Amor Perfeito XV
9 Surpresas
Notas iniciais
Alice Narrando
Horas se passaram e eu não acreditava no que havia acontecido. Minha cabeça se repousava confortavelmente no peito de Arthur enquanto ele fazia carinho em meu cabelo. Lembrava dos últimos momentos, dele chegando em minha casa e me beijando sem pedir licença e sem dizer nada e nós dois correndo para o meu quarto.
— Arthur. – sussurrei seu nome e me sentei totalmente assustada. – Ouvi um barulho.
— Seus pais não saíram? – concordei gestualmente.
— Mas já voltaram né?! – questionei o óbvio. – Quanto tempo pensa que estamos aqui?
— Alice! O seu pai vai me matar. – o seu pavor quase me fez rir. E eu até o faria se também não estivesse preocupada.
— Se esconde. – o coloquei no banheiro e me vesti correndo.
Não demorou nem um minuto e os dois estavam abrindo a minha porta. Dei um sorriso tentando disfarçar, entretanto, logo vi que não seria nada fácil sair daquela situação.
— O carro de Arthur está lá na porta, cadê ele? – tinha certeza que meus olhos se arregalaram ao ouvir a pergunta do meu pai.
— Carro de Ar... – não consegui nem terminar o nome do meu primo.
— Sim. – troquei olhares com minha mãe para ela entender e pudesse me ajudar. – Ele não está aqui?
— Tem certeza que o carro era o dele? – me fiz de sonsa.
— Alice – sua voz mudou, o que me atentou bastante. – Não tem como confundir um automóvel igual ao dele. Se ele não está aqui devemos ligar para acha-lo, se esqueceu do sequestro? – me senti culpada com a sua preocupação.
— Vamos dar umas voltas, talvez ele esteja aqui perto ou se encontrou com algum dos amigos. – minha mãe finalmente disse algo para me salvar. Ela beijou o rosto dele e o olhou. – Vai indo, eu vou só falar com nossa filha.
— Obrigada. – agradeci muito baixo após meu pai sair. – Será que ele desconfiou?
— Não. – entrou no quarto e se sentou ao meu lado. – Seu pai não pensa em você dessa forma. – sorriu minimamente. – Cadê ele? – apontei com os olhos para a porta do banheiro. – Mande que ele saia e ande para o leste, quando o acharmos ele inventa estar ajudando alguém com algo, isso é a cara dele. – dei o sorriso mais admirável que eu podia. Ela fez carinho em meu cabelo e lançou um olhar tenso. – Espero que vocês dois tratem de se acertar. – concordei gestualmente a deixando ir.
— Essa foi por bem pouco. – Arthur confessou assim que nos vimos. – É melhor eu ir rápido né? – balancei a cabeça positivamente. – A gente se fala então daqui a pouco. – sua expressão era de tristeza agora. – Não vai dar. Você tem que ir embora hoje ainda. – esse era o nosso problema, o tempo nunca estava a nosso favor.
Ao entrar no carro de Kevin para irmos para a capital meu estômago parecia embrulhar. Ao contrário da sensação real de mal-estar, essa apenas me causava alguns arrepios e contrações. Invés de mais uma vez deixar a cargo do destino ou prolongar aquilo com a condição de que para termos que ficar juntos uma conversa interminável acontecesse na semana que vem, Arthur apenas entrou em minha casa com os meus pais e pediu para que eles o deixassem ser meu namorado novamente.
A reação da minha mãe foi a melhor. Ela me olhou assustada, como quem não sabia que ele estava no meu banheiro instantes antes. Entendi o motivo quando ela abriu a boca. Seu medo era que eu me arrependesse, que nessa atitude dele estivesse sendo anulado um dos motivos do nosso romance, minha vontade. Em suas palavras, ela afirmou que não queria que ele me silenciasse. Esse pedido não devia ter sido feito assim de repente.
Arthur era tão perfeito que não deu nem meio passo para trás e principalmente a compreendeu. Disse que não devia ter agido daquela forma, entendia parecer sim uma atitude do século passado e que a minha vontade é que devia prevalecer e por fim, ele explicou que fez isso por saber ser o que eu queria.
O que eu fiz? Eu fui em sua direção e o beijei. Não podia ser diferente. Já o meu pai discutiu com a minha mãe e repetiu que ela estava sendo dramática. Apesar de tudo, ele ainda confiava no genro. Essa era a parte boa. Porque eu precisaria de alguma parte boa para conseguir aturar o demônio da minha sogra.
A semana passou de um jeito mais tranquilo e sereno, já que agora eu tinha um motivo para sorrir e a felicidade aos poucos parecia fazer parte novamente da minha vida. Na sexta quase no fim da tarde, Rafael simplesmente apareceu aqui com todos.
