Amor Platônico

14 Eu gostaria de te conhecer melhor


Notas iniciais
3 meses depois, não é mesmo? Creio que mais de 3 meses depois, estou aqui. Não posso dar desculpas, porque elas não ajudam em nada. Muitas ocupações, mas de qualquer forma... Sigo firme e forte. Estou ajustando a história, no futuro cobrirei buracos... E ela em breve estará em processo de betagem. :) Vamos lá.

Sugestão de música

Senti algo me cutucar no escuro. Não era um pernilongo.

— Ei. Ei. Ei.

Fui descoberta, pega no flagra. Era mamãe ou papai? Não sabia. Estava muito cansada para saber.

— Inacreditável. Estou no chão. E ela tá aqui do meu lado. Doida.

Alívio. Ou não. Embora fosse Bryan e não meus pais, eu não tinha a mínima ideia de como iria explicar o fato de estar deitada no chão com ele. Ainda mais depois de ter feito questão de criar uma barreira física entre nós, a fim de evitar que ultrapassássemos o sinal vermelho.

Apertei os olhos com força. Ele precisava acreditar que eu continuava dormindo.

Escutei uma risadinha baixa. Será que fui descoberta?

— Linda.

Eu precisei controlar meus lábios para não deixar escapar um sorriso. A ideia de fingir que eu estava dormindo foi simplesmente espetacular. Ouvi-lo tecer um elogio sobre mim mudou um bocado da visão que eu tinha dele. A parte gentil existe. Se eu era linda, Bryan com certeza fazia parte do TOP 10 de garotos mais lindos do mundo. Fisicamente, ele merecia estar no Guinness Book¹. Quando se trata do interior, toda a sua beleza permanecia ofuscada e escondida. Ele não a trazia à tona.

Entendam, eu não sou hipócrita. Eu me apaixonei por Bryan porque ele era lindo. Ele me deu uma lembrança divertida de infância que eu nunca mais esquecerei. Sendo sincera, posso culpar o destino — na verdade, agradecê-lo — por ter feito com que eu o amasse.

Nesse mundo, existe uma série, uma multidão de pessoas consideradas perfeitas no quesito aparência. Eu não me deslumbrei com a maioria delas. Eu nunca acreditei que todos precisam ser magros, ricos e populares. Acne, sobrepeso e baixa condição financeira não me pareciam condições anormais ou ruins.

Sempre estive mais interessada no conteúdo.

Bryan era o diferencial. Ele era tudo o que as mulheres desejavam e a única pessoa popular pela qual me apaixonei. Claro que Raíssa, Henrique, Gabriel, Joana e Melissa — sem ordem de preferência — eram diferentes na minha visão. Eu os adorava. Agora, amor? Amor do tipo que tortura o peito e cega as pessoas para o resto do mundo? Só com ele.

Nunca soube explicar. Aconteceu. Talvez seja por isso que não era boa em relação às matérias que exigem muita lógica. C’est la vie.²

Ele não murmurou mais nada. Fez algo melhor do que eu esperava.

Seu braço direito foi parar na minha cintura. Seu corpo se moveu para mais perto cautelosamente, como se temesse me acordar. Coitado. Senti um breve afago na altura do couro cabeludo. Bom, muito bom. Exercer controle sobre o meu fingimento estava cada vez mais difícil. Eu só queria sentir. Pele contra pele, boca contra boca. Ah, o que eu faço?

Nada. Não fiz nada. Aproveitei o momento enquanto pude. Enquanto não via a luz do sol me avisar de que daqui a pouco papai e mamãe estariam prestes a nos acordarem.

Eu nem vi o tempo passar.

As luzes solares chegaram sem pedir licença. Não mandaram nem mesmo um telegrama. Não me deixaram alegres como costumavam deixar recentemente. Não eram mais o sinal informando que eu ainda tinha a oportunidade de ter você sabe quem ao meu lado. Eu sei, tudo é piegas demais. Pois a vida não é lá aquelas coisas que vemos na dramaturgia.

