Amor Paranoico
2 The beginning
Notas iniciais
Sai do carro e vi o prédio pela primeira vez. Ele parecia ter uns vinte andares, pois, era enorme. Meu pai ao lado, sorria fracamente e mesmo com a estrutura à frente, ele não tirava seus olhos de mim.
Eu pensei em ir para casa no primeiro segundo em que pisei no hall de entrada, me trancar em meu quarto e escutar música tranquilamente, mas uma garota em sã consciência não iria sair pelas ruas de São Francisco correndo feito uma louca, até por que minha casa ficava a uma boa distância daqui.
Não sei por que aceitei vir aqui, mas dizer “não” ao meu pai, é a mesma coisa que dizer “claro, por que não?”.
– Não pai, eu não vou. Você não entende que eu não quero ir?! – Eu estava em meu quarto na noite anterior, assistindo a um episódio de “American Horror History” quando o senhor Robert Parker, vulgo meu pai, resolveu entrar e me dar à notícia de que eu iria começar a frequentar uma psicóloga.
– Querida, eu acho que seria ótimo você...
– Por que você acha que seria “ótimo” – fiz sinal de aspas com os dedos – para mim?
– Você anda tão... Diferente. Eu sei que passamos por algumas coisas desagradáveis, mas...
– “Mas” nada pai. Você sabe muito bem pelo que passamos.
– Por isso eu acho que você deveria começar a ter consultas com uma psicóloga. Ela foi uma grande amiga de faculdade minha e acredito que, a mesma, poderá te ajudar em vários aspectos, além de que, ela vai lhe aconselhar a seguir em frente, a levantar a cabeça para os problemas e não apenas tentar esquecê-los como eu fiz.
– Eu só não quero... – Lágrimas instantâneas começaram a surgir. – Não quero esquecer... – Ele sentou comigo e me abraçou fortemente.
– Você vai começar na psicóloga amanhã, assim que eu chegar do trabalho, já que seu carro foi para o conserto.
– Eu não quero ir...
– Mas você vai. – Seu beijo no topo de minha cabeça era comum e eu já o esperava, assim que acabássemos nossa conversa. – Agora descanse.
Ele fechou a porta de meu quarto e eu abaixei a tela de meu notebook, o colocando em cima da escrivaninha. Agarrei meu urso de pelúcia – ou Gatão como eu apelidei, apenas por pura ironia – e fui para canto de meu quarto, onde apoiei as costas na parede e fui deslizando devagar até o chão, onde fiquei pelas próximas cinco horas.
– Olá, o que posso fazer por vocês? – Sai de meu mero flashback e voltei minha atenção para o presente momento. Uma atendente, de seus possíveis 40 anos, que usava uma roupa branca e um rapo de cavalo muito apertado escondendo seus cabelos já grisalhos, estava com um enorme sorriso no rosto quando me viu. Não sei o porquê dos sorrisos destes atendentes, mas para mim, ele não me ajudou em nada.
– Estamos aqui para ter uma consulta com a Doutora Hill.
– Ah sim. – Ela desviou sua atenção rapidamente de nós para a tela de seu computador, e depois assentiu. – A consulta é com a senhorita Parker às sete horas, certo?
– Sim.
– Décimo sexto andar, sala 47. – Ela sorriu e nós agradecemos, nos encaminhando ao elevador. Entramos e meu pai digitou o botão com o número do andar.
– Querida, eu vou ficar na sala de espera e você entra sozinha, mas se quiser...
– Eu posso falar com ela tranquilamente pai, e pode ter certeza que em nenhum momento eu vou precisar chamá-lo. – Ele assentiu e ajeitou seus óculos em seu rosto.
– Tudo bem. – Ele manteve sua postura ereta, mas, percebi que ele estava cansado. Eu meio que o entendo, já que o mesmo tem que cuidar de uma filha adolescente de dezessete anos sozinho, mas queria fazer algo para lhe ajudar. Seus cabelos estavam ficando brancos, e sua gravata estava um pouco desarrumada, possivelmente do dia cansativo de trabalho. Não sei se foi pela consciência pesada de eu estar tão mal humorada hoje, ou pelo fato de eu estar tão carente, mas eu o abracei de lado, sentindo seus braços em minhas costas em seguida.
– Desculpe pai.
– Não tem problema querida, só quero que saiba que eu te amo e quero o seu bem. – Assenti e em seguida o elevador se abriu, sinalizando nossa chegada.
Outra atendente estava ali no balcão e meu pai foi até ela. A secretária disse que a doutora Hill já estava na sala, só estava arrumando algumas coisas, mas se eu quisesse, ela já poderia me receber.
