Amor Submerso

45 Capítulo 45: Universidade


Notas iniciais
Bem galera, acho que são apenas mais um capítulo e chegamos ao fim da primeira parte de AS.

Estava tudo um verdadeiro caos. Literalmente, de todas as formas que você possa imaginar. O motivo? Mudança! Estávamos em Natal, tínhamos finalmente encontrado uma casa perfeita, não muito glamorosa como Lynn queria, mas espaçosa e bem localizada. Possuía um andar, piscina no quintal, uma ótima varanda. Poderia até imaginar meus amigos se auto convidando a estarem ali aos finais de semana para algum “reggae” particular. Mas naquele momento a casa de paredes brancas e detalhes em azul estava uma verdadeira bagunça. Caixas vindo de todos os cantos, móveis deixado de lado para serem organizados depois. E para completar minha mãe estava em um mau-humor terrível, afinal Scarlet ainda não havia aparecido. Alexia retornara naquela mesma noite, dizendo apenas que a ruiva precisava de um tempo.

-Não, não! Se o sofá ficar ai vai atrapalhar a passagem! – minha mãe exclamou exasperada – Vamos muda-lo novamente.

Dianna soltou um suspiro cansado. Novamente eu e ela mudamos o sofá da sala de estar de lugar, o levantando para não acabar arranhando o piso. Depois de pararmos o móvel, encaramos a minha mãe com um olhar quase suplicante para que isso acabasse. Felizmente ela abriu um sorriso satisfeito.

-Ótimo... Agora vamos montar a estante! – ela ordenou.

-Eu preciso de um tempo! Minhas costas estão doendo! – reclamei prontamente, já fazia horas que tentávamos arrumar a casa.

-Mãe, terminei de montar as camas e instalar os closets – Nathan avisou descendo as escadas acompanhado por Alexia.

-Certeza que fez só isso? Ou já testou a resistência das camas? – perguntei sem esconder a malicia em meu tom.

-Fernanda! – ele reclamou ficando encabulado.

-Isso fica para sua imaginação, cunhada! – Alexia falou rindo – Agora que tal uma pausa para um lanche?

-Deve ter gastado mesmo as energias ali encima – provoquei novamente sem resistir.

Nathan fugiu para a cozinha antes que a conversa apenas piorasse e ele ficasse ainda mais tímido. Resolvemos por fazer belos sanduiches com coisas variáveis e a gosto de cada um. Estava tudo bem, eu finalmente estava relaxando um pouco e provocando meu irmão que finalmente estava vinculado a alguém. O que não era surpresa nenhuma já que aqueles dois estavam em química desde o primeiro momento em que se encontraram. Porém, ah como sempre tem um porém, a felicidade não durou tanto. A porta do fundo abriu-se em um supetão assustando a todos, mas dela surgiu uma pirata ruiva, usando roupas pretas e óculos escuros.

-Scarlet Castillo! – minha mãe exclamou levantando da cadeira onde estava.

-Lá vem a terceira guerra mundial – Dianna murmurou ao meu lado.

-Vossa Alteza – Scarlet cumprimentou sem expressar nenhum incomodo – Vim apenas avisar que eu estou de partida, tenho coisas de guerra para resolver.

Até mesmo o Nathan ficou com uma expressão do tipo “What the hell?!”. Lynn paralisou no lugar, olhou para cada um de nós, aproximou de Scarlet e a puxou com força para fora de casa novamente, provavelmente com a intenção de ficar sozinha com ela. Olhei para cada um que restou ali pausadamente e como se fosse uma comunicação mental, todos nós levantamos rapidamente e fomos para trás da porta. Se iriamos escutar atrás da porta? Definitivamente! Aquela briga seria épica e eu sabia que nenhum daquelas duas não contaria o que aconteceu realmente.

-O que você quer dizer com partir? – Lynn exigiu saber.

-Com todo o significado que o verbo partir tem – Scarlet estava irredutível em seu tom – Preciso encontrar líderes, fazer aliados. Estamos em guerra, Lynn. Em guerra contra...

-Contra Pedro! Eu bem sei disso, ele foi meu homem! – Lynn gritou perdendo o controle – Como você acha que eu reagi quando descobri? Quando vi meu antigo vínculo transformado em algo tão sombrio e maligno?!

