Amor & Pecado
32 Capítulo 32 - Revelações
Notas iniciais
Estou sentado no sofá da sala, trocando de canal rapidamente. Os programas de sábado a tarde são tediosos e mesmo se quisesse, não posso me prender a nada neste momento. Daqui a pouco irei para o Bazar Beneficente com meus pais. Confesso que estou um pouco apreensivo, mas estou deixando para “sofrer” na hora certa.
– Marcos, você viu meu Ferracini, bege? – Meu pai pergunta, ao vasculhar a sala.
– Não.
– Tem certeza? Da última vez que o vi ele estava em seus pés.
– O usei, mas o coloquei na sapateira como sempre faço.
– Já procurei na casa inteira e não achei. – Meu pai coça a cabeça, olha para todos os lados e segue para a cozinha.
– Se eu achar este sapato, juro que irei esfregar na sua cara Claudio! – Minha mãe grita do andar de cima.
Acabo rindo com a situação. Meu pai sempre “perde” as coisas pela casa e minha mãe sempre acha em um lugar muito óbvio. Ontem mesmo meu pai estava procurando os óculos que estavam pendurados em seu pescoço.
– E o que você está fazendo, hoje, há essa hora em casa? – Meu pai pergunta ao voltar da cozinha.
– Meu sábado de folga, mereço descansar de vez enquando, não é? – Reviro os olhos ao responder.
Neste momento a campainha toca, acabo levando um susto.
– Se for pra mim, não estou em casa. – Meu pai sobe as escadas correndo.
Eu hein! O que deu nele?
Levanto-me do sofá e abro a porta da sala. Quem será? Sigo até o portão e o abro.
– Boa tarde, meu príncipe! – Marcos sorri como se estivesse vivendo o momento mais feliz da sua vida. Impossível não sorrir de volta. Ele cortou o cabelo! – Me surpreendo – As laterais estão bem aparadas, deixando os fios baixíssimos. A costeleta e os fios que contornam a cabeça, passando por detrás das orelhas e nuca, estão perfeitamente aparados. Seu topete está impecável, com os fios brilhantes e puxados para trás. Seus olhos cor de mel fazem a combinação perfeita com sua pele branca, rosto quadrado e lábios levemente vermelhos. Ele está vestindo uma camisa polo branca, calça Skinny preta e um All Star vermelho. Surpreendo-me mais uma vez, tudo muito básico, porém bonito. Nunca tinha visto Marcos desta maneira. Estou encantado, ele está tão lindo e adorável com esse sorriso largo, que minha vontade é de beija-lo. – Então... Posso entrar? – Marcos pergunta um pouco acanhado, já que não respondi seu cumprimento.
– Ah! Boa tarde! – Respondo ao balançar levemente a cabeça. – Por favor, entre. – Dou passagem.
– Obrigado. – Diz me lançando um olhar confuso. Ao passar por mim sinto seu cheiro amadeirado que gosto tanto. – Meus sogros estão em casa? – Pergunta com a voz baixa e um sorriso brincalhão.
– Sim, meus pais estão em casa. – Sorrio timidamente de volta, enquanto entramos na sala. – Sinta-se a vontade.
Marcos logo se senta em um dos sofás e eu me sento no outro. Ele observa cada detalhe do ambiente. Os pequenos quadros com pinturas rurais, que por mais bregas que sejam minha mãe insiste em deixa-los na parede. A mesa de centro de madeira tabaco em cima do enorme tapete cinza claro. O estofado do sofá de couro branco e por fim os retratos em cima de um balcão ao lado do telefone. Ele sorri ao ver uma das minhas fotos de quando eu era pequeno e se levanta para observar mais de perto.
– Seu olhar continua o mesmo. – Sorri e aponta para o retrato.
– Como assim? – Pergunto ao me levantar e parar ao seu lado.
– Ele continua doce e intrigante como na foto. Encantando e intrigando pessoas, que por ele é laçado. – Marcos me olha de soslaio.
