Amor & Pecado

1 Capítulo 1 - Consciência Pesada


Meu coração está disparado, o sinto bater em meus ouvidos de tão inquieto em que me encontro. Vinicius está trancando a porta, o que ele pretende? O encaro sem desviar por um segundo meu olhar do dele.

– Adoro quando você faz isso. – Vinicius vem em minha direção, com seu sorriso torto que tanto amo.

– Isso o que? – Pergunto curioso. Ao mesmo tempo em que eu me preocupo em estar a sós com ele, por medo de alguém descobrir a nossa relação, eu não quero que esse momento acabe nunca, por mais devastadora que a consequência seja.

– Quando você morde os lábios, isso é tentador demais Marcos. – Vinicius ofega, passa a mão pela minha cintura e seus lábios encontram os meus, fico relutante, começo a bater em seu peito para que pare o beijo, mas ele não para, na verdade o intensifica e como ele é mais alto e forte, perco facilmente a batalha. – Porque me bateu, meu beijo está tão ruim assim? – Vinicius faz uma cara de deboche e sorri sarcasticamente, como se dissesse com o olhar: “Impossível meu beijo ser ruim.”.

– Você sabe que não é isso, detesto ficar escondido, como se o que estamos fazendo seja errado.

– Estamos sozinhos Marcos, meus pais não estão em casa. Relaxa um pouco, por favor. – Vinicius me olha com aqueles olhos verdes pidonhos, que me deixam desconcertado.

– Ok. Vou tentar.

Deito em sua cama olhando para o teto e penso o quão errado é o que estamos fazendo, o que seria de nós se um de nossos pais descobrisse o que sentimos um pelo outro. Meu Deus! Como isso é perturbador, apavorante. Conheço o Vinicius desde pequeno, crescemos juntos e o pai dele é Pastor da Igreja em que meus pais frequentam desde que nasci e por esse motivo nossas famílias são muito próximas.

– No que está pensando pequeno? – Vinicius me chama assim desde sempre, por eu ser menor que ele e confesso que adoro que ele me chame assim. Agora ele está deitado ao meu lado, passa seu braço esquerdo por debaixo da minha cabeça, que se encaixa perfeitamente em seu peito. Decido não falar o que está me perturbando, afinal, prometi que relaxaria.

– Estou pensando em como conheço cada detalhe deste quarto, o quanto já brincamos e brigamos aqui. Quantas noites já dormi aos pés da sua cama e quantos dias já acordei ao seu lado. Como se estivéssemos predestinados sabe?

– Predestinados? – Vinicius ri ao dizer a palavra. – Marcos, éramos crianças, ainda não tínhamos esse sentimento um pelo outro, não havia “maldade”.

– Sei que não tinha Vinicius, não sei explicar, mas eu sentia que você era meu de alguma forma, como se nunca fôssemos nos separar.

– Eu tinha, na verdade tenho até hoje, um sentimento muito forte em relação a você, sempre senti necessidade de te proteger, de te fazer feliz. Quantas vezes deixei de assistir Cavaleiros do Zodíaco para jogar Banco Imobiliário com você?

– Ah, para! Cavaleiros do Zodíaco é muito chato, como você pode gostar disso até hoje? – Pergunto rindo.

– É o tipo de coisa que os garotos curtem quando pequenos e até quando já estão adultos.

Congelo nesse exato momento. “Tipo de coisa que os garotos curtem”. Nunca fui de desenhos animados que envolviam violência, futebol ou brincadeiras de rua. Ao contrário do Vinicius que já quebrou os dois braços e teve uma ruptura nos ligamentos do joelho direito durante a infância, em suas aventuras de garoto.

– Você quer dizer que eu não sou garoto? – Falo com um tom falso, como se eu estivesse ofendido.

– De certa forma você não é. Não mesmo! – Vinicius ri e da um selinho em meus lábios.

– Detesto quando você se faz de machão. – Faço beicinho e fecho a cara.

– Não sou machão, só sou mais “homem” que você, é algo natural.

