Amor Submerso
16 Capítulo 16: Desembarque no Rio
Notas iniciais
Suun, ça linda, conseguiu me deixar toda boba com a recomendação, obrigada mesmo >
A viagem foi longa apenas pela parada que tivemos de fazer em Natal para mudarmos de avião. Durante todo o trajeto Dianna exigiu saber como tudo aquilo tinha começado e apesar de termos algumas horas não foi o suficiente para contar-lhe tudo o que aconteceu. Eram tantos detalhes que apenas naquele momento percebi como realmente meu mundo havia virado de cabeça para baixo. Sereias, povos místicos, magia, guerreiros, monstros... Se fosse parar para pensar seria como estivesse lendo uma obra de literatura sobre seres sobrenaturais em um mundo alternativo que não o nosso. Não a realidade que o humano preza cada vez mais a ciência e lógica. E era justamente por isso que havia desistido de tentar entender, de tentar pensar como uma garota normal tentando buscar explicações para tudo. Se não fizesse isso iria enlouquecer.
Quando chegamos ao Rio de Janeiro espreguicei-me cansada. Aquele dia havia sido uma avalanche de acontecimentos e intensas emoções conflitantes. Meu corpo e mente estavam cansados, implorando por um bom momento de sono e tranquilidade. Porém eu não queria ir dormir, Dianna estava ali, ao meu lado e isso me fazia ter um medo irracional de que se eu pregasse os olhos quando os abrisse novamente iria descobrir que tudo foi um sonho.
-Vou comprar água, quer um pouco? – Dianna ofereceu assim que chegamos ao saguão principal do aeroporto.
-Ah sim, definitivamente, pode comprar cinco garrafinhas? – pedi e levei automaticamente a mão para o bolso, lembrando tardiamente que tinha trago apenas o cartão de crédito – Opa, estou sem dinheiro, deixe para lá.
-Nada disso, você não me disse que tem mais necessidade de beber água? Então pronto, vou buscar as garrafas. Só não se afaste muito daqui, ok? – Dianna negou prontamente.
Acenei com a cabeça e antes que ela girasse o corpo para se afastar segurei em sua blusa a impedindo de fazer o movimento. Foram necessários apenas dois passos para que meu corpo estivesse próximo do dela, separei a distâncias de nossas bocas fazendo com que meus lábios se encaixassem nos de Dianna em um selinho gentil e terno.
-Apenas para não saber que isso é um sonho – justifiquei em um sussurro.
Dianna sorriu sem jeito e mordeu o lábio como se hesitasse se afastar, mas logo deu-me as costas e partiu para a lanchonete aberta mais próxima. A morena nunca sorria torto, era sempre um sorriso aberto e direto, algo tão lindo que eu poderia passar o resto de minha vida tentando fazê-la sorrir para mim. Balancei a cabeça de uma forma negativa debochando mentalmente de mim mesma, como eu, uma verdadeira conquistadora barata estava virando uma garota melosa? Se bem que por aquele sorriso valia a pena.
-Nanda!! – um grito rompeu o saguão me distraindo dos pensamentos.
Girei o corpo bruscamente a tempo de ver um ser pequeno e agitado correndo em minha direção e se jogando em meus braços. Ri divertida quase caindo para trás pelo impacto dos corpos, mas Luana sempre fora magra e leve. Minha melhor amiga carioca me abraçava apertado fazendo-me franzir o nariz com o seu perfume doce. Ela afastou-se e só faltou saltitar no mesmo lugar tamanha a felicidade em me ver. Luana tinha vinte e um anos, estudava medicina em uma faculdade particular por apenas ter preguiça de prestar o ENEM ou um vestibular em específico. Ela era baixa, com seus 1,57 metros de altura, mas apenas alguns minutos com ela e seria provado que tamanho não era documento. Era animada, ciumenta, mimada e uma fiel escudeira. Seus olhos azuis esverdeados sempre estavam em destaque por uma maquiagem bem feita com delineador e lápis. O cabelo negro estava mais curto, um pouco acima do ombro em um corte levemente repicado e com direito a uma franja lateral. Ela definitivamente não havia mudado nada.
