Amor absoluto e perfeito

6 Os sentimentos continuam lá...


Dois dias são deixados para trás. Era final de expediente, quando Vasco procura Killian no hall do prédio.

— Desculpe-me por pedir-lhe isso, Killian, mas a Srta. Mills ordenou que eu viajasse com ela. Gostaria que você ficasse um pouco no hospital com Yasemine e a Ruby.

— Ruby é a doadora? Pode ficar tranquilo e vá logo arrumar sua bagagem para viajar com a fera de Porto Rico!

Horas depois, o carro levando Regina e Vasco está na estrada. Viajaria algumas horas, levados pelo motorista particular da empresária e iriam ter um jantar de negócios com um grupo de empresários turcos, interessados na contratação da Diamanti Arquitetura e Engenharia, para a decoração de um prédio recém-construído.

— Não fique deslumbrado com seu título e com os elogios que receberá. Existem outros arquitetos tão bons ou melhores e mais experientes que você...

— Pode ser, mas quem ganhou o prêmio anual fui eu. – interrompe Vasco olhando a paisagem lá fora.

Durante toda a viagem, mais nenhuma palavra é trocada entre os dois passageiros. Quando chegam ao hotel onde se hospedariam e realizariam o encontro, os dois são bem recepcionados e conduzidos ao local onde os turcos os aguardavam.

— Demoramos? – Regina tenta se mostrar simpática. Sorri até perceber que os olhos da mulher da comitiva, estavam fixos gulosamente sobre Vasco. – Este é meu arquiteto Vasco Agilulfo!

— Agilulfo? O Cavaleiro Inexistente de Ítalo Calvino? – a mulher fala, mas não observa reação no homem. Percebe que sua brincadeira não surtira efeito. – É uma honra conhecer o jovem arquiteto do ano!

Ela se senta e observa Regina fazer o mesmo. O senhor que a acompanhava acomoda-se tão logo Vasco havia feito.

— Você tem um belo rosto, Vasco. Poderia ser modelo fotográfico. Já pensou nisso? – ele arrisca.

— Não, senhor. – e aquela frase é a única dita pelo rapaz durante quase todo o período de conversa.

Lá pelas tantas, Vasco se levanta e pede licença para dar um telefonema. Sai acompanhado pelos olhos famintos da empresária turca.

— Belo demais este jovem. Com esse rosto, não despertaria confiança, caso não tivesse sido premiado em meio a tantos fósseis da arquitetura. – a outra empresária sorri. – Mas eu o levaria muito a sério.

Sentindo a queimação dos enciumados, Regina consegue disfarçar bem. Conversa com o casal de empresário, mas depois pede licença para afastar-se. Caminhando pelo saguão do hotel, Regina encontra Vasco conversando ao telefone e parecia contrariado.

— Está tudo bem? – ela toca o ombro dele, suavemente.

— Sim, está tudo bem. – ele desliga o celular e a encara, mas na verdade, olhava por cima da cabeça dela.

Mais uma hora é gasta na reunião. No elevador que os levaria aos seus quartos, Regina e Vasco não conversam. Vivem o mais absoluto silêncio, até que Vasco percebe pela imagem refletida no espelho lateral, que Regina o comia vivo com seus lindos olhos. Olhava-o da mesma forma que o havia admirado quando estava totalmente despido, naquele quarto de hotel. Ele se vira e a olha pessoalmente.

— O dobro.

— O que disse?

— Pagarei o dobro, por mais uma noite junto com você, Vasco.

A porta do elevador mal se abre e Vasco voa para fora dali, sendo seguido pela empresária. Ela segura seu braço e o vê refutar o toque como se aquilo queimasse sua pela.

— Não me toque! – ele explode quase num grito.

— Perdoe-me, mas eu não pude resistir!

— Deixe-me em paz!

Passado algum tempo, Vasco está no saguão do hotel, levando sua bagagem a andando a passos largos, quando é interpolado por Regina. Ela ia tocá-lo, mas é repudiada.