Depois de tanta insistência da natureza — aliada com o medo de me descobrirem em uma situação diferente — eu finalmente levantei minhas pálpebras. Só para me assustar em seguida.

— Bu.

Ai, meu coração.

Ele estava acordado. Bryan acordara e me assustara da cabeça aos pés. Eu quase soltei um palavrão mentalmente, devido ao susto.

— Nossa.

Foi só isso que saiu da minha boca. Eu quis explicar algo, dizer “olá” e até fingir que nada aconteceu. Quis tanta coisa que naquele momento, não consegui me expressar.

Eis a nossa situação: os lençóis que nos cobriam estavam espalhados ao nosso redor, dando um passeio. A blusa do meu pijama decente — usado apenas em dias de muito frio e para aquela ocasião frustrante — subira uns cinco centímetros, ficando na forma de um top com mangas compridas. A roupa de Bryan estava completamente amassada em seu corpo, provando meu ponto de que ele deveria ter aceitado qualquer vestimenta do papai emprestada para dormir. Fora o cabelo dele, que pela primeira vez desde que o vi parecia completamente desalinhado, sem aquele penteado característico de homens vaidosos. Estava muito mais bagunçado que o meu.

— Bom dia — sussurrou ele, usando um timbre de voz pacífico. — Eu posso saber por que minha namorada resolveu me fazer companhia nesse chão duro? Caiu da cama, foi?

Morri de vergonha. Senti vontade de fingir que era sonâmbula e que não sabia de nada. Não iria funcionar.

— Eu… — Limpei a garganta, tentando eliminar a rouquidão proveniente do sono. — Eu… Eu posso explicar depois, daqui a pouco meus pais vão acordar —

— Não tem problema. A porta está trancada. Diz aí.

Trancada? Eu nunca deixava a minha porta trancada. Aqui em casa estabelecíamos a privacidade. Ninguém invadia o quarto de ninguém. Mas também não nos fechávamos entre família. Era suspeito e indelicado.

— Não! — Corri até a porta e a destranquei. — Não pode! — Imediatamente senti as consequências de se levantar em um átimo. Cheguei a me sentir um pouco tonta.

— Caramba — Ele parecia chocado. — Você quer que os seus pais nos vejam no chão, é isso? Vai dar merda…

Outro palavrão sem fundamento. Tudo bem, as pessoas têm todo o direito de se expressar com esses vocábulos feios. Todo esse linguajar se tornou tão banal que muitas vezes elas nem se importam depois. Como se estivessem dizendo “bom dia” ao invés de algo um tanto quanto esdrúxulo.

— Você não entende. — Voltei a me sentar ao seu lado, enquanto ele ainda estava estirado no chão. — Se a porta permanecer trancada, quando eles acordarem e tentarem abrir… Vai ser pior. Pelo menos eu sei que a minha mãe vai ficar desconfiada. Ela vai surtar.

Ele apenas sorriu, vencido pelo meu argumento.

— Menina inteligente.

Resolvi agradecer o elogio com um beijo. Entretanto, ele me afastou.

Como?

— Espera aí.

Repentinamente, havia um Bryan estranho na minha frente. Esse mesmo Bryan saiu do chão, colocou os travesseiros na cama, juntou o cobertor e começou a dobrá-lo — ainda que desajeitadamente. Eu não entendi NADA. Eu não quis perguntar o motivo dele ter tentado se afastar de mim.

Sugestão de música

Só que infelizmente, eu senti. Senti a dor vindo em ondas inicialmente tranquilas, e conforme elas se instalavam no meu ser, decidiam em conjunto aumentarem a intensidade da dor. Da rejeição.

Eu imobilizei meu corpo tamanho o choque. Não deveria ser tão intenso. Deveria se manifestar em uma pequena quantidade e depois abrandar aos poucos. O amor contido dentro de mim era grande demais. Era capaz de arrancar pedacinhos de sanidade e transformá-los em um quebra cabeça difícil de resolver, pois era difícil consertar a dor. Ferramentas não ajudariam.