Meu pai ficou sentando nas cadeiras de espera e assentiu quando eu o olhei, me encorajando a ir até a sala. A senhora bateu na porta e falou rapidamente com a médica, que permitiu minha entrada. Abri a porta devagar e uma linda mulher loira com olhos azuis brilhantes, e, um sorriso aconchegante me recebeu.
– Você deve ser a Ariela... Ariela Parker.
– Sim.
– Sente-se querida. – Não sei se foi a poltrona de couro macia em que sentei, ou a simplicidade da sala, mas tudo ali parecia tão tranquilo que eu me senti em casa. Sua estante era cheia de livros e sua mesa estava organizadamente ordenada e com alguns papéis. Ela pegou algumas folhas que eu percebi que possuíam meu nome em cima, e uma caneta, voltando sua atenção para mim. – Quantos anos você tem?
– Dezessete. – Ela assentiu e começou a escrever.
– Vive com quem?
– Meu pai, mas minha tia Lilyan, passa o dia comigo para eu não ficar sozinha, então, é como se eu morasse com ela e meu tio Ronald também.
– Eles não moram na mesma casa que a sua?
– Não. Eles têm um filhinho, mas o mesmo está em um acampamento, então os mesmos estão passando uns dias lá em casa, mas é só até o garotinho voltar.
– Em que escola você estuda?
– Estou de férias. – Ela sorriu, achando graça de minha resposta e prosseguiu.
– Eu sei querida, mas em que escola estudava?
– George Washington High School.
– Vai para o seu último ano?
– Sim.
– Vai continuar lá para completá-lo?
– Não, vou para outra escola. – Respondi.
– Você gostava de lá? – Minha mente sussurrava não...
Daqui a exatos catorze dias, minhas aulas iriam começar. Não sei se eu estava nervosa ou apavorada, já que eu iria iniciar meu último ano em uma escola nova, a famosa Mission High School.
Não queria voltar a me lembrar da antiga escola, e agradeço aos céus por ter um pai tão querido que compreendeu a minha saída de lá. Eu não aguentava mais dois segundos lá dentro, imagina o meu último ano inteirinho?
Tudo bem que, no meu novo colégio ninguém iria me conhecer, mas se eles soubessem que eu estava frequentando uma clínica, certamente seria condenada a passar sozinha meus 180 dias letivos.
As pessoas devem entender uma coisa sobre – todos – os colégios: todos vão te julgar não importa quem você realmente é.
E voltando a antiga escola... Eles me julgavam exatamente por quem eu não era.
– Sim. – A médica franziu o cenho e repetiu a pergunta.
– Gostava mesmo de lá? – Eu queria mudar de assunto rapidamente, e perguntei a ela:
– Você é casada?
– Sou. – Ela sorriu e escreveu algo na folha. – Não precisa mentir para mim querida, não vou contar a ninguém nossa conversa.
Suspirei e comecei a brincar com meus dedos. Não sei se era a sala que estava muito fria por causa do ar condicionado, ou meu vestido – que já estava um tanto velho, mas era frouxo e muito confortável, e eu usava sempre que sabia que iria passar por uma situação desagradável – mas minha pele toda se arrepiou.
– Agora, vou largar a papelada – ela soltou sua caneta e cruzou suas mãos em cima da mesa – e não farei mais nenhuma pergunta a você.
– Ótimo! Então posso ir embora? – Ela estava se divertindo comigo, pois a cada comentário meu, um sorriso enorme aparecia em seu rosto.
– Não, só não vou mais fazer perguntas. – Eu sei que aquilo era mentira, pois meu prontuário estava quase todo em branco. – Mas isso não quer dizer que você não vai ter que me dizer algo sobre você. – Ela piscou para mim. – Seu pai me disse que você anda com um comportamento diferente nessas últimas semanas. Ele me disse também que isso pode ter haver com a morte de sua mãe. – Assenti a ela tentando segurar minhas lágrimas. Não foi só pela morte da minha mãe, mas existem coisas que contar aos pais não é legal...
– Talvez.
– Você passou as férias aonde?
– Em Nova Orleans, com meus avós maternos e meu pai. Mas antes, passamos uma semana em Miami com minha vó paterna para receber seu apoio e carinho, já que meu avô por parte de pai morreu faz uns dois anos.
– Você foi a algum psicólogo naquele período em que esteve lá em Nova Orleans?
– Sim... – Minha voz já estava um tanto embargada. – Eu tinha um dinheiro guardado e não contei ao meu pai por que eu não queria que ele soubesse o que fiz, e procurei ajuda.
– O que você fez?
– Eu... – Lágrimas já rolavam livremente pelos meus olhos. – Tentei me matar algumas vezes.
– Quantas vezes?
– Várias.
– De que forma?
– Desde automutilação, até a ponte em que um dia quase me joguei.
– O que seu psicólogo lhe falou?
