Amor Fati

3 Ligações Covalentes


Notas iniciais
Oi gente! Poxa, a original está crescendo mais rápido do que eu imaginava! =D Quem diria, tantas leitoras em dois capítulos publicados! Espero que venham muitas mais, comentando e recomendando, heeheheh! Dedico este capítulo às leitoras Gigi V, Arrriba, LaurenPS, The Maiden, Lune Noire e Peregrina Flor que comentaram no capítulo passado! Espero que esse continue agradando a todas! Sei que é um capítulo extenso, mas é fundamental para a inserção na realidade dos personagens. Eu deveria desistir de ser sucinta, não é algo para o qual eu realmente tenha talento ahahahahaha! Beijos a todas e boa leitura!

— Namorado da minha mãe? — perguntei, enquanto encarava a tela da enorme televisão da sala de estar.

Pisquei algumas vezes, sentindo uma onda inegável de ansiedade percorrer meu corpo. Os pelos do meu braço se eriçaram, e reparei que meu batimento cardíaco aumentou consideravelmente. Estava começando a respirar rápido, meus olhos fixos nos jogadores do Corinthians dando as entrevistas de final de jogo para os repórteres de canais esportivos. Mas não reparava em nada daquilo.

Minha mente se focava em outro assunto, muito mais relevante e perturbador.

Levantei-me do sofá de qualquer jeito, me desequilibrando um pouco pelo movimento brusco. Ignorei a televisão ligada e segui meu tio, passando pelo amplo corredor até onde eu imaginava que ele estaria.

Abri a porta de seu escritório, a qual ele já havia fechado, e o encontrei sentado defronte à escrivaninha caríssima que ele encomendara, ligando seu computador de último tipo para, provavelmente, continuar a trabalhar. Seus olhos já estavam atentos na tela, e ele me ignorou, até que insisti na pergunta.

— Namorado da minha mãe?! — repeti, dessa vez falando com um tom de voz mais esganiçado.

Tio Fred respirou fundo, e passou novamente as mãos em seu rosto cansado. Aquele assunto parecia realmente incomodá-lo.

Provavelmente, não mais do que já me perturbava.

— É, namorado dela — Frederico respondeu, irritado, enquanto abanava o ar com a mão esquerda, como se não quisesse falar daquilo. — Quando sua mãe estava doente, já viúva, ele deu muito suporte para ela — meu tio respondeu, tentando mostrar que o assunto já não mais o abalava, sem me encarar nos olhos. Por se esforçar tanto para não demonstrar, era evidente que a morte de minha mãe seria algo que ele talvez jamais superasse.

— Muito suporte? — eu perguntei, debochando. Mas não via graça nenhuma naquilo.

Fred ignorou meu tom petulante, e digitou a senha no teclado, seus olhos presos na tela como se o plano de fundo do computador o hipnotizasse.

— Sim. Ele e sua mãe eram muito amigos. Durante a adolescência, viviam grudados. Feito você e aquele moleque metido a jogador de futebol. Aquele que é branquinho, mas tem cabelo de preto — meu tio falou o comentário racista descaradamente, obviamente em uma demonstração de menosprezo.

— Daniel — respondi, irritando-me com mais uma demonstração de preconceito de meu tio. — E ele já foi do time Sub-15 do Vasco, joga bem de verdade — defendi meu melhor amigo, ofendida.

— Foda-se, estou cagando pra ele — meu tio comentou, franzindo as sobrancelhas. — Chispa daqui, me deixe trabalhar! — falou grosseiramente, me despachando de seu escritório.

— Você ainda não explicou — insisti, entrando e fechando a porta atrás de mim, em um gesto que comprovava que não desistiria tão rápido. Agora que começávamos a falar no assunto, não abandonaria o tópico até que minha curiosidade estivesse sanada. Porém, eu sabia que meu nervosismo apenas aumentaria ao descobrir mais a respeito.

— Caralho, o que você quer saber? — Meu tio, que usava de um vocabulário refinado parecido com o meu, retrucou. Logo depois, mais contido, vi-o respirar devagar, ao digitar mais algumas palavras no teclado.

