Amor Submerso
40 Capítulo 40: Vinculadas
Notas iniciais
Só pra lembrar, os POVs não especificados sempre são da Fernanda.
Nós estávamos quase entrando em uma briga séria dentro da sala de reuniões do QG da Fênix. O motivo? O sinal capitado vinha de Fortaleza, tão distante que era irônico estarmos ali ainda em São Paulo. Eu queria partir o mais rápido possível, o Sr. Anderson insistia que deveríamos fazer um plano, Scarlet estava impaciente e Felipe tentando expor todas as variáveis dos planos que surgiram. Eu estava tão perto de tê-la para mim novamente, porque ninguém podia entender meu desespero? Mas então magicamente Dianna apareceu... Em um dos locais mais perigosos que ela poderia estar.
–Temos de ir – Lynn falou com um leve tom sombrio – Isso não vai ser nada fácil.
–Iremos sem nenhum plano? – Nathan estava quase murmurando, estava jogado em uma cadeira realmente preocupado.
–Claro que temos – respondi irritada com todo aquele negativismo – Entrar lá, pegar Dianna, sair, encontrar Dante e manda-lo para o inferno. Isso parece um plano para mim.
–Não podemos ser impulsivos assim, filhote de peixe – até mesmo Scarlet estava mais tensa – O Povo Submerso é o mais antigo e tradicional, os nazistas do fundo do mar praticamente.
–Hey – Lynn já estava prestes a protestar, mas balançou a cabeça em desistência – Provavelmente meu pai seja, ainda mais nesses últimos anos em que a poluição aumentou e minha fuga. Eu posso imaginar o Conselho o condenando por não conseguir controlar a sua filha prodígio.
–Mas eu sou a escolhida de Anfritite – levantei bruscamente da cadeira novamente, começando a andar de um lado para o outro de braços cruzados – Isso deve ser útil para alguma coisa dessa vez!
Lynn e Nathan ficaram surpresos, provavelmente por terem esquecido esse detalhe, afinal já estavam acostumados com essa informação.
–Certamente o Rei a escutaria e daria tempo de fazer alguma coisa, o Conselho entraria em caos – Nathan ponderou finalmente esperançoso.
–Essa é nossa cartada surpresa, deverá ir como uma sereia qualquer – planejou Lynn – Usará isso em último caso, eles também não sabem que você é minha filha. É mais seguro que essa informação também não vase.
–E então o que? Irão lá sozinhos? – Scarlet fitou Lynn com uma intensidade quase palpável – Irá entregar-se, é isso?
–É – Lynn disse firme.
Scarlet abriu a boca para protestar, mas o olhar determinado de minha mãe a refreou, ela resmungou alto um xigamento em outra língua e saiu da sala batendo a porta com força. Vi minha mãe desviar o olhar.
–O tempo está passando – Alexia se manifestou pela primeira vez – Vou providenciar um transporte para nós assim como vou pegar um Iate, será mais rápido e menos desgastante.
–O que pensa que está fazendo Alexia? Irá com eles? – Felipe questionou surpreso.
–Sim, sou a lutadora da Fênix, não vou fugir dessa batalha fenomenal vou? Até porque Scarlet não tem poder de batalha embaixo da água, mas também não pode ficar desprotegida e só. Preciso de vocês aqui para caso algo aconteça termos uma cavalaria. Entenderam?
O grupo apenas acenou com a cabeça. Alexia levantou e saiu sendo seguida por nós, afinal não havia tempo a perder. De repente duas horas pareceu passar mais rápido que os minutos normais. Encontramos Scarlet fumando e tentando disfarçar a mão trêmula, ela jogou o cigarro no chão e pisou nele, evitando olhar para Lynn. Ninguém ousou dizer qualquer coisa para ela. Fomos para uma garagem onde havia diversos tipos de carro, e quando digo diversos, era em termos de modelos, cor e tamanho. Pegamos uma picape que caberia a todos nós e colocamos alguns armamentos no fundo, tudo o mais rápido possível. Porém quando finalmente entramos no carro, com Alexia na direção e Nathan ao seu lado, foi impossível não sentir aquela tensão entre Lynn e Scarlet já que propositalmente me colocaram no meio delas. Resmunguei mentalmente e cruzei os braços, precisava focar minha mente em apenas uma coisa, mas era impossível não preocupar-me com minha mãe. Afinal ela fugiu esse tempo todo de meu querido e ranzinza avô para agora entregar-se. O que aconteceria com ela? O que ela teria de pagar por tal ato? O quão egoísta eu estava sendo para deixar que ela se arriscasse dessa forma?
