Amor absoluto e perfeito

15 Mas que droga é essa?


— Arouka não será indiciado pelo sequestro, senão teremos de explicar como conseguimos os documentos. – Regina bebe um gole de café. – Fizemos um acordo e ele ficará livre desse crime.

— Mas será acusado de fraudes? – Vasco entrega o pão para Alda. – E quanto a Abigail?

— Ela está fora do país. Já que não houve sequestro, não haverá testemunha.

— Nem pude agradecer pelo que ela me fez.

— Abigail está bem protegida e cuidada. Providenciamos isso.

Regina estende a mão e toca o rosto do marido. Ambos sorriem e trocam um beijo discreto, sob os risos das meninas.

— Papai beijou a mamãe! – Alda fala e atrai a atenção dos adultos.

— Faz dias que não vejo Emma. – Vasco limpa a boca de Yasemine que luta contra o guardanapo. – Ela sequer ligou para as meninas como é de costume.

Regina sorri e bebe um gole de seu suco.

— Emma está ocupada cuidando de um novo contrato com empresários russos. Fez uma viagem para trabalhar e para desanuviar a cabeça. Chegamos a um acordo para o bem comum.

— O que quer dizer com isso?

— Emma precisa amadurecer e pensei que poderia cuidar de um novo contrato.

Os dias e semanas são deixados para trás e a vida vai seguindo um curso calmo. Regina Vasco se mudam para uma casa nova, mas mantém o contato próximo com Solomon, a pedido dele e por vontade das meninas, que adoravam as brincadeiras ao quais o tio se submetia.

Naquela noite, aconteceria a inauguração de uma galeria de arte. A dona da galeria havia enviado um convite especial para Regina e Vasco, frisando que exigia a presença dos dois, para enaltecer o evento.

— Solon está indisposto e preferiu ficar com as meninas em casa. Pedi para Ruby levá-las para a casa dele. – Vasco escolhe o blazer a ser usado na noite.

— Ele também recebeu um convite especial. Sabe por quê?

— Não. – Vasco se volta para a esposa. – O que pretende fazer com as informações conseguidas pela espionagem industrial?

Regina fica pensativa e depois se volta para o esposo.

— Eu entreguei à justiça de forma anônima. Então, Arouka não terá a quem acusar de espionagem.

— E só isso?

— Neste ramo temos muitos inimigos, Vasco. Fazemos muita inimizade neste ramo empresarial. Você não tem ideia do ódio que é fomentado neste meio. Atentados, crimes, espionagem, calúnias, provas forjadas e outras coisas sujas. Tudo em nome do sucesso, porque são milhões de dólares e euros que circulam em cada um dos contratos. Então, qualquer um poderia ter puxado o tapete de Arouka.

A história seria mal contada, mas Vasco decide aceitar como resposta.

— Já que sua alma está tranquila...

Os olhos escuros de Regina se fixam no rosto do marido. Queria intimidá-lo com a força de seu olhar, porém, ele permanece inalterado, encarando-a.

— Não procure chifres em cabeça de cavalo, Vasco. Estamos em paz e é o que importa. Até com Solon, eu estou em paz.

— Estavam em guerra?

— Ele ama você, Vasco. E nós dois sabemos que não é amor fraternal. Ele e eu estamos numa disputa entre uma dama e um cavalheiro.

— O que estão disputando?

Um sorriso malicioso ilumina os lábios pintados de Regina. Sorrindo, ela coloca a língua entre os dentes e aquela expressão responde a pergunta de Vasco.

Horas mais tarde, Vasco chega à galeria acompanhado pela belíssima esposa, por Ruby e pela sua tia Vida. Mesmo discreto, o casal atrai a atenção de que já estava no saguão do local. Comentários surgem exaltando a beleza dos dois, elegantes em seus trajes informais.

— O que devemos ver? – pergunta Vida.

— Olhem as telas e tentem descobrir o que sentem ao vê-las. – diz Regina cumprimentando uma pessoa que passa. – Eu não sinto nada ao ver esses rabiscos.

Todos de seu grupo começam a rir. Queriam dizer a mesma coisa, mas não sabiam como.

— Que falta de sutileza! – Vasco resmunga.

Ruby e Vida se afastam do casal e seguem para um ponto onde ficavam algumas pequenas esculturas. Já o casal permanece onde está, apenas para curtir a movimentação dos convidados.

— Adora esses eventos apenas para observar os vestidos das convidadas. É de fato o rock horror show! – Regina ironiza. – Soube algo de Killian?

