Amor Problemático
3 Capítulo 03
— Vocês estão num encontro? — o tom de Naruto sugeria malícia. Com um sorrisinho travesso no canto da boca, ele mirou Shikamaru de soslaio e o cutucou com a ponta do cotovelo no antebraço esquerdo.
O rosto de Temari era um tomate maduro quando concentrou seu olhar acanhado nos pés pequenos dentro das sandálias-ninja femininas. Ela entrelaçou os dedos de ambas as mãos uns nos outros, descobrindo-se imprescindivelmente ansiosa pela resposta que o Nara daria. No entanto, para o grande desapontamento de Temari e Naruto, Shikamaru fora quase ríspido ao bufar e responder sem rodeios:
— Mas é claro que não! Fui encarregado pela Hokage de supervisionar e acompanhar Temari durante sua estadia em Konoha; nada além disso.
"Nada além disso...", Temari refletiu sobre estas palavras por um momento, e infeliz, descobriu o quão elas a machucavam. Ela soltou um tristonho suspiro silencioso e mordiscando o lábio inferior por dentro, sutilmente ergueu o pé e pressionou a sola da sandália negra com força sobre os dedos expostos de Shikamaru—de modo a fazer parecer que foi um mero acidente. Nara praguejou um palavrão em voz baixa e olhou irritado para a loira à seu lado. Temari, no entanto, somente deu de ombros e indiferente, sussurrou um simplório e falso pedido de desculpas.
Naruto, que tinha nas feições um ponto de interrogação, coçou casualmente o couro cabeludo desgrenhado e esboçando um forçado sorrisinho amarelo, disse algo sobre como adoraria fazer uma visita ao amigo Kazekage que ele não vê há anos.
Shikamaru e Temari ainda trocavam olhares fulminantes quando Naruto passou a tagarelar animadamente sobre um assunto qualquer.
(...)
Shikamaru buscava seus lábios—tão afoito para provar de seu sabor cítrico quanto um viajante do deserto está por um cantil d'água. Temari, porém, estava relutante; e recusava-se a ceder à ele. Entre suspiros impacientes, ela se desvencilhava dos braços fortes que insistam em apanhá-la à todo custo através de resmungos baixos e leves empurrões nos ombros dele. Shikamaru acabou por cansar-se de lutar contra a resistência oferecida pela loira arisca, e expressando sua nítida frustração através de um bufo pesado—ele a largou semi-nua sobre a cama que ele jamais parecia importar-se em arrumar.
Shikamaru andou até a varanda e tateou rapidamente os bolsos do moletom largo a procura de sua cartela de cigarros. Fora a única vez em que Temari não o importunou com protestos severos até que desistisse de acender um cigarro e levá-lo à boca. Em silêncio, a loira somente alcançou seu quimono jogado sobre a cabeceira da cama e o vestiu.
Aproximando-se do ninja taciturno debruçado sobre o guarda-corpo da varanda, Temari fitou os músculos duramente tensionados das costas largas de Shikamaru e repensando sobre as palavras de Naruto naquela manhã, perguntou:
— Por que nunca tivemos um encontro?
Shikamaru interrompeu o que seria sua segunda tragada consecutiva e virou-se para a loira. Nara olhou-a como se tivesse acabado de lhe perguntar qual é a cor do céu.
— Por que isso importa?
Ele não parecia ciente da explícita insatisfação emocional expressada por ela. E estava claramente desinteressado em descobrir o motivo para tal. À este ponto, Temari soube que já deveria ter acostumado-se com o brutal desdém de Shikamaru em relação a seus sentimentos. O herdeiro dos Nara não era um rapaz frio; no entanto havia momentos em que sua constante apatia em relação à (quase) tudo, tornava-o tão impiedoso quanto Uchiha Sasuke.
— Eu adoraria sair para jantar...e conversar.— murmurou ela de modo vago, brincando distraidamente com o tecido pesado do quimono entre os dedos, desesperançosa quanto à escassa possibilidade de suas palavras surtirem quaisquer efeito nele. Seu olhar triste perdeu-se no piso de madeira clara do quarto de Shikamaru.