Agora fiquei irritado. Tiro seus braços, que me envolvem, de cima de mim e me ponho de pé. Na escola sempre fui motivo de risadas e piadas, por de vez enquanto dar umas deslizadas do tipo: Falar um pouco agudo demais, não participar das atividades físicas que os demais garotos participam e de certa forma soltar um “pouco” o pulso na hora de gesticular. O que posso fazer? É mais forte que eu, podem me atacar o quanto quiserem, mas não posso admitir esse tipo de observação sobre eu venha do Vinicius, não mesmo. Afinal, somos... “namorados”?

– O que foi? – Vinicius fica serio e levanta as mãos para o alto, com a intenção de mostrar que não falou nada demais.

– “Não sou machão, só sou mais homem que você.” – Imito o tom grave da sua voz e faço careta enquanto falo. – Já basta ter aguentado os babacas da escola, agora você?

Vinicius se levanta e para ao meu lado, sério, mas também com a feição de arrependimento, coloca suas mãos nas maçãs do meu rosto e me olha fixamente.

– Marcos, você já parou pra pensar no tempo em que estamos perdendo? Meus pais daqui a pouco estarão aqui e eu não vou mais poder ficar com você do jeito que eu quero.

– Tarde demais machão. – Digo enquanto ouço o portão automático da casa do Vinicius se abrir e a buzina do carro toma conta dos nossos ouvidos.

– Merda! – Vinicius exclama, destranca a porta do quarto e desce as escadas.

Vou atrás dele, desço as escadas cruzo a sala de jantar e a sala de estar até sair na garagem. Vinicius já está com três sacolas do hipermercado nas mãos, enquanto sua mãe pega mais três.

– Oi Marcos! Como vai? – Diz Diane com seu sorriso branco e simpatia sem igual.

– Oi Diana! Estou bem. Estava aqui com o Vinicius ensaiando alguns Hinos.

– Ah! Mas isso é muito bom. – Ela passa por mim com as sacolas enquanto Vinicius já está de volta.

– Ensaiando Hinos? Não tinha uma desculpa pior? – Agora eu sentia que era ele que estava irritado.

– Cala boca. Se a minha desculpa foi tão ruim diga a ela o que estávamos fazendo lá em cima. – Retruco da forma mais petulante que consigo.

– Ok, bad boy. As duas caixas de leite e dois pacotes de arroz de 5kg são seus. – Vinicius inclina a cabeça para mostrar o que restou no porta malas do carro, pegando as cinco ultimas sacolas.

Obviamente não consegui levar a cozinha tudo de uma vez só, precisei fazer duas viagens, mas fiz o que Vinicius “ordenou”. Só por pirraça fiquei até o final do jantar, ajudei a Diana lavar a louça, secar e guardar, quando decidi ir embora.

– Marcos, antes que você vá me ajude a procurar aquele dicionário que você quer emprestado. – Vinicius parecia estar menos irritado.

– Ajudo sim.

Quando entro no quarto com Vinicius ele fecha a porta e me encara.

– Me desculpe. Não queria de forma alguma te ofender, você sabe disso Marcos.

– Eu sei Vinicius, mas às vezes você é arrogante. Gosto desse seu jeito marrento, mas não comigo.

– Mas eu não disse nada demais! Me desculpa, por favor. Sei que pra você é mais difícil manter escondido nossos instintos. Posso ser arrogante e marrento, mas você é o único que consegue me dobrar, pequeno. – A ternura é notável nos olhos de Vinicius e junto com ela está o sorriso torto que amo tanto.

– Te desculpo sim. Agora me dá o dicionário que estou “ajudando” você a procurar.

Vinicius ri, vai até a sua estante de livros e pega um dicionário bíblico, olho desconcertado.

– Você gosta de ser irônico não é garoto? – Pergunto.

– Gosto de ser irônico e de te deixar sem graça. – Sorri.

Viro-me para ir embora, mas sou puxado para trás e quando me dou conta estou nos braços de Vinicius. Seu beijo é urgente e quente. Quando chega ao fim fito seus olhos verdes, pele morena e cabelo liso jogado na testa, dou um beijo casto em sua bochecha e lhe desejo boa noite. Desço as escadas, me despeço de Diana e do Pastor André, que a essa altura já havia chegado e volto para minha casa, dois quarteirões acima, com o dicionário bíblico pesando como chumbo em minhas mãos, juntamente com a minha consciência e com a sensação de sempre estar fazendo algo proibido.