– Temos visita? – Meu pai desde a escada, já de terno e cabelos arrumados, porém sem sapato.
– Sim pai. – Digo quando ele para na nossa frente. – Este é Marcos meu chefe.
– Claudio, muito prazer. – Meu pai estende a mão ao se apresentar.
– Muito prazer, Sr. Claudio. – Marcos sorri.
– Muito bonito o seu nome. Marcos foi um evangelista.
– Meu pai diz isso, porque foi ele quem escolheu meu nome. – Rio revirando os olhos para Marcos, que acha graça no modo em que meu pai falou sobre nosso nome.
– Muito interessante. Não sabia que meu nome era bíblico. – Marcos fala.
– Se um dia estiver interessado, podemos falar mais sobre Marcos e os demais evangelistas.
– Com certeza, poderíamos sim. – Marcos concorda, mesmo não tendo nenhum interesse no assunto. Deu essa resposta apenas por educação.
– Pai, você ainda não achou os seus sapatos? – Pergunto ao olhar para os seus pés.
– Não e quero usar meu Ferracini hoje. – A feição do meu pai é frustrada. – Mas não o acho de jeito nenhum.
– Seria aquele par de sapatos, atrás do sofá ao lado da barra da cortina? – Marcos pergunta, ao apontar.
– Sim, é este mesmo. – Meu pai cai na risada ao encontra-los.
– Antes de você chegar, ele estava me acusando de ter pegado esses benditos sapatos. – Rio.
– Olá. – Diz minha mãe ao descer as escadas e se referir a Marcos.
– Boa tarde. – Minha mãe o observa da cabeça aos pés. — Muito prazer, Vanessa. – Estende a mão.
– Boa tarde, Sra. Baldo. – Marcos a cumprimenta delicadamente e deposita um leve beijo na maçã do rosto de minha mãe. – Muito prazer, chamo-me Marcos. – Minha mãe ruboriza, na verdade, quem não ficaria acanhado ao lado de um homem tão lindo e educado?
– Quanta formalidade. – Minha mãe sorri. – Pode me chamar apenas de Vanessa. Você e Marcos se conhecem de onde?
– Sou chefe dele. – Marcos sorri.
– Meu filho lhe ofereceu pelo menos um copo d’água? – Minha mãe lança-me um olhar discreto.
– Não é necessário, Vanessa. Acredito que estamos indo ao mesmo lugar, não é mesmo? Portanto, não se preocupe.
– Ouviu mãe? – Pergunto ao levantar um das sobrancelhas, para acabar com as chances de ela continuar insistindo.
– Ouvi. – Responde.
– O rapaz ai já ganhou meu respeito Vanessa, até meus sapatos ele encontrou. – Meu pai fala e caímos na risada.
– Já são seis e meia, pessoal! – Digo ao olhar para o relógio. – Quero chegar cedo para voltar cedo.
– Apresse-se Claudio! – Minha mãe diz.
– Já estou pronto. – Meu pai diz ao se levantar do sofá, após finalmente, calçar os seus sapatos.
– Irei com Marcos no carro dele. – Digo.
– Tudo bem. – Meu pai fala.
X
Como esperado, o Bazar é um sucesso. Não só os membros da Igreja, como os moradores do bairro e visitantes estão presentes. Estamos no enorme estacionamento da Igreja, as barracas de comida típica estão lotadas e as crianças se divertem com jogos e brincadeiras. Já a maioria das senhoras, estão ocupadas com as roupas do brechó. Até vi duas irmãs discutindo por uma calça jeans, ainda com etiqueta. Marcos foi pegar uma bebida, enquanto o espero ao lado de uma barraca de “Tiro ao alvo”.
– Voltei! – Marcos sorri, com um copo em cada mão.
– O que é isso? – Pergunto ao observar o liquido escuro e gelado no copo.
– Chá gelado, pensei que gostasse.
– Gosto sim, só não tinha identificado o que era. – Sorrio. Na verdade não gosto de chá, muito menos gelado. Porém não quero desaponta-lo e decido, pelo menos, dar um gole. Argh! Horrível! Mas é por uma boa causa.
