Amor Platônico Hipernarcísico - Ezkko

1 A realidade sempre será a realidade


Seguro de si, com instintos muito bem afiados e um sorriso zombeteiro costumeiro enfeitando sua face. Este é o espectro imaginário que Ekko havia criado de primeira quando conheceu Ezreal. A princípio, imaginou que era apenas mais um garoto rico e mimado, que infelizmente era bonito demais para ser ignorado pelos seus olhos ou odiado com justificativas mais sólidas, e portanto, ambos nunca teriam nada um com o outro, pela diferença discrepante entre eles.

Por mais confiante que fosse, Ekko não tinha coragem de se aproximar do loiro dos seus sonhos. Até porque tudo o que ele conhecia era seu exterior, aquilo que Ezreal permitia que as demais pessoas vissem. Não podia, então, enxergar teu espírito e definir uma cor para ele.

Ter uma paixão platônica era muito mais fácil do que procurar um romance realista. Porém, não era satisfatório o bastante, nem doce o suficiente para se sobrepor ao dissabor em tua alma. Teu coração não se aquietava de ansiedade por conhecer mais do nobre garoto dos cabelos dourados e olhos safira, e quanto mais Ekko desejava trocar palavras com ele, mais teimava em se afastar, para a segurança de seu psicológico fragilizado, constantemente hostilizado por outros pelos mais diversos motivos.

Cor de pele, sexualidade, local de origem, enfim, coisas que não deveriam rotular quão boa pessoa, ou digna de viver, Ekko era ou não.

Contudo, existia algumas vantagens ao cultivar um amor platônico por tanto tempo. Uma delas é que não há discussões, não há conversas constrangedoras, não se cometem erros e ninguém fica decepcionado. Afinal, são meras expectativas e, se ele já sabia que não havia a menor possibilidade de Ezreal vir a correspondê-lo, tudo o que existia em seu coração era somente o lado bom do sentimento, o lado ilusório, a parte criada pela sua bolha imaginária.

Sim, criar um relacionamento fantasma e viver disso poderia vir a ser uma forma de amar alguém. Um jeito de estar, mesmo que em pensamento, conectado àquele que amava.

O problema é que não era com Ekko que aquela pessoa estava. Era com teu reflexo, com o que ele enxergava de si mesmo, ou pior, com a pessoa que Ekko gostaria de ser e muitas vezes não era, apenas por possuir problemas de autoestima. E também não era a pessoa, mas aquilo que Ekko enxerga na pessoa. Ezreal poderia não ser nada do que ele imaginava, por trás da aparência nada humilde, quem sabe o que existia além? E se ele fosse um indivíduo maligno, de intenções inapropriadas? O campo da imaginação se limita a falta de conhecimento. E conhecer a verdade pode muito bem despedaçar os delírios de um pobre coração recheado de dúvidas e receios.

O amor platônico é hipernarcísico, e portanto, insuficiente para quem não aprendeu a ser egoísta e covarde. Ekko não conseguia ser narcisista o suficiente para viver de um romance de mentira, gerado pela sua mente mirabolante, e muito menos aguentaria morrer de amores pela projeção de um ser humano que conhecia só de vista.

— Eu sou o Ekko. — mesmo tímido, ele conseguiu ao menos se apresentar ao rapaz.

As ilusões tinham de ser destruídas, atropeladas pelo seu coração palpitando de nervosismo. Se a mentira era insuficiente, o amanhã traria a verdade, e dolorosa ou não, Ekko aprendera com Ezreal a lição de que um amor platônico hipernarcísico é o pior jeito de se relacionar com outro indivíduo.

Afinal, humanos são complicados por si só e alimentar fantasias não era a solução mais inteligente. A realidade sempre será a realidade, e imaginação nenhuma pode competir com o que, de fato, é.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!