— Foi na época em que ela adoeceu. — Seu tom de voz abrandou quase imperceptivelmente.

— Quando sua mãe finalmente se recuperou da depressão, descobrimos que ela havia desenvolvido um câncer, como você sabe... Ela estava muito mal. Muito mal mesmo. E Bento, que trabalhava no escritório na época, se afastou do trabalho para ajudar a cuidar dela — meu tio falou a frase com a voz quase afável, dentro de sua amargura inerente. Percebi o quanto ele era grato a meu professor particular.

— Ele a acompanhava nas sessões de quimioterapia, a levava para o hospital quando tinha problemas por conta da merda da doença, enfim, foi um bom companheiro para ela. Não sei quando começaram, mas depois de algum tempo desde que os médicos nos contaram os diagnósticos, percebi que estavam juntos, e eu fiquei aliviado. Sua mãe precisava de pessoas que amasse ao lado dela, em um momento tão... Difícil — meu tio disse, e, por alguns segundos, apenas ouvi o clique do mouse ressoando agudo pelo aposento.

Tio Fred gostava de bancar o durão, mas fora um covarde durante a doença de minha mãe.

Eu era muito nova para perceber isso, mas minha irmã Flavia, três anos mais velha do que eu, tinha certa amargura de nosso tio por sua falta de coragem. Tenho poucas lembranças de minha mãe, e a maioria delas envolvia visitas em hospitais, nas quais nossa babá Marieta nos levava. Flavia me contou que perguntava pelo meu tio, buscando seu apoio para lidar com a fragilidade de mamãe, mas ele sempre estava muito ocupado no escritório de advocacia, trabalhando.

No dia de sua morte, ele foi embora antes que fechassem o caixão, mesmo que Flavia chorasse para que não a deixasse lá sozinha. Outra babá ficou com minha irmã, que exigiu ir ao enterro, e Marieta ficou comigo em casa. Um funeral não era lugar para uma criança de dois anos.

— Ele trabalhava com você... Com meu pai? — Engoli em seco ao perceber esse outro detalhe.

— Seu pai o chamou para trabalhar com ele. — Frederico se levantou e passou a procurar algo em suas gavetas, ainda sem olhar para mim. Revirou algumas pastas e jogou folhas de papel no chão.

— Foram colegas na faculdade de direito, seu pai veterano dele, depois que Bento terminou o curso de matemática. Gustavo conheceu Beatriz um pouco antes de se formar, e, como sabe, os dois inconsequentes engravidaram assim que ele abriu a firma, ao terminar a faculdade, já com a carteira da OAB. Logo se casaram, e Bento entrou no escritório perto de quando você nasceu. Foi assim que ele e a sua mãe retomaram contato. — Tio Fred abria as gavetas com brutalidade, batendo-as de qualquer jeito ao não encontrar o que buscava.

— Ele era amigo do meu pai também? — Comecei a sentir enjôo.

— Era, mas não tão amigo quanto de Bia. Como eu te disse, eles eram grudados quando novos. Eu sempre soube que ele era caidinho por ela, mas até parece que uma mulher que nem a sua mãe iria dar moral para um cara meio esquisito como ele — Fred troçou.

— Ele era o brinquedinho dela, porém depois de saírem da escola, escolheram universidades diferentes, e suas rotinas mudaram bastante. Mas tem pessoas que são aparentemente inseparáveis... — Meu tio tornou a abrir mais gavetas, ainda mais impaciente, fechando-as com cada vez mais vigor.

— Meu pai sabia disso? — perguntei. Tinha desprezo pela imagem que fazia de meu pai, mas era embaraçoso imaginar que ele pudesse ter, sem saber, facilitado que minha mãe se interessasse por outro homem.

— Claro que não! — Frederico respondeu, fazendo um ruído de desdém com a boca. — E eu não seria idiota de contar. Bento trabalhava bem e todo mundo no escritório gostava da competência dele, um sujeito inteligentíssimo e dedicado. É claro que muitos o invejavam, mas ele sabia lidar com isso. — Acreditei nas palavras de meu tio. Ainda que tivesse visto apenas um relance da habilidade de dissimulação de meu professor particular, ser “ensaboado” também no ambiente corporativo parecia algo adequado a sua personalidade acobertada.