Ele terminou a tarefa. Eu permaneci pensando. Na verdade, permaneci agonizando e sem querer, me irritando. Por que eu não sabia limitar meus sentimentos por Bryan? Relacionamentos não duram em sua maioria. O tempo diminui a paixão.

A raiva chegou. Não dele, claro que não. Entendam que eu não nunca aprovei o fato de não ter amor próprio em larga escala. Entendam também, que naquele momento, eu constatei sem ter provas o seguinte fato: Bryan irritou-se comigo. Pela falta de confiança, pela confusão de ontem, por tê-lo deixado no chão — dominado pelo medo de ultrapassar o que não deveria ser ultrapassado — e por causa da minha chatice exacerbada.

Ele olhou para mim. Seu rosto carregada dúvida. Entendi, pois parei como uma bocó em sua frente, observando-o ao invés de ajudar. Parecendo uma morta viva.

— O que foi? — Soa como uma frase indelicada, certo? Não. Senti a preocupação contida em cada sílaba. Ele não queria me magoar, embora a vozinha pessimista dentro do meu cérebro insistisse nessa ideia.

— Nada.

Pensando bem, ele parecia… envergonhado, embora não acreditasse na minha desculpa esfarrapada.

— Desculpa, Agatha. Só é difícil pra mim acordar ao seu lado sem… Você sabe o que acontecesse de manhã — explicou-se, agora com as mãos nos bolsos da calça jeans amarrotada.

Eu sei?

Eu não sabia, não. Um grande ponto de interrogação instalou-se na minha cabeça, mas estava escrito na minha testa. O que acontece de manhã? Mau humor matinal? Mas ele estava bem humorado há três minutos…

Quando ele visualizou a dúvida pairando ao meu redor, soltou uma onomatopeia estranha. Uma espécie de engasgo com suspiro de susto.

— Tá de sacanagem, Agatha! Não prestou atenção nas aulas de Biologia?

Biologia? Alguma coisa está acontecendo com o corpo dele? Seria a coluna dolorida? Será que eu iria machuca-lo na coluna se o abraçasse com bastante entusiasmo?

Resolvia não arriscar.

— Eu prestei atenção. Mas… Por favor, o que… Você está passando mal?

Seus ombros caíram ao ouvir minha pergunta. Era um sinal de completa derrota.

— Agatha, desculpa, mas eu não vou explicar. É muito constrangedor. — Notei a perplexidade querendo chegar em seus olhos. — E quando descobrir, não me conte. Vou no banheiro.

Apenas o assisti sumir do meu campo de visão, entrando em um estado de desequilíbrio total. Porém, antes que meus pensamentos retornassem a minha mente para me perturbar, mamãe surgiu no meu quarto.

— Onde está Bryan? — Daria para encher um balde inteiro com a curiosidade dela.

— Ali. — Apontei com o dedo indicador na direção do banheiro. Não era um dia bom para falar. Eu queria evitar usar as palavras erradas e parecer um idiota novamente.

Um barulho de água corrente confirmou minha indicação.

— Você quer tomar café da manhã? — perguntou ela.

— É. — Me sentia bastante aérea, pulando no espaço de planeta em planeta, exceto no que eu vivo. — Quero.

— Certo. Vou preparar pra você. — Suas feições demonstraram que ela não tinha percebido a minha viagem. — E pra Bryan — completou.

Ela parecia tranquila. Não sei se o meu pai conseguiu acalmá-la ontem à noite ou se ela finalmente entendeu que eu não tomo decisões baseadas em impulsos. Afinal, pessoas medrosas agem pouco e se recolhem muito dentro de uma casca protetora. Eu pensava muito antes de agir. Ah, quer dizer… Teve a ocasião em que eu beijei Bryan de supetão no refeitório.

Pensei naquela ação com um sorriso sonhador no rosto. E foi exatamente assim que Bryan me encontrou: sentada na cama, exibindo um sorriso para a parede. Devia estar semelhante a uma pessoa que perdeu as estribeiras.

— Por que está rindo?

— Nossa! — Tumtumtumtumtumtumtumtum. Hoje era o dia oficial de assustar? Ele quase matou o meu coração de susto. — Eu? Eu não estou rindo.

