Amor Submerso
12 Capítulo 12: Nathan
Notas iniciais
Era por volta das sete horas da noite. Eu estava sentada no sofá ao lado de Amanda, assistíamos a um filme de comédia recém-lançado que ela tinha comprado. No meio de minhas pernas estava um verdadeiro balde lotado de pipoca, apoiado nos braços do sofá um copão com suco de laranja. Assim que ela tinha concordado em me dar cobertura fomos para a sua casa e ela tentou de todas as formas arrancar de mim qualquer informação sobre Dianna. Mas eu enrolei, não desejava de forma alguma pensar nessa morena de olhos verdes ou iria começar a sofrer novamente.
Estávamos rindo alto por causa de uma das cenas do filme, minha barriga começava a doer por causa das gargalhadas. Sem dúvidas nenhuma ter aquele momento com alguém que me aceitava sem fazer muitas perguntas estava salvando a minha alma. Porém quando achava que tudo estava bem, meu celular novo toca e eu de forma distraída atendo sem olhar quem era, meus olhos vidrados nas cenas que eram transmitidas pela enorme televisão da sala de Amanda.
-Alô! – respondi a ligação com um ar de riso.
-Nanda. – a voz a falar do outro lado da linha paralisou o meu corpo e fez morrer qualquer sinal de riso em mim, era Dianna – Posso falar com você um pouco?
Fiz que sim com a cabeça de uma forma tão distraída que não tinha me tocado que Dianna obviamente não veria aquele gesto. Dei uma rápida olhada para Amanda que me olhava intrigada, respirei fundo e levantei indo em direção a cozinha para ter um momento mais tranquilo e um ambiente silencioso.
-Diga – falei seca, mas meu coração teimoso estava disparado só de escutar a voz dela.
-O que você está fazendo? Por que está tão diferente? – Dianna não hesitou em questionar com um tom de exigência – Está na casa da Amanda?
Respirei fundo pela segunda vez em busca de paciência. A razão mandava-me desligar sem responder nada, porém eu simplesmente não conseguia, precisava daquele contato, precisava da voz dela nem que fosse um pouco. Era como mendigar por um pouco dela.
-Não é de sua conta – respondi grosseira – Deveria parar com essa mania de tentar resolver as coisas por celular, ou tem medo de me encarar?
-Até o faria se não estivesse na casa dessa dai – Dianna acusou em um tom mais agressivo.
-Olhe o respeito para falar dela! – realmente me irritei – Quem você pensa que é além de minha suposta cunhada?
-Quem você pensa que é para fazer loucuras só para chamar a atenção? Está agindo como uma criança mimada e birrenta!
-Ok titia, me coloca de castigo no cantinho da sala por mal comportamento. Oh, espere, você não pode fazer nada comigo, porque não é nada minha.
-Pensei que fossemos amigas – eu podia sentir o tom de mágoa na voz dela.
-Não somos – disse com a voz firme, mas tive de me segurar na mesa para não cair perante a dor que tinha de estar fazendo isso – O que você quer Dianna?
-Conversar com você. Eu... Eu não quero te perder completamente. Desculpe, eu só estou...
Um gemido baixo e surpreso escapou de minha garganta interrompendo a fala de Dianna. Amanda tinha chegado de mansinho ou eu estava distraída demais brigando com Dianna para não perceber. Não importava isso, mas sim o fato de que sua boca estava colada ao meu pescoço sugando suavemente a pele, seu corpo colando ao meu por trás.
-O que foi isso Fernanda? – Dianna exigiu saber no celular.
-O que está fazendo?! – murmurei para que só Amanda escutasse.
-Deixando ela com ciúme – Amanda respondeu rindo muito baixo – Entre no jogo, ela está se remoendo porque você está aqui. Coloque no viva voz.
Sabia que era maldade, e justamente por isso o fiz. Coloquei o celular no modo viva voz e o coloquei sobre a mesa. Amanda mordeu o meu ombro e eu gemi novamente.
-Ai Amanda, não me morde ai! – falei alto e com uma voz propositalmente afetada.
-Mas é você que está me tocando aqui! – Amanda também entrou no jogo, gemeu alto para que Dianna captasse – Você faz isso tão bem, deixa eu tirar esse estresse de você MINHA loirinha.
-Ah.. Ah.. – fingir ofegar – Não me toque assim, ai eu fico mais...