— Fora que sua mãe era apaixonadíssima por seu pai. Por isso ter descoberto tudo, logo depois que ele morreu... Bem, a deixou tão abalada — Fred mencionou desagradado os escândalos que mancharam a imagem da nossa família, todos relacionados aos crimes de fraude, estelionato e corrupção cometidos por meu pai. Além de, claro, a revelação de seu vício em cocaína, e das inúmeras amantes e prostitutas que o acompanhavam.

— E quando ela se foi, Bento ficou devastado. Pediu demissão do escritório, e eu não tive notícias dele por longos anos. Voltamos a nos falar, ocasionalmente, depois que ele já havia se formado em sociologia na UNIRIO e dava aulas na própria universidade, e eu já tinha recuperado, junto aos sócios remanescentes, o bom nome da firma — explicou, ao socar uma outra gaveta de volta para o lugar.

— Quer dizer que ele se formou em matemática, direito e sociologia, também? — questionei, levemente surpresa, lembrando-me das provas que o vira corrigir no dia. Diploma em três faculdades diferentes não era algo muito comum.

— Ele é um "nerdzinho" do caralho... Tinha que ter virado professor mesmo. Mas tenho que reconhecer que me ajudou bastante no meu início de carreira... — Meu tio subitamente parou de falar, ao abrir uma gaveta específica.

Meu sangue gelou, no mesmo instante. Esquecera completamente daquilo.

Sua burra. Sua burra, burra, burra. Recriminei-me, preparando-me para a bronca homérica.

— Que porra é essa aqui, Cecília?! — Tio Frederico tirou do móvel o generoso baseado que eu enrolara naquela tarde e não chegara a acender. Abrira justo a gaveta na qual o jogara, de qualquer jeito, quando Bento surgiu no meu hall de entrada.

Mantive-me em silêncio, apenas o encarando nos olhos. Suas íris castanhas se estreitaram em fúria.

— E ainda deixa jogado no meu escritório?! — Meu tio jogou o cigarro de maconha no chão, e o pisoteou. — Você não tem vergonha na cara, pirralha? É nisso que gasta o dinheiro dos seus pais? — Frederico fuzilou-me com um olhar de completo desapontamento.

— O meu dinheiro! — retruquei, impertinente. Aquele comentário hipócrita de um usuário de cocaína como meu tio me irritara. Meus pais morreram há mais de dez anos, o montante que uma vez fora deles era agora de seus herdeiros.

— Cala essa boca, fedelha! — Fred levantou um dedo, apontando-o a centímetros do meu nariz. — Eu não te deixo morar debaixo do meu teto para ficar fumando maconha em casa e reprovando na escola. Cara pra caralho, por sinal! — Senti gotas de cuspe atingindo meu rosto, saídas de seus lábios enquanto ele levantava a voz cada vez mais.

— Se o problema é esse, pode deixar que eu pago as mensalidades — respondi, malcriada.

— CALE A BOCA! Se ouvir mais um comentário insolente seu... — Meu tio me ameaçou, fechando as mãos em punho e rangendo os dentes em seguida.

— Quer dizer que fumar maconha na sua casa não pode, mas cheirar cocaína sim? — Abaixei o tom de voz, mas falei a frase de forma muito clara. Não ia aguentar calada sermão do meu tio, que levava prostitutas para dentro da casa que dividia comigo, com as quais já cheguei a tomar café da manhã. Meu tio que com regularidade aparecia de nariz sangrando.

Frederico não esperou nem um segundo. Puxou-me pelo braço com força, me arrastando pelo chão para fora de seu escritório, me empurrando porta afora. Tive de levantar meus braços para evitar que batesse contra a parede, graças ao seu empurrão. Movi-me para atravessar o corredor e correr para fora de casa, segurando as lágrimas, mas ele foi mais rápido e mais forte.

