Amor & Pecado
3 Capítulo 3 - Horas Extras
– Um Capuccino, por favor.
– Sim senhor. – Digo.
Em dias normais neste momento eu estaria me preparando para ir embora, mas como hoje farei hora extra, não poderei sair tão cedo e confesso que estou com muita vontade de ir para casa.
– Qual é o nome do senhor?
– Marcos.
Rio baixo. Aqui na Starbucks, temos o costume de chamar o cliente pelo nome na hora de entregarmos o pedido e anota-lo no copo de cada um.
– Por que riu? – Marcos, o cliente, pergunta.
Aponto para o meu crachá sorrindo. Ele retribui o sorriso.
– Esse é um dos motivos de eu gostar do meu nome, só homens bonitos e educados o possuem.
Fico ruborizado, sinto minhas bochechas queimarem de vergonha. É impressão minha ou acabei de ser cantado por um cliente? Sr. Marcos pega um pequeno guardanapo, anota algo e me entrega, pega seu Cappucino e se retira. O chamei de senhor, mas isso não significa que ele seja velho, pelo contrario, ele deve ter no máximo vinte e cinco anos, branco, alto e esguio, loiro dos olhos cor de mel. Muito fofo. Por instinto pego o guardanapo em que ele anotou algo e sem ver coloco no bolso.
– Um Chá Verde Frappuccino, por favor.
Ao erguer a cabeça vejo que é Vinicius.
– Se não pode passar a noite comigo, venho passar a noite aqui com você. – Diz sorrindo.
Fico sem reação, ainda estou processando a informação de ser cantado em pleno horário de trabalho e agora Vinicius está bem na minha frente. Estou surpreso com a sua determinação.
– Só um minuto senhor. – digo irônico — Irei providenciar seu pedido.
Enquanto preparo o chá, sinto seu olhar queimar em mim, como se estivesse decorando cada movimento que faço. Coloco o copo no balcão e escrevo com a minha caneta retroprojetora: “Vinicius S2”.
– Que romântico. – Diz Vinicius revirando os olhos e um sorriso debochado no rosto. – Vou me sentar, sairá que horas?
– As 23:00hrs. Você pretende me esperar?
– Claro que sim e, por favor, não me impeça. – Vinicius segue em direção à mesa despojadamente e fico pensando em como ele é arrogante até na forma de se sentar.
Continuo meu trabalho normalmente, atendendo os clientes e seus pedidos, até perceber que Vinicius não está mais sozinho na mesa. Não é possível uma coisa dessas! Como se não bastasse estar grudada nele ontem após o culto, agora Letícia está tomando um expresso com Vinicius. Não me contenho, pego meu bloco de pedidos e caminho com determinação até a mesa.
– Boa noite, em que posso ser útil? – Tento ser simpático, como se isso fosse possível.
– Oi, Marcos! Não sabia que você trabalhava aqui. – Letícia parece simpática.
– E eu não sabia que você costuma frequentar cafeterias do outro lado da cidade, Letícia. – Não me preocupo em demonstrar acidez no meu tom de voz. – E nem você Vinicius. – Me refiro a Vinicius com um tom mais severo, pois não quero que Letícia tire nenhum tipo de conclusão precipitada.
– Nossa! Acordou de mau humor? – Diz Letícia arregalando os olhos.
– Me desculpe. – Tento me controlar. – Meu dia está sendo longo e detesto ser pressionado. – Agora falo olhando para Vinicius. – Realmente me desculpe.
Vinicius me fita com seus olhos verdes semicerrados querendo dizer: “Te pressiono é?”
– Te compreendemos Marcos. Agora, por gentileza, nos traga mais um chá e um expresso. – Vinicius pede no seu tom provocador. Respiro fundo.
– É pra já. – Sorrio forçadamente.
Volto para o balcão para preparar os pedidos.
– Você não pode sair detrás do balcão Marcos, sabe disso. – Diz Thiago, o gerente.
– Eu sei, me descuidei.
– Como você começou a atender o casal termine, mas não repita esse erro novamente.
– Pode deixar.
“Casal”. Essa palavra faz meu sangue ferver, quando atribuída a Letícia e Vinicius.
– Obrigado! – Diz ambos em uníssono, quando entrego os pedidos.
– De nada.
A hora se arrasta, cada minuto parece uma eternidade. Finalmente posso tirar meu avental, pegar minhas coisas e ir embora. Vinicius e Letícia me esperam do lado de fora da cafeteria, me faço de inocente e passo batido por eles.