Meu coração apertou. Eu sabia apenas um pouco, a muito tempo minha mãe tinha me mostrado imagens de seu passado e eu lembro de meu pai a partir de suas memórias. E ele parecia ser um cara legal e por quem ela se apaixonaria. Mas eu não o conhecia realmente, nunca o vi ou senti seu abraço. E apesar de admitir estar chocada e temerosa com o futuro embate contra ele... Não era o mesmo para Lynn, ou até mesmo para Scarlet.

-Eu sinto muito que “seu” homem se transformou nisso, sinto muito! – Scarlet parecia estar finalmente perdendo controle pouco a pouco – Por isso quero partir só, talvez, e veja bem, apenas talvez, consigo encontrar um meio de trazer seu homem de volta.

-O que? – eu falei quase sem pensar, recebendo um olhar mortal de Alexia.

-O que quer dizer isso? – Lynn perguntou com cuidado, eu podia imaginá-la com uma expressão de preocupação só pelo seu tom.

-Ele foi possuído, demônios podem ser exorcizados. Junte uma coisa com a outra – Scarlet respondeu tornando a ficar indiferente.

-Você está louca?!

-Provavelmente. Mas estou tentando fazer a coisa certa aqui pelo menos uma vez na vida, se for para você! Eu imagino sim como foi para você descobrir que tenha sido ele, e... Foda-se tudo, eu não te devo explicação nenhuma!

Scarlet era teimosa. Mas... Ela era uma pirata não era? Ela era do tipo assaltante, roubava o que queria para si e era presunçosa o suficiente para sair espalhando para todo mundo o que fez. Então... Por quê? Porque deixar seu amor, seu vínculo, partir? Eu só de imaginar uma possível separação com a Dianna entrava em um profundo desespero.

-Não vai fazer nada disso – Lynn falou depois de um tempo, completamente decidida – Pedro morreu, a perda de meu vínculo com ele é a prova disso. Mesmo que o exorcizasse, restaria apenas um corpo, não o homem.

-Pare de ignorar o fato de que ele voltou! Você tem uma chance de ficar com ele de novo e---

-Scarlet, eu não vou deixar você.

-Você tem um vínculo com ele primeiro. Quando o ver pessoalmente---

-Nada vai acontecer – minha mãe continuou a interrompê-la, sua voz ia ficando mais baixa e quase não dava para escutá-la – Eu pertenço a você agora, sua idiota. Pare de ficar procurando motivos para nos separar.

-Eu não nasci para ter um romance! – gritou Scarlet – Caralho essa porra é muito complicada! Eu fico toda confusa e sem saber o que fazer!

-Então eu direi. Irá acordar pensando em mim e irá dormir pensando em mim. Irá querer me beijar a todo o momento, irá querer fazer sexo nas horas mais inapropriadas só por ter me visto.

-Isso é uma maldição ou o que?

-Irá ficar ao meu lado, irá ser minha mulher, irá me levar com você para essa viagem e ficaremos juntas.

-É perigoso, e você é uma sereia, sabe como é complicado a relação estre os Submersos e os outros povos.

-E você é uma pirata não muito bem vista, estamos em igual nisso.

-Isso é loucura, eu não consigo processar essas coisas, eu não sei se---

Scarlet parou abruptamente de falar e nem mesmo minha mãe falou em seguida. Troquei um olhar com Alexia que sorriu perversa, sabíamos que naquele momento elas duas estavam se beijando. Achando que já estava bom de espionagem, comecei a me ajeitar até o momento em que meu celular começa a tocar uma música eletrônica bem alta. Eu tomei um susto tão forte que saltei, esbarrei em Alexia que começou a cair, Nathan tentou segurá-la, mas o impulso jogou ele para trás também. Resultado, os dois caíram na porta que se abriu revelando a nós todos. Olhei para Scarlet e Lynn branca como o papel, em minha mente só passando mil e um modos delas duas nos castigarem.

-Acho melhor a gente correr – sugeriu Dianna com a respiração também suspensa.

-Não é preciso – Lynn ria de nossas caras.

-Quem disse?! Eles estavam nos espiando! – Scarlet reclamou.

-Porque foram seus aprendizes – Lynn rebateu arqueando uma sobrancelha.

-Atende logo esse celular! – Alexia exclamou enquanto deixava Nathan levantá-la do chão.

Lembrei-me do aparelho que ainda “gritava” em minha mão. Afastei-me um pouco e vi a foto de Lorena no visor. Respirei fundo e afastei um pouco mais para que o barulho que os outros faziam a deixasse com algum motivo de fazer perguntas.

-Fala minha linda! – a cumprimentei sorrindo.

