Amor & Pecado
41 Capítulo 41 - Aprendendo a perdoar
Notas iniciais
GLAMOUR & ALFINETADAS
Festa de aniversário é marcada por moda, bons drinks, humor e intriga!
A festa de aniversário do empresário Marcos Accetti (32), entrou para a lista das “melhores festas” na cidade este ano, pela ótima organização e sofisticação. Realizada na mansão da família Vaccari, no Jardim Europa (Zona Oeste), contou com a presença de personalidades Paulistanas. Entre elas a socialite Fernanda Hanssan (34), alvo de chacota dos convidados e imprensa, presentes, pelo “fora” recebido do atual namorado de Accetti, o estudante Marcos Baldo (19). Fontes informaram que antes das alfinetadas na pista de dança, Hanssan e Baldo se estranharam na presença de Deborah Vaccari (34), irmã de Accetti. Confusões a parte, a festa foi impecável e ficará na memória dos convidados por muito tempo. Nas redes sociais, fofoqueiros de plantão, apoiam Baldo, chamando a socialite de “oferecida e sem educação”. Pra falar a verdade... Até eu brigaria pelo “partidão” Marcos Accetti.
Patrícia Mendes
Estudante e blogueira
– “Partidão”?! – Marcos pergunta de forma cômica, com uma das sobrancelhas erguidas, ao terminar de ler a notícia em um site.
– Sim! Você é um “partidão” meu amor. – Sorrio, o beijo castamente e reencosto minha cabeça em seu peito nu.
– Nem vi a hora em que Fernanda foi embora. – Marcos fala colocando o tablet em cima da mesa de vidro, ao lado da cama. – Já caiu nas graças dos blogueiros, hein?! – Marcos gargalha.
– Pouco me importa a hora em que ela foi embora. Ninguém mandou mexer com o que é meu. – Digo sério.
– Hmm... Adoro quando você fica “nervosinho”. – Marcos envolve minha cintura, com um dos braços e faz com que eu fique em cima dele. Seus lábios determinados me devoram, enquanto seu braço me aperta contra seu corpo, fazendo com que eu sinta sua ereção matinal.
– Mas já? – Pergunto achando graça, ao passar minha mão pelo volume.
– Sim. – Seu tom é malicioso e uma de suas mãos tocam minhas nádegas, por dentro da cueca.
– Me desculpe, mas preciso comer algo. – O interrompo. – Irei precisar de energia para satisfazer todo esse desejo. – Rio.
– Não! – Marcos protesta manhoso. – Prometo que depois de te comer bem gostoso, peço para a Cleuza trazer o maior, melhor e espetacular café da manhã aqui na cama.
– Sua proposta é tentadora. – Mordo meu lábio inferior e me desvencilho dos seus braços. – Mas quero comer na cozinha... – Calço meus chinelos. – E você terá muito tempo para me comer. – Sussurro em seu ouvido de forma sexy.
– Irei cobrar. – Marcos sorri.
– Não precisará. – Caminho em direção à porta. – Já volto.
Ando, distraidamente, pelo corredor do andar de cima da mansão e ouço uma porta se fechar atrás de mim.
– Mari?! – Pergunto surpreso. – Você... – Interrompo a frase ao vê-la dentro de uma das camisetas de Jonas.
– Sem perguntas. – Mari faz um gesto de “pare” em minha direção. – Ele é simplesmente fantástico e irresistível. – Diz com o semblante perdido em frescas lembranças.
– Tudo bem. – Respondo erguendo minhas mãos e soltar uma leve risada.
– Estou fa-min-ta! – Mari separa as sílabas das palavras, de forma exagerada, ao falar. Pelo visto ser bom de cama é de família, já que Marcos me deixa literalmente mole, após nossas transas.
– Estou indo para a cozinha comer algo. Venha comigo.
– Com certeza! – Mari sorri ao me seguir e me olhar com certa malicia. – Obrigado por me convidar.
– De nada. – Sorrio. – Fico feliz que tenha “se dado bem”.
– Obrigada.
Ao chegarmos à cozinha, como de costume, a mesa já está posta e para minha surpresa Sr. Lauro e Beth já estão se servindo.
– Bom dia! – Ambos nos desejam.
– Bom dia! – Digo entusiasmado.
– Bom dia. – Mari fala de forma acanhada.
– Camiseta bonita. – Beth se refere à roupa usada por ela.
– Jonas me emprestou. – Diz, por fim, sem graça.
Eu me sirvo, enquanto Mari imita cada atitude minha, com receio de fazer algo errado. Sr. Lauro agora se concentra eu seu jornal e Beth nos observa. O bolo de chocolate belga, que tanto amo, está delicioso. Dou um gole no leite puro e gelado, que me faz suspirar de prazer, com tal combinação de sabores. Mari está acanhada e mal olha para os lados.
– Bom dia! – Deborah chega sorridente e se senta ao meu lado. – Você está “bombando” na internet Marcos.
– Eu?! – Pergunto surpreso.
– Sim você. – Aponta ao afirmar. – Tem vários vídeos de você interrompendo a Fernanda na pista de dança. “Como todos sabem, eu sou o namorado do aniversariante...” – Deborah imita meu tom de voz. Eu, Beth e Mari rimos da péssima imitação.
– Marcos apenas defendeu o que é dele. – Beth sorri. – Nunca gostei daquela Fernanda. Mulherzinha insuportável.
– Ela é minha amiga. – Deborah parece ofendida.
– Meus pêsames Deborah. – Rio.
– Chato. – Deborah mostra a língua.
– O importante é que a festa foi um sucesso. – Beth acrescenta.
– Claro que sim. Fui eu quem organizou. – Deborah se gaba. Reviro os olhos ao sorrir e prefiro não retrucar.
– Bom dia! – Marcos e Jonas chegam juntos, a cozinha.