Shikamaru novamente concentrou-se em seu cigarro, voltando à sua posição anterior.
Devido ao fato de não ter obtido resposta alguma, Temari não soube se a ideia de um encontro agradou Shikamaru e o fez pensar cogitar a possibilidade — ou se ele a detestou tanto que preferiu não se pronunciar a respeito.
(...)
Há uma distância razoável, porém não longa o bastante para que Temari não pudesse ver o que se passava diante de si com clareza —Yamanaka Ino pendurava-se no pescoço de Shikamaru. A loira eufórica e barulhenta agradecia-o por algo em voz alta, cobrindo-lhe as bochechas de beijos e mais beijos. Nara tinha uma mão na cintura e a outra atrás da cabeça, afagando o couro cabeludo de modo casual enquanto dispensava educadamente os agradecimentos exagerados da colega de time. Os olhos de Shikamaru jamais chegavam diretamente ao rosto iluminado de Ino; e ciente de que era alvo de incontáveis olhares curiosos e fofocas maldosas trocadas entre jovens Chuunins que assistiam à cena — ele parecia desesperado para que Ino o soltasse logo.
Embora exteriormente aparentasse total indiferença, interiormente Temari era um vulcão prestes a entrar em erupção. Ela pensava a respeito de todos os meios de tortura conhecidos que daria ao Nara eventualmente, quando teve seu ego feminino atingido pela beleza de Ino.
Temari pegou-se comparando seus atributos físicos e estéticos aos da Yamanaka, movida por um desejo irracional e aflito de descobri até que ponto ela a superava. E mesmo muito à contra-gosto, Temari viu-se forçada a reconhecer que Ino possuía alguns aspectos que tornavam-na mais atraente do que ela própria aos olhos de um homem...aos olhos de Shikamaru. Com seu autêntico sorriso perfeito, longuíssimos cabelos sedosos e seios fartos — a Yanamaka de fato representava uma ameaça ao relacionamento que Temari lutava para constituir com o Nara.
Temari é bela, e jamais duvidara disso. Por inúmeras vezes ela fora comparada à Karura, sua falecida mãe, que mesmo após anos desde sua morte ainda é considerada a mulher mais bela de Sunagakure. A irmã mais velha do Kazekage já tivera em suas mãos os corações de diversos homens; alguns até já haviam viajado meses a fio até a Aldeia da Areia somente para agraciá-la com presentes exóticos ou pedi-lá em casamento. Mas ao contrário de Temari, que vive à três dias de distância do Nara, Ino estava frequentemente junto dele. E além de Ino ser uma garota inegavelmente bonita, ela e Shikamaru eram colegas de equipe desde a infância. Portanto, Ino certamente era mais íntima dele do que Temari jamais fora.
Fora por essas, e muitas outras razões que Temari passou a levantar suspeitas acerca do quão "íntimos" Shikamaru e Ino realmente eram. No entanto, quando ela passou a questioná-lo a respeito disso, as respostas de Nara eram sempre rápidas e evasivas — o quê faz com que Temari cada vez mais acreditasse que os dois estavam tendo, ou já haviam tido um caso.
Obviamente, a insistência constante da loira neste assunto desencadeou uma nova série de discussões entre eles.
•••
Problemático...!, disse Shikamaru à si próprio em pensamento. Seus pés pareceram ter ganho vida própria ao iguá-lo à loja de conveniência anteriormente sugerida por Ino, há uma quadra da Floricultura Yamanaka. Nara suspirou pesadamente, e quando se deu conta estava gastando o pouco de dinheiro que havia consigo num veado de pelúcia e uma caixa de chocolates sortidos. Mesmo que parte de si ainda estivesse fortemente inclinada a acreditar que Temari mandaria ele enfiar as orquídeas dadas por Ino, os chocolates e a pelúcia em seu orifício anal,—outra parte começava a recobrar um pouco da esperança há muito perdida quanto a possibilidade de os presentes surtirem algum efeito positivo na loira arisca.