A ligação foi cancelada. Amanda apenas me abraçava, afinal não estávamos fazendo nada realmente. Olhamos uma para outra e começamos a rir descontroladamente. Eu queria imaginar uma Dianna vermelha de raiva, bufando e tão irritada que não fosse dormir pelo resto da noite. Maligna? Apenas um pouco. Saber que ela estava com ciúmes de mim deixava-me eufórica, ao mesmo tempo em que era gratificante saber que ela estava sofrendo, nem que fosse muito menos que eu. Voltamos ao filme, mas eu não consegui prestar atenção, ficava pensando em Dianna e depois de um tempo não havia pena, apenas um aperto no peito por causa da briga que tivemos pelo celular. Não queria que ela gritasse comigo, que exigisse de mim coisas que ela sabia que não tinha direito. Então porque continuava a me perseguir? Deixei todos esses pensamentos quando, depois que Amanda foi dormir, sai de sua casa para ir até a praia mais próxima e entrar no mar. Mais uma vez um golfinho serviu de táxi para mim.
Assim que entrei na caverna um corpo de cabeça loira voou para cima de mim e me abraçou com força. Comecei a acreditar que um dia minha mãe iria me esmagar nesses abraços, mas do que eu iria reclamar? Na verdade até gostava.
“Você demorou! Eu fiquei preocupada!” – ela exclamou olhando para mim buscando algum indicio de que tinha algo errado.
“Preocupar os outros está virando minha especialidade” – disse em pensamento com ironia e logo expliquei – “Parece que voltei a ser criança e fiquei de castigo, eles me proibiram de visitar a praia, mas pedi a uma grande amiga para me encobrir essa noite. Mas não vai ser pra sempre então... Talvez fique sem vim um dia ou dois”.
“Então parece que fiz certo em chama-lo”.
A olhei confusa e então Lynn se afastou. Só então eu o vi, um tritão parado atrás dela com um olhar pesado sobre mim. Meu coração só faltou sair pela boca, pelo medo do que ele poderia fazer e por ele ser extremamente lindo. O homem metade peixe tinha a pele bronzeada, peitoral todo dividido e tórax largo. O cabelo era loiro bem escuro, quase castanho e era um pouco grande, chegando a altura da nuca e com um belo corte. Os olhos eram do mesmo tom azul hipnótico de minha mãe e as tatuagens dele eram cursivas como a dela. A cauda de peixe era totalmente azul, variando em tonalidade clara e escura dessa cor. A barbatana também era de um tom azul único, completando a sua parte peixe.
“Fernanda, esse é Nathan... Meu filho” – Lynn explicou calmamente, assim como havia feito quando me revelou que era minha mãe.
“Espera! Você tem outros filhos?!” – exclamei em choque, afastando-me bruscamente dela.
“Não querida. Ele é filho de Órion” – Lynn continuou paciente – “Desculpe não ter te contado ontem, fiquei hesitante, minha história é mais longa do que aparenta ser”.
Nathan se aproximou de mim fitando-me de forma intensa com aqueles olhos azuis surreais. De alguma forma ele tinha uma aura misteriosa muito forte e misteriosa, afastei institivamente com medo do que ele poderia fazer. Mas tudo o que o tritão fez foi esticar a mão em um cumprimento.
“Não é assim que os humanos se cumprimentam?” – ele perguntou em minha mente. Sua voz era forte, poderosa.
“Sim, com um beijo no rosto...” – expliquei e ele franziu o cenho – “Mas podemos pular o beijo!”
Apertei a mão dele de um jeito atrapalhado como sempre. O toque foi rápido e firme, Nathan afastou-se e assim como eu o analisei antes ele o fazia agora.
“Mas... Você não disse que era perigoso o Povo Submerso saber de mim?” – inquiri olhando para Lynn, ainda sem conseguir processar que tinha um irmão.
“Podemos confiar em Nathan” – a sereia afirmou convicta e sorriu – “Eu não poderia sair da caverna, seria perigoso para mim e para você. Mas Nathan tem uma habilidade muito especial de usar a magia para mesclar a sua presença. Ele pode facilmente se passar por um humano sem que nenhum outro ser percebesse”.
“Está dizendo que ele vai ir para a superfície?!” – deduzi.
“Você precisa de treino” – foi Nathan que começou a falar – “Logo sua presença será notada por outros e seria perigoso para você. Então eu iriei para a terra para lhe ensinar magia e um pouco de luta, apesar de não ser um guerreiro”.