– Cunhadinho, só “dá” você na “net”. – Jonas ri.
– Aí meu Deus! Até você Jonas? – Pergunto.
– Mas é verdade. – Jonas gargalha.
– Não ligue pra ele. – Marcos sorri para mim, ao se sentar do outro lado da mesa.
Jonas e Marcos parecem terem saído de algum catálogo de roupas íntimas. Jonas está com um short tactel azul escuro e uma regata, cavada, branca. Deixando seus atributos físicos a mostra. Já Marcos está com uma babylook preta, justa e um short branco. Enquanto conversamos sobre a festa, da noite anterior, o celular de Marcos toca, fazendo com que ele se retire da mesa para atender.
– Sua mãe. – Marcos volta e me entrega o celular.
– Oi mãe! – Digo animado. – Estou bem e a Sra.? – Breve pausa. – Não acredito que seja uma boa ideia. – Suspiro de forma longa e pesarosa. – Tudo bem mãe. Verei com Marcos e te retorno. Beijos. Te amo! – Desligo.
Volto à mesa e todos estão debruçados, prestando atenção, em um jornal impresso. No canto superior de uma das páginas está uma foto, muito bem tirada, de Marcos e eu. Estamos abraçados, sorridentes. Abaixo uma critica especializada elogia a festa e o aniversariante. Abaixo da nossa foto, está a seguinte legenda: “Um Marcos encanta muita gente. Dois Marcos encanta muito, muito mais”.
– Não acredito nisso! – Rio, incrédulo com a foto e elogio.
– Vai se acostumando cunhadinho, pelo visto vocês são o casal do momento na cidade. – Deborah sorri.
X
Paro o carro em frente a minha antiga casa. Respiro fundo e solto o ar devagar.
– Relaxe. – Marcos segura uma das minhas mãos de forma carinhosa. – Você sabia que não teria como fugir desse momento pra sempre, não é?
– Sabia, mas...
– Eu me orgulho muito de você, meu amor. – Marcos agora beija minha mão. – Faça isso por sua mãe.
– Tudo bem. – Digo, por fim, ao abrir a porta do carro e descer.
Tiro do meu bolso meu antigo chaveiro, que não foi tirado de mim, no dia em que fui expulso de casa, por sorte. Pois ele estava no bolso detrás da calça, que eu usava naquele dia. O som da fechadura, da porta, faz com que meu coração salte involuntariamente. Ao abri-la vejo a sala de estar vazia. Caminho até a cozinha e minha mãe está cozinhando.
– Nossa! Que cheiro divino. – Digo ao entrar.
– Meu amor! – Minha mãe abre os braços e me envolve neles. É tanto amor e ternura, que meu coração, literalmente, amolece. – Tudo bem? – Diz ao me libertar.
– Tudo ótimo. – Respondo desconcertado. É muito bom estar aqui em “minha casa”, mas parece que não faço mais parte desse lugar. A sensação é muito estranha.
– E você Marcos, como vai? – Minha mãe deposita um beijo em seu rosto.
– Estou ótimo! – Marcos retribui o beijo e sorri.
– Me desculpe por não ter ido a sua festa. – Minha mãe parece constrangida.
– Tudo bem Vanessa.
– Espere um minuto, eu já volto. – Minha mãe diz ao abaixar o fogo da panela e se retirar.
– Quer alguma coisa? – Pergunto ansioso a Marcos.
– Quero que você se acalme. Sua mãe está tentando agir naturalmente, tente também.
– Estou tentando. Juro que estou! – Estou apreensivo em saber que mais cedo ou mais tarde verei Letícia. Estou me perguntando o porquê de estar tão em choque, mas me falta a resposta.
– Pronto voltei! – Minha mãe volta sorridente com algo nas mãos. – Tenho um presente para ambos.
– Não precisava. – Marcos parece tímido ao falar.
– Mãe... – Suspiro.
– Pra falar a verdade eu acabaria dando, sem nenhuma ocasião especial, mas aproveitando que ontem foi aniversário do Marcos e o presente é para ambos, darei a vocês agora. – Minha mãe estende a pequena caixa de veludo vermelho em nossa direção. Eu e Marcos desconfiamos do que seja apenas com uma troca de olhares. Pego a pequena caixa e a abro.
– Oh! – Marcos e eu exclamamos. O lindo par de alianças douradas faz nossos olhos crescerem. São grossas e aparentemente pesadas. Em cada uma encontra-se uma pedra, reluzente, cravada.
– Eram dos meus pais. – Minha mãe diz com a voz embargada. – Claudio e eu casamos com elas, mas nunca usamos com frequência, pois eu sempre tive medo de danifica-las ou perde-las. Mas acredito que estejam em boas mãos agora.
– Mãe... – As palavras somem da minha boca e olho de forma incrédula para Marcos, que parece muito surpreso.
– Vanessa... – Marcos também procura palavras. – É um prazer enorme receber tal presente, me sinto extremamente lisonjeado, mas não posso aceita-lo.
– Por quê? – Minha mãe parece triste. – Não estou obrigando-os a casar e usa-las. Mas o relacionamento de vocês está em outro patamar. Estão morando na mesma casa, se adequando a forma de viver um do outro e acredito que esse presente unirá ainda mais vocês dois.
– Mãe, isso é uma joia tão pessoal e estimada por você, não podemos aceitar. – Digo comovido com tal atitude.
– Marcos, você é meu único filho. Eu lhe entregaria elas um dia e esse dia é hoje. – Minha mãe nos fita com os olhos cheios d’água. – Tenho certeza que um dia vocês usarão estas alianças. Não venham com coversa afiada de que está muito cedo. Realmente está, mas tenho certeza de que este dia chegará. Afinal, é visível que vocês completam um ao outro.
Marcos sorri de forma encantadora para minha mãe e eu enxugo, discretamente, a lágrima que não consegui segurar.