– Que tal “Tiro ao alvo”? – Marcos pergunta ao inclinar a cabeça, referindo-se ao jogo.
– Eu adoraria. – Sorrio e mais uma vez fico desapontado, tenho uma péssima coordenação motora.
Na parede encontra-se um circulo, com diversos outros um dentro do outro. O jogador tem três chances de acertar o circulo central. Se acertar duas flechas no meio, escolhe o prêmio. Se acertar apenas uma, o dono da barraca escolhe o prêmio. Caso não acerte nenhuma das flechas, sai de mãos vazias.
– Olá! Quero dois arcos e seis flechas. – Marcos pede ao irmão Valdo, namoradinho da avó da Letícia e o entrega dois bilhetes.
– Aqui estão. – Irmão Valdo entrega os arcos e flechas. – Boa sorte.
– Obrigado. – Digo.
– Posso começar? – Pergunto. – Quero me livrar dessa tortura o quanto antes.
– À vontade. – Marcos sorri. Tenho certeza que por dentro ele está se divertindo com a minha cara.
Primeira flecha, a lanço e por incrível que pareça ela perfura a lona da barraca. Como assim? Mirei no circulo central, não no teto.
– Nossa! Imaginei que você fosse ruim, mas nem tanto. – Marcos gargalha.
– Fica quietinho. – Semicerro os olhos e volto à atenção ao jogo.
– Ok. – Marcos levanta as mãos ao falar, como se não tivesse falado nada.
Miro novamente no circulo central e a flecha desta vez passa longe de qualquer circulo e acaba caindo no chão.
– Essa é a sua última chance, Marcos. – Irmão Valdo me alerta, também rindo das minhas tentativas frustradas.
– Desta vez irei acertar, prometo. – Falo rindo também. Acabo tendo mais uma vez a certeza de que sou muito ruim, mas a brincadeira não deixa de ser divertida.
– Vou te ajudar. – Marcos se posiciona atrás de mim, estica o meu braço direito para eu poder segurar o arco, encaixa a flecha e com sua mão esquerda em cima da minha, puxa a flecha para trás, encaixa seu queixo em meu ombro e me ajuda a mirar no circulo principal. – Quando eu falar “três” soltaremos a flecha. – Fico tenso. — Um... dois... três.
– Consegui! – Grito.
– Conseguiu! – Marcos ri e me solta.
– Terei que anular esta tentativa, já que houve sua “ajuda” na partida. – Irmão Valdo dirigi-se a Marcos. A palavra “ajuda” sai carregada de sua boca, com certa repugna, já que Marcos ficou muito próximo de mim e com certeza ele se sentiu incomodado.
– Sem problemas. Agora é a minha vez. – Marcos para em frente à barraca. Seus dedos são ágeis e seus três tiros são seguidos e rápidos. Não dando tempo do irmão Valdo de afastar do alvo. As três flechas são cravadas no circulo central, deixando eu e os demais em volta da barraca de boca aberta. – Quero o urso amarelo, com camiseta vermelha. – Marcos aponta. Irmão Valdo o retira do centro dos brindes sem questionar e o entrega a Marcos. – Toma é seu.
– O Urso Pooh? – Pergunto sorrindo ao pega-lo.
– É esse o nome dele? – Marcos pergunta erguendo uma das sobrancelhas, como se achasse o nome idiota, para um Urso tão bonitinho. – Gostei dele e achei que combinaria com você.
– Obrigado.
– Pode desconsiderar o acerto do rapaz. – Marcos diz ao irmão Valdo. – Não iremos escolher mais nada daqui.
Caminhamos por alguns instantes calados. Estou feliz por estar com Marcos e por ter ganhado o Urso. Porém este chá que não consigo tomar, em uma das minhas mãos e a possibilidade de encontrar Vinicius, começa a me incomodar.
– Você percebeu o jeito que ele te olhou não é? – Pergunto envergonhado, me referindo ao momento em que Marcos me ajudou com as flechas.