O olhei desconfiada. Como havia dito não acreditava nas intensões tão facilmente. Minha mente começou a funcionar questionando-me se ele não teria raiva por minha mãe ter deixado tudo por causa de meu pai, ou então ter ficado presa ali longe dele. Se bem que essa última parte eu não poderia confirmar já que ela tinha conseguido chama-lo. Estava ficando confusa novamente.
“Muito bom, não é tão tola quanto os outros humanos em confiar logo em mim. Está evidente em seu olhar desconfiado” – Nathan cruzou os braços.
“Porque faria isso?” – questionei de forma direta – “O que ganharia com isso?”
“Minha mãe pediu” – ele respondeu apenas.
“E não tem nenhum rancor da situação?” – ainda mantinha o tom de desconfiança.
“Filha, Nathan foi o que mais me ajudou a ficar com seu pai. Ele melhor que ninguém sabe como fiquei quando finalmente passei a amar alguém novamente” – Lynn explicou.
“E porque isso me faria confiar nele? Eu não o conheço!” – continuei argumentando.
“Da mesma forma que confiei em você desde o momento em que te vi” – Lynn respondeu calma.
“Eu tenho todos os motivos para odiar o Povo da Sombra. Gostava de seu pai, cheguei a conhecê-lo. Ele me ensinou que nem todos os humanos são ruins. O mínimo que eu poderia fazer é cuidar da filha dele para retribuir” – Nathan parecia sincero em seu tom – “Será difícil para conviver com os humanos, mas necessário”.
O fitei por um tempo em silêncio, buscando mais motivos para ter desconfiança daquele tritão. Mas eu não encontrei. Assim como minha mãe eu podia sentir nele certa vontade de acreditar no que ele dizia. Suspirei e relaxei os ombros, Nathan também sorriu também relaxando.
“Então eu tenho um meio-irmão” – repeti para mim mesma tentando não surtar com tanta novidade dos últimos dias.
“Então eu tenho uma meia-irmã” – Nathan também falou.
“Mais alguma coisa? Um tubarão de estimação? Ah, esqueci, já temos um cavalo meio peixe ocupando esse lugar” – brinquei olhando para minha mãe.
Ela riu e fez que não com a cabeça. Nadamos para o centro da mesa e Nathan fez questão de sentar perto de mim. Sabia que era estranho, mas aquele momento parecia um verdadeiro reencontro familiar. Nathan era quieto, misterioso, mas tinha bom-humor. Ele me fez perguntas sobre minha vida e era evidente que Lynn também queria saber. Os dois pareciam ser bastante unidos o que me causou certa inveja, mas não do tipo ruim, apenas aquela vontade de ter tido a mesma oportunidade que ele de estar perto de minha mãe também. Fiz um pequeno resumo de minha vida, contei sobre meus amigos, sobre a faculdade, sobre minha família humana e algumas pequenas coisas sapecas que fiz nessa minha vida. Passamos a hora seguinte focando um pouco em minha, mas depois não aguentei mais e comecei a fazer as minhas perguntas.
“Ok, agora querem me falar um pouco mais dessas coisas de ser sereia? Não peguei essa disciplina na escola.” – pedi relaxando no banco de corais – “A começar, como é essa coisa de magia?”.
“A Deusa Anfitrite abençoa o Povo Submerso com o dom da magia. Aqueles que são portadores desse dom podem usar da energia ambiente, mesclar com a sua própria e realizar certas coisas, desde coisas banais a coisas mais sérias” – Lynn começou a explicar como uma boa professora, ela estava sentada a minha frente com a cauda de sereia virada para o lado – “Em nosso corpo circula uma via especial de energia, os humanos a tem, mas em uma escala bem menor. São como veias e artérias circulando desde a sua cabeça aos pés. Os que possuem o maior dom tem uma reserva e fluxo melhor, permitindo realizar magias realmente complexas”.
“Certo, estou me sentindo esquecida pela coruja de Hogwarts” – brinquei, mas como os dois me olharam confusos dei de ombros – “Esqueçam, piada de uma humana nerd. E... Sobre esse Povo das Sombras? O que tenho de saber sobre eles?”