– Tudo bem. – Olho para Marcos. – Nós aceitamos.
– Que ótimo! – Minha mãe sorri e a abraço. Marcos faz o mesmo depois de mim.
– Sentem-se vocês dois, irei colocar a mesa para almoçarmos. – Minha mãe caminha para o fogão.
– Irei pegar o vinho que trouxemos. – Digo antes de me sentar. – Acabei esquecendo no carro.
– Vinho? – Minha mãe parece surpresa. – Vocês leram minha mente.
– Trouxe apenas para agrada-la. – Marcos ri.
– E acertou. – Minha mãe fala divertida.
X
A mesa está posta e o dono daquele aroma delicioso, sentido por mim, logo quando chegamos é um delicioso strogonoff de frango, que com o vinho faz uma combinação muito saborosa. Nós três conversamos sobre assuntos triviais até sermos interrompidos.
– Boa tarde. – Letícia diz acanhada, olhando para as mãos. – Posso me juntar a vocês?
– Claro que sim. Sente-se. – Marcos fala de forma calorosa, ignorando minha cara feia.
Letícia se senta do lado oposto da mesa, porém exatamente na minha frente. As únicas coisas que estão entre minhas mãos e sua face são as travessas de alimentos. Ela se serve com o cuidado de não fazer nossos olhares se cruzarem.
– Como está à gravidez Letícia? – Marcos mais uma vez usa sua simpatia.
– Está tudo bem, graças a Deus. – Seus olhos verdes se levantam, rapidamente, em direção a Marcos, mas logo se baixam novamente.
– Semana que vem iremos descobrir o sexo do bebê. – Minha mãe demonstra um grau de animação elevado demais para o eu gosto.
– Já escolheu os nomes? – Marcos pergunta a Letícia.
– Estou em dúvida, acredito que terei certeza do nome somente quando eu ver a carinha dele. – Letícia agora fixa os olhos em seu copo, enquanto responde.
– Está com medo de me encarar Letícia? – Estou calmo, porém algumas coisas estão engasgadas. Letícia permanece em silêncio, como se minha pergunta não tivesse sido feita. – Responda garota. – Meu tom é ríspido. Marcos acha minha mão e a aperta, como se quisesse pedir para eu “pegar leve”.
– Estou. – Letícia responde ainda de cabeça abaixada.
– Embora você não mereça ter minha mãe ao seu lado e estar na minha casa. – A encaro. – Tente ficar a vontade e responda as pessoas olhando para elas. – Sua cabeça se ergue e seus olhos verdes parecem confusos.
– Estamos progredindo. – Minha mãe ri nervosamente.
– T-tudo bem. – Letícia gagueja levemente.
– E as aulas filho? Como estão? – Minha mãe tenta quebrar o momento embaraçoso.
– Estão ótimas. – Respondo ao me lembrar de como estou feliz. – Muitos trabalhos e provas, mas é muito bom estar estudando.
– Fico feliz por você.
– Eu sei mãe.
Após o almoço ajudo minha mãe a retirar a mesa e a deixo com Marcos e Letícia na cozinha, enquanto vou ao “meu” quarto. Aparentemente tudo está como deixei e isso faz com que eu imagine que morri e minha inconsolável mãe não teve a coragem de mexer no cômodo, querendo preservar meus últimos momentos no local. Obviamente esse é um devaneio ridículo, mas aparentemente Letícia não tem mexido nas coisas, pois a única coisa que está diferente no local é a cama. Abro o armário e nele estão todas as minhas antigas roupas. Meu sorriso abre automaticamente ao pegar uma camiseta do meu uniforme e ver as assinaturas de final de ano nela. Parece que foi há tanto tempo atrás. Vejo minha vida passar em frente aos meus olhos e percebo a velocidade do tempo. Ontem eu era apenas um adolescente na escola, apaixonado pelo amigo de infância e com medo de se abrir com os pais. Hoje ainda sou um adolescente, porém mais maduro. Com expectativas de um futuro promissor, ao lado de um grande amor, que apareceu de forma inusitada e avassaladora em minha vida. Ainda observando, o meu antigo refúgio, meus olhos fixam no mural de fotos. Não consigo conter as lágrimas ao ver Vinicius ao meu lado em quase todas. Lembro-me da nossa conversa ontem e me pergunto como ele está. Minhas lágrimas não são de arrependimento ou tristeza e sim preocupação. Eu o amo, mas não como antigamente. Na verdade é até difícil explicar. Não posso dizer que o amo como um amigo ou irmão, pois irmãos e amigos não fazem as coisas que já fizemos. Eu o amo de uma forma abstrata, de uma forma que pode ser apenas sentida e nunca descrita ou falada. Vinicius é como se fosse uma parte de mim. Mesmo após as chantagens de Letícia entramos em um ciclo vicioso. Ele me deu as costas e ontem eu dei as costas a ele. Pertenço a Marcos, eu quero e vou ficar com Marcos, mas eu e Vinicius estamos mal resolvidos. Quero ter a certeza de que ele ficará bem. De que ficaremos bem.
– Marcos? – Letícia me traz de volta a realidade com sua voz baixa e tremula ao me chamar. – P-podemos conversar?
– Sim. – Falo ao secar uma das lágrimas que caem dos meus olhos.
Letícia se aproxima cautelosamente e para ao meu lado. Sinto seus olhos verdes me olhando enquanto encaro o mural. Nesta hora os papéis se invertem. Eu não consigo a encarar enquanto ela me observa. Eu sei o que está acontecendo. Este é exatamente o momento em que eu estava prorrogando. Seu olhar agora se desvia e fixa exatamente onde estou olhando. Suas lágrimas escorrem de seus olhos na mesma velocidade e pesar que as minhas. Um soluço entrecorta a sua respiração e sua boca se abre e fecha, rapidamente, preparando-se para falar algo.