Sua mão direita se fechou em meu braço esquerdo, e me arrastou pelo corredor até meu quarto. Não era a primeira vez que meu tio me agredia, mas em todas as vezes que aquilo acontecia, eu apenas tinha mais e mais vontade de desafiá-lo, de machuca-lo em resposta.

Ele abriu minha porta, seus dedos ainda apertando a carne do meu braço com força, e mesmo que eu me debatesse e gritasse para que parasse ele mantinha o aperto firme em mim. Começava a doer de verdade.

Tio Fred me jogou para dentro do meu quarto, e eu me lancei em minha cama, fugindo de perto dele. Gritei para que saísse, o xinguei de diversos palavrões, mas ele estava obstinado, uma centelha de loucura brilhando em seus olhos escuros como os que eram de minha mãe.

— Onde está o resto?! É melhor falar por bem — meu tio me ameaçou.

— Não tem resto! Vai se foder, eu te odeio, seu merda, sai daqui! — Arrastei-me para perto da parede, evitando a proximidade dele.

— CADÊ O RESTO, CARALHO? — Frederico gritou tão alto que tremi dos pés à cabeça. Assustada, apenas apontei para baixo do colchão.

Sem esperar que eu me levantasse, meu tio levantou o colchão da cama, e eu caí para fora dela, usando os braços para me proteger de maiores danos em minha queda. Tirou da madeira que sustentava o colchão o pequeno carregamento de maconha hidropônica que eu havia comprado na semana passada, e não me olhou até estar na porta do quarto.

— Se eu ver droga de novo nessa casa, te boto para fora — tio Fred sentenciou, apagando a luz no interruptor e batendo a porta ao sair do quarto com tanta força que a maçaneta tremeu, parecendo se desencaixar, retinindo.

Passei eu mesma a adotar um comportamento irascível.

Peguei porta-retratos, abajures e objetos de decoração e os zuni contra a porta, alguns deles se estilhaçando em vários pedaços enquanto descarregava minha raiva pela humilhação. Quando passei a me sentir ainda mais estúpida do que quando esquecera de esconder a maconha, parei, e procurei meu celular no bolso de meu short. Em seguida, ajeitei o colchão de volta, e me deitei. Estava fatigada, sentia-me como se tivesse realmente levado uma surra.

De certa forma, levara. Alguns empurrões e apertões de meu tio, e uma surra emocional.

Tentei me distrair vendo as novidades nas redes sociais que eu participava, permitindo que as lágrimas de aversão a meu tio descessem pelo meu rosto. Ao menos, servira para descarregar outro sentimento visceral que surgira dentro de mim.

Não era apenas por conta do comportamento agressivo de Frederico que eu me abalara. Era no mínimo perturbador, para não dizer repulsivo, chegar à conclusão de que um homem que poderia ter sido meu padrasto flertara comigo durante a tarde inteira.

O que Bento tentava disfarçar com seu comportamento falso e arredio, era, provavelmente, o incômodo e a nostalgia que devia sentir ao estar em uma casa que provavelmente lhe gritavam memórias de minha mãe.

Ele me cortejara por ser parecida fisicamente com ela, similar a menina que ela deve ter sido em sua adolescência, na época que, segundo meu tio, os dois mais eram próximos um do outro. Minha mãe, mesmo beirando os trinta anos, ainda tinha o mesmo rosto de quando era adolescente. E eu era como ela, a imagem dela, exceto em meus olhos... Os olhos que eram de meu pai.

E que Bento, aparentemente, não temia encarar.

Filho da puta. Filhos da puta. Todos eles. Meu tio, ele, meu pai. Pensei, raivosa. Estava cercada de pessoas controversas, hipócritas, mentirosas.

Mas eu me vingaria. Certamente me vingaria de Bento, e de meu tio. Eu me vingaria de toda e qualquer perversão que estivesse passando na cabeça daquele homem que era agora meu professor particular.

Iria atormentá-lo. E ele se arrependeria de ter brincado de flertar comigo.

Agora que eu já me arrependia de tê-lo correspondido.

