Amor Submerso
22 Capítulo 22: O resgate
Notas iniciais
-O que aconteceu com minha mãe e Nathan?
Já havia nos afastado o suficiente para a casa ter sumido de nossas vistas. Meu corpo tremia, as emoções vinham descontroladas e confusas. Apenas um foco me mantinha sã naquele momento: salvar minha mãe e Nathan. Scarlet ia séria a nossa frente, diferente daquela pirata salafrária que conhecemos no dia anterior.
-Recebemos um comunicado mais cedo – Scarlet explicou sem tirar os olhos da estrada, indo para o porto mais próximo – O Povo Submerso haviam capturado dois traidores, um homem e uma mulher. Demorou um pouco para que mais informações chegassem, não há duvidas de que são Lynn e Nathan.
-Mas como? – Dianna estava mais controlada do que eu – Até onde eu sei dessa história, Lynn está muito bem escondida e Nathan a protegeria.
-Ontem quando vocês duas estavam na caverna, uma pulsão de energia se passou por todo o território. Era como uma onda invisível que anunciava que um grande poder havia sido revelado. Foi assim que pudemos encurralar vocês. Sua mãe deve ter associado às coisas e pensado que estava em perigo. Aquela tola é bem capaz de se por em risco para proteger aos seus – Scarlet explicou e resmungou no final – Se tivesse confiado em mim desde o princípio já estaríamos próximos deles.
-Por favor, você não deve confiar em você mesma! – acusei com raiva, estava cansada e frustrada.
Scarlet olhou-me um pouco surpresa e deu de ombros.
-É verdade, está certa – a pirata admitiu e parou bruscamente o carro quando chegamos ao porto.
-O que te faz querer ajudar? – Dianna perguntou desconfiada.
-Eu devo uma àquela sereia – Scarlet explicou rapidamente – E assim vocês vão ficar me devendo também, uma mão lava a outra e podem ter certeza que eu irei cobrar. Agora vamos, não temos mais tempo a perder.
Saímos do carro em disparada até uma velha lancha. Scarlet a todo o momento estava no comando. Se não estivesse com tanta raiva daquela ruiva prepotente, admiraria o jeito orgulhoso e decidido dela. A pirata usava roupas similares a do dia anterior, calças apertadas, botas de cano alto, espartilho com uma blusa de mangas folgada e preta. O cabelo era de um vermelho escuro, nada daquele ruivo cor de cenoura.
Dentro da lancha me permiti desabar no chão e me perder em pensamentos. Dianna tentou se aproximar, mas fiz que não com a cabeça. Precisava ficar só com meus pensamentos, reconstruir toda a minha determinação para não afundar em um mar depressivo que ficava cada vez mais violento dentro de mim. Dianna então se aproximou de Scarlet, mesmo distante eu podia escutar a conversa entre elas.
-Você é humana, certo? – Dianna perguntou desconfiada.
-Uma legítima! – Scarlet exclamou relaxada – São raros os humanos nesse meio, mas já fomos muito mais ativos, principalmente nos séculos passados.
-A Irmandade dos Caçadores, o que é? – Dianna não havia baixado a guarda, ainda encarava a ruiva de uma maneira desconfiada e determinada em não se mostrar inferior.
-Somos caçadores do Povo das Sombras. E de certa forma similar à formação deles, não temos restrição para as raças. Porém neste século estamos muito fracos em números, o Povo das Sombras está se fortalecendo ainda mais e sempre que isso acontece grandes desastres estão por vim.
-Se seguem um propósito tão bom, porque é uma pirata?
-Porque precisamos sobreviver de alguma forma – Scarlet riu alto – Não me julgue bonitinha, sou especialista em seres do mar, não passo muito tempo em terra. Então como meu trabalho não é renumerado, não me resta escolhas a não ser roubar.
-São apenas você e os seus piratas? São tão poucos...
-Não somos em tão pouco número. Somos formados em grupos e alguns preferem até mesmo trabalhar sozinho. Porém temos regras e acordos, qualquer descoberta ou feito é anunciado para todos. Os outros Povos são obrigados a nos aturar já que somos a única linha de frente propriamente dita contra os seres das Sombras.
