Amor Submerso

24 Capítulo 24: Tia Rita


Notas iniciais
Sem correções, cheguei de festa e tenho resumo pra fazer pra amanhã, cadê coragem pra isso? t.t

Levou quase uma semana para que voltássemos para Fernando de Noronha. Havia reparos para fazer no navio, pessoas e seres para serem curados. Lynn não hesitou em usar de sua magia para ajudar aos membros da Irmandade dos Caçadores, porém era um processo lento por causa da quantidade. Propositalmente minha mãe deixou Scarlet por ultimo, apesar de saber que a ruiva sofria com uma ferida feia que ia do lado esquerdo da cintura até o lado direito do quadril. Elas brigavam o tempo inteiro, por coisas bobas, por estratégias, por se odiarem. Geralmente era Nathan quem impedia que uma nova batalha acontecesse, o que resultava nele às vezes apanhando sem querer. Quanto a mim acabei recebendo algumas aulas intensivas de como falar “sereiês”, a língua do Povo Submerso para fazer os feitiços e encantos mais complicados. Era tremendamente chato e por vezes tinha vontade de me jogar no mar. Coisa que fiz uma vez ou outra para ficar brincando com os golfinhos e tartarugas, aproveitando essa parte legal de meu novo mundo. Dianna virou uma espécie de aprendiz da pirata ruiva, aprendeu sobre as armas de fogo e brancas principalmente em como usá-las. Minha morena estava levando as coisas mais a sério, mas no fim da noite ela sempre ficava comigo olhando as estrelas e conversando. Foi na última noite quando finalmente tocamos em um assunto que era um verdadeiro tabu no momento.

-Amanhã pela manhã estaremos chegando a Noronha – Dianna começou a falar, seu tom cuidadoso e um pouco baixo.

Estávamos no convés inferior, na parte traseira do navio encostadas ao parapeito de segurança. Respirei fundo e fechei meus olhos por alguns segundos, minha mente sendo invadida pelo som das ondas sendo quebradas pelo navio pirata. Senti a mão de Dianna deslizando suavemente pelas minhas costas em uma carícia gentil.

-Eu preciso ver tia Rita. Ao menos para tentar me explicar – comentei incerta, deixando que um suspiro exasperado escapasse de meus lábios – Eles devem me odiar e...

-Uma hora o sentimento passa, então eles ficaram com saudades da loirinha deles – Dianna consolou-me com carinho em seu tom de voz – Eles te amam antes de tudo, isso uma hora irá prevalecer mais que qualquer mágoa.

Suspirei novamente e deixei minha cabeça tombar para baixo em uma verdadeira derrota interna. Queria tanto que tudo desse certo, que eles tivessem orgulho de mim, que me vissem como a menininha perfeita... E agora tinha de mentir, esconder um lado meu por querer protege-los. Meus pensamentos iam ficando cada vez mais depressivos e pessimistas, até que senti um roçar de lábios em meu pescoço causando-me um leve arrepio por todo o corpo. Sorri de lado erguendo minha cabeça para olhar para a minha garota, ela estava tão perto que seu cheiro sobrepunha qualquer outra fragrância. E eu adorava isso, adorava aquele perfume natural que vinha dela, o calor do corpo que sempre me envolvia.

-Eu nunca conseguiria sem você – admiti enquanto passava meus braços pela cintura dela, a apoiando contra o parapeito enquanto ficava a sua frente, bem coladinha.

-Eu não aceitaria esse mundo se não fosse por você – Dianna também admitiu, envolvendo os braços em meu pescoço.

-Agora que pensei... Não vai mais trabalhar no Santuário, o que planejava fazer? – perguntei um pouco curiosa.

-Pode parecer até coisa do destino – Dianna riu e começou a brincar com meu cabelo loiro – Mas eu fiz uma prova antes de você chegar a Noronha para cursar oceanografia em Natal. Como já sou portadora de diploma reconhecido no Brasil não foi difícil, muitas matérias vão ser reaproveitadas o que já me consegue um bom tempo.

-Então... Isso quer dizer... Ah deuses! – eu a abracei bem apertado, rindo em uma sincera alegria – Irá ficar comigo em Natal! Eu estava meio preocupada com esse lance de ter de voltar às aulas, se é que vou voltar, mas você lá em Noronha e eu cá em Natal... Seria muita tortura!