–Vai ficar tudo bem – Lynn murmurou em meu ouvido, sua mão fazendo carinho em meu braço tentando me acalmar – Vamos ficar bem, todos nós.
O carinho de mãe. Meu corpo estremeceu quando tudo que eu segurei esse tempo todo pareceu extravasar o estresse, a ansiedade, o medo de que tudo desse errado... Eu sentia que iria quebrar com um simples sopro. E Lynn percebeu isso, fosse por causa de seu instinto materno, fosse por também estar assim. Ela envolveu meu corpo com seus braços e me fez deitar a cabeça em seu ombro. Eu chorei de forma silenciosa, rezando mais uma vez para todos esses deuses para que tudo desse certo no fim.
Pov Lynn
Diziam que por amor se era capaz de fazer qualquer coisa. Passei boa parte de minha vida entendendo e realizando essa frase. Primeiro Orion, depois Pedro, Fernanda e Nathan... E talvez, apenas talvez, Scarlet. Por amor eu desafiei meu povo, por amor eu enfrentei perigos que ninguém se atreveria encarar. E por amor eu iria voltar para casa e aceitar o castigo que meu pai tinha guardado e planejado por anos para mim.
Foi uma surpresa descobrir que a picape estava equipada com equipamento de nitro da ultima geração. Não demoramos a chegar a Santos, lugar com o mar mais próximo. Ninguém ousava dizer nada, como se fosse uma preparação psicológica para tudo o que estava por vim. Alexia ia à frente, sendo acompanhada de Nathan que agia como se fosse o seu guardião, o que eu achava particularmente fofo. Era a primeira vez que eu via meu filho propenso a se vincular a alguém, ele sempre foi muito estudioso e dedicado a minha missão. Apesar dos pesares, eu sabia como um vínculo poderia ser poderoso e bom. O iate não era dos menores, mas tinha um design que deixava a imaginar a velocidade que poderia alcançar. Dessa vez Scarlet afastou-se e começou a ajudar a sua pupila, sem ao menos dizer uma só palavra. Eu a estava observando do convés superior, onde estava o leme e alguns acentos.
–Deveria falar com ela – Fernanda comentou aparecendo ao meu lado.
–Não há nada a ser dito – falei, mas parecia que estava tentando convencer a mim mesma.
–Você tem de parar com isso! – Fernanda falou tão brava que eu a olhei surpresa – Deveria parar de enganar a você mesma, porque todo mundo já percebeu e eu sei que você também. A Scarlet deve está tremendo de medo por dentro, sabemos que por trás daquela carapaça toda de pirata destemida há uma mulher que está sofrendo.
–Fernanda não é tão fácil e...
–Claro que é! – ela me interrompeu firme – Vocês duas que estão complicando tudo.
–Ela que não quer falar comigo, eu estou aqui – disse ainda sentindo a teimosia falar mais alto.
–Mãe – Fernanda parecia reunir toda a paciência que tinha – Scarlet perdeu sua família, teve sua aprendiza raptada, e está vendo a mulher que está dando suporte para mantê-la em pé se entregar para alguém que no mínimo vai por de castigo pelo resto da vida por mal comportamento.
A olhei surpresa, afinal momentos atrás ela parecia abalada demais para perceber as coisas que aconteciam ao seu redor. Mas ali estava eu, recebendo conselhos de minha própria filha para parar de agir como uma adolescente teimosa que não queria admitir estar apaixonada. Respirei fundo para tomar coragem e abracei minha pequena como um agradecimento terno e puro. Desci as escadas enquanto Alexia subia junto com Nathan para assumir o comando da embarcação.
–Estaremos próximos da sua cidade com uma previsão de uma hora – Alexia avisou parando no meio de caminho e sorriu – Porque não descansa um pouco? Há dois quartos internos.
–Obrigada.
Desci rapidamente e olhei ao redor, meu coração batia acelerado como se estivesse indo ao meu primeiro encontro. Era a coisa mais tola que eu já fiz, mas me sentia mais... Viva do que nunca! O iate começou a entrar em movimento e eu só fui encontrar Scarlet na proa, encostada no parapeito de segurança e com um olhar perdido e triste que me fez ter uma sensação de querer protege-la de tudo. Mordi meu próprio lábio e pensei em como seria essa conversa. O que eu deveria falar? Como falar? Balancei a cabeça de forma negativa, porque não poderia ser mais fácil? Aproximei da pirata e pensei nas palavras, cogitei minhas ações... E no fim a segurei pelo braço e comecei a puxá-la sem muita delicadeza, indo em direção a uma porta que levava ao interior do Iate.
–O que pensa que esta fazendo? – Scarlet reclamou e tentou puxar o braço, mas eu o apertei ainda mais – Solte-me princesinha!