– Sim, mas relaxa. – Marcos fala dando de ombros. — Estamos em uma quermesse de Igreja, não deveria ter feito aquilo.
Caminhamos pelas demais barracas, procurando algo interessante para fazer. Acabamos encontrando uma pequena urna de madeira, com a palavra “Donativos” escrita nela. Marcos retira do bolso detrás da calça a carteira e deposita duas notas de cem reais na urna.
– Não quero sair daqui com a consciência pesada pelo que fiz. – Marcos diz baixo.
– Você não fez nada de errado, apenas me ajudou com o jogo e para isso me abraçou. Nada demais. – Falo com uma voz fina e fanha, apontando o Pooh para Marcos, como se o urso estivesse falando.
– Você é muito fofo. – Marcos ri. – Juro que a minha vontade é de te beijar neste exato momento.
– Quem sabe você consiga realizar seu desejo mais tarde. – Falo me escondendo, novamente, atrás do urso.
– Que desejo? – Ouço a voz familiar atrás de mim e antes mesmo de me virar, já tenho a absoluta certeza de quem ela pertence.
– Vinicius? – Pergunto com um nó na garganta.
– Oi. – Vinicius responde com um pequeno sorriso e um olhar duro a Marcos. Ele nos observa. – Gostei do Pooh. – Diz ao passar uma das mãos no urso. – Chá gelado? – Vinicius faz cara de espanto ao olhar o copo na minha mão. – Você detesta chá gelado, Marcos.
Fico sem graça com o comentário. Marcos me lança um olhar do tipo “Porque você não me avisou?” e percebo que seu copo já foi descartado enquanto estávamos na barraca de “Tiro ao alvo” e o meu está intacto.
– Decidi tomar hoje. – Digo desconcertado. – Mas o que eu você tem haver com o que bebo ou deixo de beber, Vinicius?
– Me desculpe. – Vinicius responde. – Não quis te ofender.
– Vinicius, Marcos não está à vontade com você aqui. – Marcos se aproxima de Vinicius. – Você não acha melhor se retirar? Na verdade, não sei o que você está fazendo aqui.
– Sou filho do Pastor, seu babaca. – Vinicius fala encarando Marcos e cerrando os punhos.
– Não parece. Acredito que por ser filho do Pastor você deveria ser o exemplo, mas pelo visto estou equivocado. – Marcos rosna.
– Parem! – Digo ao ficar entre os dois. – Não quero briga e eu sei me defender, Marcos.
A tensão paira entre nós. Marcos e Vinicius se encaram e até mesmo com a minha intervenção, temo que um soque a cara do outro. É quase impossível imaginar Marcos nervoso, mas acredite, ele está com a presença de Vinicius.
– Até que enfim te encontrei, meu amor! – Letícia aparece, sem percebermos e abraça Vinicius por trás, depositando um beijo em seu pescoço. – E olha quem está aqui! – Diz com uma falsa surpresa ao se referir a mim e Marcos. – O namoradinho está gostando da quermesse?
Marcos me lança um olhar rápido de espanto e logo entende o que eu quis lhe dizer em resposta, também através do olhar.
– Foi você quem tirou as fotos? – Marcos pergunta a Letícia.
– As fotos em que você e Marcos se beijam? – Letícia pergunta irônica. – Sim, foi eu. – Completa ao encarar Marcos.
– Você é muito baixa, garota. – Marcos fala com o maior desprezo possível, ao medir Letícia de cima a baixo.
– Olha só, Vinicius! Exijo que você me defenda! – Letícia quase grita de irritação.
– Nesse ponto tenho que concordar, com “esse ai”. – Vinicius responde.
Acabo deixando um sorriso escapar, após a declaração de Vinicius.
– Já que sou tão baixa, irei revelar algo que descobri esta semana e que mudará o rumo da vida de pelo menos, duas pessoas aqui. – Letícia fala com os olhos ardentes. – E confesso que essa descoberta me trará muitos benefícios.
– Quem você usou ou chantageou desta vez, sua vadiazinha? – Pergunto a encarando.