– Marcos! – Grita Vinicius. – Qual é cara, estávamos te esperando para te dar uma carona.
Volto devagar e paro diante dos dois.
– Ah! Muito Obrigado.
Por sorte a essa hora da noite não há trânsito nas ruas, fui obrigado a ir sentado no banco detrás do I30, enquanto o “casal” ia ao banco da frente sorrindo e cantando Velha Infância dos Tribalistas. Argh! Essa garota está passando dos limites.
– Boa noite Le. – Diz Vinicius ao estacionar em frente à casa de Letícia.
– Boa noite Vini. – Ela retribui no mesmo tom meloso que Vinicius fez questão de fazer e como se não bastasse ela lhe da um beijo. É impressão minha ou essa cretina beijou o canto da boca dele? – Boa noite Marcos. – Ela diz virando para trás com o sorriso de orelha a orelha.
– Boa noite. – Digo mais seco que o solo do sertão do Ceará.
Eu e Vinicius aguardamos Letícia entrar em casa e mesmo depois dela ter entrado, permanecemos em silêncio. Passo para o banco da frente, pelo vão entre os bancos e permaneço mudo, enquanto fazemos o caminho de casa.
– Da pra pelo menos olhar para mim? – Diz Vinicius erguendo a sobrancelha.
O encaro.
– Melhor assim?
– Estaria melhor se você parasse de ser tão ciumento.
– Não estou sendo ciumento. – Minto para eu mesmo – O problema é essa oferecida da Letícia, ela só não te beijou na boca porque eu estava no banco detrás.
Vinicius ri. Sua risada é tão alta e profunda que me irrita mais ainda.
– Isso é a mais pura verdade. – Diz ele quase sem fôlego.
– IDIOTA! – Grito. Como ele me irrita com essas atitudes, que saco! Vinicius segura o riso e tento permanecer quieto até ele estacionar em frente minha casa.
Vinicius destrava seu cinto de segurança para se aproximar de mim, sua mão encontra a minha e ainda consigo sentir o arrepio do nosso primeiro toque.
– Desmancha essa cara feia, pequeno. – Diz ao meu ouvido.
– Primeiro você me provoca e depois adula.
– Não te provoquei em nenhum momento, você que se irrita sozinho.
– Eu me irrito sozinho? Por que você deixou ela se sentar na sua mesa? Você sabe que não gosto da forma que ela te trata.
– Planeta Terra chamando! – Vinicius fala debochando de mim novamente. – Frequentamos a mesma Igreja, nos conhecemos há muito tempo, aliás, você também a conhece há muito tempo. Não tinha como dispensa-la.
Paro para analisar melhor a situação e acabo concordando com Vinicius, mas não demonstro.
– Que seja! Não gosto dessa garota.
– Vem cá. – Vinicius me puxa, fazendo com que eu encoste minha cabeça em seu ombro e sua mão se encaixe em minha cintura. – Confesso que te provoquei um pouquinho e que dei certa liberdade a ela. Mas a única pessoa que faz meu coração bater mais forte é você Marcos. É tão difícil entender? Fui te buscar no trabalho com a melhor das intenções, não tenho culpa que aquela garota apareceu. – Quando ele termina de falar, sinto em minha mão, que pousa sob seu peito o ritmo acelerado do seu coração. Respiro fundo e levanto minha cabeça, não consigo dizer mais nada, só quero minha cama.
– Boa noite Vinicius. – Digo enquanto dou um beijo em seu rosto.
– Não quero beijo no rosto.
– Mas é o que você terá hoje.
Desço do carro, entro em casa e só ouço Vinicius dar partida quando já estou em meu quarto. Decido ir tomar banho, além de ter trabalhado o dia todo, preciso me esquentar, pois a noite está fria. Quando tiro minha jaqueta do corpo para coloca-la no cesto de roupas sujas, passo a mão pelo bolso esquerdo e encontro o guardanapo do Marcos, o cliente, nele está escrito um número de telefone, fico vermelho só de pegar no guardanapo e o guardo na gaveta da minha escrivaninha. Quando verifico o lado direito, para a minha surpresa, encontro uma nota de cem reais e bem abaixo dos dizeres: “Deus seja louvado” está escrito à caneta de tinta preta e letras de fôrma: “Horas extras”.
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