Amor Frágil

1 Capítulo Único


Notas iniciais
Mais uma one para vocês! Minha primeira fic original, diga-se de passagem. Espero que gostem :D

Boa Leitura!

Conta-se, que há muito tempo atrás existiu Narciso, filho do deus-rio Cephisus e da ninfa Liriope.

Narciso possuía uma beleza avassaladora, porém, mesmo com todas as jovens aos seus pés, concedia a elas apenas o seu mais doloroso desprezo, pois não as julgava merecedoras de seu amor e duvidava encontrar alguém que estivesse em seus padrões.

Todos conhecem sua triste história, a qual é protagonizada também pela inocente ninfa amaldiçoada, Eco. No entanto, poucos tem conhecimento do que se passou antes deste encontro, e da maldição lançada pela deusa da vingança ao vaidoso jovem.

Era uma manhã quente de primavera, e os bosques da região se encontravam tão verdejantes, que tornavam memorável a (complicada) história de Hades, Perséfone e Deméter.

Narciso escapava de algumas ninjas que insistiam em lhe fazer as mais doces — e melosas — juras de amor. Exausto, chegava a se questionar se sua beleza era algo que viera bem a calhar, ou se fora um castigo da forma mais irônica.

Apólo fazia um bom serviço naquele dia. O Sol mantinha-se quente, sem nenhuma nuvem que estragasse a beleza daquele céu anil.

Atravessando uma trilha rochosa, Narciso não demorou a encontrar a cachoeira que se localizava em uma área pouco acessível daquela floresta.

O som das águas batendo contra as pedras limosas manteve o belo rapaz perdido em pensamentos. Admirava incansavelmente as façanhas de Poseidon, o deus dos mares e das águas, que fizera um excelente trabalho para o bem-estar dos humanos.

Narciso pensou estar sozinho, mas enganou-se completamente; em uma das rochas mais altas, uma figura se mantinha de pé, observando as águas abaixo de si de maneira quase desafiadora.

— O que pensas que estás fazendo aí? — Narciso deu um passo à frente, amassando a grama rasteira sob seus pés.

A moça pareceu se assustar. Encarou Narciso, uma admiração inegável surgindo em seu semblante, mas que logo desapareceu.

—Nada que deva lhe interessar! —gritou, mantendo os pulsos firmemente cerrados aos lados de seu corpo. —Saias daqui, e me deixes em paz!

O belo rapaz parecia ter recebido uma bofetada. Nunca ouvira uma garota ser tão fria e rude com ele, até porque as cantadas baratas e os sorrisos gentis vindos das ninfas e outras garotas, tinham tornado-o incapaz de aceitar uma indelicadeza como aquela.

— Sabes com que estás falando? — Narciso inquiriu, não mais disposto a impedir qualquer tragédia que manchasse as águas daquela cachoeira.

A garota manteve os olhos fixos nas pedras abaixo de si. Um passo em falso, e sua ida para o Elísio seria certa. Nem mesmo Hades seria tão impiedoso a ponto de mandá-la para alguma punição, pois aquela linda garota nunca fizera mal algum à qualquer pessoa. Portanto, a morte seria um caminho mais promissor a ter de permanecer no inferno que sua vida se tornara.

—Não estou disposta a descobrir —Ela retrucou, e Narciso semicerrou os olhos em indignação. — Agora será que poderias me deixar em paz?

Ele resmungou algo típico de um garoto mimado emitir. O orgulho falava mais alto do que qualquer outro lado seu, e mesmo que não fosse algo nobre de se fazer, permitiria que aquela garota qualquer fizesse o que bem entendesse.

—Faças o que bem entender —Narciso deu as costas para a bela moça, exalando arrogância. —E espero não lhe ver amanhã, e nunca mais.

Retornou pelo caminho que fizera, pisando duro. Ignorou completamente as ninfas que praticamente se lançaram sobre ele, e com destreza desviou de cada uma de suas “fãs” até alcançar seu lar.

Sem cerimônias, adentrou o local, trancando-se em seu quarto e escapando das vistas de todos.

