Amor absoluto e perfeito
14 Dê à mulher, o que é da mulher
Vasco se senta no chão empoeirado e observa materiais de construção nos cantos daquele cômodo. Evoca memórias do que havia acontecido para ter chegado naquele lugar. Consegue se lembrar do veículo escuro que se encostara ao seu e de onde saíram três homens encapuzados, portando arma. Lembra-se de ter sido colocado no banco de trás do carro desconhecido e ter seu rosto coberto por um lenço com cheiro muito forte de algo ácido. Tudo havia escurecido.
Estava sentado num cômodo sujo em um lugar desconhecido, além de estar com as mãos amarradas em um cano de ferro, chumbado na parede. Era um cativeiro improvisado.
Lá pelas tantas, depois de total silêncio e nenhuma explicação, vozes masculinas são ouvidas e aproximam-se daquele cômodo. Era Arouka e seus seguranças, homens com estirpe militar.
— Nosso belo adormecido despertou! – o empresário sorri e agacha-se diante do cativo. – Já conversamos com sua linda esposa e entramos num acordo. Ela me devolve o que é valioso para mim, e devolverei o que vale muito para ela.
— Do que você está falando? – Vasco sente a bile revoltar-se em seu corpo. Sua boca se enche de saliva.
— Tragam um pouco de água para ele. Está ficando verde!
Noutro canto da cidade, Leroy abre a porta do carro e Regina desce. Ajeita seu casaco e olha em volta, para a vizinhança pouco amistosa. Alguns moradores dali param e encaram a mulher acompanhada pelo homem de rosto feroz. Reconhecem Regina Mills.
O casal é recepcionado por um homem careca, com uma cicatriz na bochecha. Ele estende a mão e Regina o cumprimenta.
— Serei breve, Rex. O meu marido foi sequestrado e o autor está exigindo um lote de documentos incriminadores que consegui. Não posso devolver os documentos e não posso ficar sem meu marido, então...
— Então, entraremos nessa.
— Não sei a localização do cativeiro, mas não penso que Arouka iria levar meu marido para outro lugar distante, a fim de dificultar as negociações. – ela entrega um cartão de visita para o careca. – Este é o valor que ofereço a quem me devolver Vasco com vida. Tenho poucas horas, antes que Solomon Kent entre com seus métodos, para encontrar Vasco.
— Solomon Kent é cruel e poderoso. Considere seu pedido feito, Sra. Mills. Ao final do dia, seu marido estará em seus braços. – ele se afasta e sai falando em um walktalk, passando informações a quem estivesse ouvindo.
Era noite, quando um dos seguranças de Arouka entra no cativeiro e entrega comida e água para Vasco. Enjoado e ainda sentindo o cheiro ácido que o fizera desmaiar, Vasco consegue comer pouco. Não havia levantado o rosto para não fixar a fisionomia do carcereiro, mas sentia que não adiantaria porque o homem estava exibindo o rosto. Era apenas um sinal: ele não seria devolvido para Regina. Seria morto.
— Você não comeu nada, desde hoje cedo. São mais de doze horas em jejum e pode... – antes que terminasse a frase, o homem é golpeado na cabeça e cai pesadamente contra o chão empoeirado.
Uma jovem loira e nariguda, ajoelha-se diante de Vasco e começa a cortar as amarras de suas mãos.
— O-obrigado...quem é você?
— Sou Abigail, a namorada de Arouka. Discutimos porque ouvi quando ele dizia que você seria morto esta madrugada! Então, sugiro que corra muito depois que eu o soltar!
— Estou enjoado...
— Claro que está! Eles drogaram você, mas sei que conseguirá correr! – ela se levanta e abre a janela lateral, que dava acesso a um descampado. Ajuda Vasco a ficar em pé. – Agora, quero que me ouça com atenção: corra na direção das luzes porque chegará a uma rodovia...
Ela para de falar quando o som de freadas de carros é ouvido.
— O que está...
— Chega de perguntas, Vasco! Eles estão voltando e... – ela se encolhe ao ouvir estampidos de disparos de arma de fogo. – Não perca tempo!
Zonzo e cambaleante, Vasco sai pela janela e ainda se corta em algumas pontas do material. Sobe um pequeno barranco e olha por cima do ombro, estendendo a mão para a jovem, pedindo que viesse junto. Ela gesticula e ordena que ele corra.
Correndo pelo mato molhado, ele tropeça algumas vezes, caindo e tornando a levantar-se. Ao fundo, gritaria e estampidos formam a sonoplastia de terror daquele lugar. Ele corre sem olhar para trás, quando ouve vozes masculinas indicando o caminho por onde ele havia ido.
Finalmente, Vasco atinge a rodovia e continua sua fuga até ver os faróis de um carro, que se aproximava. Sem hesitar, ele se atira na frente do veículo e gesticula pedindo ajuda. O carro para e ele tenta abrir uma das portas, sob o olhar assustado do casal lá dentro.
Desesperado com a proximidade das vozes masculinas, Vasco esmurra o vidro e suplica que o ajudem, quando ouve o som da porta sendo destravada. Entra no veículo e grita para que o motorista fuja dali, porque estavam sendo perseguidos. Olhando pelo vidro, ainda consegue ver vários homens saindo da mata, com objetos reluzentes nas mãos.
Pouco depois da meia noite, o casal deixa Vasco em um posto de gasolina e ele procura algum telefone que pudesse ser usado. Mas o único aparelho estava danificado e o celular do atendente não mostrava recebimento de sinal algum. Enquanto o jovem procurava outro aparelho, um grupo de homens armados invade a loja de conveniência e rende os dois, levando Vasco para dentro de um carro. Eram os homens conhecidos de Leroy.
Em seu escritório, Solomon recebe a notícia da fuga de Vasco e da invasão da mansão que Arouka estava construído nos arredores da cidade. Disparos tinham sido ouvidos e a polícia fora acionada, encontrando um cenário de batalha entre gangues. Muitos tinham sido presos, inclusive a jovem namorada do empresário, que o acusara de ser o mentor do sequestro de Vasco.
— Que bela merda! A mulher não desiste mesmo!
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