Amor Submerso

38 Capítulo 38: A batalha e a descoberta


Notas iniciais
Peço mil perdões pela demora, mas a universidade ficou bem pesada nesses ultimos dias! Mas estou postando e espero que curtam, porque eu fiquei dias pensando nesse capítulo, principalmente em como fazê-lo.

Capítulo mega especial, primeiro POV do Nate!

PS: EU JURO QUE TENTEI RESPONDER OS REVIEWS, mas a minha net ta um CUmulo de tão ruim.

Ah ah, gente, eu sou completamente fácil... Pra comunicação q kkkkkkkk Se quiserem skype ou facebook é só pedir por MP que eu passo tranquilamente. Até tenho whatsapp, mas isso só depois de uma conversa, já que envolve meu número de celular q Mas é sério! Eu quero muito conhecer vocês melhor ^^

Pov Nathan

O som e vibração do público chegavam facilmente no corredor onde eu estava aguardando a minha entrada. Tentava manter minha respiração controlada com o intuito de assim conseguir controlar os batimentos cardíacos que estavam cada vez mais acelerados. Talvez fosse loucura a minha decisão, porém não poderia ficar parado enquanto a minha família era atingida daquela forma. Afinal aquelas duas mulheres, minha irmã e mãe, eram as únicas coisas que haviam me restado. Sabia que retornar para a Cidade Submersa era incabível devida as circunstâncias que nós havíamos criado, atacando tia Irina e depois fugindo novamente.

-Damas e cavalheiros, preparem seus bolsos e façam suas apostas! – o locutor anunciava alto e com animação exagerada – Que venha o primeiro competidor, o tritão!

Antes de estar ali no corredor fora-me instruído a quando ser chamado apenas terminar de avançar e seguir direto para o ringue. E assim o fiz, com os ombros tensos e um olhar firme que tentava demonstrar toda a determinação que eu reunião. Meus passos eram largos ao sair do corredor e deparar-me com uma passarela estreita que dava acesso ao ringue. Eu podia escutar palmas, gritos e incentivos vindos daqueles seres expectadores. Não ousei olhar para nenhum deles, se o fizesse ficaria nervoso e isso era o que eu menos precisava no momento. O traje de batalha que usava era azul escuro, feito de uma malha que colava pelo meu corpo, deixando transparecer toda a minha fisionomia corporal, as mangas eram curtas e seu tamanho ia acima de meu joelho. Era desconfortável pensar em como ridículo era aquela roupa, porém todos os meus movimentos estavam livres graças ao traje. Entrei no ringue e o locutor de pele reptiliana apontou um canto para que eu ficasse e esperasse o anuncio do Vulcano.

Em uma rápida olhada encontrei minha família sentada em um lugar privilegiado, os olhos de cada uma transparecendo uma coisa diferente. Scarlet estava sorrindo divertida, sabia que aquela humana não se preocuparia muito com o meu estado, contanto que vencesse a partida. Já Lynn estava evidentemente ansiosa e temerosa, afinal era a minha mãe. O olhar mais reconfortante era o de minha meia-irmã, Fernanda encarava-me de um jeito sério e confiante ao mesmo tempo deixando claro que acreditava em mim. E era por isso que eu precisava acima de tudo vencer aquela batalha, por ela.

-Preparem seus corações! – anunciava o locutor novamente – Pois agora abriremos espaço para o Vulcaaaaano!

A loucura foi ainda maior, alguns fãs levantaram cartazes dinâmicos e gritavam ainda mais. Do outro lado também surgindo de um corredor estava um homem da raça Vulcânica. Ele era alto, chegando facilmente aos três metros de altura. A pele avermelhada deixava claro a sua camada epidérmica mais resistente dando um ar rochoso. O rosto quadrado era feio, porém próximo ao de um humano, retirando por seus olhos vermelho-escuro. Ele usava um traje do mesmo modelo que o meu, porém de cor cinza, aproximava-se correndo e a cada passo que dava poderia jurar que o chão tremia. Foi impossível não engolir em seco e recuar um pouco. Lynn estava certa quanto a minha desvantagem, eu estava fora da água e teria de lutar usando minhas pernas. Seria um louco suicida se não temesse pelo que estava por vim.