-Ela pode ser uma tampinha, mas com certeza ainda é a mais rápida de nós! – disse um garoto negro se aproximando com um grande sorriso.
Ao seu lado estava uma pequena turma. Eu não podia acreditar que estavam todos ali! Meus amigos mais íntimos da época do colegial se aproximavam com sorrisos enormes estampados em seus rostos. Éramos poucos, mas ainda assim com longas e divertidas histórias para contar. O rapaz negro se chamava Thiago e era o mais festeiro, perto dele estava Júlia, a pessoa mais branca que eu já tinha conhecido em minha vida, digna de seu apelido de Fantasminha Camarada.
-Thiago, Júlia! – quase gritei em extase por revê-los – Mas vocês não deveriam estar em intercambio? Ou enjoaram da Inglaterra?
-Viemos passar nossas férias aqui – Júlia respondeu enquanto Thiago me abraçava, esperando a sua vez – Então quando você entrou em contato com a Coelhinha viemos como cavalaria!
Nos abraçamos forte e eu tinha feito questão de apertar os braços branquelos só para ver a pele dela avermelhar. Ri de sua careta costumeira, havia sentido tantas saudades daquilo! Mas então o olhar escuro de Thiago fixou em um ponto atrás de mim e seu queixo caiu.
-Meu Deus, aquilo é uma benção divina para meus humildes olhos! – ele exclamou – Olhem ali, uma morena linda! Espera, ela esta se aproximando, não olhem agora.
Mesmo assim lancei meu olhar por sobre o ombro. Assim como tinha desconfiado Dianna aproximava-se bebendo sua própria garrafinha de água. Seus olhos verdes encaravam a todos ali com curiosidade enquanto mantinha um passo pequeno vindo em nossa direção. Acabei rindo da expressão de surpresa e admiração de Thiago quando viu que ela estava vindo para nós.
-Sabe o que eu disse de não ter problemas em comprar as coisas para você? – Dianna disse em um leve tom de reclamação enquanto me entregava uma sacola com garrafas de água – Isso não irá se aplicar mais a aeroportos, me senti roubada por comprar água.
-Bem vinda ao Rio – brinquei e olhei dela para os meus amigos – Bem, eu só esperava a Lu, mas acabei tendo uma bela surpresa. Dianna, esses são antigos amigos meus, a Luana que vai nos oferecer casa, comida e roupa lavada – tentei não ri quando a Luana me lançou um olhar indignado – Esse cara da cor do pecado é o Thiago e ao seu lado não é um espírito, é a Júlia.
-Tão engraçadinha como sempre – Júlia reclamou revirando os olhos.
-Oi Dih – Thiago logo abriu um sorriso encantador e se aproximou, pegando a mão de Dianna como um cavalheiro faria – É um prazer te...
-Ah e só pra avisar – prontamente separei a mão dos dois – Essa morena é minha. Sem gracinhas Thi.
-Mas o que? Quando o inferno congelou?! – A Luana usou seu tom nada discreto.
-Longa história, porque não saímos daqui? – sugeri com um sorriso bobo nos lábios – Então eu tento explicar na medida do possível.
-Definitivamente todos nós iremos querer saber como você foi ficar com uma mulher dessas – Thiago provocou – Deixa que eu levo a mochila de vocês.
-Eu sempre tive um ótimo gosto – lembrei para eles.
-Lembro-me de um comentário parecido desses.
Virei o rosto para Dianna, ela estava um pouco séria e evitando os meus olhos. Foi então quando eu me lembrei da nossa trilha com Amanda, principalmente que ela viu nosso beijo. Então isso seria sinal de ciúmes? Meu sorriso foi inevitável, porém mal interpretado por Dianna, ela desviou definitivamente o olhar do meu e entregou a mochila para Thiago. Repeti o gesto dela e quando vi que Dianna iria seguir um pouco afastada de mim tratei de me aproximar a passos sorrateiros até sussurrar ao pé de seu ouvido:
-Mas me apaixonei apenas por aquela que conseguiu me levar a outro mundo que se torne só nosso e não consiga mais lembrar o caminho de volta.