— Surpresa. – ele disse sorrindo e beijou o namorado. – Não queria esperar até amanhã cedo para te ver. – se afastou e analisou a expressão de Kevin. – E o Arthur quer levar a Alice no parque que você a levou. – cruzei os braços encarando o idiota grande e forte em minha frente.
— Por que isso? – não disfarcei minha irritação.
— Orgulho. – segurou minha cintura. – Ego ferido. – selou nossos lábios.
— Oi para vocês também. – Ryan acenou. – Só o que importa são esses dois.
— Espero que tenha quarto o suficiente, veio todo mundo. – Soph adiantou e deu um sorrisinho.
— Não tem e eu sei disso. Trouxe colchão inflável, vou encher e espalhar pela casa. – Rafael falou antes que Kevin tivesse um ataque. – Quem é o seu herói? – perguntou como se perguntasse a uma criança. Dei uma risadinha rápida.
— Homem de gelo, na verdade. – Kevin se fingiu pensativo.
— Não. Rafael gostoso. – todos começaram a rir e ele se mostrou contrariado. – Não posso salvar o dia do meu namorado?
— Isso pode. Se chamar de gostoso não.
Eles deixaram aquela discussão boba de lado e Kevin e eu começamos a mostrar o apartamento a eles. Assim que viram tudo se jogaram no sofá, poltrona e chão. Não podia negar, eu ainda estava bastante chateada com Arthur. Ele percebeu isso e me chamou para conversamos em meu quarto.
— Só penso que não faz sentido algum você descontar qualquer coisa que veio do Kevin. A minha paixão com ele ficou no passado. – falei olhando em seus olhos. – Isso foi há muito, muito tempo.
— Mas continua igual. Quer dizer... – puxou o ar com força e soltou. – Quando eu vi aquilo tudo que ele fez comecei a reparar nisso. O que mudou é que você tem tanto medo de não ficarmos juntos que se convenceu que não tem nada de mais.
— Você não sabe o que está dizendo. – ficou em silêncio apenas me observando. – Tudo bem... E o que o Kevin acha disso?
— Por que ele tem que achar algo?
— Isso o envolve. Ele tem direito de opinar nessa sua loucura ridícula.
— KEVIN. – ele abriu a porta e gritou o irmão, me surpreendendo.
— Alice... – estranhei o olhar e o tom de voz do meu amigo. – Não é uma boa hora para instigar Arthur. Você sabe o que ele precisa agora e não é de conflitos.
— Mas ele... – me interrompeu de um jeito precipitado.
— Não importa o que eu acho, essa é a minha resposta. Agora vocês dois poderiam deixar esse assunto pra lá? – nos olhou.
Por motivos que eu não entendia, resolvi ouvir o senhor da razão e interrompi aquela discussão antes que ela virasse uma briga e claro, acabamos na cama, mesmo que nossos amigos estivessem no outro cômodo.
— Olá. – Kevin apareceu usando a chave do meu quarto que ele tinha. Estava deitada no peito de Arthur cochilando e xinguei mentalmente. – Imaginei ser essa cena que eu iria ver.
— Privacidade pra que né? – perguntei me cobrindo mais ainda.
— Não fiquem com vergonha. Já conheço o corpinho dos dois de trás para frente.
— O que você quer Kevin? – Arthur se estressou com o irmão.
— Deixe-me acabar de falar? – o encarou com tédio. – Agora que ingressaram com tudo na vida sexual, devemos ter mais intimidade. Que tal se vocês toparem de... – meu namorado se levantou e iria avançar em Kevin, mas eu impedi. – Nossa, que estressado.
— Você me manda ficar quieta e o provoca? – tentei entender seu raciocínio.
— É o jeito Kevin gritando em mim, não consegui evitar. – sorriu. – Vim falar sobre o satã. – mudou seu olhar, expressão e humor. – Não gosto de estar em desvantagem, eu o irritei muito. — ele chamava tentar matar de irritar. — Pensei em algumas situações que ele pode causar como resposta. E uma delas me preocupa mais.
— Qual? – o assunto anterior se foi e os dois se concentraram naquilo.
— Ele se juntar a Nicolas e prejudicar Murilo. – aquela fixação dele com meu irmão ainda iria coloca-lo em crise com o namorado ciumento. – Pela cara de vocês não estão preocupados. Então a suruba que eu iria sugerir é mais interessante? – Arthur o expulsou a pontapés.
— Acha que isso é possível? – me olhou assustado e eu fiquei vermelha. – Caleb, Arthur.