-Preparem-se competidores! – exigiu o homem escamado – Lembrando as regras para os novatos: É proibida apenas a morte! A derrota vem com a desistência ou com o adversário incapacitado de lutar. Nada de poderes!

Eu e o homem vermelho nos aproximamos, ficando um de frente para o outro, separados por uma distância equivalente a dois metros. Era impossível negar a sensação de desconforto por estar na presença de um inimigo natural. Era a mesma reação que um gato teria ao encontrar um cachorro, estranhando-se e entrando em posição de defesa e ataque. Meus punhos se fecharam e o Vulcano resmungou algo revelando o seu timbre gutural e quase inumano.

-Que comece a batalha! – anunciou o locutor quase correndo para fora do ringue.

Entendi o porquê tarde demais. O meu adversário estava acostumado com a briga, no segundo seguinte ele estava pisando forte, vindo em minha direção com o punho erguido acertando o meu peito com força suficiente para jogar-me contra as cordas de segurança. A faltar de ar quase me paralisou, minha visão embaçou e tudo o que eu vi foi uma enorme mancha avermelhada vindo em minha direção. Agilmente e por puro instinto girei meu corpo para o lado fazendo com que o Vulcano acertasse o ar e colidisse com as cordas, sem pensar duas vezes apliquei um chute forte no seu flanco direito. Não fui idiota para tentar a sorte em um novo golpe, recuei escapando de um golpe de mão. Gritando de forma quase estratégica para animar o público, o homenzarrão avançou novamente em minha direção, eu estava pronto para desviar novamente, mas ele abriu os braços e agarrou-me em um abraço esmagador, levantou meu corpo no ar e depois jogou-me no chão com tanta força que o chão rachou e meu ombro deslocou.

Pude sentir o sangue escorrendo de dentro de minha boca, não duvidava que tivesse me machucado seriamente por dentro. Tentei levantar-me, a dor era alucinante e dominava a todo o meu corpo. Porém antes que eu conseguisse colocar-me por de pé, um soco em minha cabeça me fez voltar ao chão e quase apagar a minha consciência. Mas que merda era essa que estava acontecendo? Iria ser derrotado tão rápido?! Enraivado comigo mesmo e minha incapacidade, deixei que meus instintos tomassem o controle por alguns minutos. Girei meu corpo antes de ser pisoteado, rolando pelo chão e me pondo de pé mesmo que cambaleante. Ergui meus punhos e novamente tentei controlar minha respiração. O Vulcano apareceu com uma nova sequência de ataques e foi ai que eu aprendi que apesar da força absurda que ele tinha a velocidade era descompensada. Meu corpo apesar de definido ainda era um pouco magro, o que me permitia agilidade, velocidade e uma esquiva treinada. Meu plano? Cansá-lo primeiro e não ser atingido. Então passei a literalmente fugir, esquivar, desviar. Era complicado e algumas vezes não consegui, sendo atingindo no ombro machucado, na barriga e na cabeça.

-Vai Nate! – escutava o grito de incentivo de Fernanda – Acaba com ele, você consegue! É meu irmão caralho!

Fernanda. Aquela garota havia entrado em minha vida de uma forma inusitada, um chamado de minha mãe pedindo ajuda e finalmente me apresentando a minha irmã mais nova. Mas o modo como ela via o mundo, a sua parte meio-humana, até mesmo os seus defeitos. Eu iria trazer a namorada dela de volta, iria trazer aquele sorriso que tanto gostava e me fazia aprender a gostar ainda mais desse novo mundo.

O Vulcano veio como um verdadeiro touro em sua corrida desenfreada, seu punho erguido em minha direção. Desviei mais uma vez jogando meu corpo para o lado e logo recuperando minha posição. O homem vermelho bateu na corda e voltou, tentando reaproveitar o impulso. Mas dessa vez eu não fugi, corri em sua direção e antes do impacto saltei e apliquei um soco de cima para baixo, acertando a cabeça dele com força. Não tanto quanto os seus impactos causavam em mim, mas foi o suficiente para derrubá-lo. O Vulcano balançou a cabeça e levantou devagar, parecia atordoado e finalmente cansado. Era hora do contra-ataque! Ele avançou novamente, tentou dar um chute giratório, abaixei meu corpo deixando que aquela enorme perna passasse sobre mim. Quando tornei a me erguer novamente estava de frente as costas do meu inimigo, não hesitei em dar um chute estratégico no joelho da perna que servia de apoio dele. O Vulcano caiu de joelhos e como se fosse uma sequência de golpes acertei três socos consecutivos na cabeça e na nuca. Afastei-me para conseguir fazer uma base de defensa e esquiva. Ele levantou cambaleante dessa vez, aproximou-se incerto, mas sabendo atacar apenas diretamente começou aplicando um golpe de direita e outro gancho. Desviei movimentando meu corpo como um verdadeiro lutador de boxe, contra-ataquei acertando a barriga mirando no estômago e diafragma. Ele finalmente recuou um pouco, dando-me espaço para acertar em cheio o seu queixo em um gancho perfeito e que quase quebrou meus dedos devido a força máxima que havia aplicado.

