Amor Rebelde

1 Renesmee e a revolta


- Não, pai. Eu não vou tomar cuidado. EDWARD, eu não vou tomar cuidado – eu corrigi.

Depois do que descobri sobre meu passado estava me policiando para não chamá-lo de pai. Não era uma coisa que vinha facilmente depois dos últimos seis anos, mas ele tinha feito por merecer. De agora em diante seria Edward para mim.

- Eu ainda estou falando com você, Renesmee – a voz do meu pai soou rude vinda do segundo andar.

Há alguns anos ele e a mamãe viviam no seu paraíso particular, nada o tirava do sério, estava sempre sorrindo e falando com sua voz melosa. A felicidade deles parecia que não ia caber no corpo dos dois. E na maioria das vezes não cabia, todo mundo podia sentir o amor no ar. Era como se o tio Jasper tivesse emprestado seus poderes. No começo era legal, depois começou a me deixar meio enjoada. Realmente enojada.

Eles diziam que eu estava entrando na adolescência e essa seria a minha reação para tudo.

Nada disso importava. Depois do meu último aniversário, fiz questão de demonstrar que a Nessie boazinha e doce que todos conheciam ficou no passado e, assim, o clima em casa não mudou. Eles até poderiam dizer que eu era a razão disso, quando na verdade, todos sabem era tudo culpa dele, Edward Cullen.

- Eu não acabei de falar com você — ele repetiu à distância.

- Mas eu já acabei de te ouvir – eu respondi, abrindo a porta.

- Não acabou não – ele bufou, já com suas mãos estendidas, bloqueando a porta. Eu odiava como ele era muito mais rápido do que eu. Um minuto atrás Edward estava no segundo andar e agora estava ali, na minha frente.

- Isso não é justo – eu bati o pé no chão, com raiva.

- Muito maduro – ele disse, olhando para meus pés – Nessie, você tem que me escutar. Nós não podemos continuar assim – Edward tentou remediar a situação, mais uma vez, adotando sua voz melosa, que fazia a mamãe derreter na mesma hora.

- Escute seu pai – minha mãe, “a mais bela das Bellas”, como eu costumava chama-la, apareceu no topo da escada.

- Eu não escuto mais nada que venha dele – eu disse colocando as mãos nos meus ouvidos. Eu sabia que estava sendo infantil, mas não ligava.

- Sim, você está sendo extremamente infantil – meu pai respondeu aos meus pensamentos, mesmo sem permissão para isso.

- Mãe! – eu gritei esperando que ela colocasse seu escudo em mim – Você prometeu que enquanto eu estivesse nessa casa você ia me proteger dele – eu apontei para Edward com o dedo indicador.

- Você estava de saída – ela tentou justificar

– Pronto, está feito. Era muito melhor assim.

Eu podia pensar no que quisesse. Era tão cansativo tentar controlar todos os meus pensamentos ao redor dele. Cansativo e frustrante, porque eu sempre acabava deixando alguma coisa passar.

- Eu preciso ir. Vou chegar atrasada na escola.

- Se cuide, por favor – minha mãe implorou.

- Ai gente, não é como se eu fosse sair por aí me atirando na frente de carros. Não que isso também pudesse fazer muita diferença, além de amassar o carro – minha mãe arregalou seus olhos já escuros – Ta bom, vou me cuidar.

Eu me desvencilhei das mãos do meu pai e saí.

- Para você ela responde que vai se cuidar – Edward resmungou dentro de casa para minha mãe.

- Nós vamos caçar hoje. Qualquer coisa me ligue – minha mãe disse um pouco mais alto para ter certeza de que a ouviria.

É lógico que eu ouviria. Eu não era totalmente vampira, mas a minha metade sobrenatural já bastava para me dar alguns dons extras, como sentidos aguçados. Eu pensei que com o tempo desenvolveria esses sentidos tanto quanto o resto da minha família, mas eu sempre era mais lenta do que todos. Era culpa da minha parte humana, é claro.