— Não. Ele detesta demais o filho “bastardo” para se aliar a ele. Se bem que é o meu pai. Porém, estive com Nicolas, ele tá louco pelo seu irmão. – me puxou para um abraço. – Acho difícil prejudica-lo de alguma forma.
Fiquei o restinho daquele dia pensando sobre aquilo. E se fosse Nicolas o real amor da vida de Murilo? Talvez ele não fosse esse grande monstro. Kevin também cometeu graves e grandes erros. Muh deu-lhe uma segunda oportunidade, fez com que ele pedisse perdão a Arthur e a mim. Às vezes pode ser que existiu Kevin e Murilo para poder fazer sentido um futuro Murilo e Nicolas.
Pensei tanto sobre aquilo que mais tarde estávamos em uma cafeteria após comermos uma pizza em casa e eu não ouvia nada que diziam. Até ver Rafa e Arthur se levantarem.
— Você está indo aonde? – vi o mais forte me fitar com estranheza.
— Acabei de avisar em seu ouvido que iria ao banheiro com Fael. – falou baixinho se debruçando na mesa e encarando meus olhos de perto. – O que você tem?
— Nada. – notei Kevin atento a nossa interação. Assim que eles saíram um carinha passou e cumprimentou meu amigo, o que foi uma surpresa. Vi também o olhar maldoso de Ryan entre ele e o garoto que já estava de costas se distanciando.
— Ele nem olha direito. Isso tudo é medo ou devoção? – Alê questionou e pensei que Kevin iria ignorar.
— Respeito. Imagino que a maioria de vocês não conheça. – ganhou um soco de Ryan.
— Conheço muito bem. É uma pena que não me deixam usar. – olhei para Otávia após essa indireta, já que era com certeza para ela.
— Ninguém precisa deixar você usar, garotinho patético. – ela respondeu após a pressão da mesa inteira.
— O que tá pegando? – Arthur perguntou ao voltarem, percebendo o climão.
— Rafael você já pode ir até uma joalheria e escolher as alianças do casamento. Seu namorado é perfeito. – Giovana disse e ele ficou confuso perguntando o que Kevin havia feito. Julgo que pelo ciúme do loiro, meu amigo preferiu desconversar e acabou se saindo ileso dessa situação. Mas eu tinha que concordar com minha amiga. Nesse ponto ele era mesmo perfeito. Uma pena que quando não queria mais alguém era cruel na mesma intensidade.
— Segura direito, Alice! – Yuri reclamou me fazendo soltar Giovana com raiva. Ela havia bebido demais no café e agora que estávamos indo embora, leva-la até um dos carros parecia sacrificante. Sophia se aproximou e ele pareceu não gostar nada daquilo.
— Relaxa tá? Eu vou só te ajudar. Sei que não me suporta mais. – Sophia resmungou com seu jeitinho atrevido.
— Quero beijo. – Gih tentou beijar Yuri que desviou o rosto.
— Incrível que a monstrinha bebe e vira outra pessoa né?! – Ryan comentou rindo.
— Qual foi o motivo para ela beber tanto? – Otávia abriu a porta para colocarmos nossa amiga.
— Arthur estar pagando? Suponho que foi isso. – entrei com ela e Yuri atrás, já que sabia que Sophia e ele não permaneciam muito tempo perto um do outro.
Quando chegamos eu finalmente parei de pensar em meu irmão, Kevin e Nicolas. Foi então que notei que Larissa estava mal. Com certeza Arthur havia conversado com ela. Eu nem sequer o perguntei sobre o assunto durante a semana, não queria falar sobre isso. Além disso, os dois era um assunto dele e se eu queria reatar, devia começar respeitando isso.
— Sua irmã tá na pior né? – cheguei bem perto de Soph.
— Colhendo o que plantou. – me olhou nos olhos. – Avisei mil vezes que Arthur iria rastejar atrás de você em algum momento.
— Tem como eu ajudar em algo? – ela deu um sorrisinho que achei até fofo.
— Você é incrível Alice. – passou a mão em meu braço. – Larissa vai superar.
— Ela não tá... Fazendo nada ruim, não é? – avaliei sua reação.
— Claro que não. A errada da família sou eu, esqueceu? – sorri.
— Pede perdão a ele Sophia. – observei Yuri voltar do banheiro após deixar Gih com uma das meninas.
— Vocês não entendem. Se o trai é porque não o amava o suficiente. Yuri sempre foi disponível demais, fácil demais e... Eu gosto de desafios. – deu de ombros. – Tenho um sentimento muito forte por ele sim, entretanto... Preciso ser sincera, ele tinha que mudar esse jeitinho dele para dar certo.