Ele caiu. Cambaleei um pouco para trás, meu corpo inteiro estava suado, minha respiração completamente irregular. Sangue escorria de pequenos cortes no meu rosto e do meu lábio partido. O locutor mais uma vez voltou ao ringue, começou a contagem.

-Cinco! Quatro! Três... Dois... UM! – ele gritou e a plateia inteira se pós de pé – Temos um vencedor! O Tritão!

Só então minhas forças esvaíram de meu corpo. Cai sobre um joelho e me permitir gemer em pura agonia provinda da dor. Cada músculo parecia contraído e dolorido, havia apanhado em demasia. Senti braços me segurarem e me levarem para fora da arena, sabia que era vergonhoso ser quase carregado desse jeito.

-Você conseguiu! – escutei a voz orgulhosa de Fernanda perto de mim, mas não tinha energias para procura-la.

-Mas está tão machucado! – Lynn não escondia sua preocupação – Precisamos leva-lo para algum lugar para que eu possa curá-lo.

-Deixe isso comigo.

Ah aquela voz doce. Movi lentamente minha cabeça para o lado e mesmo com a visão embaçada pude reconhecê-la. A adorável meio-celestial. Era ela que carregava-me segurando meu braço direito por sobre seu delicado ombro. Por um momento senti vergonha de estar daquele jeito, ao mesmo tempo em que a vitória deixava-me com o ego aumentado. Elas me levaram para a mesma sala onde pude me preparar, fui deitado sobre uma mesa fria e novamente um gemido de dor escapou.

-Podem nos deixar a sós, vocês precisam procurar pela Suzannah – Alexia argumentava enquanto abria o meu traje, exibindo o meu peitoral cheio de hematomas.

Não escutei as reclamações vindas das outras mulheres, nem soube quando realmente elas saíram. Estava concentrado demais em não exibir o quanto estava machucado para a garota que me olhava com um brilho intenso no olhar. Todas as minhas tentativas foram por terra quando os delicados dedos tocaram meu tórax, bem sobre uma mancha vermelha, roxa e esverdeada.

-Há duas formas – Alexia falou com um jeito carinhoso – O mais rápido e o mais longo. Qual prefere?

-O mais rápido! – nem ao menos parei para pensar direito.

-Que fique claro que a escolha foi sua.

Pisquei confuso e no momento seguinte meu coração estava mais disparado do que em qualquer outro momento da batalha. Alexia havia segurado a minha nuca e puxado um pouco de meu rosto para perto do seu. Eu percebi a intensão dela segundos antes da boca macia e delicada estar sobre a minha. Meus olhos se abriram em surpresa e um choque passou por todo meu corpo, o olhar dela estava divertido enquanto sua boca ainda se mantinha pressionada na minha. Ela fez alguns movimentos que me obrigaram a entreabrir os lábios e então foi como suspiro. Similar a forma de passar energia do povo submerso, Alexia deixou escapar de seus lábios filetes esbranquiçados que adentravam a minha boca e desciam pela garganta com um suave roçar. Aos poucos ela fechou os olhos e concentrou-se em transpassar aquela energia, sua boca ainda colada a minha. Se pudesse ver de fora, teria vislumbrado que aquela luz branca descia por meu corpo deixando o seu brilho ultrapassar minha pele, ela se deslocava por todo o meu corpo, curando cada ferida quase que automaticamente.