Afastei o suficiente para vê-la lutar inutilmente contra um sorriso. Dianna não se afastou mais de mim e apesar de ter uma vontade absurda de segurar na mão dela como fariam naturalmente os namorados, sabia que esse tipo de contato teria de partir dela. Dianna era do tipo que gostava de ter seu espaço, de se sentir segura onde estava. Naquele momento era apenas o nosso começo de uma história que provavelmente seria completamente maluca e por muitas vezes ilógicas. Assim, eu não queria pressioná-la a nada. O caminho inteiro Thiago fazia perguntas para Dianna curioso do jeito que apenas ele saberia ser.
-Como seus tios reagiram? – Thiago finalmente lançou o olhar para mim.
Estávamos em um carro super moderno, modelo 2021. O espaço dele era para seis pessoas em um design de um sedan de cor prateado. Então assim, Luana dirigia e ao seu lado estava Júlia, Thiago encontrava-se sozinho no banco do meio esparramado como sempre e eu e Dianna atrás. Meu corpo estremeceu de leve com a pergunta dele, naquele momento comecei a imaginar como tia Rita deveria estar preocupada, se sua pressão iria manter-se controlada. De como tio Saulo estaria decepcionado comigo. Foi nesse momento que Dianna segurou minha mão.
-Eles não sabem – Dianna explicou e hesitou – É um pouco complicado.
-Aproveito que todos estão aqui – a ajudei e sorri fraco – Queria pedir pra que não dissessem que estamos no Rio, meio que... Fugimos eu diria.
-Que bonitinho, parece até novela mexicana! – Luana exclamou animada para quebrar o clima tenso que começava a se criar.
-Mas Fer, você foi sempre tão aberta com seus tios, nunca vi isso acontecer – Júlia persistiu no assunto, olhando-nos por sobre o banco – Aconteceu algo muito sério que nós deveríamos saber? Sei que passamos alguns anos sem nos encontrar pessoalmente, mas ainda somos os mesmos, sabe disso não é?
-Eu sei, porém... É complicado e delicado. Apenas precisamos de um tempo só nosso para nos organizarmos e até ficarmos um pouco em paz – tentei explicar e dei o meu melhor sorriso sem jeito – Confie em mim, o que eu puder contar vocês definitivamente irão saber.
Então o assunto mudou completamente, o que agradou a todo mundo. Dianna de inicio era mais quieta, porém seus olhares sempre eram atentos. Lembro-me de nossos primeiros encontros, quando aqueles olhos verdes me perseguiam curiosos e com um leve interesse que provavelmente nem mesmo ela entendia ainda. Definitivamente precisávamos desse tempo em paz, sem nos preocuparmos em sermos descobertas ou de Eric aparecer do nada.
A casa de Luana era uma pequena mansão. Filha de um jogador de futebol que ficou nos últimos anos famoso internacionalmente, a pequena sempre teve tudo do bom e do melhor. Assim que entramos eu me joguei em um dos sofás disposto logo na sala de entrada, havia me esquecido de como eles eram macios!
-Bom, como eu estava esperando apenas a Fer temos um pequeno problema que acho que você vai gostar muito – Luana contou jogando a chave do carro sobre uma mesinha colada na parede – Um dos quartos de hóspedes está com a luz queimada, então restou apenas um. Ou seja, é de vocês duas.
Dianna parou no lugar como se tivesse congelado. Os olhos dela me buscaram incertos, como eu havia dito, apesar de todas as emoções que já tínhamos passado essa vida a duas ainda era muito recente. Sorri sentando melhor no sofá e dei de ombros.
-Eu não garanto que vou me comportar – fui sincera – Então qualquer coisa eu fico aqui no sofá.