Dianna riu e eu não resisti ao impulso de beijá-la. De inicio foram vários selinhos em meio a risos e sorrisos, mas logo ela capturou meus lábios e iniciou um longo beijo. Era um daqueles lentos, sem pressa em passear a língua em uma exploração gostosa pela boca, com brincadeiras e mordidas no lábio. Durante toda a semana foi assim, apenas beijos e provocações, eu estava cada vez mais necessitada de mais, dos gemidos que sabia que conseguiria se... Mas Dianna afastou-me assim que sentiu o beijo ficar mais animado.

-Aqui não – ela negou e sorriu má – Qualquer um deles poderia nos flagrar.

-Mas... – resmunguei alto e fiz beicinho pidão – Eu preciso de você, de seu corpo estremecendo e...

-Não faça isso comigo – Dianna tampou minha boca com a mão – Quando chegarmos a Noronha teremos nosso tempo, nossos momentos. Você será só minha por longas horas e... E...

Ela perdeu-se nas palavras fitando minha boca. Segurei o rosto dela entre as mãos, aproximei meus lábios, porém não toquei nos de Dianna. Apenas alguns milímetros nos separavam de um beijo que prometia ser intenso. Propositalmente deixei escapar um pouco de meu fluxo, a escutei gemer longamente, fechar os olhos e inclinar-se pronta para me agarrar... Porém afastei-me subitamente, quase a fazendo cair para frente já que ela esperava apoiar-se em mim. Dianna fitou-me com os olhos verdes surpresos e incrédulos, com um desejo insatisfeito.

-Em Noronha – sorri travessa e má – Não é isso que disse?

-Você vai me pagar por causa disso! – Dianna ameaçou com certa raiva, completamente frustrada.

-Estarei esperando até mesmo com jurus adicional – continuei a provoca-la.

Dianna resmungou contrariada e se afastou a passos largos sem nem ao menos desejar-me boa noite. Ri baixo demorando-me um pouco mais ali, encarando ao horizonte do mar que se encontrava com o véu escuro da noite. Comecei a pensar que minha vida nunca mais seria a mesma, por mais que eu quisesse manter o meu lado “normal” e humano, algo desse novo mundo iria bater em minha porta e pregar-me uma surpresa. Suspirei alto sentindo minha determinação tremular ao imaginar como seria recebida pelos Fontaine, estava preparando-me para o pior e ainda assim temia as duras palavras que sabia que iria escutar.

{...}

O navio ficou ancorado a uma boa distância do arquipélago de Fernando de Noronha, no ponto onde não havia ilhotas ou qualquer rota que denunciasse a presença onipotente daquele navio pirata. Para minha surpresa, dentro da embarcação havia pequenas lanchas e até mesmo motos, segundo Scarlet estaria preparada para qualquer situação que aparecesse. Poucos deixaram o navio, apenas a pirata ruiva e Dante ousaram sair e nos acompanhar em apenas uma única lancha guiada pela capitã.

-Já pararam para pensar onde ficaremos? – Scarlet perguntou enquanto pilotava em direção ao cais.

-Tenho uma casa – Dianna logo se prontificou, estava sentada ao meu lado – Mas não é tão espaçosa.

-Isso não será problema. Nathan, pegue o tesouro da caverna e converta para a moeda humana – minha mãe ordenou sutilmente ao meu irmão, mas a todo momento mantinha-se com os olhos atentos para o mar – Você já foi mais competente, Scarlet. Ainda não recebemos a pronunciação do líder declarando este território da Irmandade.

-Quantas vezes eu vou ter de repetir que as coisas aqui na superfície estão mais complicadas? Ainda lembra como falar a língua dos humanos ou passou muito tempo com os peixinhos? – a pirata respondeu ríspida, haviam discutido a semana inteira sobre coisas parecidas, eu já havia desistido de tentar tomar partido – Não se preocupe, se tiver algum ataque irei proteger esse lindo traseiro que você tem.

-Mais respeito humana insolente!

-Seu traseiro ainda continua sendo lindo, não importa o que diga.

E começaram tudo de novo. Revirei os olhos e cruzei os braços passando a olhar para o céu sem nuvens. Escutei um barulho ao meu lado e não precisei checar quem sentou ao meu lado, Nathan sempre tinha o mesmo cheiro salgado. Não era ruim, mas único dele.

-Se fraquejar estarei ao seu lado – Nathan murmurou para mim.