– Me perdoe Marcos. – Letícia continua com seu olhar fixo nas fotos do mural. – Não há preliminares ou clichês há serem seguidos nessa conversa. A única coisa que posso dizer e pedir é que me perdoe. – Seu choro crescente toma conta dos meus ouvidos e neste momento tomo coragem para encara-la. Seu rosto angelical está retorcido de dor, assim como o meu, mas por motivos diferentes. – Após a descoberta da minha origem e saber que você é meu irmão eu preciso disso, eu preciso do seu perdão.
Por um segundo sinto um imenso prazer em vê-la chorar, mas logo a sensação vai embora. A observo meticulosamente e chego à conclusão de que tal reação não pode ser fingida, até mesmo por Letícia. Suas mãos tremem levemente, enquanto seus dedos tentam enxugar as lágrimas que caem por sua face. Seus olhos verdes estão opacos, como se os motivos de brilharem não existissem mais. Como se toda a maldade, egoísmo e mau-caratismo estivessem morrido e apenas a redenção estive aqui, diante dos meus olhos. Dizem que os olhos são as janelas da alma e sinto pena ao olhar as janelas da de Letícia. Talvez ela esteja mesmo arrependida e precisando do meu perdão. Talvez ela precise disso para seguir em frente. Neste momento também me lembro de como foi à infância dela e quanto foi mal tratada pela avó. Talvez ela realmente precise estar aqui na minha casa, recebendo todo o cuidado, mesmo depois de tudo. Há pessoas que não podemos corrigir ou punir com as próprias mãos, por suas atitudes, pois a vida se encarrega de fazer isso, cedo ou tarde. Acredito que esse seja o caso de Letícia.
– Eu te perdoo. – Digo firme, após suspirar profundamente. Suas sobrancelhas erguem-se com a surpresa de minhas palavras e um leve sorriso percorre seus lábios. – Me de um abraço, irmã. – Abro meus braços ao terminar de dizer a última palavra. Letícia praticamente corre para eles, me deixando surpreso também. Ficamos extasiados com o choque dos nossos corpos, a força do ato e a inimaginável emoção de eu tê-la chamado de irmã. Suas mãos macias estão espalmadas em minhas costas, me deixando imóvel. As minhas pousam carinhosamente em sua cintura. Sim! Carinhosamente.
– Obrigada, irmão. – Ela agradece entre soluços, lágrimas e leves sorrisos. Ao nos separarmos, observo novamente seus olhos e reencontro o brilho neles. Ternura? Alegria? O que significa esse brilho? Não sei, mas o tempo irá dizer. – Gostaria de lhe pedir mais uma coisa Marcos.
– O que? – Pergunto ao me recompor.
– Vá atrás do Vinicius. – Letícia pede com fervor. – O abrace, o beije, o ame. – Suas mãos encontram as minhas, como se ela quisesse passar, atrás do toque, o tamanho da necessidade do que ela está me pedindo. – Abra seu peito a ele, diga tudo o que sente. Chore, grite, brigue com ele, mas no final o ame. O ame Marcos!
– Letícia... – As palavras me faltam. – Sei que você está me pedindo isso por ser o motivo da minha separação com ele, mas isso não vai acontecer. – Vejo seu semblante se entristecer novamente. – Não da forma que você está me pedindo. Pretendo sim ir atrás do Vinicius, pretendo dizer o quanto ele é importante para mim, mas não dessa maneira. Perdoe-me, se soarei grosso, mas isso não lhe diz respeito. Não há a necessidade de você se preocupar com isso. Você pode ter contribuído para a nossa separação, mas se ele fosse quem eu pensei, jamais teria cedido a suas chantagens. – Dou de ombros. – Mas não quero mais falar sobre isso. Não quero mais ficar remoendo esse sentimento que me faz tão mal. Relembrando memórias tão cruéis. Vamos seguir em frente, sem olhar para trás. É apenas isso que eu lhe peço, ok?
– Tudo bem. – Letícia enxuga a última lágrima, sorri e deposita um beijo terno em meu rosto. – Mais uma vez obrigada.
– E pare de me agradecer, lhe peço isso também. – Digo ao revirar os olhos.
– Tudo bem, tudo bem... – Letícia ri levemente.
– Vamos descer. Estou louco para comer a sobremesa.
Desço as escadas e Letícia me segue. Ao chegar à sala de estar, minha espinha congela e meu estômago se revira.
– Boa noite meus filhos. – Meu pai se levanta do sofá ao recepcionar eu e Letícia. Minha mãe está do lado de Marcos, que pousa uma das mãos em seu ombro, tentando acalma-la. Os olhos cor de mel de Marcos me acalmam instantaneamente ao encontrar os meus.
– Boa noite. – Respondo ao parar em sua frente e Letícia ao meu lado. O segundo seguinte é marcado por um grande, apertado e carinhoso abraço. Levo um tempo para perceber que meu pai está abraçando a mim e Letícia ao mesmo tempo. Seu choro é silencioso e contido, porém perceptível. Após um longo tempo, somos finalmente libertos do abraço. Não que tenha sido ruim, mas sufocante.
– É ótimo encontra-los juntos. – Meu pai enxuga as lágrimas e observa o semblante de cada um. – Assim digo a todos o que preciso dizer. Começarei por você Letícia. – Meu pai a encara. Eu me afasto e me junto a Marcos e minha mãe.
– Perdoe-me minha filha. – Meu pai pega as mãos de Letícia. – Me perdoe por ter sido negligente, por não ter te tirado daquela casa após seus pais morrerem e ter permitido que aquela mulher lhe fizesse mal.