Parei na frente da casa de três andares que meus tios e avós compraram, logo no fim da rua e esperei por ele. Buzinei algumas vezes, impaciente. Então, ele apareceu. É lógico que eu tentava me controlar toda vez que o via, mas não conseguia segurar meus suspiros e as borboletas no meu estômago. Por que ele era assim. Era meu Jacob.

- Bom dia, apressadinha – Jacob disse, rindo e pulando para dentro do meu conversível.

- Bom dia, dorminhoco.

Ele bocejou, logo dando aquele sorriso encantador. Eu tinha que parar de pensar no Jacob assim, mas desde meu infeliz aniversário eu não conseguia olha-lo com os mesmos olhos. Ele ainda era o meu Jacob, meu melhor amigo, meu companheiro, aquele que morava numa casa cheia de vampiros só para não ficar longe de mim. Mesmo assim parecia que não era suficiente para mim.

- De cara feia de novo, Nessie? – ele perguntou, se espalhando no banco de couro e encostando seus braços musculosos nos meus. Uma corrente elétrica tomou o meu corpo.

- O Edward não me deixa em paz.

- Ele é não é Edward para você. É seu pai – ele tentou me convencer, mas eu rolei meus olhos – Queira você ou não.

- É, já percebi que minha vontade não vale muito nesse quesito – eu disse, emburrada.

- Eu ainda acho que você está sendo injusta com ele. Isso foi há muito tempo atrás, ele não sabia o que esperar – Jacob acariciou meu braço, enquanto tentava me convencer.

Por um minuto, tudo o que eu podia pensar era no braço musculoso dele e naquela mão grande me tocando. Como ele podia ser tão... tão... Não conseguia encontrar uma palavra para descreve-lo. Mas aquilo me fazia sentir tão bem. Uma pena que ele não percebia o efeito que tinha em mim.

- Nessie, é melhor você prestar atenção na rua – a voz de Jacob me despertou e percebi que ele tinha uma das mãos no volante.

- Eu sou meia-vampira, Jake. Meus reflexos são bons os suficiente para dirigir sozinha – eu disse, ríspida.

Ele levou as mãos ao alto, como alguém que estava sendo assaltado.

- Desculpe. Não é de você que tenho raiva. É dele. O Edward que... – eu não conseguia nem completar a frase.

Jacob ficou em silêncio e olhou para o lado, puxando seu corpo e se afastando de mim. Eu queria gritar para que ele se aproximasse, mas não podia, não devia. O resto do caminho, apesar de rápido, foi um martírio. Eu devia me controlar, mas esse não era o meu desejo.

Chegamos à escola e meu grupo de amigos já estava reunido perto da vaga que eu sempre parava. Era como se aquela vaga fosse minha e na verdade assim era. Quem se atreveria a colocar o carro vaga de Renesmee Cullen, a menina mais popular da escola? A minha popularidade não era tão importante até pouco tempo, mas agora ela me preenchia. Eu queria ser popular e pronto, fazia tudo para que isso se mantivesse. Minhas roupas da moda eram copiadas na escola, meu corte de cabelo era o mais pedido em todos os salões e meu Audi conversível, A4, preto com bancos de couro vinho era desejado por todos.

Muitos alunos se concentravam no estacionamento antes da aula só para me ver chegar na escola, principalmente os meninos. Eles não cansavam de admirar o meu carro e, segundo o que Emily, minha melhor amiga humana, dizia, eles também gostavam de olhar para mim. A atenção era bem vinda.

A única coisa que definitivamente não me agravada era o crescente grupinho de meninas que também se formava por ali. A impressão é de que elas estavam menos interessadas no conversível e mais dispostas a apreciar o Jacob. O meu Jacob. Aquilo me fazia rosnar e querer arrancar a cabeça delas.

- O que você está rosnando agora, Nessie? — Jacob perguntou.

Eu estava pronta para inventar uma desculpa quando fomos interrompidos pela chegada de tia Alice. Ela estacionou o seu Porsche amarelo na vaga ao lado da minha e desceu, graciosamente, sendo prontamente acompanhada do tio Jasper. Onde um estava, lá estava o outro. Engraçado como eu não ficava enojada com eles.