“São perigosos e feitos do puro mal. Não são como os humanos que possuem a capacidade de serem bons e maus ao mesmo tempo. Eles nunca serão bons, jamais. Não se esqueça disso.” – Nathan falou com certa raiva na voz – “O único propósito deles é destruir tudo de bom que existe”.
“Tudo bem, é o lado negro da força” – comentei mais para mim mesma – “Eles vivem no mar?”.
“Em todos os lugares. O Povo das Sombras não são uma espécie em específico, mas um conjunto de seres maus ou convertidos das trevas como os Exilados. Possuem guerreiros poderosos e magia negra” – dessa vez foi minha mãe que explicou, ela suspirou e me olhou mais séria – “Por isso você tem de aprender a se defender, não vou perder você também, entendido?”.
“Eu prometo mãe, promessa de peixinho...” – falei e antes que eles fizessem uma cara confusa acrescentei – “Ah, é algo meu e de meu primo, quando prometemos algo muito sério e que não deve ser quebrado nunca”.
“Quero que leve algo com você” – minha mãe falou e nadou para um canto da caverna, retornando com um livro na mão – “Passei esses anos escrevendo sobre minha magia, sempre pensei nessa possibilidade de que você pudesse desenvolver algo assim e que iria me encontrar.”
“Eu não poderia ensinar certas coisas que tem ai” – Nathan falou e cruzou os braços – “Ao que parece você tem mais poder mágico do que eu e se iguala a princesa Irina.”
“Alguma tia minha?” – deduzi.
“Sim, a segunda melhor em magia, logo depois de mim” – Lynn fez uma pequena careta – “Ela sempre tentou me superar, o que conseguia fácil já que eu era bem... travessa quando jovem”.
“Eu tenho de ir. Preciso arranjar uma desculpa para passar um tempo com o Povo da Terra sem chamar a atenção da realeza” – Nathan nadou para cima, o que seria o equivalente a levantar-se. – “Vejo-te amanhã, Fernanda”.
Antes que eu falasse qualquer coisa ele partiu em alta velocidade para fora da caverna. Olhei para o livro que minha mãe pós sobre a mesa e curiosa o abri. Incrivelmente eu podia sentir um pouco de energia nele, tive certeza de que era um livro mágico já que as páginas não estavam molhadas como ficaria um livro normal. Ele foi escrito a mão por uma tinta azulada, com direito a alguns desenhos estranhos de círculos e outros símbolos que ainda não compreendia.
“Eu fiquei feliz de ver os dois juntos” – Lynn comentou sentando ao meu lado – “Nathan é reservado, não admitiria que também ansiava por te conhecer, mas ele estava”.
“Pensei que seria mais complicado. Mas apesar de parecer uma loucura, as coisas estão acontecendo bem” – comentei finalmente notando isso – “Digo, ele poderia me odiar e ser um tremendo chato. Mas só é quieto.”
“Ele é leal, assim como o pai. Porém é leal a mim e consequentemente a você” – Lynn explicou e tocou meu cabelo com carinho – “Poderia me contar um pouco sobre a morena de seus pensamentos antes de ir? Eu sinto que isso está pesando seu espírito”.
A olhei pensando se deveria mesmo contar. Era estranho falar da Dianna para outro alguém, era algo tão proibido que tinha medo até de pronunciar qualquer coisa sobre nós duas, assim como tive quando Amanda tentou descobrir algo. Mas estávamos no fundo do mar, sozinhas em uma caverna e aquela sereia era minha mãe. Obviamente, como qualquer outra mãe, ela notava que eu estava infeliz, sofrendo de uma doença do coração que nenhum médico poderia curar. Respirei fundo e encolhi os ombros ficando completamente desarmada.
“Eu estou apaixonada por essa garota, o nome dela é Dianna. Ela é linda, como você deve ter visto. É tão apaixonada pelo mar e até trabalha no Santuário, que é um parque aquático, ela se dá bem com os animais de lá e os trata com um verdadeiro carinho. E ela pode parecer ousada às vezes, mas esconde uma garotinha romântica e um pouco tímida”.
“Então qual seria o problema filha?” – minha mão estranhou, ainda continuando a fazer aquele cafuné tão gostoso.
