Amor Pleno
2 Capítulo 2: Equalizado
"Eu acho que gosto mesmo de você, bem do jeito que você é"
Mia definitivamente não era o tipo de garota que as pessoas gostavam de ver irritada, mas talvez a garota que ela quebrou o nariz na quarta série, não soubesse quem ela era, se não, não teria lhe negado emprestar a tinta. Foi quando as coisas começaram a ficar estranhas em sua vida, quando ela se deu conta, estava viva, desejando não estar, sendo obrigada a frequentar aquele lugar nojento que, ironicamente, deveria ajudá-la.
Apenas parem de tentar me concertar, eu não estou quebrada.
Era o segundo dia ali, e já havia sido mandada para ter uma conversa com o diretor do "manicômio", que era do que ela chamava aquele lugar. O que aconteceu foi muito simples; depois de andar sem rumo com o garoto estranho, algum idiota decidiu falar que ela não podia usar suas próprias roupas, e sim aquela coisa branca.
— São as regras, Srta. Saltzman. — Uma mulher dizia pela décima vez, enquanto Mia se soltava dos dois seguranças, ou enfermeiros, ou seja lá o que eram aqueles brutamontes.
— Eu não ligo nem um pouquinho para suas regras. Vou continuar usando minhas roupas. — Ralhou, cruzando os braços decidida. — E é "Mia".
Não era novidade que Mia era uma pessoa difícil de lidar, não aceitava regras, não seguia ordens. Seu estilo de vida era livre, fazendo as escolhas que ela queria e não que os outros queriam e, naquele momento, ela não queria de jeito nenhum usar aquelas roupas "sem noção."
— Leve ela para a doutora Quinn. — Disse a diretora.
No décimo segundo dia de James, ele parecia mais animado do que nos últimos dias. O sol havia nascido, depois de quase duas semanas de chuva e neblina, já não haviam tantas pessoas perambulando pelos corredores da clinica. Ele ainda não tinha definido o que era aquele lugar, além de ser um lugar para jovens com problemas, tinha também uma ala hospitalar para pessoas deficientes, tinha uma ala para pessoas loucas e tinha aquele lugar aonde ele estava... Um lugar fedido e sem cor alguma.
— Pudim. — Um homem gritou de repente, chamando a atenção dos enfermeiros quando este abaixou as calças, erguendo as mãos e fazendo uma dancinha.
James estava um pouco distante, no salão principal, sentado em uma cadeira, em um tipo de terapia em grupo. O cara do pudim acabava de interromper uma bela história de superação com drogas e prostituição.
— Muito bem... — A doutora Quinn ajeitou os óculos, respirando profundamente, provavelmente tentando se livrar da imagem dos testículos daquele homem. — James, quer falar alguma coisa?
Perguntou, olhando diretamente para ele. James balançava a cadeira para trás e para a frente lentamente, as mãos juntas na frente do corpo e aquele sorriso sacana que era quase como sua marca.
— Vão servir pudim hoje? — Perguntou, provocando a doutora. Haviam doze dias que ela tentava fazê-lo interagir, se pronunciar, dizer qualquer coisa, mas ele sempre acabava fazendo alguma piadinha sem graça e passando a vez. — Como você acabou em um prostíbulo? — Se virou para a garota com piercing no rosto
— Isso é ridículo.Eu vou fazê-los queimar no inferno... Tirem as mãos de mim. — Novamente a atenção do pequeno grupo foi chamada, viraram-se para a porta dupla por onde entravam dois enfermeiros segurando Mia Saltzman pelos braços.
Pela segunda vez, James sentiu as cores daquela garota pintarem todo aquele ambiente. Foi automático sorrir ao reconhecer a voz impaciente e o cabelo colorido.
Dra. Quinn se levantou, segurando uma prancheta contra o peito e arrumando os óculos.
— O que houve? — Perguntou, assim que colocaram Mia no chão, bem à frente dela. A Garota fez questão de puxar os braços da forma mais bruta que conhecia, segurando-se para não socar o rosto daqueles dois.
— Amanda pediu para cuidar dessa aqui. — Disse um deles, Mia ergueu a sobrancelha para a forma como havia se referido à ela.
— Tudo bem. Obrigada. — Ela disse aos homens, que balançaram a cabeça e se retiraram logo em seguida.
— Oi Mia. — James já havia se levantado de onde estava sentado, se aproximando da garota. — Por que você sempre usa essas luvas, hein? Não esquenta, não?
Como de costume, não o respondeu com palavras, o olhou de cara feia e lhe mostrou o dedo novamente.
As luvas que Mia usava eram longas, cobrindo quase o braço todo. Sua camisa era tão rasgada quanto a do dia anterior, havia uma frase acima dos seios "I Hate Boys". James a analisou, gostando de todas as cores que ela vestia.
