Shikamaru teve o rosto atingido por um travesseiro. Certamente a brandura e leveza das plumas que estufavam seu interior não poderiam feri-lo de quaisquer maneiras. No entanto, fora arremessado com força suficiente para acordá-lo. Com um bufo irritadiço, ele livrou sua cara do travesseiro e rapidamente o jogou para o lado. Seu despertar violentamente abrupto o pusera ofegante e fizera seus antes estáveis batimentos cardíacos ganharem um novo ritmo descompassado. O rosto de Nara era uma jarra transbordante de amargura ao erguer seus olhos ainda sonolentos e semicerrados à figura feminina carrancuda, que de pé próxima à porta do dormitório — fuzilava-o com os braços fortemente cruzados sobre o busto. Sob grunhidos abafados e praguejos incompreensíveis, Shikamaru colocou-se sentado e apoiou a coluna contra a cabeceira de madeira escura. Coçando os fios de ébano selvagemente desembaraçados, jogados ao redor de seu rosto e sobre os ombros, Nara espreguiçou-se enquanto combatia o ímpeto quase incontrolável de quedar a cabeça contra o travesseiro e ser novamente tragado pela doce inconsciência.

— Não havia jeito mais desagradável de me acordar? — seu murmúrio rabugento era sarcástico.

Temari, no entanto, rebateu à altura. E cheia de cinismo, respondeu:

— Sim, havia. Eu cogitei entre arremessar meus sapatos ou meu Leque em você. Então esteja grato por ter optado pelo travesseiro.

Shikamaru meio que suspirou, meio que bufou.

— Bem, obrigado, problemática! — ele recolheu generosas porções das mechas desgrenhadas e prendeu-as em seu usual rabo-de-cavalo.

Temari riu com escárnio pelo nariz.

— Agradeça-me em 48 horas. Seus pulmões certamente irão.

Os olhos de Nara tornaram a pousar na mulher que lançava-lhe um sorriso divertidamente perverso. Shikamaru engoliu em seco, o rosto confuso era ao mesmo tempo hesitante.

— O quê? — ele se atreveu a perguntar.

— Ontem à noite você disse que eu havia me tornado mais importante para você do que qualquer outra pessoa. E que estava disposto a fazer o que fosse preciso para se redimir comigo. Pois bem,Nara. Quero que faça jus ás suas palavras.— Temari estendeu o maço de cigarros secreta e furtivamente extraído da pilhagem dele durante a madrugada, e ergueu-o dentro de seu campo de visão, balançando-o no ar.— Comece abrindo mão deste maldito vício...!

— Achei que tivesse dito que não queria que eu mudasse quem sou...

— E não quero. Não estou pedindo que faça isso por mim; estou pedindo que faça por si próprio. Se tenho alguma importância para você, por mínima que seja, então comece a cuidar mais de você mesmo. Afinal, como espera que tenhamos tempo para reconciliação se você morre um pouco a cada vez que coloca isso na boca?

Certo de que somente a simples menção à uma resposta ou reação divergente faria apenas com que Temari repensasse seriamente a ideia de acertar-lhe a cara com seus sapatos, Leque ou — muito possivelmente, algo pior — Shikamaru, decidido a dar ouvidos ao bom senso, optou pela concordância silenciosa. Com o assunto dado por encerrado, silêncio completo e absoluto reinou sobre o cômodo pequeno. Nara esfregou a face indolente nas palmas estendidas e fechou os olhos por um momento, obrigando-se a continuar resistindo ao desejo irracional de explodir em berros de frustração. Internamente, ele se amaldiçoou. Deveria saber desde o princípio que precisaria de muito mais do que apenas meras palavras bem intencionadas, atitudes cavalheirescas e presentinhos clichês para sensibilizar a problemática Princesa de Suna.

Shikamaru abriu os olhos quando novamente sua cabeça foi acertada por um travesseiro. Seus músculos faciais tinham-se fortemente enrijecidos quando virou-se para fuzilar uma Temari sorridente.