A ignorei e por sorte encontrei logo um dos quartos, pois sabia que Scarlet logo conseguiria se soltar de mim. Abri a porta e a joguei para dentro do aposento sem muita delicadeza, entrando logo em seguida tratando de trancar o lugar e ligar a luz. O espaço era pequeno, com uma cama estreita de casal e apenas um pequeno armário de duas portas. Encarei Scarlet e ela estava furiosa, o cabelo ruivo bagunçado pela movimentação repentina e minha falta de cuidado ao jogá-la. Meu coração disparou e as pernas ficaram bambas, de repente eu não tinha palavras fortes o suficiente para transpassar a barreira que se criou em minha garganta. Encostei-me à superfície da porta com medo de perder as forças, ah pelos deuses, eu estava mesmo apaixonada!
–O que você quer?! – Scarlet ficou agitada e ríspida – Saia daí para que eu possa sair, isso é o cúmulo!
–Venha me tirar – pedi em um tom baixo e inevitavelmente tímido.
Scarlet estreitou o olhar em dúvida e desconfiança. Ela avançou determinada a me expulsar, eu sabia disso pelo modo como me olhava. Mas eu não podia ainda não é? Então também avancei, a segurei pela cintura e alguns passos para frente consegui nos jogar na cama. Meu corpo sobre o dela, o cabelo vermelho espalhado pelo tecido branco do lençol, o calor que vinha dela... E aquele olhar que mesclava o castanho e o verde estava confuso e tão lindo.
–Eu... – comecei e pigarreei ao escutar minha voz rouca, apoiei minhas mãos no colchão e ergui um pouco o dorso para poder fita-la melhor – Eu vou ficar bem, Sky. Eu vou voltar da Cidade Submersa.
–E o que isso tem a ver com essas suas atitudes loucas? – Scarlet agitou-se embaixo de mim, mas desistiu ao ver que nossos corpos apenas se roçavam mais – Não temos certeza de nada, nem do que seu querido papai é capaz.
–Eu tenho certeza de que vou voltar – dessa vez permiti que minha voz saísse baixa – Porque eu vou voltar para você. Não vai me perder e eu não vou perder você.
Eu pude senti quando ela deixou de respirar, achei extremamente fofo o modo com as bochechas dela coraram. Assim como percebi quando a surpresa dela passou e ela riu nervosa, tentando transformar a situação em sarcasmo.
–Ora essa, a princesinha quer voltar para alguém como eu? Como se fosse uma mulher boba e apaixonada – ela estava me provocando, provavelmente esperando uma retorica furiosa minha.
–Mas eu estou – respondi calma e lentamente.
Aquelas orbes castanho-esverdeado se abriram em choque. Scarlet conseguiu afastar meu corpo do seu e sentou na cama rapidamente, estava ofegante e... Com medo? Sentei ao seu lado, com meu corpo virado para o dela.
–Isso é impossível – ela negou com a cabeça – É só tesão, temos um ótimo sexo. E você já se vinculou duas vezes, isso não deveria acontecer supostamente apenas uma vez?
–Supostamente o meu povo vive séculos de vida se ficar a maior parte do tempo debaixo da água – expliquei ficando um pouco tensa com a reação dela – Orion e Pedro estão... Não estão mais aqui, então é possível sim.
–Não é! Você não está vinculada a mim! – Scarlet segurou em meus ombros com força e me sacudiu um pouco – Volte a pensar, princesa peixe, porque isso é impossível.
–Pare com isso! – afastei as mãos dela e tentei me aproximar, mas a pirata me segurou e jogou na cama, dessa vez sentando sobre minha barriga – O que está fazendo?
–Deixando claro o porque disso é impossível – ela falou com mágoa na voz, além de uma forte irritação — Eu sou uma pirata, não tenho medo de fazer o que é errado se isso no futuro for dar resultado em uma coisa certa. Eu minto, eu roubo, eu mato. Eu não sou delicada, nem romântica, nem uma merda de uma donzela em perigo.
–Sky! – se ela queria me irritar estava conseguindo! Tentei me soltar mas ela apenas me segurou mais forte.
–Eu não sei o que vou fazer amanhã, nunca sei quando vem uma batalha e quando ela vem, eu não penso duas vezes em me jogar na frente dela. Eu sou um guerreiro, não uma mocinha tola apaixonada – ela continuou parecendo não se importar com nada, sua voz era dura e parecia me ferir com cada palavra, mas quando tive coragem de fita-la... Os olhos de Scarlet estavam marejados – Entende agora, princesinha? Eu não sou mulher para você, não pode ter se vinculado a uma coisa como eu. Então é impossível que isso aconteça!