Lancei um olhar para meu meio-irmão. Essa semana ele havia se dedicado ainda mais a mim, ficava ao meu lado ensinando, sendo paciente e suportando toda a minha tendência em irritá-lo quando estava com tédio. Naquele momento eu o admirava e amava como a um irmão de verdade, como se ele tivesse crescido junto comigo e o Eric. O que era estranho já que nos conhecíamos a tão pouco tempo. Foi inevitável sorri com carinho para ele, Nathan estava com uma sincera preocupação quanto a mim e isso o fazia um verdadeiro fofo.

-Você sempre vai ser minha cavalaria – falei sorrindo mais ainda – Mais que isso, somos uma família agora.

Nathan sorriu sem jeito e ficou ali do meu lado desde então. A única figura que parecia mais deslocada era Dante. Ele usava uma espécie de toca para cobrir suas orelhas pontudas e ao que parecia tinha posto lentes de contato azuis para esconder a coloração de seus olhos. Eu pouco sabia sobre ele, apenas que era um membro do Povo da Floresta. Segundo Lynn seria algo bem próximo ao que nós humanos conhecíamos como elfos ou druidas, o que tornava mais estranho as coisas. O que um ser da terra estaria fazendo no mar?

Minhas ponderações sumiram quando avistei a formação do arquipélago de Fernando de Noronha. Em poucos minutos estaria em areias que eu já não sabia se seria bem recebida. Institivamente busquei a mão de Dianna, ela entrelaçou nossos dedos e a senti apertar nossas palmas. Os ombros dela estavam tensos, seu olhar esverdeado levemente perdido na praia cada vez mais próxima. O porto estava a poucos metros quando um piado alto fez todos nós olhássemos para o alto. Um majestoso falcão peregrino estava se aproximando, o animal que servia como mensageiro entre os membros da Irmandade. Scarlet sorriu e pegou de um compartimento da lancha uma luva que ia até pouco abaixo de seu cotovelo. Ela esticou o braço dobrado e assoviou longamente atraindo a ave até que ela pousasse em seu braço erguido.

-Vamos ver as notícias – a pirata falou tirando da pata do falcão um pequeno dispositivo cilíndrico.

Ela clicou e de sua palma apareceu um holograma de um homem encapuzado. Aquilo era um gravador de mensagens, ficou muito famoso no ano passado. A tecnologia nunca havia parado de evoluir e isso agora me assustava, o que aconteceria se o mundo fosse totalmente dominado pela ciência?

-Scarlet Castillo, recebi o seu pedido e fiquei surpreso – o homem encapuzado começou a falar, sua voz era metálica e impossível de ser reconhecida como humana, provavelmente distorcida por um programa vocal – Seu pedido foi aceito com a condição de receber um relatório mais detalhado do que está fazendo. Espero que não se repita a situação do Mediterrâneo.

-Ele nunca vai esquecer isso – Scarlet revirou os olhos falando mais consigo mesmo.

O holograma desapareceu e a mulher ruiva guardou em seu bolso o cilindro. A boa notícia era que todos ali estavam aparentemente normais, vestindo roupas comuns aos humanos. Se bem que Scarlet trajava um vestido mais curto do que o esperado e minha mãe uma calça tão colada que definia mais do que bem suas pernas humanas. No fundo acho que uma estava provocando a outra.

Finalmente chegamos, Dante desceu primeiro indo falar diretamente com um dos guardas. Ajudei Scarlet a ancorar a lancha e amarrá-la enquanto observava o garoto falando baixo com o homem. Mas então o senhor pareceu perder o foco de seus olhos e começar a balançar a cabeça como se estivesse concordando sem nem entender o que estava fazendo.

-O que está acontecendo? – perguntei franzindo o cenho desconfiada.

-Um dos maiores perigos do Povo da Floresta. Eles possuem uma persuasão muito grande, podem facilmente induzir a um humano desprevenido a fazer o que quiser – Nathan explicou ao meu lado, seus olhos também mostravam certa desconfiança.

-Dante é um bom garoto – Scarlet interferiu terminando de dar o laço – Basta saber disso e pronto.

Por hora deixaria isso para lá. Não confiava nem mesmo naquela pirata, quanto mais em um de seus subordinados. Ajudei Dianna sair da lancha e juntas encaramos um pouco a ilha. Começava a pensar se era mesmo certo voltar para ali tão cedo.