-Não, eu sou menos conhecida aqui e...
-E nada – a própria Luana a interrompeu – a Nanda mais dormiu nesses sofás do que nos próprios quartos, ela despencava antes de chegar lá.
-Quando ela bebia demais mal conseguia subir as escadas, tropeçava e ficava rindo feito uma louca – Júlia dedurou começando a rir da lembrança – Nunca vou esquecer a festa de Halloween do nosso terceiro ano. Ela fez do desafio da noite conseguir passar do quinto degrau sem escorregar ou cambalear.
-Parem de manchar a minha imagem! – reclamei ficando um pouco vermelha – Sou uma moça direita agora!
Dessa vez quem riu foi Dianna fazendo com que os outros a acompanhassem. Cruzei os braços e formei involuntariamente um beicinho. Mas Thiago falou as palavras mágicas para me animar:
-Vamos para a piscina?
Saltei do sofá prontamente. O resto do dia se deu ali, na água e com petiscos a beira da piscina. Eles faziam questão de denegrir minha imagem para Dianna, contando aventuras passadas e principalmente meus desastres. Aos poucos ela mesma foi se soltando e rindo com mais facilidade das besteiras e bobeiras que eram lançados principalmente por Luana e Thiago. Ali estava algo que eu já não tinha há alguns dias, um momento perfeitamente normal.
{...}
Durante a noite eu subi para o quarto de hospedes antes mesmo das dez horas, para a nossa turma isso era muito cedo, mas o meu cansaço falava mais alto. O quarto era bastante amplo, mesmo para um que era apenas para as visitas. A cama era de casal e com direito a um bonito closet de cor branca, além de uma pequena sacada que dava vista para a rua arborizada de um bairro nobre. Estava procurando por lençóis e travesseiros para mim já que iria dormir fora dali quando descobri a coisa mais incrível da noite. Enrolado em um canto havia uma rede vermelha e branca. Prontamente a peguei e a passos largos caminhei para a sacada, como havia imaginado ali estava pregado na parede o suporte para a rede. Terminava de armar o item quando Dianna entrou no quarto com olhos verdes denunciando sonolência. Ao ver o que eu estava aprontando abriu um sorriso divertido.
-Acho que vai preferir dormir ai do que no sofá – Dianna deduziu enquanto se aproximava.
-Com certeza, o sofá pode ser mais confortável, mas estou mais acostumada ao balançar da rede – admiti e olhei por sobre o ombro dela para conferir que a porta estava fechada – Senta um pouco comigo?
A morena fez que sim com a cabeça em um balançar suave. Esperei ela passar por debaixo da rede entrando na sacada para então abrir o tecido e sentar nele. Dianna não tardou a sentar ao meu lado, mas como a rede afundava com o peso o corpo dela escorregou para bem perto do meu. Definitivamente passei a gostar mais de redes a partir daquele momento. Para deixar as coisas mais confortável e até mesmo me aproveitar um pouco da situação, passei o meu braço por trás das costas dela e apoiei a mão no tecido levemente inclinado. Mas isso apenas serviu para deixar a lateral de meu corpo colado ao dela.
-Hoje foi o dia mais louco de minha vida – Dianna admitiu, olhando para o alto.
Segui o olhar dela e deparei-me com um céu noturno poluído e com poucas estrelas. O passar dos anos apenas pioraram a situação do ar nas cidades grandes, apesar de 2015 ter sido o ano mais cheios de campanhas ambientais. Entretanto uma lembrança cruzou meus pensamentos fazendo-me rir baixo.
-Você me enganou – acusei ainda em tom de riso.
-Sou inocente mesmo que se prove o contrário – Dianna afirmou desviando o olhar para mim.
-Inocente? Aproveitou-se de minhas boas intenções de ensinar as constelações sendo que você já sabia! Ou seja, você me enganou!