Não sei quanto tempo passamos ali, porém para mim foi um corte rápido demais quando a meio-celestial se afastou com um sorriso cansado. Ela havia gastado bastante energia para poder curar-me tão depressa. Alexia afastou um pouco e retirou a peruca um pouco arfante, aproveitei para então sentar e encará-la ainda atordoado com o que tinha acontecido.

-Não me olhe assim, como eu disse essa era a forma mais rápida – ela pediu com um tom de desculpas – Fica parecendo que eu me aproveitei de um garoto inocente.

Garoto inocente? Era essa a imagem que ela tinha de mim? Eu não fazia ideia da expressão que eu estava fazendo, mas foi o suficiente para ela suspirar e começar a se afastar ainda mais. Pela primeira vez em muito tempo eu agi por puro impulso. A segurei pelo braço, a puxei para perto de mim em um único movimento a encaixando entre minhas pernas. Minha mão livre a segurou firmemente em sua cintura com o intuito de mantê-la perto de mim. Alexia arfou e olhou para mim surpresa, inclinei meu rosto e roubei seus lábios em um beijo intenso. Naquele momento nada mais pareceu importar além daquele contato íntimo, eu a beijei deixando liberar toda a adrenalina do momento, da batalha vencida. A beijei sem me preocupar com o que aconteceria depois. Ah, como eu a beijei!

POV Dianna

As amarras em meus pulsos já causavam uma dor insuportável, minha pele já estava machucada a tal ponto de estar sangrando. Consequências óbvias de minhas tentativas falhas de tentar fugir. Onde estava? Presa em uma sala escura, sem saber onde exatamente estava. Sabia que o espaço era amplo e começava a cogitar a possibilidade de que era subterrâneo, não escutava mais nada além das minhas próprias batidas do coração. Elas sempre aceleravam quando pensava em Fernanda... Ou na chacina que havia presenciado. Havia sido horrível, acordar de um torpor e ver todos os piratas sendo massacrados por aquele monstro terrível e por Dante.

Como despertei do encanto daquele ser inescrupuloso? O anel encantado que Fernanda tinha me dado como sinal de nosso compromisso lançou imagens nossas, fortes o suficiente que ativaram toda a minha consciência. Depois eu tinha escutado resmungos de Dante reclamando que meu vínculo com a sereia era forte demais. Para quem ele reclamava? Não fazia ideia, estava em estado próximo de desmaiar. E então quando finalmente despertei pela segunda vez, estava ali, presa naquela sala, sentada em uma cadeira com amarras de liga incrivelmente forte nos pulsos e nas pernas. Quanto tempo havia passado? Como estariam todos? Alguém teria sobrevivido? As dúvidas, as hipóteses estavam levando-me a loucura. Sentia fome, sentia sede, sentia frio. Sentia saudades e desespero só de pensar que algo poderia ter acontecido a minha menina.

-Ora, ora, finalmente despertou novamente – Dante entrou atravessando a única porta do lugar.

-Onde eu estou? – exigi saber com raiva – Porque está fazendo isso, maldito?!

-Ah, adoro quando você fica com raiva, é excitante – Dante riu, um arrepio de nojo passou por meu corpo – Porque primeiro não agradece a mim por ainda estar viva? Se não fosse por mim meu mestre já teria matado você. Mas o convenci de que pode ser uma ótima arma contra a escolhida de Anfritite.

-Mestre? Não está sozinho nessa? – questionei finalmente raciocinando e coletando informações.

-Ninguém está mais sozinho nas sombras – Dante sorriu diabolicamente – Mas meu mestre é o maior e mais poderoso, demorou muito tempo para que ele acordasse já que o corpo humano que ele usou de hospedeiro quase não o suportou.

-Corpo humano? Ele possuiu alguém?!

-Sim, afinal de contas é um demônio! Mas não vim aqui para isso, vim fazer companhia para que possamos assistir a morte daquelas mulheres chatas. Ah claro, daquele tritão também.

Meus olhos se abriram ao mesmo tempo me que meu corpo congelava no lugar. Em choque, o observei pegar um controle do bolso e ligar um aparelho de TV cravado na parede, algo que eu não tinha percebido antes por causa da escuridão. De lá surgiu imagem de algo similar a um cassino que tinha um ringue de luta. Engoli em seco enquanto via a um monstro verde anunciar uma batalha, mas quase gritei ao ver Nathan subindo ao ringue. Minha vontade era a de chama-lo, implorar pra que viesse até mim.

