Amor Vizinho
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Notas iniciais
Jogado em sua cama, mas não pra descansar mas sim pra chorar. Talvez seja uma forma de descanso, mas não muito boa. Parece que tudo tem um “mas”, um porém.
Lucas desaguada em lagrimas, mas sem escândalo, apenas para si. Isso que aconteceu pode não estar na boca de todas, apenas na boca de mais duas pessoas alem dele, mas esse acontecimento está machucando ele apenas por ele não saber lidar com isso. A dúvida, desta vez, está corroendo ele ainda mais. Qual seria o desejo/atração/prazer/sentimento dele? Mulher? Homem? Mulher e homem?
Alguém bate na porta de seu quarto – Ei, Lucas. Abre aqui.
— Sai – choraminga o Lucas – quero ficar sozinho.
— Por favor, deixa eu conversar contigo – diz o Matheus.
— Me deixa em paz, porra – grita o Lucas.
— Lucas, deixa eu falar com você. Você não é só meu primo, é meu amigo também.
— Não quero saber, sai daqui – choraminga mais ainda o Lucas.
— Eu não faço ideia do que você esteja sentindo, mas eu quero te ajudar, Lucas.
— Mas que porra! Eu já disse pra sair.
Matheus força a porta e consegue abrir. O Lucas não trancou direito a porta, girou pouco a chave para trancar – Você não está em posição de querer nada aqui – determina o Matheus.
Lucas se levanta e vai em direção ao Matheus e o empurra para sair – Quando vezes eu vou ter que dizer que quero ficar em paz – chorando, o Lucas grita para o Matheus, mas ele segura o Lucas e o abraça forte, fazendo com que o Lucas pare de lutar e se permita sentir um conforto nos braços do seu primo.
Matheus, que é pouca coisa mais alto que o Lucas, beija sua cabeça e escora seus lábios em sua cabeça, como que dissesse “eu estou aqui para ti” – Calma, meu primo. Isso vai passar.
— Mas a gente nem sabe o que é isso, Matheus.
— Vamos descobrir, juntos.
Matheus continua abraçando o Lucas, que está parando mais de chorar.
Lucas se afasta e encara o Matheus. Os dois ficam em silencio por segundos – Cadê o Ben? – pergunta o Lucas.
— Pedi pra ele ir pra casa que eu iria ver o que aconteceu. Ele insistiu pra vir comigo, mas não deixei.
— Porque?
— Não importa. Então, quer conversar?
— Não sei o que foi isso que aconteceu, cara. Me senti pressionado.
— E o que você sentiu depois que fez aquilo? – eles continuam em pé, mas o Lucas ta de cabeça baixa e o Matheus está encarando ele. Matheus decide fechar a porta do quarto e trancar, pra eles ficarem mais a vontade.
— Por um instante me senti livre. Como se eu tivesse gostado.
— Você estava sendo você mesmo, Lucas.
— Mas não sou assim, véi.
— É sim, primo. Você só não conversou com você mesmo para saber.
— Mas, cara, eu sempre gostei de mulher. Sempre senti atração, desejo, prazer por mulher.
— Talvez você goste de mulher e de algo a mais. Talvez você seja bi.
— Não, eu sou hetero.
— Lucas, você precisa de um tempo pra você mesmo. Você precisa se entender. Conversa com o Ben. Ele vai te entender melhor.
— Será?
Matheus convence o Lucas de que sim, o Benjamin pode ajudar, e ele decide ir.
— Ben – chama o Lucas.
Benjamin surge na porta e olha o Lucas de longe, porque tem uma garagem entre eles. Parece meio aflito – Oi, Lucas.
— Posso entrar?
— Claro – Ben atravessa a garagem e abre o portão para o Lucas.
Já na sala, Lucas não sabe o que falar, mesmo eles estando sozinhos.
— Então... O que foi que aconteceu?
— O Matheus diz que eu possa ser bi, mas eu sei que sou hetero.
— Antes de tudo, porque você fez aquilo?
— Como eu disse pro Matheus: Eu me senti pressionado e acabei fazendo aquilo. Mas gostei também.
— Concordo com seu primo.
— Mas eu sempre gostei de mulher, cara – indaga o Lucas.
— Presta atenção no que eu vou te dizer: Eu não nasci com a certeza de que eu era gay. Eu fui descobrindo aos poucos. Na infância, eu andava bastante com as meninas. Amava brincar com minhas primas, me sentia mais livre. E em relação aos meninos, eu gostava de brincar com eles também, e gostava muito doa brinquedos de meninos ... Mas dos de meninas também. Mas sobre os meninos eu sentia algo especial por ele, tipo atração, mas como eu era criança, eu não entendia essas coisas. Quando eu tava entrando na fase da adolescência eu comecei a perceber que gostava de homem, mas fantasiava que eu gostava de mulher também, e, até, enfiava em minha própria cabeça que eu gostava mais de mulher. Passou um
tempo e eu comecei a perceber que eu estava errado, estava me enganando o tempo todo e eu me enganava por conta da sociedade de exigir que as pessoas sejam heteros. Por volta dos 14/15 anos eu tive certeza que eu gostava de homem e hoje eu dou em cima de você, do seu primo – os dois soltam leves risadas – entao não é algo simples. Alguns, como eu, conseguiram se aceitar um pouco mais fácil, mas outros que tem uma influencia muito mais forte por parte da sociedade hetero demora mais tempo pra conhecer sobre si.
— E como que eu faço isso? Ter certeza do que sou?
— O tempo vai te mostrar. Desapegue desses rótulos. Não precisa escancarar que você gosta de homem ou de homem e mulher ou só de mulher, apenas se deixe permitir. Quando você for pensar sobre isso, deixe você pensar, sem porém. Ninguem sabe que você está pensando sobre isso.
Eles se olham. Lucas parece mais aberto sobre isso. O Benjamin se mostra disposto a ajuda-lo. Falta esperar o que virá daqui por diante para esses dois.
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