— Ele está bem onde trabalha. Já está arriscando frases em turco, porque tem muitas garotas que querem ensiná-lo. Virá no final do ano para as festas. – Vasco sorri ao ser cumprimentado por um desconhecido. – Ele é meu irmãozinho!

Momento depois, já afastado da esposa que estava em conversa com uma desconhecida, Vasco para diante de uma tela que retrava um jovem. Ali, fixado na tela, ele se esquece do que estava em sua volta, admirando o que via ali.

— O que está vendo? – pergunta uma mulher.

Olhando-a rapidamente e de soslaio, Vasco volta sua atenção para a tela.

— É tão jovem, lindo, misterioso e...triste.

— Exatamente como você é: um jovem lindo, misterioso e triste.

Vasco se sente cortejado pela desconhecida. Vira-se para encarar a mulher de cabelos ruivos e o que ele vê, causa um verdadeiro horror em sua alma. Aqueles olhos não poderiam ser esquecidos, mesmo que ele vivesse por mil anos. O mesmo sorriso, a mesma expressão amorosa e brava ao mesmo tempo. As sobrancelhas grossas que também estavam estampadas no rostinho de Yasemine. Era a mulher! Aquela mulher estava viva e estava falando com ele!

Imediatamente, ele sente seu estômago revirar e doer; suas mãos cobrem sua boca para lutar contra a bile que havia subido até ali; seus músculos perdem sua tonicidade e suas pernas viram geleia. Ele cambaleia e sente as mãos da mulher chegarem até seus braços. Mesmo com o desejo de fugir daqueles toques, ele não consegue.

Vasco geme e depois de muito esforço para manter a sanidade e a consciência, consegue refutar aquelas mãos atrevidas e invasoras.

— Não me toque! – ele grita e atrai a atenção para si. Completamente descompensado, sai dali sem saber por onde seguir e desaparece em algum corredor.

Percebendo o descontrole do marido, Regina corre e o segue. Mas a desconhecida já havia feito o mesmo.

Entrando no banheiro, Vasco consegue inclinar-se sobre a pia e apoia-se ali para não cair. Observa seu rosto no espelho e pede em oração para estar em um pesadelo. Queria acordar, acordar e levantar-se da cama para molhar o rosto e sentir-se bem desperto.

Mas não estava dormindo. Molha o rosto várias vezes e sua luta para continuar respirando é ainda maior. Ouve o som da porta do banheiro sendo aberta e depara-se mais uma vez com a mulher ruiva e de olhar amorosamente feroz.

— O que você quer comigo? O que está acontecendo aqui? – ele grita sem se importar com mais nada. – É outra brincadeira de sósias!

Regina também entra no banheiro e vai no auxilio do marido, fazendo-o sentar-se num bando estofado.

— Regina! É ela! Isso é outra artimanha de algum inimigo seu?

— Shhhh! Não precisa gritar, meu amor. – Regina olha a ruiva por cima do ombro e depois encara o marido, segurando seu rosto entre as mãos. – Não sei quem é ela e nem nos interessa saber. Portanto, fique calmo, meu amor.

— Ela é Cosima! – ele continua gritando. – Outro truque de algum desafeto seu?

Regina se senta também. Estava chocada com a fala de Vasco. Olha a mulher outra vez, mas não consegue ver nada de familiar nela. Rosna:

— Mas que porra é essa? Quem é você e o que quer com meu marido?

— Seu marido? – ela sorri. – Não, moça, meu marido.

Vasco não sente a mínima necessidade de controlar suas emoções. Sua esposa que havia sido dada como morta, o havia deixado sozinho por longos três anos, ressurgia e queria reivindicar posse de quem não lhe pertencia mais. Ele chora compulsivamente, sendo abraçado por Regina. Todo o sofrimento da cena da retirada do carro do rio e a espera infinita pelo encontro do corpo para ser velado, a dor da viuvez e o medo de não ser bom o suficiente para cuidar das duas crianças, retoma o coração dele, provocando ainda mais angústia, tristeza e raiva.

— Deixe-o em paz, seja você quem for! Saia daqui!

Mais de meia hora depois, Regina e Vasco saem do banheiro e tentam caminhar discretamente pelo salão, buscando a saída daquele lugar abafado.

Regina não leva a família para sua casa. Segue direto para a casa de Solomon, porque sentia que ele sabia exatamente o que estava acontecendo ali. Caso alguém tivesse a resposta, esse alguém seria Solomon.

— O que você fez a ele, Regina? Soltou sua peçonha?

— Você sabia que Cosima está viva? – Vasco avança e segura a gola da camisa do cunhado, que se liberta e mantém suas mãos fortes segurando os punhos dele. – Sabia que ela não morreu?

