mim e abandona tudo o que construímos.

Regina estende a mão e toca o rosto do homem.

— Você é minha metade, Vasco. Sou inteira agora, porque amo você e porque sou amada por você.

— Sim, Regina. Eu a amo demais e vou afirmar que sinto sua presença em mim, toda vez em que respiro.

Um sorriso ilumina os lábios de Regina. Ele estava repetindo uma frase sua, dita na noite do pedido de casamento. Ela se encanta com a tranquilidade de Vasco em assumir e declarar o seu amor, sem pudores.

— Caso eu o ensine a conviver com a minha natureza, você me aceitaria de volta?

— Eu nunca a tirei de meu coração, Regina. Apenas a coloquei num cantinho especial.

Ela se levanta e senta-se nas pernas do amado. Inclina-se para beijar seus lábios. Beijam-se por um longo tempo, recordando todos os seus sabores.