-Nossa que demora! – Lore logo estava reclamando do outro lado da linha – Como estão as coisas por ai? Ainda não acredito que você se mudou assim!

-Foi de ultima hora amiga – falei com um suspiro – Mas está um verdadeiro caos. Não quer vir amanhã com a galera para que eu termine logo com isso?

-Explorando seus amigos desde sempre. O que ganhamos com isso?

-Piscina, churrasco, eu pago as bebidas. Mas só depois de tudo estar arrumado, chame todo mundo! Quanto mais gente, mais rápido a gente cai na festa.

-Vamos por esses homens para serem uteis ao menos alguma vez!

Ri alto e conversei mais um pouco com a minha amiga, sentando no sofá de qualquer jeito. Não demorou a todo mundo se aproximar e eu ter de desligar, eles estavam mais sérios do que nunca, o que queria dizer que tinham conversando enquanto eu vinha prosear com Lorena.

-Ok, o que vamos fazer agora? – perguntei sem rodeios.

-Eu tenho mesmo de partir, mas parece que eu tenho um encosto agora – Scarlet falou recebendo uma cotovelada forte de minha mãe – Calma amor, deixe as surras de amor para quando estivermos a sós.

-Eu tenho de ir junto, já estou há muito tempo longe de minha família. Tenho de inventar um novo jeito de me afastar e continuar com a minha caçada – Alexia contou sentando em um braço do sofá – O que não vai ser nada fácil.

-Eu vou junto – Nathan falou sério – Essas duas podem se matar a qualquer hora, mesmo vinculadas, o que é estranho.

-Estranho é algo normal agora – comentei e ri – Vai com a namoradinha, mano. Mas... O que eu vou poder fazer?

-Ficar aqui e estudar – Lynn respondeu prontamente.

-Está de brincadeira né? – perguntei incrédula.

-Não, é uma boa ideia – Scarlet completou cruzando os braços – Você é uma peça importante, quanto mais invisível estiver, melhor vai ser a sua segurança e o elemento surpresa. Precisaremos de tempo para reunir forças, então é bom que você fique. Dianna fique de olho nela e não deixe fazer nada muito louco.

-Sim, capitã! – Dianna respondeu prontamente.

-Agora eu estou com fome, sobrou sanduiche? – Scarlet mudou bruscamente de assunto.

Revirei os olhos e sorri um pouco. Não seria ruim essas decisões se eu pensasse que aquela casa ficaria apenas para mim e para Dianna.

{...}

No dia seguinte nós fomos para o primeiro dia de aula, que na verdade era o segundo. A primeira semana de retorno das férias era mais vazio, os calouros que chegavam ávidos para não perderem uma aula e uma dose de conhecimento. Dali em diante eles iriam aprender todos os modos de não levarem falta na aula ou conhecerem todos os motivos ilógicos para não estarem na universidade. Dianna foi mais cedo, afinal sua primeira aula era às oito horas da manhã e a minha apenas as dez. Eu fiquei na cama dormindo até o último minuto, obviamente. E agora estava aqui, entrando em minha aula de genética avançada com um enorme sorriso no rosto ao reconhecer alguns amigos e parceiros de festa. Joguei-me em uma cadeira perto de uma turma e logo comecei a entrar em uma conversa e a descobrir como foram as férias deles. Até que Carol, uma baixinha de óculos super fofa viu o anel de compromisso em meu dedo.

-Meu Deus! É um sinal do Apocalipse! Eu não posso acreditar nisso! – ela estava quase gritando.

-O que? Descobriu que se apaixonou por mim? – Lucas, um dos caras mais mulherengos que eu conhecia, tratou de provocar.

-Não seu cachorro, eu to falando disso! – Carol pegou a minha mão e mostrou o anel – Ela está de coleira!

Foi então que todos começaram a falar ao mesmo tempo em que nem notaram a professora entrando na sala. Até mesmo os que não estavam entendendo paravam pra ver que discussão era essa.

-Queridos! – a professora falou o mais alto que pode – Desculpe interromper a conversa de vocês, mas eu quero começar a minha aula!

-Espera professora, a Fernanda TEM de dizer quem é a namorada dela! – Lucas exclamou ignorando a autoridade da docente.

-Eu já disse! Uma morena muito gostosa e toda perfeitinha para mim – repeti rindo – Agora aquietem ai que vocês irão conhecer no almoço.