— Em meu coração, eu sempre soube. Relutei, mesmo quando a justiça decretou morte presumida após um ano de procura pelo corpo.

— Mentiroso. – rosna Regina. – Suas armas são velhas, mas são eficazes, hein?

— Ela estava na galeria de artes! Por que não me disse? – Vasco grita.

— Porque eu não sabia que ela estaria lá. Quando ela me procurou há algum tempo, tive a mesma reação com uma mistura de raiva, medo, descontrole e desespero. Pensei imediatamente num processo por falsa comunicação de morte. Mas ela está de volta e temos de aprender a lidar com isso.

Vasco se liberta e começa a andar pela sala.

— Que se dane o processo! Ela mentiu e enganou a todos nós! Ela nos fez acreditar que a havíamos perdido e deixou-me sozinho com as nossas filhas que exigiam a presença da mãe! Eu fui a mãe e o pai, amei, cuidei, troquei fraldas, acalentei e até me prostitui para conseguir o dinheiro do transplante de Yasemine! Agora, ela ressurge das cinzas e quer que eu aceite tudo com normalidade? E ela ainda me chamou de marido!

Solomon se senta e olha o cunhado com carinho e muito amor.

— Ela fugiu de tudo e de todos, mas agora que está curada, decidiu retomar o relacionamento.

— Decidiu isso? E ela perguntou se Vasco a quer de volta? – Regina sorri suavemente, mas sua alma estava raivosa.

Os olhos pesados de Solomon se fixam nos olhos da mulher.

— Você não tem filhos biológicos, então não sabe o que é depressão depois do parto. Não fale sobre o que não tem domínio.

Regina se sente desafiada, mas não refuta a fala do homem. Poderia responder, mas isso acarretaria dizer a verdade que estava oculta.

— Vocês dois podem parar com isso? A nossa opinião é o que menos importa! Cosima está viva e está frequentando exposições como se nada tivesse acontecido de anormal! – Vasco segura a cabeça entre as mãos e depois se larga em um dos sofás. – Céus! O que vou dizer para minhas filhas? Elas pensam que a mãe está morta! Elas já chamam Regina de mamãe!

— Cosima está sofrendo também.

— Sofrendo? – Vasco gargalha. – Sofrendo? Ela mente, engana e foge dos problemas, retorna depois que tudo está resolvido e você me diz que ela está sofrendo? É uma piada!

Um sorriso maroto surge na bocarra de Solomon.

— Você terá de aceitar o fato de que ela está de volta, Vasco. Ela assumirá as consequências, e apresentará a defesa convincente a quem a condenar. Talvez, ela não convença você que está tomado pela raiva, mas convencerá algum juiz. E lamento dizer isso, mas o seu casamento com Regina será anulado.

Arregalando os olhos, Regina encara o homem mais velho.

— Eu estava preocupada com a aproximação dela com as meninas, mas não havia pensando nisso! Estamos vivendo como amasiados, com a presença dela! Cosima é a sua esposa oficial!

Vasco se levanta novamente e sai da sala, para retornar em seguida.

— Eu vou exigir a separação! Caso ela se recuse, iremos para o litigioso! A minha esposa, minha companheira e o meu amor é Regina! Meu coração vibra pelo nome de Regina e minha alma grita pela presença dela! É Regina quem eu amo de verdade!

Solomon fica espantado e enraivecido, enquanto que o coração de Regina vibra de alegria e contentamento. Seu belo homem havia feito a mais linda declaração de amor, entre tantas já feitas, em momentos mais suaves.

— Mesmo que vocês se separem, ela não perderá o direito de ser mãe. As minhas sobrinhas irão conviver com ela, agora que tudo foi sanado dentro da alma de Cosima. Ela fez profundos tratamentos, porque foi auxiliada e cuidada.

— E quem a ajudou? – Regina se interessa. – Você?

— Ela viveu sob a proteção de Sartorelli, um empresário italiano.

— Ela viveu maritalmente com ele? – Regina sorri.

— Com Sartorelli? O homem é um velho decrépito!

— Sartorelli é o cara dono da galeria em que fomos? – a mulher fica estática. – Eles criaram uma armadilha apenas para aproximar-se de Vasco! Por que ela simplesmente não se reapresentou?

Solomon dá de ombros. Não tinha relevância a forma de encontro com Vasco. O importante era a presença de sua irmã, esposa de Vasco e mãe de suas sobrinhas. Cosima estava de volta para reivindicar o que era seu, descartando a presença de Regina. E lidar com Cosima seria muito mais fácil do que lidar com Regina.