— Rindo, sorrindo… Tanto faz. — E revirou os olhos.

Eu ia explicar. Sinceridade é importante…

Até que observei de verdade a pessoa na minha frente.

Nunca tinha visto o cabelo de Bryan molhado. Úmido pela chuva, talvez. Nunca tinha visto ele assim, com a cútis molhada. E a camisa encharcada, como se ele tivesse ignorado a toalha pendurada perto do box. Ele tomou banho, então. Claro, o barulho da água caindo era constante — embora meus devaneios tivessem me impedido de perceber. A calça jeans estava no mesmo estado da camisa.

— Você descobriu o que é e agora que sabe está achando engraçado. Acertei?

Errou totalmente. Eu ainda não fazia ideia do que tinha acontecido com ele antes. Se Bryan não pretendia me contar, só tinha um jeito. Perguntar para alguma das minhas amigas. Melissa era uma boa opção, já que antes de mim ela já estava namorando.

— Não, nada disso. Não entendi até agora.

— Sério? — Sentou-se ao meu lado, na beirada da cama.

— Posso ser sincera? — perguntei.

— Claro.

— Eu pensei… Eu ainda penso que você está chateado comigo. Não queria me beijar.

Ele bufou, contrariando a minha hipótese.

— Errou feio. — Seus olhos fixaram-se nos meus.

Então, eu senti. Senti aquele peso instaurado pela preocupação sair dos meus ombros.

Em seguida, ele me beijou.

Foi tão intenso, e melhor que todos os beijos anteriores. A confirmação necessária para eliminar os medos que restavam em mim. Involuntariamente, minhas mãos requisitaram tocá-lo com certa violência. Eu, tão contida nas minhas ações, não pude evitar puxar seus cabelos e depois tatear sua nuca sem o mínimo de suavidade.

— Hmm, quem diria, hein? — Provocou, com o rosto colado ao meu. — A Agatha tem pegada.

— Bryan! — Afastei-me dele, num átimo. — Não fala essas coisas!

Ele riu durante uns trinta segundos, até perceber que eu não iria acompanha-lo em momento algum. Nada engraçado.

— Por que não? — Seu corpo deslizou devagar até ficar perto do meu. — Eu gosto quando você fica vermelha.

Arqueei a sobrancelha, ponderando sobre aquela observação repentina.

— Pois eu não acho. É bobo e denuncia a minha timidez.

— É lindo — rebateu.

— Não é não.

— É sim, Agatha.

— É porque isso não acontece o tempo todo com você, senão, duvido que acharia lindo. — Fiz um gesto de aspas imaginárias para a última palavra.

Ainda sem tirar o sorriso do rosto, sua mão esquerda tocou uma mecha do meu cabelo. A mesma mão foi descendo, até encostar-se a minha bochecha avermelhada.

— Eu fico pensando, às vezes.

— Em que?

— Como pode uma menina como você não perceber que é linda?

Todos sabem que uma garota apaixonada se derrete quando escuta coisas desse tipo. Do tipo que está escrito nos romances que ela leu durante toda a adolescência ou talvez tenha visto na televisão. Eu achava que tudo isso não passava de uma fantasia insana, que deixa de existir por completo quando chegamos à fase dos trinta anos. Eu achava que as pessoas gostavam de mergulhar em ilusões, pois não tinha coragem o suficiente para encarar o fato de que a vida é dura. Mas, a iludida... A iludida era eu.

Eu não era capaz de enxergar a beleza do amor. Eu via o mundo em preto e branco. Eu só enxergava as cores da vida em poucos momentos. A verdade é que...

Eu era cega.

Mas não mais. Não depois de ter me aberto para vida. Não depois de ter regado as sementes que recentemente deixei nascer para que se tornassem frutos.

Era minha vez de beija-lo e mostrar o quanto eu o amava, mesmo que não me sentisse segura para relevar os meus sentimentos.