— E isso é impossível? – ergui as sobrancelhas. – Ele te ama. Pode ser que ele tente mudar.
— Mas sempre vou vê-lo como o Yuri bobão.
— Que te apoiou quando você mais precisava, não saiu do seu lado e te deu tudo o que precisava... – soltei o ar. – Toda mulher deveria ter um bobão desses. – não aguentei a falta de noção dela. Após seu sorriso triste nos juntamos ao pessoal.
Não era estranho para todos Arthur e eu estarmos juntos. Parecia que tudo estava novamente no lugar. Sentei ao seu lado e ele me acolheu, fazendo carinho e sorrindo. Podia sentir sua felicidade como se fosse possível tocar. Em todas as nossas idas e vindas, essa estava diferente... Insistia em pensar que era a última.
Danilo chegou lá era pouco mais de meia-noite e meia. Estranhei, já que Kevin disse que ele iria vir sábado após o trabalho. E ele estava com Diana ao lado.
— Como não vou trabalhar amanhã, resolvi vim hoje. – ele logo se explicou. – E também tenho algo urgente a dizer. – Kevin ficou tenso. – Caleb descobriu que as ações de vocês estão no nome da Alice. – os irmãos se olharam.
— Não tem como. Era tudo muito disfarçado.
— Kevin... É o seu pai. Você se acha mesmo mais esperto que ele?
— Tá. E o que ele pretende fazer? – sorriu diabolicamente. – Cortar a mão dela fora ou obriga-la a assinar algo?
— Ele seria bem capaz disso. – estremeci. – Não sei. O que sei é que ele quebrou tudo que podia e não podia assim que contaram.
— Eu quero um beijo. – Giovana ressurgiu das cinzas e saiu toda molhada do banheiro agarrando Danilo pelo pescoço.
— Sai garota. – ele a tirou com uma rapidez espantosa.
— Ela é dura na queda. – Yuri riu. – Vamos chama-la para nossa próxima saída Fael? – eles riram juntos.
— Teremos que nos proteger. – o loiro respondeu.
— Só estou querendo saber quem a chamou. – Otávia apontou para Diana enquanto apertava a toalha contra as roupas molhadas da nossa amiga alcoolizada.
— Já é de conhecimento de vocês que eu a perdoei por tudo. Sei que ela não é agradável e nem muito normal, porém, ela é irmã do Danilo que é alguém a quem eu tenho apreço. – Kevin discursou deixando alguns impressionados. – Simplificando... Vão ter que aceita-la. – deu o sorriso dele.
— Foi por esse Kevin que eu me apaixonei. – ela quase babou, não sei se de uma forma teatral e eu percebi o incômodo de Danilo. Talvez fosse um jogo, ela queria fazer ciúme nele.
— Se sair paixão e Kevin da sua boca de novo você vai ser arremessada dessa casa para bem longe. – arregalei os olhos com a fala de Rafael.
— Ameaçar mulher é algo bem digno. – Diana bateu palmas e sorriu.
— Ela me tira do sério. – ele foi pra dentro e Kevin a encarou.
— Coloca uma coleira na sua cachorrinha Danilo. – falou sendo o mais sarcástico possível. Pensei que ele explodiria e revelaria o que somente eu sabia, o que não ocorreu.
— Quer ir se deitar? – Arthur perguntou com a boca bem perto da minha orelha me causando arrepios. Dei um sorrisinho.
— Com seu pai sabendo de tudo, essa louca solta na sala... – meu sorriso se transformou em uma linha reta. – Vamos ignorar?
— Exatamente. Foi por isso que decidi que nosso relacionamento devia ter um retorno rápido. Quero ignorar o mal que ele me fez, me faz e tudo que o envolve. E quanto a Diana... – ele a olhou de canto de olho. – Ela quer morder Kevin e não a gente. – dei risada da sua fala. – Vamos?
Já estava certo que dizer não a ele era absolutamente inviável. E eu não me importava mesmo com isso.
Murilo Narrando
Após meu sonho com Kevin, ouvi em minha terapia a frase que eu não queria. Ainda havia uma ligação entre a gente. A conclusão veio após eu dizer várias vezes que algo aconteceria a ele. Algo muito ruim. Um acidente talvez? Tentativa de homicídio? Qualquer coisa seria possível já que ele tinha um psicopata como pai.
Como resolver toda essa angústia dentro de mim era a parte mais difícil. Não havia como. Era uma sensibilidade exacerbada junto de um sentimento que não passava. Não havia muito o que fazer. Fiquei diante de algumas soluções paliativas um tanto curiosas. Fiz uma listinha delas, a primeira era escrita terapêutica. Então comecei a fazer aquilo e esperava que funcionasse e eu não tivesse que pular para o próximo tópico da lista.