— E levante essa sua bunda magra desta cama, seu preguiçoso! Vista-se, arrume suas tralhas e consiga algo para comer. Chegaremos ao País das Ondas em uma hora. E caso não esteja pronto até lá, fique certo que não hesitarei em deixá-lo para trás! — dito isso, Temari deixou o quarto, batendo a porta com proposital força atrás de si.

Quando sozinho, Shikamaru resmungou alto e desabou sobre o colchão, cobrindo a cara com o travesseiro lançado pela loira.

•••

O humor de Shikamaru era como ácido quando, no início da tarde, ele e Temari desembarcaram na estação ferroviária no País das Ondas. As longas horas em abstinência começavam a cobrar seu preço, interferindo profunda e negativamente em seu estado de espírito. Sobre suas feições estava uma rígida máscara sisuda. Parecia que alguém havia jogado seus pulmões numa fornalha e os esquecido lá.

Sentindo-se estranhamente inquieto, Shikamaru caminhava à frente de Temari, balbuciando em voz baixa palavrões e frases desconexas, seguindo à oeste por uma via pública comercial movimentada.

Os Tanaka, a família de elite imperial interessada em tornar-se a nova parceira comercial do País do Fogo, cuja a carruagem privada havia sido roubada, os estaria esperando numa pousada que, segundo os pergaminhos instrucionais dados por Tsunade — ficava a pouco menos de vinte minutos da localização atual do casal de shinobis.

Shikamaru não pôde reprimir um longo suspiro de alívio ao finalmente avistar o letreiro da dita pousada. Em rápidas e quase afoitas passadas, ele alcançou a porta e manteve-a entreaberta até que Temari a cruzasse. Ela dirigiu-se ao balcão de informações e educadamente requisitou à jovem recepcionista cabisbaixa que organizava uma pilha de papéis sobre a mesa, que anunciasse aos Tanaka que a dupla de guarda-costas solicitada à Hokage chegara para levá-los para Konoha.

A recepcionista assentiu rapidamente e tremeu minimamente a cabeça antes de levantá-la num movimento abrupto. Temari arfou pesadamente e com um alto gemido entrecortado, saltou para trás. Ela fitou, horrorizada, a face cadavérica da jovem mulher que esboçava um desdentado sorriso doentio, cujo as proporções excessivamente largas mal adequavam-se ao pequenino rosto de formato oval. Ambas as cavidades ossudas estavam ausentes dos globos oculares, e de suas profundezas gotejava um viscoso líquido negro que descia lentamente para suas bochechas sem cor. Com um urro poderosamente sonoro, a imagem da recepcionista morta-viva reduziu-se à cinzas e fumaça espessa. Depois dela, um a um, todos os demais funcionários e/ou hóspedes que circulavam pelo saguão principal da pousada desapareceram da mesma forma. As paredes do estabelecimento desmancharam-se em vastas poças da mesma substância negra pegajosa que vazara das aberturas oculares ocas da recepcionista — acumulando-se sob os pés dos shinobis estarrecidos com o que acabou de se desenrolar diante de seus olhos. O casal piscou, e quando tornaram a abrir os olhos, acharam-se num galpão cujo a estrutura arquitetônica deixava claro que há anos fora deixado ao completo abandono.

Pelos próximos breves instantes, quietude mortífera perpetuou o lugar.

— Genjutsu.— concluiu Shikamaru através de um suspiro pesado após passado o estado atônito de pânico.

Um corpo masculino alguns poucos centímetros mais alto que Shikamaru surgiu das sombras. A silhueta moveu-se com cautela na escuridão, e estudando seus visitantes desconhecidos, aproximou-se a passos vacilantes.

— Temari? — a voz evidenciava eminente espanto, e pertencia ao dono da silhueta.

— Seiji...?! — respondeu ela, tão surpresa quanto ele. Seu queixo no chão.

O dito cujo por fim adentrou a área abaixo da passagem obstruída no concreto frágil do teto em ruínas, cuja a abertura larga permitia a luz do Sol invadir o lugar.

— Não soube que Gaara havia permitido-a realizar missões com ninjas de outras aldeias.— comentou Seiji, dando mais um passo a frente. Ele pareceu ponderar sobre algo por um momento.— Bem, eu realmente não queria ter de submetê-la a isso, mas não tenho escolha. Há coisas mais importantes envolvidas.