– Eu te perdoo pai. – Letícia não segura às lágrimas ao ser abraçada. Ambos permanecem imóveis por um longo tempo e eu me sinto como uma criança na fila da prova oral de tabuada. Com os nervos a flor da pele sabendo que serei o próximo. Instintivamente minha mão busca a de Marcos e nossos dedos se entrelaçam.
– Fique calmo meu amor. – Minha mãe fala ao perceber o gesto.
Não consigo emitir nenhum som, assentir ou até mesmo piscar. A adrenalina percorre minhas veias e me pergunto o porquê de estar tão apreensivo. Neste momento Letícia se desvencilha dos braços do meu pai e todos os olhos pousam em mim. Minhas pernas estão travadas, não consigo sair do lugar e minha mão aperta ainda mais os dedos de Marcos. Meu pai percebe minha apreensão e decide permanecer onde está.
– Recentemente descobri que, até então, meu único filho é gay. – Seus olhos pousam nos meus de uma forma nunca antes feita. Chego a reconhecer certa semelhança com o olhar de Letícia. – Certamente foi uma decepção imensurável. Senti-me roubado por não poder ter netos, mas Deus é tão bom que já nos abençoou nesta parte. – Seus olhos se desviam rapidamente para Letícia. – Mas se você é gay não é minha responsabilidade de pai te amar, Marcos? – Seus olhos começam a ficar marejados e um passo é dado em minha direção. – Pois se você nasceu assim, meu filho, não há outra escolha a não ser e viver verdadeiramente como você realmente é. – Uma lágrima escapa dos seus olhos. – Veja você! Meu Marcos! Sou tão orgulhoso em tê-lo como filho. É o que Deus iria querer, certo? E se não for o que Ele gostaria, peço perdão, pois não darei mais as costas a nenhum dos meus filhos. – Seu olhar agora é intercalado entre eu e Letícia. – Eu te amo Marcos, por favor, me perdoe.
As lágrimas brotam em meus olhos na mesma intensidade das do meu pai. Caminho até ele e o abraço. O ato faz com que todas as mágoas se dissipem, deixando nossos corações serem preenchidos pelo carinho, ternura e amor.
– Eu te perdoo pai. – Digo de coração aberto. Apesar dos pesares, ele é meu pai e antes daquela noite, aonde tudo veio à tona ele sempre foi meu exemplo. Um beijo é depositado em uma das maçãs do meu rosto e seu olhar segue em direção a Marcos, que está ao lado da minha mãe.
– Lhe devo as mais sinceras e profundas desculpas, meu rapaz. – Meu pai estende a mão a Marcos que não hesita em retribuir o gesto e abrir um caloroso sorriso. – Obrigado por cuidar e fazer tão bem ao meu garoto.
– Não precisa agradecer, isso é apenas o meu dever. – Marcos diz.
– Vanessa... – Meu pai começa a falar, porém é interrompido.
– Não tente se desculpar na frente de todos, por favor. O que temos que conversar será discutido em outro momento e sem ninguém por perto. – Meu pai se espanta com a reação da minha mãe. – Vamos aproveitar este momento tão feliz para comemorar. Acabamos de almoçar, mas ainda resta vinho e mousse de maracujá. Vamos!
Seguimos minha mãe até a cozinha. De inicio ficamos desconcertados com a situação, mas aos poucos a sensação de alivio toma conta dos nossos corações e os sorrisos estampam nossos rostos. Sem segredos. Sem máscaras. Apenas sendo nós mesmos e por um segundo, chego a enxergar nós como uma família feliz.
X
André está apreensivo, pois tem esperado por esse dia há meses. Tudo está correndo conforme o combinado. Todos os presidiários estão em seu banho de sol no grande, porém apertado pátio. Os muros do presídio são altos, com cercas elétricas no topo. A alta voltagem mataria instantaneamente qualquer um que ousasse encosta-las. Mas hoje ele fugirá deste lugar. O plano é simples, porém arriscado. Dois presidiários, já posicionados irão começar a brigar. Obviamente um deles irá ter que morrer, pois a atenção dos policias terá que ser tomada. Claro que o “sacrificado” não sabe disso, ele é apenas uma peça no tabuleiro do jogo já ganho. Enquanto isso, um dos policiais “amigos”, para não dizer corruptos, da base irá desligar por apenas três minutos a cerca elétrica, onde André e mais cinco presidiários irão escapar. Logo após a fuga a eletricidade voltará a passar pelos fios da cerca, impossibilitando qualquer passagem.
– Você será o último. – Roger, um dos lideres da missão fala.
– O último? – André resmunga.
– Acho bom você calar essa sua boca maldita e parar de reclamar. Você foi o último a pagar e com o valor a menor. Estamos abrindo uma exceção e ainda reclama. – André engole seco. – Lembre-se de uma coisa Pastor. A parte faltante será cobrada, nem pense em tentar “desaparecer”, pois acharemos, não só você, como seu filho e esposa.
– Eu sei disso.
– Mas não custa reforçar o aviso não é mesmo? Com você vivo ou morto a divida não será esquecida. Senão cobrarmos você, os cobraremos. Quero que você esteja ciente do risco que essa atitude representa.
– Estou ciente.
– Ótimo, porque estou sendo muito bonzinho contigo. Quando eu fizer o sinal, corra e junte-se aos demais.
– Tudo bem. – André assenti e observa Roger se afastar.
Os minutos se arrastam até a briga começar. André entende que o momento de correr em direção ao muro está próximo ao ver o sangue, do “sacrificado”, banhar o chão do pátio. O alvoroço está feito. Policiais saem de suas bases e posições para apartar a briga e afastar os curiosos do corpo. Roger faz o sinal que a cerca está desligada. Os demais “foragidos” seguem em direção ao muro, usando um grande tambor de metal tombado para dar impulso na fuga. O cronometro mental de André avisa que provavelmente um minuto e meio já se passaram e apenas três passaram pela cerca. Por ser o último da fila, o desespero está estampando em seu rosto. O quarto acabou de passar, o quinto se posiciona e André conta trinta segundos restantes.