Retirei a sua mão dos meus cabelos e a depositei no órgão que deu início a tudo o que eu sentia: meu coração. Ele não entendeu muito bem a minha ação, até ouvir o que eu queria que ouvisse: batidas frenéticas. Manteve sua mão lá e não falou nada.

Então, sem pensar muito, beijei seu rosto em ambos os lados. O nariz. O queixo quadrado que tornava o seu rosto mais lindo. E finalmente, a boca. Nunca um simples selinho demonstrou tanto amor.

Depois, observei sua reação.

As mãos continuaram na altura do meu peito. Sua expressão parecia neutra, mas eu percebi que seus olhos tinham a resposta. Escurecidos, num tom de verde escuro, eles estavam emocionados. Não deixaram de me fitar enquanto eu continuava a derreter por dentro.

E foi assim que mamãe nos encontrou.

— Urrum... — Sua tentativa de pigarrear não foi bem sucedida. — Crianças, o café está pronto. — E saiu em retirada, como se estivesse correndo de uma grande ameaça mundial.

Apenas eu movi a cabeça para dar atenção à mamãe. Bryan permaneceu me fitando, sem retirar sua mão do meu coração. Um minuto se passou. Dois, três, minutos se passaram. Eu poderia permanecer naquela posição por um longo tempo, como uma estátua imóvel e despercebida às coisas alheias. Entretanto, Dona Amanda voltaria a nos chamar e depois perguntaria se estávamos brincando de estátua. E mais tarde, quando Bryan for embora, ela vai me puxar para um canto e perguntar sobre os meus sentimentos.

— Bryan? — Toquei em seu ombro. — Vamos descer?

Sua mão saiu lentamente do meu peito, deslizando até retornar a sua perna. As íris de seus olhos foram clareando pouco a pouco. Voltamos à realidade.

Levantei, esperando que ele me imitasse. Após fazê-lo, aquele sorriso tão adorado por mim despontou.

— Acho que agora entendi porque você vive em seu próprio mundo. É um mundo bom. Obrigado por me deixar fazer parte dele.

Arfei. Perdi o fôlego. Sorri. Corei.

Eu te amo euteamoteamoteamo... Eu te amo, amoooooo, gritei em forma de pensamento. Eu devia falar. Era melhor falar. Ele merecia saber sobre o começo de tudo. O parque, o jardim de infância, meus sentimentos...

— Vambora, linda — Seus ombros me envolveram. Meus braços circundaram sua cintura. Então, descemos a escada abraçados.

Eu tinha conhecido o êxtase. Com certeza.

***

Sugestão de música

— Mais café, Bryan? — perguntou mamãe.

— Não, Amanda. Obrigado.

Meu namorado estava impressionado com a quantidade de coisas presente na mesa. Eu também. Geralmente, pão, biscoito, leite e café eram tudo o que tínhamos. E se eu quisesse algo diferente, como panquecas ou até mesmo tapioca, eu que me virasse para fazer. Ela não podia perder o noticiário da manhã.

Aquele dia foi... Extravagante. Os pães eram recheados e deviam ter custado uma pequena fortuna. As opções de bebidas eram bem maiores. Até meu suco favorito – abacaxi com hortelã – estava lá. O que uma mãe não faz para impressionar seu... genro, não é mesmo?

— Mãe — Tentei quebrar um pouco da tensão. — Cadê o papai?

— Ainda dormindo, acredita?

— Dormindo? — Não pude evitar a surpresa. — Mas ele acorda cedo até quando não vai trabalhar!

— Eu sei — Ela se remexeu na cadeira, inquieta. — Acontece que ontem conversamos muito antes de dormir. — Suspirou. — Eu me preocupo com vocês, crianças. Especialmente com você, filha.

— Mãe... — ralhei.

— Não, eu já entendi. Seu pai passou pelo menos uma hora me convencendo que vocês são maiores de idade e que já podem tomar suas próprias decisões. — Ela parecia estar sendo sincera em suas palavras. — Minha Agatha agora é adulta.

Foi a vez de Bryan inquietar-se.

— Amanda, sobre ontem, me desculpe...