Logo, minhas lágrimas iam pouco a pouco diminuindo. Meu celular zumbiu, em sinal de uma nova mensagem. Abri o aplicativo de whatsapp e reparei que era de Daniel.

“Vai dormir, pirralha, tem prova amanhã.”

Meu melhor amigo era apenas um ano mais velho do que eu, mas gostava de agir como se a diferença entre nós fosse muito maior. Divertia-se em debochar de minha idade, além de minha baixa estatura. Na verdade, ele gostava de troçar de mim como um todo. Mas era um péssimo momento para aquilo, especialmente com o uso daquele xingamento em especial.

“VAI TOMAR NO CU”

Respondi, em letras maiúsculas, e desliguei o celular.

*****

Aquela quinta-feira se passou, modorrenta e desanimada como seria esperado. Fui bem na prova de matemática, o que me deixou zangada. Era um sinal de que o velho pervertido realmente havia me dado uma boa aula.

De tarde, depois do horário de almoço, tivemos as aulas extras do terceiro ano, preparatórias para o vestibular. Todos do meu grupinho de amigos — exceto Daniel que foi comer com Sandra -, almoçaram em um restaurante a quilo próximo do colégio, e matamos o tempo entre o fim das aulas da manhã e o início das aulas da tarde na casa de Marcos. Ele morava bem perto do colégio, a três quarteirões de distância, apenas.

Tivemos aulas intensivas de geografia e história, matérias que até me agradavam, mas eu estava muito dispersa, por demais irritadiça para me focar. Tomei alguns sermões de Daniel, sentado ao meu lado, mas apenas o xinguei em resposta.

Ao fim do dia letivo, eu teria minha escolinha de futebol para comparecer, em um pequeno clube de lazer sediado no bairro de Laranjeiras. Daniel, que frequentava a escolinha financiada pelo Fluminense, também nos mesmos dias e horários que eu, me acompanhou de metrô e fomos caminhando juntos pelo bairro.

A sede do Fluminense ficava algumas ruas depois do clube no qual eu jogava, então nos despedimos enquanto meu melhor amigo ainda seguia caminho. Senti-me um pouco culpada por ter sido bastante grossa com ele o dia inteiro, mas ele não parecia incomodado, de modo que não me importei tanto com isso.

Enquanto decorreu o aquecimento e o treino preparatório para um pequeno torneio de escolinhas femininas que começaria no mês seguinte, tentei me esforçar, mas não estava em meus melhores dias. Tomei mais alguns sermões da técnica do time por algumas furadas que dei na bola, bem como ouvi algumas reclamações de colegas da equipe. Minhas orelhas vão cair, nesse ritmo. Pensei, debochando de minha insistente sina em ser repreendida nas últimas vinte e quatro horas.

Durante o jogo do dia, ao menos marquei um par de gols, e assim os protestos enfim pararam. Quando a aula acabou, não me dei ao trabalho de tomar banho no vestiário, uma vez que eu realmente não sentia vontade de ver ninguém. Preferiria ter ficado reclusa, ouvindo música, assistindo canais esportivos, lendo algo, enfim, sozinha com meus pensamentos. Sentia necessidade de remoer dentro de minha mente os últimos acontecimentos. Minha cabeça fervia com as novidades que se inseriram na minha vida, e precisava digeri-las.

Assim, saí pelos portões do clube distraída com minhas reflexões, minha mochila da escola com meus livros, cadernos, roupas e sapatos escolares pesando em meus ombros, e a noite já caía estrelada pelo bairro das Laranjeiras.

Ao atravessar a rua e andar por uma calçada mais mal iluminada, meu coração quase parou.

Congelei, estática, enquanto alguém envolvia meus ombros com os braços e dava um puxão firme em minha mochila, sussurrando em meus ouvidos com uma voz grossa e ameaçadora:

— Larga a mochila patricinha, e sai andando.

Virei-me de imediato, arregalando os olhos, me sentindo ainda mais perseguida do que já estava.

Durante o segundo seguinte, senti um misto de alívio e raiva simultâneos percorrerem meu corpo.