A morena não se defendeu, apenas riu daquela forma gostosa que sempre me causava arrepios. Tive vontade de beijá-la, de abraçar aquele corpo bronzeado e mantê-la sempre assim, perto de mim. Deus, eu estava terrivelmente apaixonada por aquela mulher. E essa mesma mulher parou de rir e pareceu falhar no ritmo da respiração, desviando os olhos dos meus como se estivesse tímida.
-O que foi? – perguntei curiosa.
-Nada – ela respondeu fingindo olhar as estrelas novamente.
-Dih, eu te contei que sou meia-sereia e salvei sua vida, mereço saber o que pensa – tentei usar da chantagem e parece que deu certo.
-Bem, eu meio que lembrei... – Dianna continuou a olhar as estrelas, mordeu o canto do lábio sem jeito – Lembrei-me do que aconteceu na praia.
O beijo. Aquele bendito beijo que só de lembrar fazia-me sentir as borboletas em meu estômago entrarem em festa. Dianna então virou um pouco o corpo para olhar-me melhor, suas sobrancelhas levemente franzidas demonstrando curiosidade.
-Teve um momento que você fez algo no quarto, algo diferente que eu não sei explicar bem, mas eu senti... Eu senti... – Dianna começou a falar, mas sua voz foi ficando vacilante quando as lembranças vinham pecaminosas.
-Um prazer a mais? Lembro muito bem disso também, você me agarrou e começou a chupar...
-Fernanda! – Dianna interrompeu a minha narração das recordações daquela noite.
Acabei rindo divertida, escutei um pequeno resmungo vindo dela e deixei que meu riso se transformasse em um sorriso carinhoso. Retirei meu braço de detrás dela e com o mesmo estiquei mais a rede para trás para que eu pudesse deitar naquela posição. Não precisei pedir para que ela também deitasse, logo aquela linda morena ajeitava-se ao meu lado. Peguei uma de suas mãos e pousei seus dedos sobre meu pulso.
-Consegue sentir a minha pulsação? – perguntei e a vi fazer que sim com a cabeça – Essa é a minha circulação normal, preste bem atenção nos pontos laterais da pulsação ok?
Fechei um pouco os olhos deixando que minha mente se concentrasse no ambiente ao meu redor. O som do transito suave que atravessava o bairro nobre em que estávamos, o vento suave e carregado de cheiros da cidade grande... Mas então meus sentidos se focaram em algo mais próximo, em uma fragrância suave e que me embreagava por completo, no corpo quente tão perto do meu e até mesmo escutei as batidas rítimicas do coração de Dianna.
-Achei! – Dianna exclamou surpresa, sua voz baixar e animada penetrando todo o meu ser com seu timbre gostoso – É como se houvesse dupla pulsação! Mas... O que é isso?
Abri meus olhos e deparei-me com duas orbes verdes curiosas. Minha visão aprimorada permitiu-me ver cada traço daquele rosto tão bonito. Eu podia me perder em cada traço daquelas íris esverdeadas. Ou poderia admirar aquele desenho perfeito da boca e achar cada vez mais lindo aquele tom de pele moreno claro.
-É... – percebi que tinha algo a explicar para ela, mas como minha mente funcionaria direito dada ao meu completo abandono naquela beleza morena? – É o fluxo de energia que o Povo Submerso tem, isso permite a magia.
-Que nem o que você fez no mirante com... Aquela coisa? – Dianna deixou de pressionar meu pulso para passar a acariciar o lugar com o polegar.
-Eu não sei explicar direito o que aconteceu naquela noite – falava tentando por meus pensamentos em ordem – Meu fluxo, minha magia, é movido a emoções. Todos os tipos de emoções, por isso quando beijei você parte da energia escapou e... Fez aquilo.
O mundo ao nosso redor parecia parar pouco a pouco. Deixei de prestar atenção nos outros estímulos do ambiente e me concentrei apenas nela, ou melhor, só conseguia focar naquela mulher tão perto de mim.
-Você sabia que o Povo Submerso não fazem sexo como nós? – perguntei com a voz naturalmente rouca, começando a me inclinar em direção a ela.