– Vai logo, porra! – André grita.
Vinte segundos. Finalmente André chega ao topo, se agarra nos fios e se prepara para pular. No segundo seguinte percebe que seus cálculos estavam errados, ao sentir a eletricidade correr por cada músculo do seu corpo, fazendo-o fritar por dentro. Suas mãos se abrem fazendo com que seu corpo, já sem vida, caia para fora do presídio, com um baque alto no chão.
X
– Como está se sentindo? – Marcos pergunta carinhosamente ao entrarmos em nosso quarto.
– Feliz. Muito feliz! Não imaginei que o dia terminaria dessa maneira. – O abraço. – Confiarei mais em você quando disser que tudo ficará bem.
– Realmente, você tem que confiar mais em mim. – Seus lábios encontram os meus para um beijo rápido. – Preciso de um banho para relaxar, o dia pode ter sido alegre, porém cheio.
– Não, não. – Coloco minhas mãos em seu peito impedindo sua passagem. – Antes do banho preciso recompensa-lo pelo que não fizemos na parte da manhã.
– Eu pretendia cobra-lo mais tarde. – Marcos sorri maliciosamente.
– Mas eu quero agora. – Digo ao começar desabotoar os botões da sua camisa. Seu tórax fica amostra conforme abro sua camisa e seu olhar observa com malícia minha atitude. Logo a camisa está no chão e o beijo novamente. Dias atrás pedi para que Marcos deixasse sua barba crescer um pouco e ele atendeu meu pedido. Os fios fazem cócegas em meu rosto e lábios, conforme mato minha sede por ele. Ela está curtíssima e extremamente sexy. Meus lábios, agora, têm como foco seu pescoço, descendo até passar por seus mamilos e abdômen. Percebo que não foi só a barba que ele deixou crescer e também os pelos do tórax e abdômen, dando um ar rústico a ele. – Você está delicioso desse jeito. – Digo abrir a fivela do seu cinto.
– Você pediu, eu atendi. – Diz com uma risada entrecortada. Sinto seu membro rígido antes mesmo de eu tirar sua calça.
– Hoje quero fazer diferente, meu amor. – Digo ao abaixar sua boxer e libertar seu membro. Envolvo a glande com meus lábios e a massageio com minha língua. Marcos suspira e cerra os dentes. – Como ontem foi seu aniversário, quero lhe proporcionar uma experiência diferente. Quero que você seja meu. – Digo segurando seu membro e o encarando com o meu melhor olhar de desejo.
– Como? – Pergunta confuso, porém com um sorriso torto nos lábios.
– Quero comer você. – Digo ao me levantar e sussurrar em seu ouvido. Sinto seu corpo estremecer. Seus olhos encontram os meus e por um segundo seu olhar é indecifrável.
– Por favor, faça isso. – Ele diz com ar suplicante.
– Você tem certeza? – Pergunto com uma das sobrancelhas levantadas.
– Absoluta. Mostre-me do que é capaz. – Marcos fala já tirando minhas roupas, me deixando nu numa velocidade incrível. Levo um choque ao sentir minha glande em sua garganta. Ele resolve incorporar o papel de passivo e fico realmente impressionado com isso. Conforme sua língua sedenta me proporciona prazer, seus olhos cor de mel me fitam de forma enlouquecedora. CARALHO! Que olhos são esses? Eles me desejam, suplicam por mim. Marcos está agachado e nu, deixando sua bunda empinada, fazendo minha vontade em tê-lo aumentar. Fecho minha mão direita em seus cabelos, entrelaçando meus dedos nos fios. Aumento e diminuo a velocidade da sucção e ele se diverte com o que faço. Marcos emite apenas gemidos, porém é o suficiente para eu saber que ele está gostando. – Me coma. – Ele diz ao se libertar e seguir para cama. Ele se deita abrindo as pernas e as levantando para o alto.
– De quatro. – Ordeno. Minha voz sai autoritária e percebo o agradei ainda mais dessa forma. Marcos morde seu lábio inferior e me obedece. Pego o preservativo no costumeiro local e coloco em meu membro. Sigo para cama e me posiciono. Forço meu membro em sua entrada de forma brusca, fazendo com que entre pela metade.
– AH! – Marcos grita de forma ensurdecedora. Fico aliviado ao me lembrar que não há ninguém em casa.
– Me desculpe. – Digo em seu ouvido.
– Continue. – Suplica.
– Irei te machucar se continuar e...
– Cale a boca e me fode. – Marcos urra. – A forma que ele acabou de pedir faz com que minha libido aumente. Obedeço e me encaixo em seu corpo. Marcos se contrai em volta do meu membro, me proporcionando ainda mais prazer. O processo de penetração é extremamente difícil, já que não há nenhum tipo de lubrificação. Confesso que estou me desmanchando em prazer dessa maneira, mas me preocupo com a dor que Marcos está sentindo.
– Irei parar. Você está sentindo dor. – Digo de forma triste.
Marcos simplesmente sai debaixo de mim, me jogando na cama, ficando por cima. Rapidamente meu membro está inteiramente dentro dele e seus lábios encontram os meus. Apenas o seu quadril se move, fazendo a penetração acontecer em um ritmo alucinante. Seus gemidos são altos e percebo que após um tempo o prazer toma conta do seu corpo. Ele senta, literalmente em mim e sinto que eu estou o tocando de forma única. Agarro suas nádegas, as separando, fazendo meu membro deslizar mais facilmente para dentro dele. O imobilizo e tomo o controle da penetração novamente.
