Amor Insano
1 Capítulo único
Notas iniciais
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Completava dois anos desde o assalto à Casa da Moeda da Espanha. Mônica Gaztambide foi a primeira a acordar naquela manhã quente e radiante, com o canto dos pássaros ao longe ressoando sutilmente em seus ouvidos. Ela acariciava delicadamente o rosto do seu marido, dormindo um sono profundo ao seu lado. A mulher sorria, realizada.
— Bom dia, Daniel – ela sussurrou no ouvido do marido, beijando de leve seus lábios.
Daniel Ramos. Aquele que havia sido conhecido como Denver. O nome da capital do Colorado... Daniel Ramos. Aquele que agora era seu marido. A mulher sorriu novamente. Mônica algumas vezes ainda se sentia pega desprevenida, tão acostumada outrora a chamar aquele homem por um outro nome, um nome de mentira, um nome de país. Inundou a boca com aquela sensação, e estudou pronunciar novamente aquele nome:
— Daniel. Vamos nadar – levemente, ele começava a abrir os olhos. – Está um dia maravilhoso.
— Todos os dias são maravilhosos – Daniel disse de repente, abrindo aquele sorriso travesso dele. – Porque tenho você aqui comigo, neste paraíso.
Levantou-se da cama e beijou Mônica com vontade. Os dois riram e trocaram carinhos afetuosos. Um instante depois, a porta se abre e quem entra ali é o atrevido filho do casal.
A criança que ainda não havia sequer completado dois anos de idade tinha pelo visto fugido da babá e agora corria cambaleante e feliz da vida na direção dos pais.
— Augustín! – Daniel diz, levantando o menino sapeca do chão e trazendo-o até a cama.
Mônica faz cócegas no filho e sorri para Daniel.
Naquele momento, vendo o amor que transcorria em cada gesto do marido, a mulher pensou o quanto tinha sorte. Sim, Augustín não era filho legítimo de Daniel, mas sim do diretor da casa da moeda, o terrível Arturo. Quando Mônica parava para pensar atualmente, ela não sabia o que tinha visto naquele homem teimoso e inoportuno que era Arturo. Talvez tivesse sido a solidão, anos sem encontrar um amor verdadeiro, e então, quando esse homem mostrou um mínimo de interesse por ela, Mônica decidiu tentar arriscar, já que – talvez— aquele pudesse ser o amor de sua vida. A mulher, no entanto, nunca tinha sido tão enganada na vida. Felizmente, agora ela havia encontrado o verdadeiro amor de sua vida, da forma mais insana que se podia imaginar... No maior assalto à Casa da Moeda registrado do mundo, Mônica encontrou o amor.
— Meu pai teria ficado muito feliz de conhecer o neto... – Dani diz subitamente, olhando num misto de tristeza e saudade para a esposa.
Mônica o abraçou.
— Sim, tenho certeza que teria adorado.
Augustín era o nome verdadeiro do pai de Daniel, aquele que outrora fora conhecido como Moscou. Tão carinhoso e preocupado com o filho, esperava que o jovem tivesse um futuro melhor que aquele que ele próprio teve – embora não tivesse sobrevivido para fazer parte daquilo, seu desejo, pelo menos, havia se concretizado.
Após receber de Sergio Marquina, El Professor, a sua parte do montante pelo roubo bem sucedido na Espanha, Daniel Ramos juntamente com Mônica Gaztambide decidiram se esconder num país quente, numa ilha num país tropical que ninguém pudesse os encontrar facilmente. Compraram, então, a Ilha Praia do Algodão, localizada na Angra dos Reis, Rio de Janeiro, Brasil.
Ficaram maravilhados com esse lugar paradisíaco de cair o queixo. Com três bangalôs e uma suíte máster, uma suíte enorme num total de 600 m², o lugar conquistou de cara o coração do casal apaixonado. Foi fácil se adaptar e, claro, se apaixonar por aquele clima quente do tão caloroso país chamado Brasil, numa ilha com um mar exuberante e paisagens ao redor de cores vivas e majestosas, dignas de um paraíso, afinal.
Estavam há quase dois anos ali e nem por um segundo sequer haviam se decepcionado com o lugar. Muito pelo contrário, a cada dia que se passava, mais encantados ficavam com aquele esplêndido lugar.
Tomaram café da manhã na enorme mesa da sala principal, repleta de pães e geleias caseiras feitas havia poucas horas por um pequeno agricultor e sua família que moravam próximos ali da ilha. Os sucos naturais eram de frutas ali da região, de sabores únicos, sabores que aquele casal espanhol jamais imaginou que um dia sequer teria a chance de conhecer na vida.
Depois de terminarem de comer, seguiram para a praia e ficaram ali, se bronzeando e nadando mais um pouco naquele pedaço de mar que era só deles.
Da areia, Mônica via seus dois homens brincando juntos na água quando sentiu novamente aquela mesma pontada na barriga. Ela respirou fundo. Sabia que não podia esperar mais. Havia, sim, chegado a hora.
Reunindo suas forças, caminhou na direção do mar e juntou-se à brincadeira de Dani e Augustín. Ficaram ali até cansarem, até esgotarem suas forças e a fome vir outra vez.
Sentados na areia, Augustín tinha um boné na cabeça e dormia um sono gostoso no colo quente do pai. Mônica olhou dentro dos olhos escuros de Daniel.
— Tenho uma coisa para te contar – ela começou.
O marido a encarou levemente preocupado e curioso.
— O que houve?
Mônica desviou os olhos e encarou o bonito e claro mar que beijava seus pés, em seguida voltou a fitar Daniel outra vez.
— Eu estou grávida – Mônica colocou a mão na barriga, como se não acreditasse naquilo até agora. – Vamos ter outro bebê.
Daniel piscou, e piscou de novo. Um segundo depois, abriu um sorriso enorme e abraçou Mônica, exasperado.
— Que maravilha!!!! – ele disse, mal se contendo tamanho era a sua alegria.
— Acho que vai ser uma menina – Mônica disse envergonhada e surpreendentemente tímida. – Eu sempre quis ter uma filha.
— Para mim não importa – Daniel murmurou, agora de pé e dançando com o filho que acordara de olhos arregalados e confusos nos braços, ao mesmo tempo em que ajudava Mônica a se levantar e dançava com ela também. – Nascendo bem é o que me deixa feliz.
Ainda dançando, beijou Mônica na boca e colocou a mão livre na barriga ainda lisa dela.
— Vamos fazer nossa família feliz crescer – ele murmurou contente. Depois, acrescenta: – Que nome você quer para o bebê?
Mônica olha para Daniel e fica pensativa por uns minutos.
— Já sei – ela diz subitamente, com os olhos brilhantes.
Aproxima-se do marido e sussurra baixinho algo em seu ouvido.
— O que acha desse nome? – ela questiona.
Daniel olha para ela, com os olhos maravilhados e cheios de amor.
— Perfeito – responde simplesmente.
Mônica abre um sorriso cálido e abraça o marido, beijando de leve os seus lábios.
— Então, assim vai ser – ela diz. Por fim, repete as mesmas palavras do marido, com os olhos transbordando ternura, alegria e amor: – Sim, vamos fazer nossa família feliz crescer! Muito e muito mais.
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