— MAS DO QUE DIABOS VOCÊ ESTÁ FALANDO? O QUE ESTÁ ACONTECENDO,SEIJI?! — Temari clamou por esclarecimentos. Seus olhos e rosto eram um misto de desnorteio e incredulidade.

— Temari, por favor, tente entender. Se houvessem quaisquer meios de tornar as coisas diferentes, eu jamais me sujeitaria a algo assim. Mas eu não tive escolha! Sou orfão; jamais tive uma família ou mesmo algo parecido com isso. Minha vergonhosa e deprimente falta de talento para taijutsu e ninjutsu obrigaram-me a reconhecer que eu simplesmente não nasci para ser ninja! Eu desisti completamente de continuar tentando ser alguém que não sou após ser reprovado pela sétima vez consecutiva nos Exames Chuunin. Eu sempre estive sozinho, agindo por conta própria. Quando não pude mais resistir à fome, eu passei a furtar; e não parei após descobrir que possuía genuína habilidade para isso. Porém fui condenado ao exílio pelo governador de minha terra natal ao ser descoberto. E mesmo depois de me tornar um nômade, continuei roubando...até ouvir falar na poderosa família Tanaka.— ele fez uma pausa.— À princípio,eu pretendia forçá-los a entregar todos os patrimônios líquidos que possuem para mim; o que me tornaria rico o suficiente para que jamais tivesse que roubar outra vez. No entanto, mesmo que conseguisse fazê-los ceder, eu teria de matá-los. Mas não sou ninja, portanto não poderia fazê-lo sem deixar rastros. Eu sabia que jamais tornaria a ter paz se fosse o responsável pela morte de uma das famílias de maior prestígio do País das Ondas. Então, eu e meus asseclas decidimos forçar ninjas mais experientes a fazer isso por nós. Assim, sairíamos ricos e ilesos pela morte deles.— Seiji finalizou com um suspiro repleto de um júbilo sombrio, repuxando um sorrisinho maléfico nos cantos dos lábios finos.

Por detrás dele, dois homens e duas mulheres surgiram das sombras dos escombros pilhados ,posicionado-se a seu redor. Devido a iluminação tosca dos tímidos raios solares que irrompiam através da bifurcação no teto, e às máscaras escuras que possibilitavam somente a visão de seus olhos — Temari e Shikamaru não puderam vislumbrar com verdadeira clareza os rostos dos subordinados de Seiji. No entanto, uma vez que o próprio havia declarado que precisava de ninjas hábeis o bastante para cometer um assassinato sigiloso, ficara claro que seus seguidores, assim como ele, deveriam ser ninjas jovens com formação interrompida ou pouco treinamento.Porém Shikamaru sabia que ainda não poderia dar-se ao luxo de subestimar quaisquer um deles. Afinal, se todos ali realmente tratavam-se apenas de amadores, quem fizera o Genjutsu que dera ao galpão a aparência de uma pousada?

— Os Tanaka não tiveram seu veículo tomado por ninjas renegados durante a viajem ao País do Fogo. Você os sequestrou, e se passando por um deles, escreveu e enviou aquela falsa requisição a Hokage. Acreditando que tratava-se de uma tarefa simples, ela classificou esta missão como sendo de Rank C; ou seja ,era óbvio que um grupo pequeno de ninjas de nível médio-baixo seria mandado por ela. E isto tornaria ainda mais fácil forçá-los a te obedecer. Eles fariam o quê quer que fosse necessário para manter os Tanaka a salvo. — Shikamaru verbalizou suas deduções teorizadas através de todas as evidências até então expostas, dando respostas suficientemente lógicas para todas as lacunas ainda não preenchidas.

Ainda que a expressão em seu rosto fosse absolutamente impassível, o olhar que dirigia à Seiji era de puro escárnio.