A aula começou, mas quem disse que alguém deixou eu me concentrar? Era sempre bilhetinhos, piadinhas e conversas paralelas. Carol tentou mesmo roubar meu celular em busca de evidências! Felizmente só teria aquela aula de duas horas antes do almoço. O pior? Quando sai da sala já tinha um montinho de ex-ficantes querendo saber se era mesmo verdade que eu estava namorando. Eu ria das expressões que elas faziam quando eu mostrava o meu anel de compromisso, imaginando o que Dianna faria se visse uma ou duas sugerindo que não teriam ciúmes dela.

-Aposto que não vai durar muito – disse Lucas me seguindo até o restaurante universitário.

-Eu vou casar com essa mulher – falei automaticamente, digitando no meu celular uma mensagem para Dianna avisando onde eu estaria.

-Eu perdi minha irmã! – Lucas gritou fazendo drama.

Ri e tentei responder da melhor forma possível algumas das respostas, mas tratamos de correr para conseguir algum lugar bom no segundo andar do prédio do restaurante. Com os pratos em mãos, eu fiz uma mega mistura surpreendendo a todos. A bem da verdade, depois que comecei a treinar e a batalhar minha alimentação havia mudado radicalmente. Conseguimos uma mesa perto da varanda, como ali era extremamente barato estava sempre cheio de estudantes e funcionários.

-Ae galera! – Rafael apareceu com Sarah, as vezes os dois pegavam matérias juntos por estarem na área de saúde.

-Nanda! – Sarah veio toda sorridente, sentar no lugar vago ao meu lado.

-Epa! To guardando pra Dianna, desculpa ai gatinha – avisei antes que ela sentasse realmente.

-Ah é mesmo! Dianna vai estudar aqui também não é?! – Rafael sentou-se à mesa ao lado e Sarah foi ao seu lado.

-Vocês conhecem essa namoradinha da Fer?! – Carol perguntou surpresa.

-Passamos o carnaval juntos – Sarah explicou e suspirou – Eu não sou lésbica, mas por essa dai eu dava tudo quantas vezes ela quisesse.

-Sarah! – reclamei de prontidão.

-O que? Você não pode reclamar de nada – Rafael riu – A garota é um baita de uma morena, muito lindo e gente fina.

-Ai meu Deus, acho que entendo agora! – Carol falou arregalando os olhos em um ponto atrás de mim.

Lucas que estava sentado ao seu lado seguiu o olhar e ficou de queixo caído. Eu sorri de lado reconhecendo esse tipo de efeito, Sarah e Rafael estavam rindo sem descrição nenhuma. Antes mesmo de Dianna se pronunciar eu senti o seu cheiro, doce e suave, logo depois a sua presença, como se eu soubesse exatamente onde ela estava. Então veio um beijo rápido em meu pescoço, tão gostoso que me arrepiou. Ela sentou no lugar que eu guardei lançando um olhar curioso para os dois a nossa frente, mas sorrindo de forma encantadora.

-Nanda, você tem amizade com todos na universidade? – Dianna perguntou – Sempre que falava que você era minha namorada, porque fizeram questão de insistir em saber quem era, ninguém pareceu acreditar.

-Eu avisei que isso podia acontecer – ri e a puxei de forma delicada para um beijo gentil – Gostou daqui?

-Ainda estou me acostumando, uma coisa é receber atenção porque está em uma apresentação no tanque, outra é você ver pessoas lhe encarando no corredor – Dianna revelou e olhou novamente para Carol e Lucas – Eles estão bem?

-Casa comigo! – Lucas exclamou ainda em choque.

-Sai, eu vi primeiro! – briguei com ele.

-Fernanda, onde achou essa musa? – Lucas exigiu saber – Você tem irmãs? E eu sou o Lucas Albuquerque, se a Nanda fizer alguma besteira, pode me procurar!

-Entre na fila parceiro! – Rafael botou mais lenha na fogueira.

-Opa! Eu não vou fazer besteira nenhuma – garanti de forma firme – Eu amo essa mulher aqui e antes a morte do que perde-la, ok? Então sem brincadeiras desse tipo, porque cansa! Eu estou realmente séria nisso.

Tudo bem, eu sabia que todos iriam ter esse tipo de reação e pensei estar preparada para isso. Mas não era nada fácil de suportar todos dizendo que era impossível eu estar namorando, que sabiam que iriam durar pouco. Nenhum deles poderia entender a profundidade de meu amor por Dianna, mesmo porque era impossível de ser mensurado. Carol deu um sorriso gentil e cumprimentou minha morena, mudando de assunto vendo que o clima havia ficado tenso:

-Eu sou Carol, eu e Fernanda estamos nas mesmas turmas quase sempre.