-Eles caíram direitinho em minha armadilha – Dante ria divertido do meu lado – Esperava mais da Capitã, mas parece que o desespero e a perda a deixaram com raciocínio lento.

-O que você fez?! – o fitei em puro ódio.

-Uma pista falsa. Sabia que viriam atrás de nós então implantei pistas falas para que eles perseguissem e assim ficassem bem longe de nós dois. Esperto de minha parte não? – Dante se vangloriava, como nunca percebi esse lado narcísico dele?

-E como conseguiu isso? Scarlet é uma das melhores caçadoras, você mesmo disse isso certa vez.

-Dessa vez nem mesmo ela conseguiria desconfiar, ainda mais no estado emocional em que se encontra. Contratei um doppelganger para resolver meus problemas.

-Doppel o que?!

-Doppelganger, ah querida você tem muito o que aprender ainda. São muito poucos hoje em dia, mas são seres capazes de assumir uma aparência de outra pessoa. Fiz com que um desses se disfarce de mim e perambulasse pelo Pandemonium, depois nossa querida succubus vai fazer a parte dela.

-Seu traiçoeiro! Elas confiaram em você! – gritei contra ele sem conseguir mais conter minha raiva.

-Sim, a vida como ela é – Dante deu de ombros como se trair Scarlet fosse nada.

Ia resmungar e esbravejar outras coisas, mas a luta havia começado e Nathan estava apanhando feio! Eu observava a tudo pela tela daquela televisão sem nem ao menos conseguir piscar direito. A cada porrada que ele recebia, era como se eu mesma recebesse uma parcela de sua dor. Mas para meu alívio, ele começou a reagir divinamente, como um verdadeiro guerreiro faria. Ele ganhou a batalha pouco depois me fazendo suspirar alto.

-Ainda não acabou querida, preste atenção e veja porque os demônios são a pior raça que existe – Dante aconselhou como se estivéssemos comentando sobre uma cena de uma novela.

Engoli em seco e o olhei de perfil. Aquele garoto havia treinado comigo, rido junto com Scarlet... Mas no fundo era um verdadeiro psicopata, sem nenhum tipo de emoção, pensando apenas em si próprio. A bem da verdade, Fernanda não gostara dele desde o principio e mesmo que não adiantasse muito naquele momento eu fiz uma nota mental de não duvidar mais da minha sereia. E como se pudesse ler meus pensamentos, Fernanda foi focalizada pela câmera escondida dentro de uma sala muito bem arrumada e luxuosa, cheia de sofás e tapetes. Ela estava deslumbrante naquela roupa de gala, apesar de seu olhar perdido e triste, ainda continuava sendo a garota mais bonita. Tive de lutar contra o impulso de chorar, estava com tantas saudades, queria tanto o carinho dela que era como se uma dor se formasse dentro de meu peito e começasse a me sufocar.

-Fernanda – choraminguei com os lábios trêmulos.

-Ah pobre mestiça – Dante tratou de comentar – Obviamente o primeiro acordo que fiz foi de que aquele grandalhão ali de guarda a matasse assim que ela saísse do prédio.

-Ela não irá morrer! – gritei de volta, mesmo com o corpo trêmulo – Ela é mais forte do que pensa, seu filho da puta!

-Será mesmo? Você é a força dela e advinha quem está na minha ilustre companhia? Ah, você! Qualquer uma ali estaria em desvantagem por causa do abalo emocional querida.

-Não subestime a minha mulher, seu miserável!

-Se eu fosse você prestaria mais atenção na nossa novela, a succubus entrou em cena.

Mordi a língua para não xingá-lo novamente. Mas assim que olhei para a televisão novamente fiquei com a respiração suspensa. Aquela mulher era pecaminosamente bela, porém de um jeito tão literal que até mesmo um rabo demoníaco possuía. O problema? Era o jeito malicioso que ela parecia ter naturalmente. Uma sensação ruim passou a dominar meu corpo.

-Meus parabéns, escolheram um bom campeão – Suzannah falava na sala – Como prometido, vocês tem minha atenção.

-Onde está o Dante? – Fernanda não hesitou em fazer a pergunta de uma maneira até mesmo agressiva.

-Dante? Quem é este jovem? Não lembro de ter seduzido nenhum homem com este nome – a succubus disse completamente dissimulada.