— Sem problemas — Mamãe ergueu sua mão em sinal de “pare, e não se preocupe”. — Namoro é assim mesmo. Vocês não são o único casal que brigaram no mundo ontem.

Foi bom ouvir isso da minha mãe. Não soava como mais um daqueles discursos clichês que você lê ou assiste por aí. Aquelas palavras soaram como um certificado do tipo “parabéns, agora você é uma jovem comum, com direito a uma vida de verdade.” Eu peguei aquele certificado imaginário com certo contentamento. Levara uma vida inteira para finalmente concluir meu curso. Que alívio.

— Obrigada por confiar em nós, mãe. — Exibi um sorriso sincero.

— Por nada, filha. — E com essas três palavras, estávamos bem. Não éramos pessoas afetivas. Sem beijo, sem abraço, sem carinho entre mãe e filha. Para nós, o conforto que sai através da voz era suficiente.

Agora calado, Bryan observava a nossa pequena conversa com uma expressão serena. Eu pretendia, assim como ele, não falar mais nada. Usar o silêncio como resposta para o fato da discussão de ontem ter sido esquecida — não completamente, pelo menos as mágoas que poderiam ser criadas não nasceram. Mas mamãe não deixou. Ela queria conhecer mais sobre o meu namorado.

— Então, Bryan... Me conte mais sobre você. — Essa sim era uma frase clichê.

Bryan fez o que eu esperava: formou uma leve curva entre as sobrancelhas, demonstrando que não entendera onde mamãe queria chegar. Olhei para a minha mãe, e nesse olhar continha um pedido de moderação. Inabalada, resolveu insistir naquela conversa.

— Eu conheço o seu pai, já que ele trabalha na mesma empresa que o Renato. A sua mãe eu conheço de vista. Agatha me disse que você tem irmãos. Quantos anos eles tem?

Hora do interrogatório. Sem problemas, a não ser que a pessoa fosse como Bryan: reservado quando se trata de assuntos mais íntimos. Prova disso é que eu só visitara sua casa aquela única vez. Para completar, naquela altura do campeonato, meus pais não conheciam os pais dele. Isso era bastante incomum em relacionamentos. De vez em quando, tanto papai como mamãe me perguntavam quando iriam conhecer a família dele. Por um milagre, nenhum dos dois embarreirou o nosso namoro por causa desse afastamento. Aquele fator de sempre: deixem a filha dependente fazer suas próprias escolhas.

— Tenho dois — respondeu, ainda que sua fala demonstrasse total desconforto. — Um irmão e uma irmã. Ele se chama Gabriel e ela se chama Raíssa. São gêmeos.

Oi?

Eu não sabia da última informação.

— Gêmeos? Que interessante! Qual é a idade deles? — Ok, iríamos ter uma longa conversa, pelo visto. Agora... Gêmeos?

— Apenas um ano mais novos que eu. Minha mãe engravidou deles sem planejar... Foi uma surpresa.

Ah, meu Deus, eles são gêmeos.

Eu merecia o troféu de burra, de uma garota lerda que não percebia nada. É claro que eles eram gêmeos! Mesmo ano no colégio, semelhanças físicas. Personalidades completamente diferentes, claro. Sei lá, na minha mente achava que Cristina teve três filhos seguidos, um em cada ano. E que talvez um dos irmãos dele tivesse repetido de série. De repente, quis ter a mesma atitude de mamãe. Quis ter coragem de perguntar diversas coisas sobre a vida de Bryan, mesmo que ele não fosse uma pessoa aberta. Não que eu fosse igual a ele nesse aspecto. Ambos éramos fechados em relação aos outros. Mesmo Bryan sendo popular e admirado por uma legião de adolescentes em ebulição, ele nunca foi muito paciente em lidar com as pessoas. Eu... Eu era medrosa. Sofrida.

— Agatha? Algum problema? — Ele percebeu que eu estava cheia de caraminholas na cabeça. Creio que minha surpresa estava refletida em meu rosto.

Antes que eu respondesse, ele tocou meu ombro suavemente, prestes a me retirar do local, caso eu estivesse passando mal. Até estava. Passava mal com a minha burrice.