Perdi-me um pouco na conversa. Tinha suspirado e voltado a encarar o mar tentando consolar-me. Mas era praticamente impossível, a dor de ser exilada de sua família era a maior de todas. Minha mente era invadida por cenas daquela manhã, pelos olhares decepcionados e cheios de dor de Saulo e Eric. Abaixei minha cabeça e chorei em silêncio, despejando nas lágrimas todo o momento que eu tinha para desesperar-me por isso, pois logo estaria completamente concentrada em minha nova família.
Demoramos cerca de vinte minutos para alcançarmos o navio de Scarlet. Era um verdadeiro navio pirata, feito de madeira escura e com velas negras, além de um mastro com a bandeira com caveira. Era enorme e com um ar de velho, mas isso não parecia tirar a potência dos canhões a bordo e muito menos duvidar de sua capacidade. Subimos por uma escada lateral, eu atrapalhada por natureza quase cai uma duas vezes. Dianna subiu primeiro e entrou no convés a minha frente, voltou o corpo para mim e ofereceu a sua mão. Não hesitei em pegá-la e ser ajudada. Assim que pisei no convés suspirei de alívio por não ter caído.
-Estou me sentindo no filme antigo, aquele do Piratas do Caribe – Dianna disse olhando ao redor.
E ela não poderia estar mais certa. Homens e poucas mulheres andavam de um lado para o outro pelo convés. Alguns até agradáveis em aparência, outros tão horríveis quanto nos filmes. Eles usavam calças ou bermudas, blusas folgadas ou abertas, todos como se tivessem fantasiados. Scarlet já se encontrava no convés superior, perto do parapeito de segurança lançando ordens com um jeito firme e autoritário.
-Vamos para o norte, icem as velas principais, mantenham o curso sem erros! – ela gritava sem medo daqueles homens – Mão-Torta, cuide da munição, talvez entremos em batalha. Maçã Louca, verifique nosso arsenal! Gato Preto, ajude ela a distribuir as armas. Senhoras e Senhores, hoje vamos bagunçar!
-Espero não ganhar um apelido desses – murmurei entretida com o movimento todo no navio.
-Garotas, subam aqui! Vamos para a minha cabine – Scarlet ordenou e virou sem esperar por nenhuma resposta nossa.
Dianna olhou-me e deu de ombros, seguiu um pouco mais a frente para subir a escada que dava acesso ao convés superior. Porém seu caminho foi bloqueado pelo homem grande que ela derrubou na Ilha Grande. Ele a olhava desconfiado, de braços cruzados e com a boca comprimida.
-Foi uma boa luta, senhorita – porém o homem falou educado – Fazia tempo que não levava uma surra de uma donzela.
-Foi pura sorte – Dianna respondeu e sorriu de lado – Poderia nos dar licença?
-Aproveitem sua estadia no Canção Fúnebre – ele deu espaço para que nós seguíssemos.
Aquele era o nome do navio? Mordi o lábio para não acabar rindo e ser interpretado como falta de respeito. Dianna segurou minha mão e me levou até o convés superior, seguindo alguns passos até encontrar uma cabine especial e enorme, obviamente a da capitã do navio. Ela bateu uma vez na porta antes de entrar. Mais do que nunca me senti dentro de um filme de piratas. A cabine era totalmente decorada com coisas exóticas, com uma mesa redonda no centro com um mapa digital, o que contradizia aquele ar rústico. Havia uma cama de casal ao fundo com direito a um dossel vermelho e almofadas em diferentes formatos. As paredes eram cobertas com itens estranhos, desde estátuas, quadros pintados em modo tribal à armas brancas como espadas e lanças.
-Bem vindas – Scarlet abriu um sorriso – Estaremos perto da área deles em menos de uma hora. Canção Fúnebre é o navio mais rápido que existe apesar de não aparentar.
-O que mais precisamos saber? – perguntei agitada, agora deixando todo o encanto do navio pirata ser substituído pela ansiedade – Como sabemos para onde eles estão levando minha mãe e irmão?
-É só usar a lógica, estou nesse ramo desde pequena – Scarlet aproximou-se da mesa com mapa digital, apertou um botão e um holograma digital apareceu revelando um mapa flutuante e de última tecnologia – A cidade do Povo Submerso fica nessa direção e aqui está Fernando de Noronha – ela apontou para os dois lugares e eles ganharam um zoom, uma rota em vermelho apareceu trançando os dois lugares – Essa é a rota mais segura e usada pelo Povo Submerso quando eles saem da toca. Então é só calcular o tempo e distância e temos uma noção de onde encontra-los no meio de caminho.