Na manhã do dia seguinte, Narciso pouco se recordava da garota que encontrara na cachoeira, e acreditava que seu esconderijo estivesse impecavelmente deserto.

Assim sendo, saiu de casa disposto a driblar as ninfas mais uma vez, e sem demora alcançou a cachoeira.

Porém, lá estava ela, trajando vestes gregas diferentes das do dia anterior, mas permanecendo no mesmo lugar arriscado de antes.

— O que faz aqui de novo? — Narciso não conteve sua raiva. Em sua cabeça, se aquela garota hostil pretendia se lançar contra as pedras, que o fizesse sem delongas. Pela sua rudez de outrora, ela não merecia ajuda ou sequer compaixão.

A garota voltou seus olhos para ele.

— O mesmo que você, suponho. —seu tom melancólico não passou despercebido, mas Narciso não se abalou.

—Não pretendias tirardes a própria vida? —Ele foi irônico.

Ela sentou-se na beirada da rocha.

—Não mais.

O orgulho e a rudez do rapaz foram esmoecendo aos poucos. Não deveria ser tão arisco, contando que era herdeiro de uma inegável beleza. Não tinha motivos para ser tão grosseiro com aquela pobre (e desgraçada) garota, que apenas queria se lançar contra as águas por algum motivo próprio.

Por que não ser um pouco mais gentil?

E de tais gentilezas, Narciso percebeu quão injusto estava sendo. Conseguiu suportar o orgulho e as ironias da jovem, que acabavam saindo com o mesmo tom melancólico de antes, até que aos poucos, o belo rapaz descobriu que aquela ao seu lado não merecia morrer.

Seu nome era Rosalie, e sua beleza era tão estonteante quanto a dele própria. Com cabelos ruivos como as chamas em brasa, olhos acinzentados como as nuvens mais pesadas, e lábios tão vermelhos quanto o sangue, a garota certamente atraía tantas atenções quanto Narciso com as ninfas.

E assim como ele, ela escapava das consequências de ser tão bela. Muitos homens morriam pela garota, ou lutavam entre si por seu amor.

Completamente solitária, Rosalie não tinha mais motivos para ficar entre aqueles homens que se matavam aos montes graças aos esforços de Ares em manter atritos pelo mundo.

—Você não precisa se matar para que os outros fiquem em paz —Narciso disse, observando as águas que continuavam a mover-se em único fluxo contínuo, descendo e seguindo pelo caminho que lhe fora desenhado.

Rosalie o encarou, seu semblante menos carregado do que antes.

—Não. —Ela concordou, seguindo o olhar do rapaz.

Ambos ficaram em silêncio, e por fim concordaram silenciosamente de que a morte nem sempre era o caminho mais correto a ser seguido.

As escondidas, dia após dia, Narciso e Rosalie continuaram a se encontrar. No começo, era apenas uma sutil amizade, no entanto, com o passar do tempo as ironias já não significavam asco, e as risadas eram mais frequentes.

Narciso poderia ser mais do que um mero rapaz bonito, e Rosalie poderia ser mais do que uma garota que atraía guerras.

Mas o amor é um mero fogo que arde sem se ver, e por tal motivo Narciso se sentia preso, e temia as incertezas do “depois”. Algo lhe dizia que Rosalie não era a pessoa que merecia seu coração, que merecia possuí-lo tão vivamente. Outra parte, no entanto, dizia que ela era a pessoa que ele sempre buscara em cada rosto e em cada jovem.

Em uma noite qualquer, Narciso começou a repensar em seus conceitos, e repentinamente soube o que deveria fazer; ele amava Rosalie, disso tinha certeza.

—Você veio —O sorriso na faceta da ruiva fora uma saudação para ele.

Aquele dia anunciava que uma tempestade se aproximava. Narciso devolvou o sorriso para a garota, que parecia mais iluminada naquela manhã.

—Eu sempre virei —Selou seus lábios aos dela em um beijo terno.

Rosalie voltou sua atenção para as águas da cachoeira. Narciso seguiu seu olhar.

—Venha —Ele se levantou, e estendeu a mão para ela.

Sem hesitar, confiante do que sentia, a jovem aceitou a mão do moreno.