— Ahn... Nada — menti.

— Tem certeza?

— Sim. Apenas com um pouco de sono.

Sei que mentira tem perna curta, mas fazer o que? Não pretendia que ele soubesse da minha total viagem em relação à família dele. Como se não bastasse o meu desconhecimento em relação ao afastamento súbito pela manhã.

— Quer descansar mais um pouco, filha? — Mamãe não parecia tão preocupada quanto Bryan.

— Não quero — respondi. — Continuem a conversar, estou gostando.

E estava mesmo, apesar do notável embaraço de Bryan. Sinto muito, mas você vai ter que sofrer pelas mãos da minha mãe. Quem mandou ser tão fechado comigo?

— Ah, sim! — E repentinamente, o ânimo dela voltou em doses explosivas. — Me conte mais sobre eles? São tão bonitos como você? Saudáveis?

Quis responder por ele, bem alto: “São sim, são sim! Dois jovens que poderiam estar estampando capas de revistas, assim como o meu namorado!” Mas, a hora de falar era dele. Ter a oportunidade de vê-lo ficar desconfortável e usando um medidor de palavras na frente da minha mãe... Grande oportunidade, sério.

— Obrigada pelo elogio, Amanda. Eles tão bem de saúde. Quer dizer, Gabriel tinha diversas alergias estranhas na infância, mas com tratamento, ele tá bem.

— Coitadinho! — Com os olhos arregalados, mamãe concentrou muita pena em seu olhar. — Alergia a que?

— Várias. — Ele franziu o cenho. — Principalmente poeira e pelos de animais. Ele ficou até os oito anos de idade assim. Quase não saía de casa. Hoje sai demais. Tá recuperando o tempo perdido, sabe como é.

Com novas descobertas, encontram-se novas constatações. As alergias severas de Gabriel com certeza eram o motivo de sua ausência naquele dia... O dia do parque. Mais uma dúvida tinha sido retirada da minha mente. Muito bom.

— Fico feliz que ele esteja curado — disse mamãe, gloriosamente sincera. Eu me pergunto porque não nasci tão espontânea e boa como ela. A vida teria sido mais fácil. — Mas vamos lá... E você, querido... Vamos falar sobre você. O que gosta de fazer?

Bryan olhou para o relógio branco pendurado na parede da nossa metade cozinha, e metade sala de jantar improvisada.

— Ahn... De muitas coisas. — A falta de vontade de responder agora era evidente até para minha mãe. —Na verdade, eu tenho que ir, Amanda. A minha mãe está esperando por mim, cheia de perguntas sobre ontem e tudo mais. — E levantou-se da cadeira rapidamente, assumindo uma posição de impaciência.

Já passava das 11h00 da manhã. Estávamos muito perto do almoço, comendo guloseimas ao invés de algo mais nutritivo. Sei que isso não justificava a fuga do meu namorado perante as perguntas. Contudo, era melhor adiar esse interrogatório. Cristina é mãe, e todas as mães decentes se preocupam com o filho em situações incomuns. Provavelmente ela nem dormira pensando no que aconteceu com o seu filho.

Minha mãe fez questão de demonstrar a decepção com um muxoxo angustiante, é claro. Tive que esconder o meu, de certa forma. Levantei-me, assenti levemente com a cabeça e me virei para ela, tentando amenizar a decepção:

— Mãe, o Bryan pode voltar depois e conversar mais com a senhora, e até o papai. É melhor ele ir, sua família deve estar preocupada.

Ela não levantou. Também não desfez a expressão de angústia. Mau sinal.

— É uma pena, então. Até mais, Bryan. — E permaneceu sentada, sem deixar de nos encarar, agora com uma leve contrariedade. Acredito que o seu estoque de paciência envolvendo os mistérios em torno dele acabara. Ela queria conhecer sua família, queria ser a sogra perfeita que eu sempre soube que ela seria. Sei que ela e Cristina formariam uma boa dupla de amigas, mas fazer o que? Eu não posso ditar as vontades do meu namorado.