-Irei até a caverna – Nathan anunciou olhando para Lynn – Voltarei em menos de duas horas com o dinheiro necessário para que nos mantenhamos em terra.

-Tome cuidado, a declaração é recente apesar de já está valendo – minha mãe falou com aquele tom protetor maternal.

Nathan apenas balançou a cabeça, afastou e se jogou no mar em um belo mergulho. Dante retornou com um sorriso vitorioso, não foi preciso muito para saber que ele tinha conseguido sem muito esforço a licença para que a lancha ficasse no porto. Só então seguimos para uma concessionária que ficava ali perto do porto para que os turistas pudessem alugar carros assim que chegassem à ilha. Uma angústia ia crescendo a cada passo que eu dava, precisava resolver logo as minhas questões ou iria enlouquecer.

-Vocês vão com Dianna – decidi e recebi um olhar confuso de minha morena – Preciso conversar com tia Rita. Sei que tio Saulo e Eric não irão me escutar, mas... Não quero que minha tia pense que eu a abandonei sem nem ao menos ligar para ela.

-Certeza que não quer que eu vá com você? – Dianna questionou tentando me apoiar.

-Não, é algo que eu preciso fazer só. Só vou ali no telefone público ligar para Amanda para descobrir como andam as coisas por aqui já que no meio dessa confusão toda esquecemos nossos celulares em Angra.

-Amanda? – Dianna olhou-me mais séria, porém respirou fundo como se lutasse contra o ciúme, ela sabia que não era o momento para isso – Dê um jeito de me avisar de que está bem, se não entrar em contato em uma hora eu vou ir atrás de você.

-Hoje em dia se confundem babás com namoradas? – Scarlet interferiu com uma cara de tédio – A sereiazinha sabe se virar Dianna.

-Nem por isso deixo de me preocupar – Dianna fitou Scarlet dura.

A pirata deu de ombros e entrou com Dante na consecionária para resolver as coisas. Abracei minha mãe antes de seguir pela rua até a esquina mais próxima onde havia um orelhão moderno. Disquei o número que tinha decorado em minha mente na tela de touch e esperei apenas até a quarta chamada para escutar a voz de minha melhor amiga no momento.

-Amandinha? – chamei incerta.

-FERNANDA! – Amanda quase gritou – Meu Deus, você está a onde? O que aconteceu? Sua filha da puta, eu disse que não era para me assustar desse jeito!

-Eu também te amo – ironizei e olhei para os lados com medo de que Dianna de alguma forma tivesse escutado aquilo, sorri de minha idiotice e suspirei – Acabei de chegar aqui na ilha, estou com alguns conhecidos e metida em uma pequena encrenca.

-Bom que seja o fim do mundo, porque se não for você está causando o apocalipse! – Amanda brigou do outro lado – É verdade o que dizem? Que você fugiu com a Dianna?

-Em parte – respondi sincera e mordi o lábio hesitando – Preciso saber como estão as coisas aqui e principalmente como está tia Rita, preciso falar com ela. Sabe que eu não vou ficar em paz se não souber como ela está.

-Não deveria estar dizendo essas coisas para você, não sei no que está se envolvendo, mas parece terrivelmente errado. Você está machucando as pessoas Fernanda.

-Eu sei... E sinto muito por isso, faria de outro jeito se soubesse como.

-Sei que é uma boa menina Fer, só estou preocupada. Olha... Rita está melhor, saiu do hospital e está triste. Eric está mudado, todos os dias encontro ele enchendo a cara em algum bar. Sobre Saulo pouco sei, não o tenho visto.

-Obrigada Amanda, você está se mostrando alguém incrível sabia?

-Não costumo aceitar bajulação, mas você está começando bem. Só espero está fazendo o certo em confiar em você. E se cuide com a Dianna, faça valer o que você fez para que seu primo possa superar as coisas.

-Essa é a mulher de minha vida Amanda, dessa vez é pra valer – disse toda boba, finalmente sorrindo.

-Nem parece a Fernanda que eu conheço, está mesmo ferrada meu bem porque está amando, meus pêsames!

