Amor Passageiro
1 Único
Notas iniciais
Olhou o relógio mais uma vez. E bufou mais uma vez. Não se passaram nem dez minutos desde a última vez que fitara as horas. Não estava atrasado para nada, estava apenas indo para casa, e era justamente isso o que mais o irritava. Sequer iria se distrair com os amigos, afinal, era quarta-feira ainda. O tempo só podia estar brincando com ele. Os minutos se arrastavam para passar, assim como as horas, os dias... Aquela semana parecia eterna!
Ao menos tinha uma coisa a agradecer naquela bendita quarta-feira: estava sentado. O que era praticamente um milagre, analisando o horário e o nível de lotação do transporte. Sentia os ombros doendo de tanto estresse, e o mau-humor corroendo sua sanidade, portanto mais do que merecia se sentar. E então sua mente logo lhe pregou uma peça, forçando-o a repassar todos os seus passos do dia, e o lembrando de tudo o que teria para fazer no seguinte. Foi quando o viu.
Alto, loiro, bonito e sensual. Estava na plataforma, aguardando pacientemente que as pessoas desembarcassem para então poder adentrar, e é claro que os orbes escuros o seguiram. Ele parou próximo a si, com seus fones de ouvido e um livro na mão, que tão logo conseguiu se posicionar de forma relativamente confortável e segura, começou a ler. Mordia o lábio inferior ocasionalmente enquanto lia as palavras naquelas páginas. A julgar por suas reações, era uma história interessante, portanto, nada mais do que normal, os olhos que antes fitaram o leitor passaram para o livro, buscando ler, ao menos, o título deste. O Pacto, de Joe Hill.
Talvez ele fosse leigo demais, ou talvez não, mas nunca havia ouvido aquele nome antes. Uma pesquisa futura, talvez. Seu interesse pelo livro se extinguiu no momento em que não o reconheceu, então voltou para o leitor.
Os fios loiros caíam desalinhadamente por seu rosto, às vezes o irritando a ponto de ter de afastá-los de qualquer forma. Notou uma leve irritação surgir em seu rosto quando fora empurrado por uma pessoa distraída, mas não foi o bastante para fazê-lo desistir da leitura. E foi isso que o fez se apaixonar por aquele loiro. Lindo, inteligente e persistente. Perfeito. E então acabou.
Calmamente o loiro fechou seu livro e rumou para a porta, descendo na estação seguinte. Um suspiro frustrado escapou dos lábios fartos. Mais um amor da sua vida desaparecia. Mas era sempre assim. Amores, literalmente, passageiros.
Desceu duas estações depois e deu de frente para um anúncio: “Cerca de 3,7 milhões de pessoas são transportadas pelo Metrô”. Não precisou ler o resto da frase para entender que não voltaria a ver seu recente grande amor. Foi para casa já com a lembrança do rosto alvo se extinguindo de sua mente.
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