Ambos adentraram as águas do riacho, formado pela cachoeira que continuava a jorrar continuamente.

O céu não estava azul, indicando quão irritadiço ou frustrado Zeus estaria com seus problemas.

— Quero conhecer teus pais. Quero fazer parte da tua vida —Rosalie disse, batendo as mãos na água, o sorriso ainda radiante em seus lábios. Narciso sorriu para ela. —Estás duvidando?

Ele negou com um menear de cabeça.

—Não duvido do teu amor.

Rosalie avançou para o jovem, e o beijou novamente. O amor de ambos era palpável, com a provável alegria de Afrodite por mais um casal estar se unindo graças aos seus esforços.

No entanto, aquele não era um amor comum.

Entre as águas, em meio a paixão, Rosalie não percebeu o que Narciso fazia. Separou-se dele por um instante, aquele sorriso em seus lábios, e foi tempo suficiente para o momento estilhaçar.

De alegria, a expressão da jovem foi para o horror, seguido pela dor. Narciso olhou para as águas, que se tornavam tingidas de vermelho pelo sangue que escorria do peito da garota.

Ele perfurara um de seus pulmões com a adaga envenenada, e os lábios de Rosalie foram tornando-se mais vermelhos a medida que o líquido espesso os tingia, descendo por seu queixo.

Ela caiu para frente, e o moreno a amparou. Pegou-a no colo, tirando-a da água, e caminhando em direção a margem.

Depositou a jovem dotada de uma beleza estonteante sobre a grama rala, e se ajoelhou ao lado dela.

— Por quê? —Rosalie ofegou, a voz tão fraca que era quase inaudível.

As lágrimas molharam o rosto de Narciso, mas nem mesmo a tristeza conseguia deixá-lo menos bonito.

— Porque eu te amo — Ele sussurrou, fechando os olhos, e baixando a cabeça sobre o peito da ruiva. —Mas não queria que você me prendesse.

Ele tirou a adaga do peito da garota, e Rosalie se retraiu em dor. Ela virou a cabeça para encará-lo.

—Eu... —Ergueu a mão para tocar a face dele. Narciso a segurou.

Ela engoliu em seco, a dificuldade aparente, sua vida se esvaindo conforme os segundos se arrastavam.

—Te amo —Sussurrou uma última vez.

Narciso assentiu, secando o rosto com a mão dela, e beijando sua palma com carinho. Os dedos dela amoleceram, e ele voltou seus olhos para o corpo que jazia ao seu lado

Rosalie focava o céu, as pupilas congeladas, o rosto ainda belo mesmo depois da morte.

Narciso enterrou sua amada no terreno da cachoeira, e jurou amá-la para toda a eternidade, e dedicar seu amor somente à doce e gentil Rosalie.

Para cumprir sua promessa, Narciso voltou a sua arrogância para com as ninfas, e orgulho para sua beleza.

Todos os dias no período da manhã, o belo rapaz retornava àquele lugar, e jurava seu amor à Rosalie. Em uma dessas vezes, ele se encontrou com Eco, e o resto é fácil desvendarmos.

Por um péssimo acaso do destino, Narciso fora amaldiçoado, e passou a amar a si mesmo, até definhar diante das águas daquela cachoeira. Como ninguém sabia de seu romance — a não ser Afrodite —, Rosalie se tornou uma mera lembrança que existiu apenas para o pobre Narciso.

Más línguas — vindas do Mundo Inferior —dizem, que ao atravessar o Rio Estige, Narciso permaneceu alienado à própria imagem, apaixonado demais por si mesmo para sequer notar Rosalie, que tentava de todas as formas chamar sua atenção.

O amor frágil de Narciso e Rosalie tornou-se apenas uma história, um trágico e triste conto. No lugar onde ambos morreram, nasceu uma flor roxa — denominada Narciso —, e uma flor vermelha — marca do sangue derramado na relva —, os únicos símbolos que provam a existência de um belo conto de amor.

Notas finais
Agradeço desde já a quem ler ou mandar um review. Até a próxima!

Beijokas *-*
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!