— Daniel, seu doente mental! — Tirei minha mochila e a bati com toda a minha força no ombro de meu amigo, o lugar mais alto de seu corpo que eu conseguia atingir. Ele riu, desviando de meus ataques, que se seguiram a sua barriga e novamente aos seus ombros.

— Tinha que ver sua cara, quase deu pena. Achei que você ia chorar! — meu melhor amigo debochou, rindo. — É por isso que criança não pode andar sozinha na rua — troçou de mim novamente.

— Puta que pariu, não pode vir falar comigo que nem gente normal, ao menos uma vez na vida?! — Quase gritei, já ficando sem forças devido às insistentes “mochiladas” que eu dava nele, agora misturadas a chutes, pontapés e tapas. Meu amigo tentava fugir de meus ataques constantes, seguindo pelas ruas até a entrada do metrô.

— Mereceu. Tu ‘tava chata pra caralho hoje — ele falou, me desarmando em um “mata-leão” delicado, que não me machucava, apenas me impedia de continuar a agredi-lo.

— Tire as suas patas de mim! — Puxei o braço dele para baixo, que envolvia meu pescoço, enquanto descíamos as escadas do metrô. Daniel não era muito discreto, só seu cabelo comprido e cacheado e sua altura já chamavam a atenção, ainda mais levando em conta seu comportamento que, apesar de simpático, costumava ser naturalmente espalhafatoso.

Depois que pareci me acalmar, ele me soltou, e esperamos o trem do metrô chegar com destino a outros bairros da zona sul. Para me provocar ainda mais, ele passou a apoiar parte de seu antebraço e cotovelo em minha cabeça, demonstrando fisicamente nossa diferença de altura e tentando me irritar. Olhei para ele, movendo a cabeça que já pesava por conta de seu apoio, e ele apenas sorria para a mim, suas feições angelicais em uma expressão sonsa que era impossível não rir.

— Para, garoto, vê se cresce! — Fingi irritação, mas na verdade ele acabava me divertindo. A intimidade que nós tínhamos era algo muito genuíno, e se teria alguém que eu poderia realmente desejar a companhia naquele dia, certamente seria ele.

— Olha quem fala. É uma meia porção de gente e quer botar banca pra cima de mim? — ele falou levantando os braços como se me desafiasse, me empurrando com os ombros para o lado, e eu não pude não rir.

— Cala a boca, idiota — respondi rindo, entrando no vagão que já parara na nossa frente.

— Respeite os mais velhos, sua malcriada — ele retrucou, sentando-se do meu lado em um banco comprido. — Que bicho te mordeu hoje? Tá de tpm? — Daniel perguntou.

— Briguei com o babaca do meu tio ontem — respondi, sentindo pontadas de irritação.

— Eita — ele falou, já compreendendo meu comportamento durante o dia. Ao longo desses onze anos de amizade, meu melhor amigo já até me testemunhara bater boca com meu tio. Ele sabia que brigar com ele significava ‘barraco’.

— Então vai lá em casa. Minha mãe vai fazer aquela macarronada que você gosta, e eu sei que você é interesseira mesmo. Dessa vez eu deixo você filar comida — Daniel falou, fingindo seriedade.

— ‘Putz’, assim é covardia. Desse jeito, até sua companhia fica suportável — respondi, no mesmo tom debochado.

— Foi bem na prova hoje? — ele perguntou, mudando de assunto. — ‘Cê bem tá precisando de nota... — Daniel comentou, num tom de antecipado sermão.

— Fui — respondi. Tirei meus olhos do rosto dele, e passei a olhar os outros passageiros do metrô. Tinha me esquecido dos eventos de ontem, relativos à minha aula particular, por alguns minutos. Lembrá-los depois de terem saído de minha mente, após um dia no qual obsessivamente os repisara, me fez sentir-me levemente nauseada.

— Sério? — Daniel mal acreditou. — Porra, Ciça, que ótimo! — Ele me deu tapinhas de incentivo no ombro. — É bom te ver fazer algo certo uma vez na vida — meu melhor amigo troçou.