Os meninos também se prostaram diante do carro da tia Alice, como em todas as manhãs, mas por uma razão que eu não consigo entender eles tinham mais medo do tio Jasper do que de Jacob, então sempre mantinham certa distância. Isso não fazia muito sentido, já que os músculos de Jacob eram realmente grandes, principalmente comparados com o parceiro da minha tia. A explicação disso pode estar em algo que minha família sempre dizia: os humanos temem os vampiros mesmo sem saber quem eles são.Eu, por outro lado, era meia-vampira. Ao mesmo tempo que me temiam, eram fascinados por mim. E isso só me fazia ser mais adorada.

- O seu pai está muito triste, Nessie – tia Alice tentou me convencer a perdoa-lo, com sua voz de sino.

- Não me importa. Ele devia ter pensado nisso antes – eu disse, secamente.- Ninguém sabia o que estava por vir. Eu não podia enxergar com você bloqueando meu caminho – ela tentou justificar.

- Tia, não tente me convencer. Você tem sorte que não fiquei com raiva de você também. Até onde eu sei, só devia ficar do lado da tia Rosalie.

- Você sabe que não é bem assim – ela falou com seus olhos suplicantes.

- Não adianta, Alice. Ela não quer ouvir – Jacob finalmente se manifestou, afastando-se do carro.

- Eu não quero ouvir – eu repeti, decidida.

Quando percebi que tia Alice não ia desistir, me afastei rapidamente e me aproximei do meu grupo de amigos humanos. Assim, tinha certeza que minha família não tocaria no assunto na frente dos meus amigos.

- Nessie, você não sabe o que aconteceu ontem à tarde – Emily me puxou para o lado, mais animada do que o seu normal, que já é bem animada.

- Realmente não sei – eu disse, desinteressada. — Ele me ligou – ela deu um gritinho agudo – Ele me ligou – diante do meu olhar confuso, ela continuou

– O Tyler. O Tyler me ligou. Aquilo sim era uma novidade. Eu sempre achei que o Tyler não notasse a Emily como alguém mais que uma amiga. Ademais, ultimamente andava reparando seus olhos em mim, não que o Jacob já não tivesse me alertado disso desde que nos mudamos para cá.

- Nossa, e o que ele te disse? – eu estava realmente tão surpresa quanto soava.

- Ah, nem lembro. Falou algumas coisas sobre a aula, sobre um programa de TV estúpido que ele gosta e... – os olhos dela se iluminaram – sobre um restaurante japonês novo que abriu. Eu acho que ele estava me sondando para me levar pra jantar.

A empolgação dela era contagiante. Ela segurava meus braços e balançava enquanto falava, animada. Aquilo ainda me fazia sentir desconfortável, ter alguém que não era da minha família tocando minha pele. Eu sabia que podia controlar os meus poderes e só mostrar uma visão quando quisesse, mas o medo de escapar do meu controle me aterrorizava.

- Que bom para você, Emily. Espero que tudo dê certo — eu disse — Mas agora vamos para a sala porque a aula já vai começar — eu disse, correndo o risco de parecer insensível, mas desesperada por algo que fizesse com que a Emily parasse de me tocar.

Emily demorou alguns minutos para soltar o meu braço, mas logo percebeu a movimentação do resto dos estudantes e seguimos para nossas aulas.

O dia passou lentamente, como sempre. Tive algumas aulas com a tia Alice, outras com o Jacob e sempre alguém do meu grupo estava lá. Mesmo assim não conseguia me concentrar no que os professores ou nenhum dos meus amigos falavam. Não que eu precisasse, afinal, já sabia tudo aquilo. Meu pai... Edward tinha me ensinado.

Pensar nos momentos que eu e Edward dividimos, estudando juntos, brincando, caçando fazia meus olhos encherem de lágrimas. Não sabia se queria chorar de raiva ou tristeza, acho que por ambos motivos. Como podia ter sido tão estúpida e acreditar no amor dele por tantos anos? Eu tinha que fazer algo para que o Edward sentisse como eu sentia há meses.