-Quantos serão? Como vamos lutar embaixo da água? – Dianna perguntou apoiando as mãos na mesa para olhar melhor o mapa.
-Nós não vamos – Scarlet negou com a cabeça, recebendo um olhar duro de Dianna – É uma luta debaixo do mar, não teríamos vantagem nenhuma. Nossa luta vai ser diferente morena.
Scarlet fez um movimento com as mãos que reduziu o mapa e o aproximou de um ponto vermelho que ficava piscando rapidamente. Ele parecia seguir um trajeto também indo em direção a rota onde o Povo Submerso estava.
-Isso quer dizer que o Povo das Sombras também está indo para lá – Scarlet explicou de um jeito calmo, mas não escondendo o perigo – Vamos trazer a luta para cá enquanto a pequena sereia vai a resgate da princesinha.
-Isso é muito arriscado – Dianna ponderou e fitou-me séria – Para nós duas.
-Por isso eu tenho um plano – Scarlet sorriu convencida.
Ficamos ali por quase meia hora, planejando e discutindo, qualquer dúvida sobre coisas a parte ficaria para depois. Scarlet era teimosa, mais experiente e se irritava facilmente. Mas quando tínhamos razão em algum ponto ela recuava prontamente. Fui obrigada a suprimir toda a minha angústia em relação a minha família em terra. Não havia espaço para isso agora, uma nova batalha estava para acontecer e pior ainda, eu estaria no mar e Dianna ali, naquele navio. Scarlet teve de me garantir umas cem vezes que ficaria por perto de minha morena e Dianna reclamou lembrando-me que não era uma donzela em perigo. Era algo automático preocupar-me com ela, porque Dianna não entendia isso? Os outros minutos restantes foram de pura preparação. A pirata ruiva levou Dianna para o convés inferior e a ensinou alguns golpes básicos e a manipular uma espada já que armas de fogo ela já sabia. Sempre acabava esquecendo que o pai dela era um militar aposentado.
-Eu tenho uma dúvida – perguntei as observando apreensiva – Porque se vestem e usam armas antigas?
-Estilo – Scarlet tirou a arma de fogo do coldre – Tradição. Apesar da aparência essa é uma arma semi-automática que compete com as melhores armas do exército. A munição é especial e não vamos nos esquecer que estamos lidando com seres tão antigos quanto o mundo. As vezes uma espada com o metal certo faz mais efeito do que uma arma de fogo automática como uma metralhadora.
-E essas roupas? Também ajuda a derrotar os monstros? – não resisti a ironia.
-Um grupo precisa de uma marca, ser reconhecido onde passar, isso eleva o ego e melhora o desempenho. Meu pai começou essa tradição e eu a continuei com alguns toques modernos – Scarlet deu de ombros e cruzou os braços – Mais alguma questão? Ou a inquisição sem necessidade já acabou? Juro que estou tentando ser paciente porque você é filha de Pedro.
-Estamos nos aproximando! – gritou um garoto que mal aparentava ter 16 anos, suas orelhas eram pontudas e seus olhos cor de violeta, obviamente não era humano, ele estava no topo de uma vela com um binóculo em mãos – Tem uma mancha negra vindo, em quinze minutos vamos chocar com ela.
-Está na hora. Fernanda você tem de lembrar e seguir o plano, entendido? – Scarlet aproximou-se de mim – Não se esqueça de nada, o importante não é vencer a batalha, mas sim libertar sua mãe, ela saberá o que fazer depois.
O garoto de orelhas pontudas saltou de lá do alto e pousou ao nosso lado graciosamente, como se não houvesse gravidade que o fizesse impactar no chão. Scarlet entregou para ele um colar e uma adaga com um brilho vermelho estranho em sua lâmina.
-Esse é Dante, ele irá ajuda-la no plano – Scarlet planejou – Não irá vê-lo, mas terá de fazer sua parte mesmo assim.
-Entendido – falei quase batendo continência, o nervosismo quase me fazia tremer.