— Não vá, vasco, eu lhe peço! Por favor, não faça isso! Você está furioso e está tarde demais! Por favor, fique porque eu preciso de você!

Os dois encaram-se por algum tempo, até que aos poucos a serenidade volta ao raciocínio de Vasco. Como ele iria retornar sem condução e sem dinheiro para uma viagem tão longa?

Na manhã seguinte, Regina ordena que o carro seja desviado da rota e levado para um bar ao céu aberto, onde tomariam o café da manhã, olhando o mar.

— Por que estamos aqui?

— Para conseguirmos ficar calmos. – Regina bebe um gole de se café. Depois, olha Vasco, algo que não se cansava em fazer. – Por que você aceitou o dinheiro?

— Por que você impôs aquelas condições?

Regina não responde. Precisava pensar sobre o que falar, para evitar desgastes durante a viagem.

Nos dias que seguem, o relacionamento entre Regina e Vasco e estritamente profissional. As reuniões, as discussões sobre os projetos, os encontros nos corredores, os cumprimentos, embora tudo o que Regina queria era tocar aquele corpo novamente, mas sem condições. Queria um novo encontro em pé de igualdade, sem cobranças ou acusações e sem uso de subterfúgios para forçar o prazer. Queria apenas conseguir provar que estava errada, porém, a frieza de Vasco, sua distância, apenas servia para provar o contrário.

A festa de final de ano estava próxima e era costume da empresa, todos os funcionários participarem de uma troca de presentes. Todos deveriam participar da despedida e fechamento dos trabalhos daquele ano.

No almoço daquele dia, todos apanham o nome do colega de trabalho para quem daria um presente na noite da grande festa. Killian estava animado, enquanto Vasco lamentava não ter roupas adequadas para a ocasião.

— Pois iremos conseguir uma fada madrinha para você! Conheço a dona de um atelier de costura que poderá emprestar algo divino! E não quero mais desculpas!

Na noite da grande festa, o salão estava ricamente enfeitado, comidas e bebidas em fartura, além uma orquestra para a música ao vivo. Todos elegantemente vestidos, não desentoavam tanto da vestimenta do cotidiano. Killian tinha chegado primeiro, vindo com a promessa de que o amigo viria depois que conseguisse organizar sua casa, e todas as mulheres de sua vida tumultuada.

Quando Regina e Emma chegam ao local, recebem todos os olhares em sua direção. Emma recebe todas as batidas do coração de Killian, apaixonado secretamente pela chefe.

— Essas meninas herdaram a elegância de suas mães. – comenta uma das funcionárias mais antigas da empresa. – Onde está Vasco?

— Ele me garantiu que virá. Não cometeria a deselegância em deixar o colega sem o presente.

Momentos mais tarde, Vasco chega ao salão e entrega seu trench coach para o chapeleiro. Observa o ambiente, do alto de sua estatura e tenta encontrar Killian, com quem se sentiria seguro ao lado. Todos os olhares femininos são direcionados para ele, e também os olhares masculinos que não se furtavam em admirar a elegância desconhecida do arquiteto. Até a orquestra desentoa por alguns segundos.

Fingindo não perceber a forma com estava sendo invadido por aqueles olhos, Vasco caminha altivo e aristocrático como se estivesse em uma passarela de modas. Encontra Killian e acelera o passo para ficar junto ao amigo, sendo interceptado de quando em quando por colegas que queriam cumprimentá-lo ou elogiá-lo.

— Você está deslumbrante, Vasco! – Regina para diante dele, linda em vestido prata, com seus cabelos presos em um elegante coque. – Que bom que você veio!

— Todos os funcionários estavam convidados, Srta. Mills.

— Eu não me referiria a isso. Foi apenas uma forma de abordá-lo e...

— Vasco, você está fabuloso! Não há homem mais lindo esta noite! – Emma os interrompe e estende a mão para o funcionário e entrega-lhe uma caixa de presente. Ela havia trocado de colega com sua secretária, apenas para conseguir presentear Vasco. – Feliz final de ano!