Apesar de já ter adotado todas as manobras que conhecia, ele ainda tentava ser compreensivo. Estava sendo petulante, resmungona, não obedecia ao que ele falava, sempre que decidia dirigir a palavra a ele usava de ironia, mostrava minha preferência clara pela mamãe e por Jacob e ultimamente vinha chamando-o de “Edward”. Mas ainda não estava satisfeita. Tinha que fazer algo que gerasse algum resultado alarmante.

Passei o almoço, o restante das aulas e o caminho para casa mergulhada em meus pensamentos, tentando encontrar algo que o fizesse ficar realmente bravo. Extremamente irritado.

- Você está me preocupando de verdade, Nessie – Jacob disse, finalmente me tirando dos meus pensamentos. Ele me olhava ansioso e protetor, enquanto dirigia.

- Olhos na estrada. Não queria tanto dirigir? Quando deixo, você fica olhando para o lado – eu tentei mudar de assunto.

- O que está passando nessa sua cabecinha linda?

Por um momento todos os problemas sumiram e só existia Jacob e suas palavras. Eu era linda. Ele me chamava de linda.

A realidade me inundou rapidamente e percebi que ele sempre havia me chamado assim, desde criança. Então, isso não significava nada!

“Não me chame de linda, por favor. Isso machuca”. Eu pensei, mas não disse. Embora isso realmente machucasse.

- Não é nada sério, Jacob. Não precisa ficar tão protetor — eu resmunguei.

Era isso! Essa era a resposta. Protetor.

Edward era tão protetor quanto o Jacob, talvez até mais, era uma disputa acirrada. É claro que Edward também era protetor com a mamãe, mas comigo acho que ele desdobrava o dobro de atenção. Minha mãe sempre me dizia que era assim que ele a tratava quando era humana, como se até o ar que respirava fosse perigoso para ela.

Óbvio que eu não iria me colocar em perigo físico, porque isso mataria toda a minha família do coração e eu não precisava disso. Eu teria que encontrar algo que só afetasse Edward e seu modo protetor de lidar comigo.

- Hmmmm... — eu resmunguei quando um pensamento cruzou a minha mente.

Aproveitei para dar uma rápida olhada para Jacob ao meu lado e a idéia ficou ainda mais interessante. Talvez isso afetasse tanto o Edward quanto o Jacob, pelo menos assim eu esperava. No fim, seria ganhar ou ganhar.

- Renesmee! Fale comigo, por favor – os olhos suplicantes de Jacob quase quebraram meu coração. Eu pisquei e ele suspirou aliviado – Pensei que você tivesse entrado em trase.

Nós estávamos parados em frente à minha casa e ao que parece eu tinha ficado tão empolgada que tinha esquecido onde estava.

- Desculpa, Jake. Eu estou cansada, só isso.

- Não minta pra mim. Te conheço melhor que qualquer outra pessoa. O que está acontecendo? — Não é nada. Já disse. Só preciso descansar. Podemos conversar mais tarde? Eu te ligo quando tiver terminado.

- Terminado o que? – ele me olhou desconfiado.

- De descansar, oras – eu disse já saindo do carro – Pode ficar com ele. Mais tarde você volta e traz o carro de volta.

Eu me virei em direção a casa, mas os olhos de Jacob estavam nas minhas costas. Eu olhei pelo canto dos olhos e percebi sua expressão derrotada. Nada me matava mais do que causar qualquer dor ao meu Jacob.

Voltei correndo para a porta de motorista e dei um beijo no rosto dele, tentando meu melhor sorriso.

- Te ligo mais tarde. Só preciso descansar – eu assegurei.

Não esperei pela resposta dele, mas me dei por satisfeita quando a testa de Jacob relaxou.

Eu saí o mais rápido que podia de perto dp Jacob, passei voando pela sala e entrei direto para meu quarto. Meus pais estavam caçando, como avisaram, então eu tinha mais tempo do que imaginava para executar meus planos.

Imediatamente, abri meu closet gigante, obra da tia Alice e pensei em como ela reagiria ao também.

- Depois eu penso nisso! — disse para mim mesma.

Somente uma coisa ocupava minha mente naquele momento, a certeza que imperava de que aquilo realmente ia irritar o meu pai. Não pude evitar mais sorrir com esse pensamento.