-Hey – Dianna segurou meu braço e me puxou para longe deles para que tivéssemos um momento só nosso – Tome cuidado ok?
-Você também, não confie tanto naquela pirata – disse com um nó na garganta.
Dianna balançou a cabeça e me abraçou com força ao mesmo tempo em que beijava meus lábios, um beijo rápido demais para o meu gosto. Mas assim que nos afastamos ela sorria para mim.
-Um beijo de boa sorte. Volte para mim, meu amor – ela murmurou sem se afastar.
-Fique inteira, ok?
Afastei-me a contra gosto. Dante ficou em pé sobre o parapeito pronto para saltar, em sua boca um modelo de respiração embaixo da água que nem os que tinham no Santuário. Porém ele parecia ainda mais potente. O garoto olhou-me um pouco sério, acenou com a cabeça e colocou o colar. Seu corpo começou a desaparecer aos poucos, como se fosse desintegrado lentamente. Ele ficou invisível! Escutei um barulho de algo caindo no mar e soube que ele tinha saltado. Respirei fundo e lancei um último olhar para Dianna, ela estava séria, com uma espada embainhada na cintura parecendo uma verdadeira pirata. Ao seu lado estava Scarlet, com os braços cruzados e um sorriso soberbo no rosto.
-Diga a Lynn que ela continua a mesma donzela mimada de sempre, ainda precisando de mim para fugir de casa – Scarlet pediu em tom de pirraça.
Revirei os olhos e subi no parapeito. Apesar de todo o balançar do navio eu conseguia me equilibrar facilmente. Estava prestes a pular quando escutei um chamado de Dianna:
-Hey! – ela gritou e me fez olhar por sobre o ombro, ela sorriu fraco – Eu te amo!
-Quanta fofura – ironizou Scarlet ao seu lado revirando os olhos.
Ri baixo e encarei o mar. Estava pronta, ou melhor, eu tinha de estar. Preparei-me e saltei de um modo elegante para a água. Assim que mergulhei alguns metros encarei minhas pernas. Respirei fundo e desejei, mesmo que ainda não gostasse disso, que elas tomassem a forma de cauda de peixe. Alguns segundos depois minhas pernas se juntaram como se uma força maior amarrasse uma à outra. Pequenas gotículas de luz se formaram sobre minha pele e sobrepôs minha bermuda, dando lugar assim a minha parte sereia. A cauda continuava a mesma, azul e com variações de roxo e lilás. Lembrei-me de que dessa vez não podia me atrapalhar nos movimentos então mantive em mente que agora minhas pernas estavam juntas, então seria apenas uma mobilidade de nado diferente. Tentei mover-me uma vez e a cauda respondeu de forma correta, suspirei de alívio fazendo com que penas bolhas de água escapassem de minha boca. Tirei a minha blusa e vi que as tatuagens estavam azul-esverdeadas e não lilás como antes. O que era ótimo já que em primeira instancia eu deveria aparentar ser apenas uma sereia.
Agora só bastava nadar para minha mãe e irmão, provavelmente tendo de enfrentar um exercito real. Movimentei-me com mais facilidade, na verdade era muito mais fácil e rápido nadar daquela forma. Como Scarlet havia previsto, bastou que eu seguisse o som de uma grande movimentação debaixo da água. Não levou mais que dois minutos para que eu os encontrasse.
Era um grupo de seis, incluindo Nathan e Lynn. Eles estavam presos em uma espécie de corrente interligada e brilhante, denunciando ser mágica. As correntes envolviam seus pulsos e se esticavam até o pescoço, seus olhares estavam baixos como se as correntes pesassem. Ao lado deles estavam dois tritões armados com espadas. Uma sereia ia atrás para cobrir a retaguarda e ela tinha em mãos uma espécie de cajado. A frente ia outra sereia, séria e de cabelos castanhos bem claros, quase loiros. Seus olhos azuis eram intensos, porém não tão brilhantes quantos os de minha mãe e Nathan. Respirei fundo, acalmei meus pensamentos e finalmente fiz um rápido nado, superando até mesmo minhas expectativas de velocidade. Logo estava a frente do grupo, ofegando pela surpresa de ter sido mais rápido do que previ.