Quando terminou de falar, estava ofegante e passou uma mão rapidamente nos olhos, sentou e respirou fundo em uma tentativa de recobrar o controle. Scarlet começou a sair de cima de mim, mas por impulso eu a segurei pela blusa e sentei a forçando a ficar no meu colo, de frente para mim. Ficamos tão perto uma da outra que eu poderia beijá-la facilmente, tive de engoli em seco para controlar esse desejo insano.
–Sky – chamei com carinho na voz, ela me olhou como a um gato acuado, tão frágil, tão delicada! – Você é uma pirata descarada, irritante, abusada e inconveniente.
–Oh, obrigada? – ela ironizou fazendo força para levantar, mas eu a puxei de novo pela blusa.
–Mas eu te amo – disse sem dúvida alguma ou medo, era tão mais fácil quando aceitava o sentimento – Amo cada defeito seu, amo cada gesto e mania sua, amo a sua força, a sua honra, o jeito como protege as coisas. Amo seus beijos, seus sorrisos marotos, o jeito que meu corpo fica no seu.
–Isso é só desejo, e uma admiração por minha pessoa, porque eu sou mesmo incrível – Scarlet continuou na defensiva, não parecia uma mulher madura, mas sim uma adolescente morrendo de medo do futuro.
–Não se amo muito esse seu lado prepotente também – disse fazendo uma leve careta, mas sorri completamente boba – Mas sabe? Sereias não tem amor platônico, se um vínculo ocorre é porque o outro lado a aceitou. Você me ama também, Scarlet Castillo.
–Não! – ela respondeu fraco, ficando extremamente vermelha.
–Sim – tentei não ri, a soltei apenas para segurar de forma carinhosa o rosto dela entre minhas mãos – E sei que está com medo, você já perdeu muito nesses últimos dias e está sendo forte ao aguentar. Agora estou indo para um lugar perigoso.
–Eu deveria ir!
–É debaixo do mar, suas lindas pernas apenas a atrapalhariam. Eu vou ficar bem, porque sei que você vai estar me esperando com uma piada ridícula na ponta da língua.
–Eu não consegui salvá-los e não posso ir com você. Eu não sei o que fazer, Lynn! – Scarlet finalmente deixou cair suas defesas – Não temos nenhum plano certo, estamos indo as cegas para território inimigo.
–Então acho bom você começar a me beijar logo porque temos menos de uma hora até chegarmos lá. Ou prefere continuar discutindo inutilmente sobre isso e negando para si mesma que não me ama?
Scarlet riu e atirou-se em meus braços, fazendo-me cair na cama com ela sobre mim. Sem mais delongas a ruiva me beijou com sofreguidão e necessidade. Uma veemência digna aos apaixonados que não sabiam do seu futuro. Eu a abracei forte enquanto retribuía ao beijo desesperado por mais e mais. Fernanda estava certa, eu já não tinha mais para onde fugir, ou muito menos ficar mentindo para mim mesma. Amava Scarlet de uma forma profunda que tornava qualquer tipo de carícia algo explosivo em meu corpo. Quando o beijo teve fim, ela olhou-me com um pouco de seriedade.
–Não se atreva a não voltar, ou eu mesmo arranjo um jeito de te sequestrar e não duvide de mim – ela ordenou quando na verdade parecia estar implorando.
–Não se preocupe, esse será meu plano C – aceitei com um sorriso.
–Temos plano A e B? – ela arqueou uma sobrancelha.
–Sim, plano A: beijar-te o quanto puder. Plano B: sair viva da Cidade Submersa. Plano C: aceitar ser resgatada como uma donzela indefesa.
Scarlet riu e deitou ao meu lado, bem juntinho. Ela começou a acariciar o meu cabelo com um carinho tão grande que eu perguntei-me de onde veio a ideia de que aquela mulher não era delicada. Ao menos em momentos como esse.
–Eu te amo, princesa peixe – ela admitiu de repente, com o rosto completamente vermelho e sem jeito.
–Tem razão, você não é nada romântica, precisava me chamar assim? – reclamei apenas um pouco, apesar de meu coração estar batendo alucinadamente contra meu peito, ela poderia escutar?
–Não está exigindo demais não? – ela questionou e eu ergui uma sobrancelha – Deixe-me tentar novamente... Eu... Hum... E-eu te amo, meu amor.
Ela gaguejou? Scarlet nunca ficou tão fofa em sua existência! A olhei por alguns segundos a vendo realmente tímida e com um sorriso sem jeito depois de uma declaração daquelas. Eu não aguentei mais, a agarrei e puxei para mim, para dar vários beijos, de todos os tipos, o quanto pudesse dar. Afinal, esse era o meu plano A.
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