-Não se faça de tonta, sabemos que ele esteve aqui – Scarlet também estava séria, ao menos nesses momentos ela sabia manter seu espírito irônico afastado – Não ouse nos enganar.

-Ou o que? – a mulher demônio sorriu desafiadoramente – Vocês estão em minha casa e vem exigindo coisas de mim sem nada em troca. Isso não é nenhum um pouco cortês, até mesmo para uma pirata. Ou eu deveria dizer uma ex-pirata?

Scarlet ia avançar, mas Lynn a segurou sabiamente. O problema foi que com isso Fernanda aproximou-se mais daquele demônio em pele de mulher. Eu quis gritar para que ela se afastasse, mas era impossível dela me escutar.

-O que quer em troca de dizer a verdade? – Fernanda perguntou em um tom frio.

-Tão indiferente, assim parte meu coração ver uma bela jovem tão amargurada – Suzannah fez beicinho triste.

-Diga logo o que você quer, capeta! – Fernanda perdeu a paciência – Para que eu poça obter as informações que eu quero! Diga logo qual sua oferta.

-Está mesmo negociando comigo? – Suzannah abriu um sorriso literalmente diabólico.

Eu mal percebi Dante ficar tenso ao meu lado, tudo o que eu prestava atenção era em como aquela succubus estava ficando cada vez mais próxima de MINHA menina. Algo não iria dar certo, eu podia sentir isso em todo o meu ser.

-O que é você? – a succubus perguntou em sincera curiosidade.

-Não importa – Lynn logo interrompeu aquele diálogo.

-Claro que importa, como saberei negociar? – a demônio sorriu soberba.

-Sou uma sereia – Fernanda respondeu de um jeito firme – Basta saber disso.

-Uma sereia! Ah, que bela surpresa, alguém próxima ao campeão imagino, vi como estava torcendo para o garoto – Suzannah ficou realmente animada – Sereias fora da água são realmente raras, e sabe, dizem por ai que o seu beijo é enlouquecedor.

Meus olhos se abriram em susto. Ela falou em beijo?!

-Eis a minha proposta, senhorita sereia. Quero um beijo, ah mais um verdadeiro beijo de sereia. Depois disso veremos o que eu posso responder para deixar-lhe com um belo sorriso para mim.

-Não! – gritei me movendo bruscamente na cadeira – Fernanda não se atreva!

Dante riu do meu lado. Fernanda ficava tensa e apertava a mão em punhos. Ela estava mesmo considerando isso?! Ela não poderia beijar outra na minha frente! Não importava a situação!

-Fernanda – Lynn chamou em um tom baixo – Lembre-se do que disse sobre tentar de tudo para ficar forte para proteger a Dianna, inclusive decorar o livro e suas partes complicadas, as amarelas.

Observei Fernanda abrir os olhos em uma sutil surpresa e depois voltar a sua antiga postura. Parte amarela? Eu tinha visto Fernanda foleando o seu livro durante algumas noites e nunca havia visto uma folha amarelada sequer. Mas não importava, Lynn deveria estar louca por dizer uma coisa daquelas! Eu preferia ficar amarrada a ver Fernanda beijando um demônio para me salvar!

-Fechado – Fernanda falou firme.

Arfei incrédula, minha boca seca e coração disparado. Ela havia aceitado? Sem nem hesitar por tanto tempo?! Eu quis desviar o olhar, não queria vê-la fazer isso, mas era mais forte do que eu, meu corpo não respondia a nenhum comando meu mais. Vi Fernanda aproximar-se da succubus e puxá-la pela cintura sem muita delicadeza.

-Não! – gritei novamente, podia sentir meus olhos lacrimejarem – Não se atreva! Fernanda, não faça isso!

-Você sabia que succubus sobrevivem se alimentando da energia dos outros? – Dante parecia divertido ao meu lado – Provavelmente quando Suzannah sentir o sabor dessa sereia vai beber de toda a sua energia até não sobrar mais nada. É um beijo da morte.

-Cala a boca seu desgraçado! – gritei para ele sem olhá-lo.