“Quem é você?” – a sereia a frente questionou.
“Er... Oi” – acenei sem jeito, ao escutar meus pensamentos Nathan e Lynn ergueram os olhares em minha direção, ambos surpresos – “Eu gostaria de pedir, educadamente claro, que solte esses dois.”
Fez-se um segundo de silêncio. A sereia da frente, aparentemente a líder, começou a rir. Os tritões ao lado sacaram as espadas apontando ameaçadoramente para mim.
“Não sabes com quem está lidando sereia impertinente” – ela falou com um tom superior – “Saia da minha frente ou será levada como cumplice e julgada por traição e desacato a lei”.
“Ah, eu realmente não sei quem é você” – falei tentando ignorar toda aquela arrogância – “Da mesma forma que não sabe quem eu sou”.
“De que periferia você veio para não saber que eu sou Irina, princesa de todo a Cidade Submersa?” – ela parecia realmente ter o ego magoado por eu não conhecê-la.
Essa não seria a minha tia que tinha inveja de minha mãe? Lancei um olhar para Lynn que estava obviamente preocupada e temerosa com o que estava acontecendo, mas sem ousar pronunciar-se. Aquele foi o meu terrível erro, com essa distração Irina avançou e em segundos estava a minha frente. Sua mão veio diretamente para o meu pescoço apertando a minha garganta e abaixando-me para ficar literalmente inferior a ela.
“Eu não posso aceitar que uma mera plebeia se ache superior a alguém da realeza” – Irina estava terrivelmente ameaçadora.
“Se você machuca-la irá se arrepender pelo resto de sua vida!” – Lynn não aguentou ficar em silêncio mais.
“Então é alguém que você realmente conhece, irmã. Sendo assim esta sereia sabia seu paradeiro e nada falou. Também será presa!” – Irina exclamava com orgulho, provando ser de seu plano fazer minha mãe reagir a mim.
“Que isso, nunca disse que seria eu a sair machucada”
Irina ia lançar-me um olhar irritado, mas bem nesse momento minha mão estava aberta em sua direção. Mesmo com a garganta sendo apertada, consegui murmurar o encanto “Roufichtra”. Um verdadeiro pequeno ciclone se formou em minha palma e foi lançado bem naquela cara irritante de Irina. O impacto embaixo da água foi forte o suficiente para que ela fosse lançada a metros de distância. Afastei-me respirando fundo mesmo debaixo da água, ergui meu olhar para os outros bem a tempo de ver um dos tritões se aproximarem com sua espada apontada em minha direção. Arregalei meus olhos e por instinto girei o corpo para o lado, desviando por muito pouco. Mas em compensação ganhei um belo soco em meu rosto, perto de meus olhos. O resultado disso foi uma visão mais embaçada e uma leve tontura.
“Não!” – Nathan gritou em pensamento.
Só fui entender o que significava aquele grito quando era tarde demais. Eu senti algo transpassar a minha pele e perfurar a minha carne por trás. O outro tritão havia me atacado pelas costas com sua espada, um corte profundo e diagonal foi feito. A água salgada parecia fazer acrescentar a dor insuportável um fervor que quase me fez gritar em pura agonia. Mas eu sabia que outro golpe estava para vim. Pronunciei quase que de forma errada a magia de manipulação e criei um enorme punho de água, o acertando em um soco que atingiu todo o corpo do tritão. Ele foi jogado longe junto com Irina que flutuava desacordada no meio do oceano pelo impacto de meu ataque.
“Fernanda!” – minha mãe gritou em pura fúria – “Se tocarem nela, eu iriei matar todos vocês!”
E em um time perfeito, as suas correntes foram cortadas de repente. Ao se ver livre ela nadou para o lado. A sereia e o tritão recuaram sabiamente, pois o olhar assassino que ela lançou para eles também me amedrontou. As tatuagens dela brilharam mais ainda, seu corpo parecia revolto por pura magia, como aquele fogo aquático estivesse se tornado a sua aura. Ao nosso redor a água começou a correr como em uma forte correnteza, ela estava controlando a tudo e pronta para atacar sem piedade. Nathan também ficou livre e só então Dante retirou do pescoço o colar, pondo-se a nadar para a superfície. Provavelmente o seu respirador estava acabando o tempo.