Ri baixo e desliguei o telefone. Tomei a coragem que não tinha e peguei um táxi para o Hotel. Minha perna não parou quieta, balançando rapidamente denunciando todo o meu nervosismo. O que eu iria dizer? Como eu iria explicar? Como não magoar a pessoa que foi minha mãe por tanto tempo? As dúvidas me fizeram perder a noção de tempo, minha sensação foi de que apenas dois minutos tinha se passado quando o táxi parou enfrente ao hotel. Paguei com alguns trocados que tinha posto no bolso e sai encarando o lugar que um dia foi o paraíso para mim, o meu lar. Olhei para os lados e achei um poste com um relógio digital que marcava dez paras onze da manhã. Naquela hora tio Saulo estaria em vistoria para ver se os empregados estavam fazendo tudo certo enquanto tia Rita estaria no escritório revisando a contabilidade. Não teria coragem de entrar pela porta da frente, mas conhecia aquele hotel na palma de minha mão.

Então fui para a lateral até chegar em um beco que separava um dos muros do hotel de uma outra construção. Foi fácil escalar e saltar para dentro da propriedade, meu corpo estava cada vez mais acostumado com esses movimentos atléticos. De forma quase que sorrateira comecei a caminhar pelo jardim dos fundos com medo de ser pega e alguém acabasse criando um escândalo pela surpresa de me encontrar. Segui pela sombra, parando umas duas vezes para me esconder de alguma camareira que passava para o depósito não muito distante. Demorei cerca de dez minutos para chegar a onde queria, ainda nos fundos do hotel há dois andares acima ficava o escritório administrativo. Olhei para os lados, tomei um pouco de distância, corri e saltei para a parede me agarrando em uma dobra pequena. Essa parte foi nada fácil já que não havia muito onde me apoiar, porém não chegava a ser difícil, apenas demorado. Logo estava passando minhas pernas para dentro da sacada do escritório.

Assim como imaginei tia Rita estava lá, sentada na cadeira de rodas com o corpo inclinado para o seu ultrabook enquanto tocava música baixinho do rádio ao seu lado. Tia Rita odiava o silêncio. Respirei fundo, ajeitei minha blusa e passei a mão em meu cabelo com uma necessidade de parecer pelo menos apresentável. Caminhei até a porta de vidro que separava a sacada do escritório e em um movimento lento e silencioso a puxei para o lado. Tia Rita não percebeu minha entrada.

-Sabe que se ficar muito tempo assim terá dor nas costas – comentei tentando parecer calma, mas meu coração estava disparado quando finalmente me pronunciei.

Tia Rita quase saltou da cadeira. Levantou bruscamente fazendo com que a cadeira de rodas deslizasse para o lado, virou o corpo tão rápido que o óculos de descanso que ela usava quase saltou de seu rosto. Fiquei completamente apreensiva, recuando um passo enquanto tentava decifrar aquele olhar sobre mim. Mas tia Rita pós as mãos sobre os lábios e seus olhos lacrimejaram em total sinal de uma mãe que reencontrava o seu filho perdido. Ela avançou e me abraçou com força.

-Eu estava tão preocupada! – ela murmurou chorosa enquanto me apertava.

-Não está brava comigo? – questionei confusa, mas terrivelmente aliviada com aquele abraço.

-Claro que sim! – ela exclamou com certa raiva – Você fugiu com a namorada de meu filho e não se dignificou a dar um telefonema, desligou o celular e simplesmente sumiu!

-Desculpe pelo que eu fiz com o Eric – pedi afastando-me dela envergonhada – Eu lutei contra, eu juro!

-Eu sei que lutou pequena, eu estava vendo seu esforço de longe. Quando ficou trancada no quarto eu tive apenas certeza do que estava acontecendo – Tia Rita falou e respirou fundo como se estivesse cansada – Não vou menti e dizer que está tudo bem, porque não está. Saulo está tão decepcionado que esteja seguindo os passos de seu pai e desaparecendo assim. Eric está com o coração partido e não sabe como lidar com isso.

-Perdão – pedi mais envergonhada que nunca, abaixando a cabeça sem conseguir fita-la mais – É tudo culpa minha.

-Mas você também é minha filha – tia Rita disse firme fazendo-me encará-la com certa surpresa – Estou com mais raiva por ter sumido e me deixado aflita do que pelos seus atos. Você precisa ser feliz também e se Dianna que sempre foi uma moça direita ter ido atrás de você imagino que também esteja apaixonada pela minha menina.

-Ela está – disse com uma certeza que me surpreendeu – Eu sei que sim, ou não sonharia em fazer o que estou fazendo.