“Minha psicóloga disse que o melhor jeito de lidar com o que ainda insisto em sentir por você é escrevendo. O que me soa bastante curioso, já que assim é uma forma de não evitar pensar em você. Coisas da psicologia que eu nunca entenderei. Sabe o que eu nunca vou entender também? O motivo de fazer isso em um caderno. Seria tão mais simples estar usufruindo da tecnologia. Aí que está. Ela também disse que o ato da escrita à mão faz com que os pensamentos se processem de uma forma muito mais dinâmica e assim resulte em um efeito bem mais favorável. Eu imagino sua cara lendo isso. Não posso conter o sorriso. Algumas pessoas podiam dizer que custaram a se acostumar com o seu humor e sua falta de paciência. Para mim sempre foi o que mais me fez querer estar perto de você. Contudo, você está atrapalhando o meu namoro. Nossos trajetos diferem, quando meu cérebro vai entender isso? Minha mão está doendo, escrever cansa e eu já escrevo tanto diariamente, não sei quantas vezes irei ter força de vontade para fazer isso. Fico por aqui e espero mesmo que isso tenha algum efeito e você saia um pouco de dentro de mim e fique nessas páginas de papel... Adeus Kevin.”
Fechei aquele caderno e fiquei olhando para as paredes. Por mais que acreditasse que pudesse ajudar, no fundo, eu sabia que seria muita sorte se o resultado fosse positivo.
— Oi. – me assustei ao ver Patrícia em minha frente. – Entra. – ela fechou a porta do quarto e se sentou na cama me lançando um olhar estranho. – O que foi?
— Você já deve ter ouvido falar que todas as pessoas difíceis afastam os outros. – abri a boca para responder e ela me impediu. – Quero que saiba que eu nunca faria isso com você. Tenho os meus problemas, Murilo, porém, eles nunca me impediram de te querer e de te esperar... – deu um suspiro longo e passou a palma da mão por sua perna. – Só impediu que eu pensasse em mim. – nos olhamos intensamente. – Era para eu sair da clínica e dar um rumo em minha vida... Estou aqui até hoje. Até agora. Sem saber ao certo o que fazer e para aonde ir. – baixou os olhos. – Então decidi. Vou ir morar com minha tia, como havia dito que faria antes de te conhecer. – levantou o rosto e me encarou. – Não fica assim. Preciso pensar em mim. Tenho que ser egoísta ao menos um pouco.
— Tudo bem. Eu te entendo... Só não esperava por isso. – admiti com a voz falhando. – É que sinto que preciso de você. Vai ser muito difícil para mim.
— Você só precisa se escutar mais. O que sai da sua boca muitas vezes não é o que está dentro de você. Isso é perigoso. Quer tanto que algo aconteça que acaba vivendo como se já estivesse acontecido... Quando sabemos que não é bem assim. – uma lágrima pesada caiu dos meus olhos.
— Estou destinado a nunca mais ser feliz. – seu corpo veio até mim e seus delicados braços me acolheram.
— Não diz isso. Não se endureça e nem deixe de ser essa pessoa tão doce e gentil devido a boas intenções que acabaram em algo ruim. – me afastei um pouco e olhei dentro dos seus olhos.
— Responde uma coisa com muita sinceridade? – sua cabeça balançou positivamente. – Eu te fiz sofrer?
— Você me fez muito feliz Murilo. Só não tinha que ser. E antes que ficasse pior é o correto terminamos.
— Admiro você mais que qualquer mulher que já estive. – fiz carinho em seu rosto e sorri.
Aquela despedida não foi das mais fáceis. Patrícia foi uma pessoa que passe o tempo que passar, eu sempre me lembraria. Realmente me apaixonei por ela. E sofrer seria inevitável.
— Alguém está na pior. – Adam comentou ao me ver. Depois farejou igual cachorro. – Sinto cheiro de perfume misturado com derrota. – nem dei papo para as suas gracinhas. – Tá pronto? – concordei e lá fomos nós ao tal encontro que ele marcou com o amigo dele. Não estava com clima nenhum para sair, porém, eu havia prometido isso há dias. E sabia o quanto Adam era chato.
— Ele já está nos esperando. – quando chegamos eu paralisei ao ver quem estava sentado à mesa que meu amigo mostrou. Não podia ser. Era ninguém menos que Nicolas. O filho de Caleb que herdou toda sua psicopatia. Só me restava pensar que ele estava por trás da ida de Paty da cidade e o pior de tudo... Adam sorria admiravelmente para o crápula.
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