“Temos de ir” – falei um pouco ofegante, minhas costas sangravam a ponto de manchar a água ao meu redor – “Lynn, temos de ir até o navio da Scarlet, ela está segurando o Povo das Sombras! Dianna está lá!”
Lynn olhou-me em um misto de surpresa e raiva só com a menção do nome de Scarlet. Ela resmungou alguma magia que criou várias armas de água atrás de si. Espadas, lanças, adagas, martelos de guerra, machados. Era como se os portões da babilônia tivessem se aberto as suas costas e as armas de todos os guerreiros estivessem ali. Minha mãe fez um movimento de mão e algumas armas voaram em direção a sereia e ao tritão. Eles tentaram se defender, mas logo foram atingidos nos ombros e cauda. Lynn não os matou, apenas machucou o suficiente para que não pudessem nos seguir. As armas desapareceram e Nathan nadou para o meu lado, passando o meu braço por seu ombro para que pudesse me carregar.
“Foi muito corajosa” – ele falou em meu pensamento – “E está mais bonita dessa forma”.
Sorri de lado sem forças para falar mais. Lynn aproximou-se e tocou minhas costas. Gritei sentindo uma dor absurda, quando ela afastou-se a encarei incrédula.
“Quer me matar?! Isso dói!” – exclamei ainda sentindo a agonia em minhas costas.
“É uma magia de cura” – Lynn explicou mais calma, porém logo fechou o semblante – “Vamos, temos de lidar com uma pirata”.
“Ela disse algo de ter te salvado novamente” – não resisti em provocar a minha mãe, como uma pequena vingança pela dor que senti em seu toque.
“Aquele impertinente!”
Ela nadou mais rápida a nossa frente. Nathan nada falou apenas a seguiu enquanto eu tentava ajuda-lo a me carregar. Minhas costas iam se cicatrizando aos poucos, porém a ferida havia sido realmente feia, grande, e profunda. De tal forma a deixar um rastro de sangue por onde passávamos. Quando chegamos perto do navio já podíamos ver destroços, armas ensanguentadas e até mesmo coisas estranhas flutuando, de cor negra e forma estranha que eu não saberia explicar mesmo se quisesse. Lynn esperou que nós nos aproximássemos e fez com que sua cauda se transformassem em pernas. Era a primeira vez que a via em forma humana e apesar de estar usando uma espécie de calça esverdeada e fina, ela me pareceu ainda mais linda que o normal. Nathan também assumiu suas pernas humanas, usando uma bermuda preta. Respirei fundo e pensei em minhas pernas, desejando elas novamente e lá estavam elas, com a mesma bermuda que usava antes de me transformar. Por sorte as tatuagens continuavam no corpo cobrindo meus seios, eu poderia imaginar a Dianna surtando se eu aparecesse em batalha seminua.
“Eu não sei que tipo de acordo você fez com aquela malandra, mas teremos de cumprir, é um código de honra” – minha mãe disse e suspirou – “Você foi incrível lá, aquela magia é de alto nível, o suficiente para nocautear minha irmã”.
“Deixemos os elogios para depois, preciso ir para outra luta agora!” – exclamei pensando apenas em Dianna.
Nathan afastou de mim e minha mãe fez com que a água nos erguesse como uma elevação. Passamos da superfície do mar e literalmente fomos jogados por aquela elevação na madeira do piso do navio. Eu caí de forma desajeitada, sentindo minhas costas reclamar por qualquer movimento que fizesse. Nathan e Lynn pousaram com graça e estavam encarando sérios a situação. Assim que tornei meu rosto para o convés entendi o que realmente estava acontecendo.
Era como o pandemônio. Os marujos lutavam bravamente, alguns usando até mesmo alguns elementos como fogo e vento, mas principalmente usando de suas armas para batalha. Seus inimigos eram seres estranhos e horrendos. Homens meio cachorros, anões com pele escura e rostos deformados. Homens grandes e pele cor de carvão que lançavam fogo pelas mãos. Ali estava um verdadeiro campo de guerra. Levantei sentindo um aperto no coração, meus olhos ignorando todo o terror da batalha para procurar por Dianna. Mal notei quando Lynn e Nathan entraram em luta, usando de magias de água para jogar os inimigos no mar. Corri para o convés superior, meus olhos vagando rapidamente de um lado para o outro até encontrar minha morena.