-Então é com você que eu tenho de falar para saber com quem eu devo me preocupar em dar encima de minha namorada? – Dianna perguntou interessada.

-Amor! – reclamei em um suspiro exasperado – O que eu disse sobre não matar as meninas?

Ela riu alto e eu sorri, eu já cheguei a mencionar o quanto era gostoso o riso dela? Logo Lucas e Sarah que eram dois bobos estavam rindo também, contagiados por aquele som cristalino.

-Não pensem que eu to brincando, ela é uma Jackie Chan de saias, sabe lutar o suficiente para que em um grito eu já esteja implorando o perdão dela, mesmo sem saber o porquê – tentei explicar o quanto Dianna poderia ser perigosa, e o que eles fizeram? Deram risadas – Espero que um dia não vejam isso, de verdade.

A conversa progrediu, girou obviamente em torno de nós duas, perguntas de como nos conhecemos. Claro que todos ficaram ainda mais surpresos quando contei que Dianna era ex-namorada do meu primo. Afinal de contas ele era como um irmão para mim, todos os meus amigos o conheciam. Eu ainda sentia um vazio por causa disso, foi uma perda profunda e que com as coisas tão agitadas que eu não tinha tempo de sentir mesmo a falta de minha família normal. Talvez, apenas talvez, eu conseguisse ligar ao menos para eles. Mas apenas talvez.

{...}

Estava mais para festa do que para um grupo de amigos me ajudando em mudança. Rafael trouxe carne para churrasco, Lorena e Rodrigo providenciaram o som, o resto? Trouxeram alguns outros conhecidos. Minha sorte era que minha mãe e os outros já tinham partido, sem muitas cerimonias e com poucas despedidas. Estávamos na área da piscina, Dianna encontrou algumas garotas que fizeram intercambio nos Estados Unidos e estava conversando animadamente com um copo de bebida na mão.

Mas tinha algo estranho, ou talvez eu fosse anormal. Estava tudo tão tranquilo! Tudo bem, minha família acabou de sair para resolver a parte diplomata da guerra. Além do demônio ter possuído o corpo de meu pai. Porém era estranho estar ali, com os amigos como se fosse um dia comum de minha antiga vida. Ponderava sobre essa questão sentada em uma espreguiçadeira, Lorena e Sarah conversando a minha frente sobre alguma fofoca do dia. A distração me fazia afastar um pouco da realidade, por isso não tive tato suficiente para ver que todos ficaram tensos e um pouco silenciosos, quando dei por mim já era tarde demais. Uma loira com mechas coloridas por todo o cabelo entrou em minha frente e me beijou. Meus olhos se abriram em choque e puro temor, afastei-me depois de alguns segundos completamente pálida ao finalmente reconhecer que aquela loira era Gabrielle.

O meu pesadelo em forma de saias tinha olhos cor de mel, um braço coberto por tatuagens e um piercing no lábio inferior. Era linda com seu estilo próprio, porém possuía um olhar de vitória ao ver minha reação. Levantei rapidamente para manter uma distancia, meus olhos procurando por Dianna, apenas para encontra-la de braços cruzados e um olhar assassino na direção de Gabrielle.

-O que inferno você pensa que está fazendo? – perguntei extremamente confusa e enraivecida.

-Dizendo que nossa história não acabou – Gabrielle respondeu com ar superior.

-Saia daqui! – eu falava de maneira lenta, mas com ódio quase transbordando em cada palavra dita – Quantas vezes vou ter de repetir que eu nunca nem namorei você?

-Fernanda, eu tenho certeza de que foi especial para você tam...

-Espero que tenha escutado ela muito bem quando disse que era para sair – Dianna havia se aproximado e mantinha aquele olhar cortante.

-E você é? Pelo que eu saiba essa casa é de Fernanda – Gabrielle virou com jeito superior – Acho um erro nem ao menos ter sido convidada!

-Dih, eu juro que estava distraída! – eu fui para perto dela, mas Gabrielle me segurou.

-Então essa é a garota? A que todos dizem que é sua namorada? Pensei que fosse mentira! – a loira falou alterando seu tom.

-Gabi, saia daqui enquanto pode – foi meu ultimo aviso, puxando bruscamente meu braço.

-Como pode me trocar por ela? Eu sou muito melhor do que qualquer uma que você já pegou! – a garota só podia estar louca.

-Já chega Gabrielle – Lorena logo se aproximou – Já está na hora de você superar isso, precisa ir ao psicólogo e...