-Vamos nos sentar? Terá uma chance de me explicar às coisas – Tia Rita chamou e me puxou delicadamente pelo braço – Quero saber absolutamente tudo.

Respirei fundo e a segui, não poderia contar tudo, mas uma boa parte. Foquei minha conversa principalmente no que tinha acontecido entre mim e Dianna como uma forma de tentar mostrar que eu tinha mesmo tentado resistir. Não teria como explicar o porque de estar sumindo, ou tentar falar que tinha encontrado a minha mãe. Tia Rita sabia que eu escondia algo, podia sentir pelo jeito que me olhava e pelas perguntas que fazia sempre que eu deixava uma brecha muito grande nos acontecimentos. Aproveitei para perguntar o que realmente havia acontecido com ela e ao que parece foi uma forte recaída por causa do estresse, pressão baixou drasticamente e não queria subir novamente por um bom tempo.

-Entendo porque Saulo está assim, você está agindo que nem seu pai – Tia Rita falou e segurou minhas mãos – Pedro era um homem muito bom, dedicado aos seus estudos e princípios. Mas nos seus últimos anos antes de... Acontecer o que aconteceu, ele mudou, ficou com segredos e sumindo de repente. Seu tio está com medo de que você esteja seguindo os passos dele e...

-E eu estou – a interrompi apertando as mãos dela – Há algo em minha vida que precisa de uma solução, que não posso falar.

-Você não precisa. Você pode deixar isso, namorar a Dianna e ficar conosco, onde é seguro!

Eu podia ver o apelo de tia Rita estampado em seus olhos. Ela tinha razão, eu poderia desistir de tudo e viver ali. Dianna ficaria irritada, iria me seguir? Porém ali, com minha família humana, poderia me sentir segura e com certeza do que iria acontecer no dia seguinte. Mas eu não podia, havia me comprometido com a Irmandade dos Caçadores. Não iria abandonar minha mãe e Nathan que tinham desistido de tudo por minha causa. Mesmo que eu não tivesse pedido por essa vida as coisas estavam acontecendo, negligenciar isso apenas seria a coisa mais errada que eu poderia fazer. Então eu sorri fraco, lançando um olhar de culpa para a senhora que foi minha mãe em terra.

-Eu não poderia fugir disso, não sou covarde. Irei enfrentar do jeito mais sábio, do jeito que eu aprendi com minha tia que foi uma verdadeira mãe para mim – falei determinada, porém respirei fundo – Eu sinto muito pelo tio Saulo e Eric, nada irá tirar essa culpa de mim porque o que eu fiz foi errado, mesmo que por amor.

-Irá demorar para que eles entendam, para que até mesmo eu aceite – Tia Rita avisou e tentou mais uma vez – Seria mais fácil se você ficasse presente, que mostrasse a ele que ainda é a nossa menina e...

-Mas eu não sou. Eu mudei e nunca mais serei como antes. Ainda assim sou a menina de vocês, com os meus princípios... Porém com um novo destino – tentei explicar, levantei e encarei a porta da sacada – É mesmo triste ter de entrar pela porta dos fundos em um lugar que foi meu lar por muito tempo.

-Se continuar nesse caminho será assim por tempo desnecessário, você pode concertar isso querida se...

-Não vou voltar atrás tia Rita. Sinto muito decepcioná-la nisso, há coisas agora que eu tenho de fazer. Porém precisava me explicar com você, saber que estava bem para que eu pudesse continuar.

-Eu não entendo se está tão preocupada porque está fazendo isso?

E ali estava, a confusão misturada com uma leve decepção. Pelo menos não fui crucificada. Mordi o canto do lábio sem respondê-la, então me inclinei e depositei um beijo terno na bochecha de minha tia, murmurei um adeus e fui novamente para a sacada. Dessa vez para descer foi bem mais fácil, apenas fui até o primeiro andar antes de saltar. O impacto deixou meus pés formigando, mas nada que não passasse. Enquanto caminhava algumas lágrimas estavam caindo teimosas, em meu peito era como se a dor fosse similar a uma quebra. Estava rompendo com minha família para viver essa nova vida, de certa forma era como se eu os deixasse para sempre. Ao menos eu estava me sentindo assim.

Notas finais
Para os românticos de plantão peço apenas um pouco de paciência, logo postarei mais partes solove