— Seu plano seria genial se fosse tão ridiculamente previsível.— o tom de Nara era quase divertido. Ele soube que errou ao pensar, mesmo que por um breve momento, que Seiji seria um adversário interessante. Ele e seu bando não passavam de charlatões covardes e acéfalos que escondiam-se por detrás de falsas condutas terroristas. Não eram nada além do que somente dignos de pena. — Não existe absolutamente nada que você pode usar contra nós para nos forçar a matar os Tanaka para que você possa tomar os bens deles.

Ainda tomada pela perplexidade aterrorizante da situação tristemente improvável, Temari via-se incapaz de proferir quaisquer palavras.

O sorriso de Seiji ampliou-se quase ao ponto de ocupar o rosto todo.

— Será mesmo?

Dono de protuberâncias musculares no mínimo extravagantes e desordenadamente distribuídas em assustadores 2m de altura, o homem postado ao lado esquerdo de Seiji — sacou uma faca Kunai do interior das vestes, e utilizando sua outra mão livre, puxou o corpo inerte de Temari pelo ombro de encontro ao seu. Irada, a loira rugiu e debilmente lançou socos e chutes no ar, no intuito desesperado de livrar-se do aperto de aço sobre seu corpo. Imobilizá-la no entanto, em nada fora difícil para o grandalhão de porte físico intimidador. Temari fora separada de seu Leque ao tê-lo extraído de suas costas pela mulher próxima de seu agressor. Ela lutou o quão bravamente pôde contra o homem que certamente poderia esmagar-lhe o crânio com apenas uma mão. Porém, viu-se forçada a se aquietar quando achou-se com a pele do pescoço roçando perigosamente na lâmina fria da Kunai há pouco apanhada por ele.

A sucessão brutalmente veloz com a qual os acontecimentos desenrolaram-se, pôs Nara desorientado por um momento. Ele piscou, atordoado, e moveu-se para livrar Temari do homem-urso que sufocava-a em seus braços. No entanto, fora bruscamente detido no meio do caminho por Seiji:

— Você!! Torture o filho caçula dos Tanaka até eles cederem e nos entregarem sua fortuna. Do contrário,Temari morre!

A garota em posse do Leque de Temari empurrou impiedosamente um casal de meia-idade e três crianças na faixa etária dos 7 aos 10 anos aos pés de um Shikamaru espavorido. Nara não admirou-se em como até mesmo um não ninja como Seiji pôde facilmente colocar as mãos nos Tanaka. A família parecia exalar fragilidade dos poros. A mulher suplicou por clemência através de gaguejos falhos e soluços entrecortados, apertando fortemente duas meninas que choravam baixo contra seu peito. O patriarca dos Tanaka tinha um braço circundando o corpo trêmulo de sua esposa e filhas, e no outro um garotinho que, diferentemente de suas irmãs, desfazia-se num pranto barulhento. O Tanaka mais velho investia em frágeis tentativas de acalmar sua família. Contemplando tal cena, Shikamaru sentiu como se seu peito fosse atravessado por mil espadas.

Ainda plenamente imóvel no lugar onde Seiji havia-o parado, os olhos de Nara dispararam incontáveis vezes dos Tanaka ajoelhados à seus pés, para a face rubra de raiva de Temari, e à cada um dos rostos que ali fitavam-o. Ele repensou e reavaliou todas as suas estratégias arquitetadas até presente momento, descartando as mais improváveis e com maior probabilidade de resultarem numa completa catástrofe.

O princípio de um novo plano mirabolante, no entanto, trouxe a luz da solução à mente tempestuosa do rapaz, — fazendo-o em instantes, recriar novamente tudo que até presente momento já havia sido constituído em sua cabeça. Shikamaru apenas rezava aos céus para que tudo saísse conforme o planejado; do contrário, ele levaria à si mesmo, os Tanaka e muito provavelmente Temari também à morte certa.

Notas finais
Muito obrigada por ler!! ^^ Por favor não deixe de postar um comentário dizendo o quê achou do capítulo.Estou abertura á críticas,sugestões e elogios.Sua opinião é extremamente importante para contribuição do desenvolvimento da fic e claro,fará-me muito feliz.Portanto,não deixe de colaborar.Caso esteja interessado em acompanhar a fic,não se esqueça de marcá-la para acompanhamento e favorite-a também. Beijos e até breve! ♥♥♥