Bryan com certeza notou a reação da minha mãe, mas fingiu que não notou. Ele pegou minha mão, e juntos — novamente — fomos andando em direção à porta, esta que foi a causa da confusão de ontem. As coisas mudam, não é mesmo? Eu que o diga.

— Linda, te ligo depois?

— Sim. — Sorri.

Depois. Deixemos as coisas para depois. Vamos nos conhecer depois. Tudo o que sinto, falarei de novo... Mas só depois. Eu não me agradava nem um pouco com essa palavra aí, que usamos para justificar nossos atrasos e para deixar as coisas pendentes quando na verdade poderíamos resolver agora. Eu podia estar sorrindo e até mesmo bastante receptiva para vê-lo depois, falar com ele depois. Entretanto, naquele momento, pensava na minha mãe. Pensava no quanto ela deveria estar decepcionada e um tanto chateada com a nossa instabilidade. Com o fato de não termos um namoro absolutamente normal. Quero dizer, meio difícil de acontecer, quando o casal tinha certos... problemas.

Constatei que Bryan, apesar de popular, apesar de ter vivido uma vida como um adolescente normal — e agora jovem adulto —talvez tivesse algumas coisas em comum comigo. A falta de um lugar no mundo. O medo de se abrir e escancarar as portas de sua mente. Talvez se sentisse desencaixado, desestruturado e desapegado a esse mundo. Talvez.

Mas de uma coisa eu tinha certeza: formávamos o desencaixe perfeito. Tínhamos que formar, assim, tão perdidos neste planeta.

Dessa vez, a despedida foi tradicional: o beijo, a mexida no meu cabelo e o sorriso de canto, que dessa vez quase se estendeu por toda a sua boca. E claro, meu coração acelerado, porque certas coisas não mudam nunca.

Com a garagem já aberta, Bryan entrou no carro e estava prestes a partir. Isso mesmo, eu não deixei que ele partisse antes de ouvir algo que eu precisava dizer.

— Bryan? — gritei da porta da garagem, quando ele já estava prestes a cantar pneu.

— Sim? — Ele olhou pra mim com as mãos no volante, apenas... esperando.

— Você não precisa fugir de mim ou da minha mãe. Você não precisa esconder o que sente. Eu costumava fazer isso e... Você já sabe o resultado.

Sua expressão de choque seria cômica, se não fosse trágica.

— E você sabe se estou fugindo, Agatha? — As mãos agora apertavam o volante com força. Aquilo era raiva?

— Não sei. Se estiver, pare.

Aproximei-me mais do seu carro, parando agora em frente a ele, quase encostada na janela. Não sei se ele estava entendendo o que eu queria dizer. Tudo bem que eu não tinha facilidade de me abrir. Tudo bem que eu não era um exemplo de pessoa, alguém que tinha diversos conselhos para dar ao mundo. O meu saíra da cartola, como num passe de mágica.

Ele relaxou as mãos, olhou para mim e disse:

— Pode deixar, linda.

E com um sorriso repentino em seu rosto, arrancou com o carro.

Sorri também, mas no fundo, meus pensamentos eram preocupados: espero que a promessa seja cumprida.

Notas finais
Abaixo, as notas da história. 1 - O Guinness World Records (antigo Guinness Book of Records, lançado em português como Livro Guinness dos Recordes) é uma edição publicada anualmente, que contém uma coleção de recordes e superlativos reconhecidos internacionalmente, tanto em termos de performances humanas como de extremos da natureza. Em 2003, o livro chegou a 100 milhões de cópias vendidas, desde a sua primeira edição em 1955, sendo o décimo livro mais vendido da história, o de 2009 é o quinquagésimo-quinto. Fonte: Wikipédia. 2 - Frase em francês. Tradução: É a vida. Então, galera. Neste momento estou começando a montar um arquivo sobre os personagens, os detalhes da história e o que acontecerá no futuro, pois quando tinha 14/15 anos, eu não pensava em planejamento. Não quero mais fazer promessa em relação a próxima postagem, só quero dizer que a história está caminhando. Obrigada a todos, de coração
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.