Em pouco menos de duas horas a noite viria, e Shikamaru deixava sua casa carregando nas costas uma única mochila contendo nada além do que somente o necessário para três dias em missão, e os presentes para Temari. Distraído como sempre, ele passou pela porta da frente despedindo-se vagamente da mãe.
Após vinte e cinco minutos de caminhada regular, Nara aproximava-se dos grande portões de entrada da Folha. Com a coluna apoiada em seu gigantesco Leque, Temari o aguardava de cara-fechada e braços fortemente cruzados sobre o busto. Quando próximo o bastante, Shikamaru cessou seus passos e engoliu em seco duas vezes seguidas, incapaz de encará-la diretamente.
Temari explodiu em resmungos furiosos por ele tê-la feito esperá-lo por quase uma hora.
Se esta mesma situação tivesse ocorrido em algum momento há alguns meses atrás, Shikamaru teria apenas bufado longamente e revirado os olhos, balbuciando "Problemática!" antes de roubar um beijo ou dois da loira para aquietá-la. Porém naquele momento, o Nara somente abaixou o olhar e murmurou um quase inaudível "Sinto muito" á Temari. O espanto dela foi instantâneo. Temari conhecia Shikamaru bem o suficiente para saber que esse tipo de comportamento não era algo nada comum nele. Ela descruzou os braços para pousar as mãos enluvadas nas laterais do quadril sinuoso, e lançou um olhar suspeitoso ao Nara ligeiramente embaraçado; porém nada disse.
Dividido entre abrir a boca para dizer algo ou simplesmente permanecer em silêncio, Shikamaru somente estendeu os presentes á Temari.
— São para você.— sussurrou ele enfim, levemente ruborizado.— Espero que goste.— acrescentou, tímido.
As emoções no rosto de Temari dividiam-se entre estranheza e perplexidade. Em silêncio, ela tomou os presentes em mãos, demonstrando especial interesse pela escolha no mínimo peculiar de Shikamaru pelo veado de pelúcia. Temari não precisou de mais do que alguns instantes para compreender o quê se passava com o Nara. Embora seu rosto impassível nada revelasse, Temari gargalhava interiormente. Ela ainda tendia a crer que Shikamaru estava de fato investindo numa ridícula e absolutamente clichê tentativa de conquistá-la com mimos românticos. Não se pode associar alguém como Shikamaru ao adjetivo romântico. Tal gesto interferiu negativamente em seu comportamento genuíno; tornando a tentativa de agradá-la algo completamente antinatural. Se ele a tivesse presenteado à sua maneira — coçando a nuca casualmente, evitando contato visual direto, murmurando algo como "Para você, problemática", e aparentando indiferença — Temari de certo teria amado o gesto e enchido-lhe de beijos até que ele passasse a resmungar que ela estava babando em seu rosto. Porém Shikamaru não parecia entender que Temari o amava por quem ele era, e jamais desejaria mudar quaisquer aspectos de sua personalidade.
Embora ciente de que se tratava de uma reação no mínimo cruel em resposta à tentativa frágil do Nara de reconquistá-la — Temari decidiu escrachá-lo.
Expressando falsa arrogância, ela pressionou delicadamente o nariz contra as pétalas macias das orquídeas e simulou uma série de espirros exagerados. Abrindo a caixa de chocolates em formato de coração, ela provou um e franziu o cenho fortemente, de modo a fazer parecer que estava prestes a vomitar. E repetiu o mesmo processo antes executado em relação ás flores ao veado de pelúcia. Através destas reações falsas, Temari esperava mostrar á Shikamaru que se ele realmente pretendia tê-la de volta, iria ter de fazer melhor do que isso.
Atirando os presentes no interior da sacola em que anteriormente estavam, Temari a devolveu à ele, e disse, sorrindo casualmente:
— Sou alérgica à flores e bichos de pelúcia, e tenho intolerância à lactose.— Temari teve de comprimir os lábios para conter o riso, estava a achar graça da própria mentira descarada que contou à ele.
Shikamaru quis sacar a Kunai do coldre preso à sua coxa e atravessar seu próprio crânio com a lâmina afiada.
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