— Sente-se, Mia. — A doutora disse, surgindo com uma cadeira, colocando-a ao seu lado. A garota bufou. Não queria fazer aquilo, era tão inútil quanto feriado aos domingos.
— Espera, Mia. — James praticamente gritou, correndo até a garota que se preparava para sentar na cadeira, o que não aconteceu já que ele simplesmente a pegou e carregou para o seu lado, segurando a cadeira com uma mão e o braço de Mia com a outra. — Pode sentar, Ana Paula estava dividindo suas experiências como prostituta.
— James Terch. — Doutora Quinn chama a atenção do garoto que costumava dizer tudo o que estava em sua mente. Este a olhou, com evidente confusão. — Por que não tentamos falar um pouco sobre as suas experiências?
— Não, por favor. — Ele ri, apoiando os cotovelos nos joelhos. — Eu nunca fui um garoto de programa, apesar de ter uma curiosidade...
— Ahh... — Quinn massageou as têmporas, suspirando com pesar e cansaço. Trabalhar naquele lugar não era uma tarefa fácil, mas acontece que James tornava aquilo uma tarefa impossível. — Mia, quer compartilhar algo conosco?
— O papo sobre prostituição está interessante. — Ela sorriu, como sempre, estava esparramada na cadeira, balançando os pés. — O que quer saber?
— Por que está aqui? — A garota ficou encarando a doutora, incerta se deveria ou não falar sobre o que a motivou a ter aquela maravilhosa experiência. Ela olhou para o garoto ao seu lado, vendo-o olhá-la de volta com suas órbitas azuis. Por que de repente ele precisava lhe passar algum tipo de segurança?
— Meus pais acham que eu preciso de ajuda. — Ela disse, cruzando os braços e as pernas, endireitando-se na cadeira.
— Você não acha que precise de ajuda? — Interessou-se, retirando a tampa da caneta e posicionando a mesma sobre o papel na prancheta.
— Eu não estou gritando desesperadamente para ser ouvida. Não preciso de ajuda. — Seu tom arrogante e a frieza eram nitidamente um escudo que havia construído ao seu redor, ao menos era o que pensava a doutora. — Não quero mais falar. Cansei disso.
— Tudo bem. Não vamos obrigá-la a fazer nada que não tenha vontade. — Ela sorriu com doçura, sendo ignorada por Mia. — Sua vez, Terch.
Este sorria para Mia, a olhando como se ela fosse o único raio de sol em um mundo de tempestade, a única mão estendida no universo. O incomodo da garota não era por estar sendo encarada por um possível psicopata, e sim, ser olhada da forma que James a olhava. Era o olhar que ela sempre desejou e nunca conheceu.
— Você é estranho. — Ela disse, sentindo pela primeira vez, uma ardência em seu rosto, endireitando-se na cadeira, incomodada com algo que ela não sabia o que era. — Pudinzinho.
— Tá. — Ele disse, abrindo aquele sorriso lindo que ele tinha. Era difícil olhar para James e vê-lo como um garoto perturbado e problemático. — Eu passo.
Após o fracasso que havia sido a terapia em grupo, Dra. Quinn decidiu fazer outras atividades, pensando que talvez os pacientes pudessem se expressar de outras formas que não fossem palavras.
— O que você está fazendo? — James perguntou, dando um belo susto na garota que estava bem concentrada em uma pintura.
— Droga, Pudinzinho. — Disse a garota, olhando para ele com raiva. James parecia não se assustar com ela. Por que ele não tinha medo? Por que não fugia como todos os outros faziam? — Cai fora.
— Eu já terminei. — Ele ergueu a folha de papel. Era algo parecido com o sol pintado de azul. Na verdade era um circulo com linhas em volta.
— Um sol azul? — Ela pergunta, rolando os olhos.
— É você, Mia. — Ele sorriu. — Um metro e sessenta e cinco de sol.
Mia tinha seu cabelo preso em um rabo de cavalo mal feito, seu rosto estava sujo com as mesmas cores que estava em seu quadro, assim como a roupa que ela usava.
— Você tem tantas cores. — James sorriu, olhando a pintura. — Me deixa te ajudar?
— Por que? — Ela perguntou, parando de olhá-lo e voltando ao que fazia, concentrando-se. James soube que pintura era algo que ela gostava.
Isso explica a tinta no cabelo.
— Porque eu sou um ótimo pintor. — Respondeu como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. — E porque eu gosto do seu mal humor constante.
Foi o primeiro sorriso que ele conseguiu arrancar dela, mesmo que ela tenha feito de tudo para ocultá-lo.
— Eu acho que posso gostar de você, Mia. — A garota estendeu um pincel para ele, ignorando o que ele dizia. — Bem do jeito que você é.
— Você é um idiota, James. — Ela balançou a cabeça e sorriu novamente.
James soube, diante daquele sorriso; ele era o idiota mais sortudo do mundo.
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