-Não preciso! Eu preciso é de Fer....

Ela nunca terminou a frase, Dianna a pegou pelo braço e a fez girar o corpo para imobilizar seu membro superior atrás das costas. A morena deu mais dois passos e aproximou da piscina puxando Gabrielle junto de uma forma que eu sabia que estava doendo, pois a loira gritava. O melhor? Ninguém fazia nada, nem mesmo quando Dianna soltou o braço de Gabrielle e a empurrou na piscina. Escutei vários gritinhos de “uuuuh” e “ooooh” quando o corpo de Gabrielle se chocou na água. Dianna pós as mãos na cintura e encarou Gabrielle de cima, que emergia cuspindo água da piscina.

-Vou falar apenas uma vez, então me escute bem. Eu não brinco quando o assunto é Fernanda. Você tem duas escolhas: recolher a sua dignidade e ir embora esquecendo a minha mulher, ou ter sua vida transformada em um inferno por mim. Não é você que é uma ameaça aqui, loirinha.

-Sua vadia! Vai pagar por isso!

Gabrielle saiu da piscina e saiu vermelha, furiosa, derrubando uma mesa em seu meio de caminho. Fez um minuto de silêncio até que eu comecei a rir da situação, logo Lorena e Rodrigo acompanharam e todos começaram a gargalhar.

-Eu disse que ela dá medo – falei ainda rindo, mas quando Dianna virou para mim meu riso sumiu rapidamente – Brincadeira amor, você é linda e maravilhosa!

A galera riu ainda mais e Dianna aproximou séria, foi impossível não engolir em seco. Afinal de contas, a convivência juntas só começava realmente agora. Antes era aventura atrás de aventura, mas no momento atual? Erámos como duas recém-casadas morando juntas. Ela ficou a minha frente, segurou a blusa branca que eu usava e me puxou para um beijo intenso e nada inocente para ser dado na frente dos outros. Escutei assovios e provocações, mas ignorei completamente já que a língua de Dianna estava ocupada envolvendo a minha de uma maneira enlouquecedora.

-Isso foi só para apagar o sabor daquela maldita, ok? – Dianna falou levemente arfante.

-Vão para um quarto! – gritou Sarah do outro lado da piscina.

Mostrei o dedo do meio para ela e puxei a Dianna para sentar comigo na espreguiçadeira onde estava pouco tempo atrás, porém em meu colo. A festa recomeçou, dessa vez com mais animação do que antes, já que havia acontecido um verdadeiro escândalo. Senti os dedos de Dianna acariciando meu cabelo, brincando com as mechas azuis e com um olhar um pouco sério ainda.

-Eu estava pensando que isso aqui estava tranquilo demais antes de Gabrielle aparecer – comentei com ela a fitando dengosa quando ela parou a carícia, logo ela retornou.

-Eu já disse que não tem como ser monótono com você – Dianna falou e fez um resmungo parecido com “tsc” – Aquela garota é muito perigosa, mas acha que eu exagerei?

-Nem um pouco, ela é uma obcecada, mas também não sabia com quem estava lidando – falei e ri mais ainda – Você é mesmo perigosa, meu amor.

-Tive uma boa mestra – Dianna piscou um olho em brincadeira – Pena que é teimosa para admitir que está de quatro por sua mãe.

-Ela não tem tato para relações, mas sei que vai aprender. Minha mãe é paciente e vai dar umas aulas práticas, isso eu aposto.

Ela riu novamente e eu sorri bobamente só por causa disso. Estava tranquilo pela falta de ameaça do Povo da Sombra, mas isso não queria dizer que minha vida fosse ser calma. Estava enganada quanto a isso, afinal de contas encrenca parecia ser o meu nome do meio.

Notas finais
Eu estou já com um projeto pra escrever, como um intervalo entre a parte 1 e parte 2 de Amor Submerso. Queria a opinião de vocês quanto ao tema que eu escolhi.

Eu estava lendo Dragões de Éter e gostei muito da forma que o escritor colocou todos os contos de fadas interagindo entre si em uma cidade. Ai pensei, porque não fazer uma versão disso entre garotas e na atualidade? Então surgiu a ideia de uma fic baseada em uma garota que muda junto com os pais para a cidade da avó e acaba conhecendo uma garota misteriosa que é uma loba! Sim, uma versão de Chapeuzinho Vermelho! Vai ter um pouco de aventura novamente, mas não tanto quanto AS. Só não explico mais de minha ideia para não perder a graça da surpresa, mas o que acharam?