Ela tinha um corte no rosto e sua blusa estava rasgada. Seus olhos estavam ferozes e seus movimentos eram como os de um felino desviando de um lado para o outro de golpes de um homem que mais parecia um lagarto. Havia água por todo o canto no piso, provavelmente resultado de algum golpe de batalha. Sem pensar duas vezes corri e apontei minhas mãos para o chão para controlar a água dali.
-Dianna, abaixa! – gritei para ela.
Mesmo surpresa, Dianna abaixou o corpo se curvando. Formei em minha mão uma espécie de chicote de água e o joguei contra aquele monstro. O golpe foi tamanho que um som se produziu ao ser chocado na pele escamosa. O réptil recuou três passos, girei o chicote de água e o ataque novamente, dessa vez acertando em sua estranha cabeça. Ele foi arremessado para a água. Corri em direção a Dianna a ajudando a erguer-se. Ela estava mais ferida do que eu tinha visto a primeira vista.
-Estamos perdendo a festa, vamos! – Dianna afirmou pegando do chão uma arma de fogo.
Apenas balancei a cabeça e a segui. Dianna parecia uma verdadeira guerreira, sabia que ela tinha tido certo treinamento, mas ali? Parecia uma verdadeira amazona. Ela desceu escorregando pelo corrimão da escada indo para o convés inferior ao mesmo tempo em que distribuía tiros certeiros na direção do inimigo. Aquela mulher era incrível! Saltei para o convés onde ela estava e dessa vez lutamos juntas. Uma protegendo a outra e dançando naquele ritmo mortal de guerra. Eu lançava magias simples, como bolas densas que machucavam a ponto de causar um estrago similar ao de uma bala. Dianna atirava e lutava corpo-a-corpo. Uma cobria a retaguarda da outra, nosso vínculo parecia cada vez mais forte e me deixava ainda mais poderosa, às vezes parecia que eu sabia onde ela estava mesmo que não estivesse vendo e vice-versa.
Por vezes conseguia ver minha mãe lutando. Era impossível não notar. Ela tinha como parceira Scarlet, que mesmo ambas se odiando em batalha pareciam dois monstros de guerra. Minha mãe fazia magias complexas, lançando uma chuva de flechas de água e por vezes até mesmo congelando os inimigos. Scarlet lutava usando duas espadas, seu corpo parecia não ter ossos do jeito que ela desviava e esquivava. Em um momento minha mão abaixou o corpo, Scarlet girou por sobre ela usando como apoio as costas e acertou em cheio o coração de um ser das Sombras o empurrando com o pé. Assim como minha mãe lançou um jato perfurante de água em um daqueles homens cor de carvão o derrotando em um único golpe. Nathan não ficava atrás, apesar dele não atacar tão diretamente, meu irmão estava preocupado em ser o suporte dos marujos, aparecendo sempre quando um estava prestes a receber um golpe final.
A batalha inteira durou cerca de meia-hora sem interrupções. Minha mãe estava decapitando o último membro do Povo das Sombras com lâminas de água e jogando o seu corpo no mar. No fim, Scarlet deu um giro com seu corpo em busca de mais inimigos. Então ela ergueu seu braço com a espada e deu um grito de triunfo que foi seguido por todos nós. Não havia como explicar aquela sensação de vitória em batalha. Meu corpo ainda estava agitado, a adrenalina ainda circulava rapidamente junto com meu fluxo de energia. Estávamos bem, estávamos vivos. Mas assim que foi possível Dianna apareceu com uma espécie de toalha cobrindo meu corpo.
-Não acredito que lutou assim – ela reclamou, mas tinha um enorme sorriso no rosto – Nós vencemos.
Ri de forma descontrolada e me joguei em seus braços, roubando dela o meu beijo da vitória. Mesmo que estivéssemos machucadas, em meio a destroços de batalha, nada disso parecia importar. A sensação de júbilo nos dominava, gritos ainda eram escutados enquanto minha boca tomava a dela para mim em um beijo intenso e prontamente correspondido. Aquela foi apenas mais uma batalha e algo dentro de mim dizia que não seria a última, portanto deveria ser devidamente comemorada.
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