Não poderia. Naquele momento Fernanda havia colado à boca na da succubus, o beijo nem ao menos começou devagar, era desde o principio intenso e claramente de língua! A raiva pareceu consumir tudo dentro de mim na mesma proporção que aquela sensação de tristeza. Ela estava me traindo? Ou tentando salvar-me? Talvez aquele maldito vínculo estivesse aumentando as coisas, mas ainda assim era desesperador. Eu soube exatamente quando Fernanda liberou sua energia, pois a succubus a agarrou com um longo gemido de prazer, derretendo-se nos braços de minha mulher. Comecei a mexer involuntariamente, minha vontade de fugir para bater na Fernanda e matar um demônio eram maiores do que em qualquer outro momento em que eu estive aprisionada. Podia sentir as costas de meu pulso sangrando e ardendo pelo esforço que mutilava minha pele.

-Começou – Dante anunciou glorioso.

Fernanda começou a tremer levemente, seu corpo abaixando enquanto Suzannah a dominava. Podia vê-la ficando mais pálida, aquele demônio a estava sugando literalmente. Mas porque diabos Lynn não fazia nada?! Foi então que aconteceu. Suzannah afastou-se bruscamente gemendo de dor enquanto Fernanda cambaleava para trás com um longo filete de sangue em sua boca, além de um sorriso vitorioso. Na mão dela estava um tufo do cabelo do demônio, Fernanda passou os dedos no lábio os melando com o sangue da succubus e o pondo sobre os fios de cabelo.

-Agora você irá falar a verdade, querendo ou não – Fernanda anunciou com aquele ar de quem já havia ganhado a guerra, começou a pronunciar algum tipo de encanto e o fio em sua palma começou a brilhar até desaparecer – É um feitiço de comando, por 15 minutos irá fazer tudo o que eu ordenar.

-Impossível! – Suzannah gritou, sua pele havia ficado ainda mais vermelha escura – Magia de domínio é proibida e de um nível absurdo!

-Esqueci-me de comentar – Fernanda sorria de um jeito sinistro, suas tatuagens roxas começavam a aparecer por seu corpo – Mas eu não sou uma sereia comum. Agora me diga, onde está Dante!

-Eu não sei! – ela exclamou rapidamente, evidentemente sem controle nenhum sobre sua fala – Nos falamos por conferência apenas.

-Isso é impossível – Scarlet se manifestou – Nós o vimos nos vídeos, não minta!

-Fale a verdade – ordenou Fernanda.

-Não era ele no vídeo! Um doppelganger disfarçado dele para atraí-las para cá e encontrarem pistas falsas – a demônio estava mesmo falando tudo sem controle! – Seu parvo, ataque elas!

Ela ordenou ao segurança que parecia também funcionar apenas sobre ordens. Ele bufou e já ia avançar quando Lynn prontamente criou água e o atacou transformando as moléculas líquidas em gelo. Logo tinha um picolé extragrande no meio da sala, piorando ainda mais a situação da succubus. Dante ao meu lado resmungou contrariado e saiu da sala rapidamente, mas estava tão distraído que não parou para perceber que deixou a porta entreaberta! Meu coração novamente disparou com a oportunidade.

-Você sabe algo sobre os planos do Dante? – Fernanda continuou a sua inquisição.

-Algo grande está acontecendo, muito grande! Apenas os envolvidos sabem os maiores detalhes, mas como trabalho no Pandemonium tenho de me manter o mais neutra possível. Tudo o que eu sei é que ele está trabalhando com o poderoso chefão, um duque demônio que encontrou um humano hospedeiro.

-Isso é impossível, um humano comum não aguentaria tamanho poder demoníaco – Scarlet contradisse.

-Explique! – Fernanda mais uma vez ordenou.

-E não foi possível, o duque teve de adormecer até agora para acostumar o corpo humano a sua presença e uma nova alma. Chega disso! Já disse tudo o que eu sabia!

O telefone da Scarlet tocou, respirei fundo e olhei ao meu redor, agora com a televisão ligada eu podia enxergar ainda melhor aquela sala. Em uma das paredes havia uma saliência levemente ondulada e mais pontiaguda. Eu poderia usar aquilo para tentar cortar as cordas de minha mão se me mexesse muito. Porém como conseguir chegar até lá? Fiz minha primeira tentativa arrastando a cadeira com o impulso. O barulho alto que fez foi abafada um pouco pela televisão.

-Encontrou?! Ótimo! – Scarlet finalmente sorria soberba – Lipe encontrou o IP do vídeo conferência, já temos o endereço certo. Podemos ir!