“Ela é namorada de meu primo, o Eric. Ele a ama, sei disso. E quando eu acordei lá no hospital a afastei de mim, disse que não poderíamos ficar juntas jamais... Eu não quero envolve-la nisso tudo, até o momento está relativamente bem. Mas eu estou tendo de mentir, preocupando meus tios, nem sabemos os perigos que estão por vim... E eu nunca seria capaz de trair Eric, ele é meu primo-irmão.” – revelei sentindo um aperto no peito que me fazia querer chorar feito uma criança machucada. – “Brigamos hoje, ela exigindo de mim respostas pelas minhas mudanças, dizendo que me queria por perto. Mas isso é tão impossível que dói, porém dói mais ainda imaginá-la em risco por minha culpa”.
“Sempre haverá o perigo, minha menina, afastará a todos e nunca irá se permitir amar por ter medo dessa pessoa se machucar?” – minha mãe parou o carinho e segurou meu queixo me fazendo olhá-la – “Eu mais do que ninguém sei o que é essa sensação de ter medo de perder alguém, de pô-la em perigo. Mas se for pensar, mesmo que você fosse alguém normal nunca iria saber o que o destino irá reservar. Ela poderia morrer a qualquer momento de causas diversas e vocês não teriam vivido tudo o que tem para viver com a pessoa que ama.”
“Ainda assim! Eu me sentira culpada por coloca-la em um mundo tão louco! Ela poderia me rejeitar pelo que eu sou!”
“Então ela não estaria te amando verdadeiramente. Quando se trata de um sentimento tão forte se aceita a outra pessoa do jeito que ela é, não importando nada. Se fosse para ser da forma mais perfeita o amor não causaria dor.”
“Ainda há meu primo mãe, eu não posso magoá-lo dessa forma!”
“E pode sofrer por não se permitir gostar de uma pessoa tão maravilhosa quanto você disse?”
“Um dia irei superar” – disse convicta, eu tinha de ser para poder me manter firme – “Amores vem e vão”.
“Sinto dizer... Mas quando um de nós começa a criar vínculos ele só é quebrado quando o outro morre. Se você estiver se apaixonando por essa mulher, irá amá-la até que ela morra e será como se estivesse morrendo também. Já morri duas vezes nessa vida, não quero que sofra da mesma forma”.
Aquilo me fez quase parar de respirar. Isso era um dado completamente novo que poderia mudar tudo. Eu acreditava que poderia superá-la, que iria me apaixonar novamente por alguém que poderia ter ao meu lado. Mas então, agora, estaria presa a Dianna até que uma de nós morresse?
“Mas eu não tenho certeza que a amo” – argumentei em um fio de voz em meu pensamento.
“Então teria de cortar esse sentimento. Para isso teria de magoá-la a ponto de fazer te odiar e nunca mais te ver, afinal de contas o vínculo só é criado quando há uma resposta mínima do outro. Conseguiria machuca-la dessa forma? Fazê-la chorar e destruir as esperanças dela de que o amor seria algo bom?”
Não, eu não conseguiria. Nunca fui uma pessoa má, pelo contrário, tinha um lado altruísta que escondia por orgulho. Mas se tratando de Dianna... Preferia morrer a deixa-la sofrer dessa forma por minha causa. Era o mesmo principio que me fazia querer afastá-la de mim para protegê-la. Suspirei e pus ambas as mãos no rosto, eu estava realmente encrencada!
“Eu nem ao menos sei se ela está apaixonada por mim” – murmurei em pura derrota.
“Então teste isso.” – minha mãe respondeu simplesmente.
“Não é tão fácil, há o Eric. Se ela não me amar eu vou pôr em risco a relação dos dois”.
“E estará deixando de descobrir um amor verdadeiro pelo qual irá lutar. Você não é fraca, Fernanda. Tem potencial para se tornar alguém tão poderoso quanto eu. Irá treinar para defender a sua amada com todas as forças se for necessário. O amor pode destruir muita coisa, mas também pode dar uma força mais poderosa do que qualquer magia ou poder.”
Ela falando daquele jeito parecia tão fácil. Bastava querer e pronto. Mas não era tão simples assim, nunca seria. Mas Lynn havia conseguindo plantar em mim uma semente de esperança. Minha vontade estava vacilando e minha mente viajando por possibilidades de um futuro em que estaria com Dianna. Deitei a cabeça no ombro de minha mãe e fechei os olhos, confusa e perdida em um conflito interno. Deixei que ela me consolasse com uma canção gostosa de ouvir, parecida com a que ela cantou da primeira vez em que nos encontramos. Fiz uma pequena nota mental: iria pedir aulas de sereiês da próxima vez.
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