-Não? Já se informou sobre isso? – Dianna arqueou uma sobrancelha, mas ajeitava o corpo para que eu ficasse parcialmente sobre ela.
-Precisava saber como eu nasci – expliquei e ela sorriu divertida, a cada palavra que eu dizia mais eu deixava minha boca próxima da dela. – Eles não usam de órgãos. O prazer, o orgasmo vem de puro toque, de beijos, de um vínculo tão forte que não é preciso muito para que um esteja completamente perdido no outro.
Um suspiro escapou dos lábios de Dianna deixando a boca levemente entreaberta. Apoiei um de meus braços na rede e com a outra mão deixei que meus dedos tocassem o pescoço mal roçando em sua pele. Escutei o coração de Dianna acelerar o ritmo, ficando cada vez mais forte em suas batidas. E eu nem a tinha beijado ainda. Apenas capturei o seu lábio inferior e o suguei para dentro de minha boca de forma delicada, o mordendo suavemente depois. Senti as mãos dela reagirem, uma em minha cintura e a outra permitindo que os dedos se emaranhassem em meu cabelo acariciando gentilmente.
Então finalmente a beijei. De inicio apenas uma brincadeira de roçar de lábios, Dianna tomou a primeira iniciativa ao passar a língua por entre minha boca pedindo passagem. Era impossível resistir ou até mesmo cogitar essa possibilidade. Quando nossas línguas se encontraram foi como se tudo entrasse em um delicioso choque que se propagava por todo o meu corpo. Mantivemos o ritmo do beijo lento, tocando, acariciando sem pressa, explorando cada parte do interior da boca conhecendo uma a outra, criando uma sintonia só nossa. Passamos vários minutos ali, tendo mínimos intervalos para renovar o ar. Dianna beijava divinamente, não era uma garotinha inexperiente ou tímida quando se tratava de ter sua boca sobre a minha.
Quando finalmente teve o fim, nossas bocas se separaram e nos fitamos em um silêncio tranquilizador. O único som que eu precisava escutar naquele momento eram as batidas sincronizadas de nossos corações. Fiz leves carícias no rosto dela, decorando a textura macia de sua pele, logo depois capturando alguns cachos cor de chocolate nos dedos.
-Você é a mulher mais linda que eu já sonhei em encontrar – murmurei em um jeito bobo e encantado.
-Mais do que Amanda? Ou as gêmeas? – Dianna inquiriu arqueando as sobrancelhas.
-Mais do que elas, ou a paulista que vai as sextas na Vogue, ou a Larissa que...
-Já entendi – ela me interrompeu e apertou ainda mais a mão que estava em minha cintura – Não quero saber de suas ex.
-Você é ciumenta.
-Não, apenas não quero imaginar quem já beijou ou tocou você e...
Ri alto e a beijei com volúpia, sim ela era ciumenta, mas também era um fato que agora nenhuma delas importava, pois eu era completamente daquela morena. Dessa vez nosso beijo foi animado, ousado, intenso e profundo. Foi tudo o que era necessário para que eu me perdesse completamente e me entregasse a cada momento, a cada toque, a cada suspiro. Dianna agarrou-me como se quisesse deixar claro que agora meu lugar era ali, nos seus braços a beijando daquela forma sôfrega e voraz, deixando nossos lábios inchados pela pressão do beijo. Dessa vez lutei para que meu fluxo de energia não escapasse, eu queria que ela sentisse o nosso prazer, como humanas apaixonadas e encrencadas por viverem em um mundo louco e cheio de mistérios.
Naquela noite dormimos abraçadas na rede. Apesar de Dianna ter tentado levantar para ir deitar na cama, seu corpo cambaleou e eu propositalmente balancei a rede para bater em suas pernas e fazê-la cair sobre mim. Ela riu e se aconchegou em meus braços, não reclamou ou disse qualquer outra coisa, apenas recostou a cabeça em meu ombro e adormeceu rapidamente.
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