– Lembra-se daquele tapa, que você me deu na entrada da Igreja há algumas semanas atrás, Marcos? – Letícia se aproxima de mim. — Pois neste exato momento ele terá volta. Você me disse que cada toque que Vinicius fizesse sob minha pele, seria dedicado a você e que eu nunca saberia como é ser amada de verdade por ele. – Letícia se aproxima ainda mais de mim e sinto seu ódio passar de seu corpo para o meu. – Pois bem, sua bicha cretina, se prepara porque darei algo a ele que você NUNCA, eu digo NUNCA, poderá dar. – Letícia pousa suas mãos no ventre. – Um filho.
Fico petrificado, sem mover um músculo. Vinicius congela e seus olhos tremem. Marcos apenas segura minha mão, discretamente, entre as pessoas que se movimentam entre nós. O golpe no meu peito é forte e a dor é imensurável. Minha vontade é de gritar o mais alto possível e dizer toda a verdade, a todos. Falar sobre as fotos, sobre meu namoro com Vinicius, sobre minha primeira vez na cama do Pastor, sobre o acordo entre Vinicius e Letícia, TUDO!
– O que você disse, Letícia? – Vinicius pergunta entre dentes e as lágrimas já escorrendo sob a face.
– Isso mesmo que você ouviu. – Letícia sorri. – Iria te dizer em uma ocasião especial e mais tranquila, mas pensando bem, a hora é agora. Estou grávida!
– Como? Foi uma única vez. – Vinicius pergunta incrédulo.
– Sem preservativo. – Letícia não consegue esconder o sorriso.
– Você transou com ela sem preservativo? – Pergunto e vou pra cima de Vinicius. Estou enfurecido e acabo jogando o chá gelado nele, o deixando encharcado. Como ele pôde fazer isso?
– Calma! – Marcos me pega pelos braços. Não aguento e começo a chorar, nunca me senti tão traído em toda a minha vida, se é que posso me sentir assim. Meu amigo de infância, ex-namorado que ainda amo, será pai do filho de uma das pessoas mais desprezíveis que conheço. A discussão acaba chamando um pouco a atenção das pessoas a nossa volta. Isso é um sinal de que devemos parar por aqui, pois logo menos o Pastor virá verificar a encrenca em que seu filho se enfiou.
– Chega! – Digo entre soluços. – Me tire daqui Marcos, por favor.
– Sim, vamos. – Marcos me abraça com um braço, enquanto carrega o urso no outro.
– Para onde vocês irão? – Vinicius nos questiona, sem se importar com o chá em sua roupa e mais preocupado com o que eu posso fazer a sós com Marcos.
– Não é da sua conta. – Marcos cospe as palavras para Vinicius. Damos as costas à ele e Letícia. Caminhamos em direção ao carro do lado de fora. – Entre. – Marcos pede ao abrir a porta de passageiro do Mitsubishi. – Relaxe, o levarei para minha casa. – Diz ao dar partida no carro.
Caio em uma tristeza profunda, nunca pensei que seria possível chorar tanto por algo ou alguém. Minha cabeça lateja, meu peito lateja, minha alma lateja, meu corpo lateja com a dor e decepção que invade cada partícula do meu corpo. Ao deixarmos a quermesse, percebo que duas viaturas da Policia Federal estacionaram frente à Igreja.
Vinicius
Pai.
Uma palavra. Três letras. Um significado enorme.
Eu Vinicius Carminatti, serei pai.
Estou parado, não ouso movimentar um músculo sequer. O que aconteceu aqui? Minha mente está turbulenta, meu coração em pedaços e uma dúvida me ocorre.
– Quem me garante que este filho é meu? – Questiono ao me virar bruscamente para Letícia.
– Você sabe que o filho é seu Vinicius, transamos sem preservativo.
– Você calculou tudo, não é sua víbora? – Minha vontade é de esgana-la na frente de todos. Para saberem a vadia desprezível que Letícia é.