– Não pare, por favor, não pare. – Marcos sussurra com seus olhos fechados e boca entreaberta. Obedeço e aumento um pouco mais a força das estocadas. Não demora muito para eu sentir o prazer crescente dominar meu corpo e começar a anunciar o meu clímax. Aparentemente o corpo de Marcos está reagindo da mesma maneira que o meu e para minha surpresa, sou banhado pelo seu sêmem. Meu abdômen e tórax são marcados por ele e pouco tempo depois, preencho Marcos de uma forma nunca imaginável. Estamos gemendo alto e ritmicamente. Nossos lábios se encontram e o gosto desse beijo é salgado. Percebo que estamos banhados de suor e prazer. Seus cabelos chegam estar úmidos e os meus também.
– Eu te amo. – Digo ainda ofegante.
– Eu te amo mais que a mim mesmo. – Marcos me tira de dentro dele e pousa sua cabeça em meu peito. – Você é tudo o que preciso.
– E você é mais do que mereço. – Beijo o topo da sua cabeça e o ajudo a levantar para tomarmos banho.
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Como previsto o velório está vazio. Apenas com Vinicius e Diane para chorar em cima do caixão lacrado. O arrepio toma conta do meu corpo ao ver a cena. Veio comigo minha mãe, meu pai e Letícia. Pedi para que Marcos também viesse, mas ele se recusou alegando não fazer parte deste momento tão doloroso na vida de Vinicius. Meu peito fica em migalhas quando meus olhos encontram os de Vinicius. Percebe-se que ele está perdido, sem saber o que fazer. Caminho em sua direção, mas ele é mais rápido. Sou tomado por seus braços e seu queixo se encaixa em minha clavícula. Seus soluços são intermináveis e suas lágrimas chegam a molhar minha camiseta. Estou sendo esmagado por seu abraço, chego a sentir dor da forma que ele me segura, mas não me importo. Apenas sinto sua dor e tristeza. Sua boca tenta dizer algo, mas nenhum som é emitido.
– Estou aqui Vini. – Digo de forma quase inaudível. Nosso abraço parece interminável e mais uma vez não me importo. Minhas lágrimas também são pesadas e sofridas. Apesar de tudo, conhecia André desde criança e tinha certo carinho por ele.
Dou minhas condolências a Diane e permaneço ao lado de Vinicius por todo o tempo. Seu olhar é intercalado entre o caixão do pai e eu. Sinto que ele quer dizer algo, porém não consegue. Uma força maior o contém. Não quero forçar a barra e por isso decido permanecer em silêncio. Sinto o olhar de aprovação de Letícia vindo do outro lado da sala, mas tento ignora-la. Não demora muito para dar a hora do enterro. O caminho até o local do sepultamento é íngreme, fazendo com que todos se sintam cansados rapidamente. O carro fúnebre sobe a ladeira vagarosamente com Diane dentro. A mão de Vinicius procura a minha neste momento e chegamos ao local de mãos dadas. Seus olhos passam pela aliança de prata em meu dedo e seu rosto se contorce. Prefiro acreditar que ainda seja pela perda do pai. O sepultamento é rápido, sem discursos ou despedidas. No final Vinicius deixa um lindo arranjo de flores no túmulo e seguimos em direção à saída do cemitério. Minha mãe oferece apoio a Diane, eu permaneço com Vinicius e meu pai abraça Letícia que aparenta estar chorando também.
– Ah! Que pena, cheguei atrasada. – Márcia aparece logo atrás de nós com um falso ar de desapontamento na voz.
– O que você está fazendo aqui? – Letícia pergunta alterada.
– Vim prestigiar este momento tão importante. A morte de André é algo para ser comemorado, afinal, ele teve o que merece. Deus é justo e nunca falha.
O silêncio é tudo o que Márcia recebe como resposta. Todos nós seguimos em direção à saída, porém antes de sairmos, Letícia vai em direção a Márcia e cospe em seu rosto.
– Eu sinto nojo de você. – Ela se junta ao meu pai, deixando- a estarrecida e sem nenhum tipo de reação para trás.
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– Fique aqui comigo, por favor. – Vinicius suplica.
– Sua mãe irá para casa dos meus pais, vá com ela. Fique alguns dias por lá, você e Diane precisam de companhia neste momento. – Digo.
– A única companhia que preciso é a sua Marcos. – Seus olhos verdes estão marejados e seu rosto abatido. – Fique aqui comigo, só por hoje, por favor.
– Tudo bem. – Digo dando-me por vencido. – Ficarei aqui essa noite e amanhã você vai para casa dos meus pais, ok?
– Obrigado. – Um breve sorriso passa por seus lábios após minha concessão.
Todos vão embora me deixando a sós com Vinicius. Enquanto ele está no banho ligo para Marcos.
– Ficarei com Vinicius essa noite. – Digo apreensivo, pelo celular.
– Tudo bem. – Marcos aceita e sua voz parece calma.
– Você não irá se opor? – Pergunto surpreso.
– Confio em você meu amor. – Marcos fala ternamente. – Amanhã de manhã irei te buscar, ok?
– Sem problemas. Daqui a pouco te passo endereço por sms.
– Certo. Estou com saudades de você. – Marcos fala maliciosamente.
– Eu também. – Rio. – Boa noite.
– Boa noite. – Marcos responde e a ligação é finalizada.
– Com quem você estava falando? – Vinicius aparece de repente.
– Com o Marcos. – Digo. – Ele virá me buscar amanhã pela manhã. Me passe o endereço daqui, por favor. – Vinicius me passa sem relutância, eu envio a Marcos e logo após sigo para o banho. Vinicius cede algumas de suas roupas para eu usar. Logo após o banho, sigo para a cozinha e preparo um chá para nós. A casa pode ter apenas dois cômodos, porém são espaços e muito aconchegantes. Volto para o quarto e Vinicius está deitado na cama de casal, onde provavelmente sua mãe dorme, já que a de solteiro, no lado oposto da quarto está com alguns pertences seus, como roupas e livros. – Trouxe um chá pra você.