– Ele informou que eu tinha tendências suicidas, mas disse que possivelmente era por causa da morte de minha mãe.
– Ele lhe passou algum medicamento?
– Alguns remédios para eu dormir, já que a insônia naquela época estava mais forte, outros antidepressivos e alguns com complexo alimentício.
– Você ainda os toma?
– Só os para dormir, os outros eu parei.
– Por quê?
– Não sei... Acho que não preciso mais deles.
– Você se considera uma pessoa mais forte hoje em dia? – Novamente meu subconsciente estava sussurrando não, mas eu não queria o escutar.
– Sim. – Ela assentiu e pegou sua ficha novamente, voltando com as perguntas:
– Você sente vontade de comer?
– Não muita, mas mesmo assim me alimento, mesmo tendo um estômago meio fraco.
– Vontade de dormir?
– Eu até tenho, mas a maioria do meu sono é com ajuda dos remédios.
– Você já falou isso para alguma amiga sua? – Amiga... Como se eu tivesse uma...
– Não.
– Você tem alguma amiga que possa confiar a ponto de contar essas coisas?
– Não. – Respondi sinceramente a ela, mas o fato de eu não ter nenhuma, não seria comentado.
– Você voltou quando de suas férias?
– Faz umas três semanas, eu acho.
– Você gosta de ler?
– Bastante.
– Como são suas notas escolares?
– Acho que são boas. A maioria é B, mas tenho alguns A’s também.
– Pretende fazer faculdade de quê?
– Não sei ao certo... – Na verdade eu já tinha uma base do que queria, mas meus sonhos eu ainda não queria compartilhar com a Doutora Hill.
– Por fim, como você se descreveria, além de uma garota linda com olhos castanhos quase negros, e um cabelo comprido da mesma cor? – Ela sorriu para mim e eu tentei sorrir de volta – não de forma igual, já que seu sorriso era radiante, e o meu é um tanto estranho, já que eu não sorria verdadeiramente ou com vontade a um bom tempo – para sua descrição, mas eu não sabia como lhe responder.
– Particularmente, não sei ao certo.
– Quando você se vê no espelho, o que você realmente vê? – Uma garota egoísta, que não pensou no pai quando tentou se matar aquelas vezes e uma garota fria, sem alma, que esconde seu antigo eu de seu pai para ele não descobrir o que ela fez ou o que sofreu...
– Só eu. Acho que uma garota esperta e que gosta de ler. – Ela sorriu e assentiu.
– Querida, eu preciso falar com seu pai agora se não se importa. – Eu assenti e levantei-me, mas antes de sair da sala, lhe perguntei:
– Eu vou vir aqui mais vezes? – Ela assentiu e sorriu desta vez fracamente.
– Creio que sim.
– Mas eu não preciso de ajuda!
– Entretanto, eu quero ter certeza de que você continuará bem. E quando você me disse que continuava forte, não acreditei em sua mentira. – Abri a boca para responder, mas a fechei rapidamente, depois procurei meu pai com o olhar, que já estava na minha frente com olhares esperançosos. Eu apenas fiz sinal de que a médica queria falar com ele, e depois me sentei o esperando.
Será que eu sou tão transparente assim? Eu não posso ser... Eu estou forte, não preciso de uma psicóloga. Não preciso!
Pedi um copo com água para a atendente e ela alcançou-me rapidamente. O tomei devagar esperando meu pai.
Quando vi a porta ser aberta, levantei-me e fui para perto dele.
– Obrigada doutora.
– De nada Senhor Parker. – Os dois se cumprimentaram e ela voltou sua atenção a mim. – Tchau Ariela. Gostei de falar com você. – Dei um tchau simples, e segui meu pai para o elevador.
Quando entramos, não segurei mais minha curiosidade, e perguntei:
– E ai, o que a médica lhe falou?
– Disse que você estava bem e era uma ótima garota, mas que seria importante continuar tendo as consultas com ela pelo que você passou recentemente.
– E quando irei começar a ter as consultas?
– Segunda feira que vem às quatro da tarde.
– Mas você trabalha.
– Até lá seu carro já estará pronto e você poderá vir sozinha. – Concordei com ele, já pensando em minhas fugas da consulta. – E eu irei ligar para a assistente dela para confirmar que você estará no consultório. – Bufei, descartando todas as minhas ideias.
– Será aqui mesmo?
– Ela disse que possivelmente sim, mas em outro andar. Não sei ao certo como funcionará, mas ela irá lhe informar tudo e depois passará para mim. – Eu estava meio indignada por não poder optar, mas assenti a ele.
A porta do elevador se abriu e nós fomos para o carro, seguindo a caminho de casa. Não sei se aquilo seria bom para mim, mas eu literalmente não queria passar por aquilo!
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