– Não calculei nada. – Letícia me encara e por um minuto sequer, chego a acreditar em sua afirmação. – Mas saberei aproveitar a oportunidade ou você acha que deixarei o posto de sogra do Pastor, passar por mim sem eu aproveitar? – Seu sorriso é malicioso.
– Juro que se estivéssemos a sós, eu não responderia por mim. – Falo entre dentes.
– Responderia sim Vinicius. – Letícia pega minha mão. – A partir de hoje, seremos o seu ponto fraco. – Ela pousa a outra mão em seu abdômen e entendo que a palavra “seremos” refere-se ao bebe e a ela. – Tudo o que nos atingir, atingirá você também, ou seja, você não fará nada comigo.
– Ladrão! – Ouço o grito. – Ladrão!
– Vó? – Letícia solta a minha mão e percorre a quermesse atrás de quem está gritando.
Vou atrás dela e ao chegarmos ao centro do estacionamento, me deparo com uma das cenas mais chocantes da minha vida. Meu pai está sendo algemado por dois policiais.
– O que está acontecendo aqui? – Grito ao correr em direção a eles.
– Se afaste! – Um dos policiais grita de volta.
– Pastor corrupto! Ladrão! Desgraçado! Roubava todos nós, seus fiéis! – Irmã Márcia grita em plenos pulmões.
A comunidade fica polvorosa, um falatório sem fim toma conta dos nossos ouvidos e a feição de todos começa a tomar formas raivosas e indignadas.
– O soltem! – Grito com certa exigência. – Cadê a merda do mandato de prisão?
Estou no chão, o soco foi tão forte e repentino que me derrubou.
– Mais respeito, seu merda! – Um dos policiais refere-se a mim.
– Meu filho! – Minha mãe agacha-se ao meu lado e me abraça.
– O mandato de prisão ficará em posse da Sra. Diane Caminatti. Todos terão acesso a ele. – O policial que me deu o soco fala a todos.
– Eu fui voluntária na investigação, irmãos! – Irmã Márcia grita. – Cada centavo que dei a esse desgraçado no último ano foi rastreado. Ele nos roubava! Ladrão!
Os olhares se concentram em meu pai e também a mim e minha mãe, no chão. Levanto-me.
– Isso é um engano, não é pai? – O encaro. – Estão equivocados, certo? – Pergunto chorando.
Sua expressão é vazia, parece que não está se incomodando com nada o que está acontecendo a sua volta. Os policias começam a andar, o arrastando. As vaias começam, juntamente com os gritos.
– Ladrão! Desgraçado!
O sigo em meio à multidão revoltada. Objetos são lançados em direção a ele. Ao chegar à viatura, a parte detrás é aberta, onde ele deve entrar e sentar. Antes da porta se fechar, um rapaz da minha idade corre e cospe em seu rosto, os policias o afastam e entram na viatura.
– Ladrão! Ladrão! – Os gritos são fortes e altos.
Minha mãe me abraça forte, se desmanchando em lágrimas.
– Irmãos! – Irmã Márcia grita, mais uma vez, agora ao meu lado. – Solidariedade ao filho e esposa do desgraçado, pois nenhum dos dois tinha ciência do que estava acontecendo. Isto já está provado!
Letícia aparece com a expressão de incredulidade e susto, deduzo que ela não fazia a mínima ideia do que estava acontecendo nesses últimos meses e sua avó não a envolveu no caso.
A viatura parte e a multidão nos rodeia. Olhares julgadores, incrédulos, assustados e por incrível que pareça, alguns piedosos. Minha mãe permanece em meus braços, enquanto chora. Vanessa e Claudio aparecem para oferecer conforto e solto minha mãe. Sou tomado por braços pequenos que me envolvem. Pouso minha cabeça em seu ombro e esqueço nossas diferenças, choro como se o mundo estivesse acabando, o que não deixa de fazer sentido. O meu mundo está desmoronando. Choro cada vez mais.
– Estou aqui, Vini. – Letícia fala no pé do meu ouvido, me abraçando mais forte.
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