– Obrigado.
– Você continua o mesmo, não é? Sempre deita na cama com o cabelo molhado. – Rio.
– É uma mania. – Sorri levemente. – E você continua o mesmo não é?
– Como assim? – Pergunto.
– Fazendo meu coração disparar a cada palavra dita. – Vinicius ruboriza.
– Precisamos conversar Vinicius. – Suspiro profundamente. – Mas não hoje, amanhã é melhor.
– Não, por favor. Diga o que tem que falar agora. – Seus olhos são pidonhos.
– Tudo bem. Primeiramente gostaria de lhe pedir desculpas pela maneira que lhe tratei sábado no aniversário do Marcos. Não levei em consideração os seus sentimentos, por favor, me perdoe.
– Não precisa pedir perdão, mas se você precisa tanto disso, eu te perdoo.
– Obrigado. Nesses últimos dias eu aprendi o real significado dessa palavra e o quanto ela pode ser libertadora. – Digo ao me lembrar do alivio que senti após o último dia na casa da minha mãe.
– Isso tem a ver com Letícia e seu pai? – Vinicius pergunta curioso.
– Sim, todos nós nos entendemos e acredito que ficaremos bem a partir de agora.
– Que bom. – Vinicius parece feliz por nós.
– Voltando a nossa conversa, gostaria de dizer que eu te amo demais Vinicius e sempre você fará parte de mim.
– Mas não podemos ficar juntos, eu já entendi Marcos. – Vinicius me interrompe. – Você não foi o único que pensou sobre isso nesses últimos dias. Eu finalmente entendi o que você quis me dizer no nosso último encontro e por isso pedi para que você ficasse comigo essa noite. Eu ainda te amo, mais do que a mim mesmo, mas não posso obriga-lo a nada, apenas aceitar a sua decisão. Acredito que essa é a melhor forma de demonstrar o amor que eu digo sentir por você. Eu preciso te libertar e me libertar. Passamos por muitas coisas e chegou o momento de deixa-las para trás e seguirmos a diante, para uma nova vida. Não tinha dia “melhor” para falarmos sobre isso, a não ser hoje. Acabei de enterrar meu pai, um homem inteligente, que tinha tudo para ser o melhor no quisesse, mas não soube fazer as escolhas certas e acabou dessa maneira. Não quero ser igual a ele, quero fazer as decisões corretas e ter sucesso com elas. E minha primeira decisão correta é essa, deixa-lo livre para seguir sua vida. Já errei tanto com você, está na hora deu acertar e pela primeira vez ter uma atitude de homem.
– Nossa. Você me pegou de surpresa. – Digo com os olhos marejados. – Obrigado por me entender e ser essa pessoa que eu amo tanto. Você faz parte de mim Vinicius, sempre irei te querer por perto.
– Também te amo pequeno. – Nos abraçamos e nossas lágrimas traduz o sentimento que temos um pelo outro. É como eu já havia dito antes, esse sentimento é algo abstrato, que pode ser apenas sentido e jamais descrito. Dou um beijo em seu rosto e ele faz o mesmo comigo. Vinicius se levanta, apaga a luz do quarto e deita-se ao meu lado. Pouso minha cabeça em seu peito e adormecemos.
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Vinicius
Acordo com o baque alto na porta.
– O que foi isso? – Marcos pergunta espantado.
– Não sei, vou ver. – Me levanto e sigo em direção à cozinha, mas o segundo baque é mais violento fazendo com que a porta caia.
– É ele! – Um dos encapuzados aponta uma arma para mim. – Quero a grana! Cadê a grana? – O cano do revólver é encostado em minha cabeça.
– Que grana? Não tenho grana. – Respondo apavorado ao ouvir o grito de Marcos vindo do outro cômodo.
– Seu pai pode estar sendo comido pelos vermes há essa hora, mas ele sabia que a divida seria cobrada. Quero os vinte mil reais que ele prometeu, seu bosta!
– Não tenho esse dinheiro. – Digo com o coração na boca de tão apavorado.
– Olha o que encontramos aqui. – Outro encapuzado segura Marcos de forma brusca, por um dos braços. – Deve ser namoradinho desse aí.
– Escuta aqui seu viadinho de merda, passa a grana ou acabamos com esse otário aí. – Ele diz apontando para Marcos.
– Já disse que eu não tenho. – Não seguro as lágrimas.
– Vasculhem tudo, se esse merda estiver mentindo, matamos os dois.
Os outros três capangas vasculham tudo, abrindo armários, revirando camas e afins. Após minutos intermináveis, eles dizem que não há vestígio de dinheiro escondido.
– E agora, o que faremos com vocês? – O que está me segurando pergunta.
– Eu pago essa divida. – Marcos fala. – Mas não o machuquem, por favor. Levem-me como garantia. Prometo que até amanhã à noite vocês terão esse valor em mãos.
– Marcos, cale a boca! Não diga isso. – Imploro.
– Não é uma má ideia. – O que segura Vinicius abre um sorriso, que mesmo com o capuz é visível. – Poderemos ter certa diversão com você.
– Maldito! – Grito. – Não ousem encostar as mãos nele.
– Cale a boca! – Levo uma coronhada. – Então é isso, apareça com o valor as cinco da tarde de amanhã na Praça da República. – Nem preciso dizer que não é para avisar a polícia e o dinheiro é em espécie, não é? Caso contrário o pequenininho ali morre. – Sou jogado no chão bruscamente e antes de partirem, levo um forte chute no estômago. A imagem de Marcos sendo levado me apavora.
– Avise o Marcos, Vinicius! Avise-o! – Marcos grita.
– Quieto! – Um dos capangas da um golpe em Marcos o fazendo desmaiar.
A dor que sinto é profunda e segundos depois desmaio.
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