Ele se sobressalta e sorri. E aquele sorriso ilumina a alma de Emma e Regina. Um sorriso raro e tão lindo como os raios da aurora boreal.

— Você é meu colega secreto! – Emma sorri lindamente. – Venha dançar comigo!

Sob o olhar enciumado e tristonho de Killian, o casal atravessa o salão e vai dançar. Outros casais fazem o mesmo, quebrando o gelo daquele salão que estava vazio. Regina percebe o véu opaco que desce sobre os olhos bonitos de Killian e o convida para dançar, imediatamente atendida em seu pedido.

Mesmo juntos e bem coreografados, os dois não permitem que seus olhos saiam da direção de Emma e Vasco que dançavam como se houvesse outra pessoa entre eles, tamanha a tensão exibida pelo homem.

Outra semana fica na estrada do tempo. Naquela manhã, Emma chega ao escritório e no corredor encontra-se com um homem de rosto conhecido. É cumprimentada e observa o homem afastar-se em direção ao elevador. Ela passa pela sala dos arquitetos e encontra Killian contrariado, caminhando de um lado ao outro, enquanto Vasco se balançava em sua cadeira. Furioso, também.

— Eu tive a sensação de conhecer aquele homem que vi no corredor. – ela aponta por cima do próprio ombro.

— Ele é o representante da Empresa Arouka. Foi ele quem se rebelou quando ganhamos a concorrência do edifício Turquesa, lembra-se?

— Mas é claro que sim! – Emma estala os dedos. – Ele queria a todo custo participar do projeto de decoração do edifício!

— Veio visitar-nos e ofereceu um cheque farto para que Vasco e eu o coloquemos como fornecedor das plantas para a jardinagem! Pode acreditar?

Emma sorri incrédula e indignada.

— Pelo visto já tenho onde almoçar hoje. Vou fazer uma visita ao Sr. Arouka e colocar as plantas nos lugares certos.

— Eu irei com você!

— Não será preciso, Killian. Meu segurança Leroy irá comigo. – a loira se volta para Vasco que mordia o lápis pelo meio, como se rosnasse. – Ele ofendeu você? Ameaçou você?

Killian se sente refutado e humilhado. Sua amada preocupando-se com seu melhor amigo? Os dois foram ameaçados! Não foi somente Vasco! Por que somente ele merecia atenção e preocupação?

O dia continua sua jornada rumo ao seu fim e consegue acalmar os sentimentos de fúria, paixão e ciúmes. O trabalho era intenso e o prazo estava chegando ao fim, para a entrega da decoração do projeto.

— Quer ir conosco ao evento da nova associação?

— Hoje tenho compromisso, companheiro. Vai levar Alda também? – Killian sorri, esquecendo-se de seu súbito egoísmo. O amigo não estava importando-se com Emma, então, por que se preocupar?

— Conversei com ela e ficará em casa com Ruby e minha tia Vida. Mas na quarta feira, levarei todas as minhas mulheres ao cinema. Quer vir conosco?

— Ah, não! Perdi a última partida de sinuca para Leroy e terei a minha revanche na quarta feira!

Os dois começam a rir e param ao ver a figura bonita de Emma surgir na porta. Ela sorri e aponta para a cafeteira.

— Senti o cheiro de café e resolvi pedir um pouco. Podem me servir?

Rápido, Killian atende ao pedido de sua amada. Ela ficava linda quando sorria!

— Quer jantar comigo, Vasco?

— Ele tem um compromisso com uma bela e jovem mulher, hoje pela noite. – Killian diz e percebe o sorriso maroto do amigo. Riam de uma piada entre amigos. – Linda, furiosa, olhos verdes e longos cabelos castanhos! Uma gata chamada Yasemine!

Vasco não contém a risada sonora. Cobre os lábios e logo o sorriso desaparece. Estava feliz demais pela recuperação de sua filha e pela possibilidade de receber a continuidade do tratamento, quando começasse a ser atendido.

— Tudo bem...fica para uma próxima ocasião...