Respirei aliviada, finalmente minha menina sairia daquele covil! Elas saíram sem nem ao menos dizerem algo. Suzannah começou a surtar por ter sido enganada, o que era ótimo para mim, pois o barulho que ela fazia era mais alto do que a minha tentativa de fuga. Fui me arrastando pacientemente até o local da parede, porém demorou ainda mais do que eu tinha pensado. Quando finalmente cheguei ao ponto em que queria, mais um processo em virar a cadeira para o lado certo. Finalmente no ponto correto, comecei a esfregar minha mão na parede, tentando criar atrito na corda e na saliência. O que resultou em meu braço completamente machucado até encontrar o ponto certo. Mas se eu me importava com a dor? Não, minha prioridade era fugir! Por isso mordi meu lábio com força para suprir qualquer gemido de agonia e continuei até ter minhas mãos livres. Suspirei em alívio e me dediquei a um novo processo de libertar minhas pernas.

Finalmente solta, levantei bruscamente, cambaleando e ficando tonta. Resmunguei comigo mesma e apoiando minha mão na parede fui quase arrastando minhas pernas para a porta. Respirei fundo para manter o controle e finalmente a abri lentamente. Era um corredor que seguia apenas para a direita. Encostei-me à parede e comecei a caminhar da forma mais silenciosa possível, passando por algumas salas, escutando sons estranhos... Até deparar-me com uma sala de vidro um pouco mais a frente, dando uma bifurcação para a esquerda e para a direita. Lá dentro estava um Dante nervoso, argumentando veementemente com um homem... Que me era estranhamente familiar. Franzi o cenho e olhei para os caminhos, não teria como eu saber qual seria o certo. Que o acaso me protegesse, pois depois de fazer um sorteio mental acabei por decidir ir pelo caminho da esquerda.

Segui para o lado oposto da parede, procurando sempre fazer silencio e manter meu corpo levemente curvado, andando como uma verdadeira ladina. Estava prestes a escapar do campo de visão daquela sala de vidro quando o homem virou o corpo e fitou a mim diretamente. Primeiro congelei pelo susto de ter sido pega em flagrante... Mas então o homem sorriu, um sorriso que eu reconheceria em qualquer lugar, pois era idêntico ao... Ao de Fernanda!

Não podia ser! Mas também não tinha tempo para ficar pensando demais, comecei a correr da forma mais desengonçada que podia. Havia uma porta mais a frente e eu praticamente me joguei nela, a abrindo e me deparando com uma espécie de sacada. Logo abaixo estava o mar, há incontáveis metros de onde estava. Seja o que for aquela construção, foi feita na beirada de um penhasco!

-DIANNA! – gritou Dante em algum ponto atrás de mim.

Não, eu não seria pega novamente. Aproximei da grade de segurança, passei primeiro uma perna e depois a outra, quase caindo no processo. Respirei fundo e rezei para Anfritite, por mais que ainda acreditassem em Deus, não poderia deixar de rogar para a deusa de o mar me proteger em minha loucura.

-Não ouse fugir! – Dante gritou mais próximo.

Fechei os olhos, prendi o fôlego e saltei. Eu precisava sobreviver, precisava encontrar Fernanda e Lynn! O impacto no mar foi forte, por um momento entendi o quanto Fernanda havia sofrido quando pulamos do penhasco fugindo de um ser das Sombras. Meu corpo afundou como pedra dentro da água, o sal fazia arder cada ferida minha. Porém estava fraca demais e por um momento me deixei flutuar. Seria tão mais fácil apenas ficar ali, envolvida pelo mar e sem ter de lutar por nada... Não! Não era para ser assim, eu tinha de ficar com Nanda, porque simplesmente tinha de ser assim. Não havia lógica que explicasse a minha ligação com ela, assim como não havia uma forma fácil de ser entendido a minha necessidade de sobreviver para olhá-la, senti-la ao menos mais uma vez. E poder dizer para todos quem era o humano possuído pelo demônio, pois se elas o encontrassem sem nenhuma preparação iriamos perder brutalmente.

Porque o demônio estava no corpo de Pedro Fontaine.

Notas finais
Desculpe, novamente to terminando o capítulo e logo postando aqui, ou seja, sem revisão! x.x