— Vai se foder, não sou burra — retruquei, o empurrando para o lado com uma das mãos.

— Burra não é, mas é preguiçosa. Preguiçosa que adora fazer uma burrada — debochou, não resistindo.

Passamos o resto da viagem de metrô e a curta caminhada até sua casa falando bobagens um para o outro e comentando sobre os jogos de futebol do dia anterior. Daniel morava em uma vila no bairro de Botafogo, e saudamos alguns de seus vizinhos enquanto seguíamos caminho até a bonita casa amarela na qual ele morava. Era modesta, não muito grande, mas sempre me senti muito à vontade lá.

Meu amigo perguntou a uma vizinha como estava o filho dela, que aparentemente adoecera, e a outro elogiara o desempenho do Fluminense, no jogo da noite anterior. A simpatia dele realmente não tinha limites, conquistava a todos.

Ao chegarmos em sua casa, ouvi latidos animados e logo vi o pastor branco que era o cachorro da família, chamado Garrincha, em homenagem ao grande artilheiro do Botafogo, time para o qual meu amigo torcia. O cão de porte grande veio correndo na direção dele, fazendo festa em seu dono, e, enquanto vinha me farejar, vi a silhueta de sua irmã mais nova, Luíza, aparecer na sala.

— Oi Ciça! Oi Dani! — A garota veio andando ligeira em nossa direção, dando um tchauzinho. — A mamãe avisou que o jantar vai demorar, é melhor você tomar banho logo — Luíza sentenciou. Gostava de mandar no irmão mais velho.

— Quem sou eu para dizer não às ordens da ‘general Martinho’... — Daniel respondeu, fingindo estar intimidado.

Enquanto subíamos as escadas, sorri para a menina, que eu sabia gostar bastante de mim. Quando éramos novas, costumávamos brincar juntas, mesmo que a contragosto de seu irmão. Luíza fazia bastante o tipo “menininha”, e quando crianças ele não tinha muita paciência para gastar seu precioso tempo com as brincadeiras “femininas” da irmã.

Entramos no quarto de Daniel, e, enquanto ele ia ao banheiro, tirei a chuteira pisando na parte de trás do calçado, sem desfazer os nós dos cadarços. Tomei uma bronca de meu amigo pelo descaso com uma chuteira tão nova, lançamento de marca, consideravelmente cara, enquanto lhe dava a língua em resposta. Garrincha farejou minhas chuteiras, mas sua atenção foi atraída para algo no primeiro andar da casa, de modo que logo ouvi suas patas correndo lepidamente pelo corredor e pela madeira da escada.

Fiz companhia para a irmã de meu amigo, que quis me contar de sua rotina no primeiro ano do colégio e perguntou da minha. A menina tinha quase a minha idade, era dois anos mais nova do que seu irmão, sendo nossa diferença etária de apenas um ano.

Luíza tinha incríveis semelhanças físicas com meu amigo, os mesmos olhos e cabelos cacheados que ela deixava curtos na altura do ombro, e o físico esbelto, uns bons centímetros mais alta do que eu. Eu sabia que era uma questão de tempo até ela começar a dar muito trabalho para o irmão.

Depois de jogar um pouco de conversa fora, enquanto ouvia mais do que falava — já que, apesar de amável, Luíza era também muito tagarela -, Daniel abriu com estrondo a porta de seu quarto. Vestia uma bermuda e estava sem camisa, secando seus cabelos de qualquer jeito com a toalha.

— Olha isso, parece até um poodle molhado — fiz pouco de seus cachinhos, agora empapados de água, para a diversão de sua irmã, que gargalhou. Em seguida, meu amigo se abaixou, sacudindo seus cachos quase na minha cara, em resposta. Me joguei para trás, fugindo dos muitos respingos d’água, e Luíza riu mais ainda de nossa palurdice.

Daniel fez uma careta em resposta ao meu comentário e jogou a toalha na minha cara, no que a segurei, e atirei-a na cama. Luíza sentava-se ao meu lado, no amplo leito de casal de meu amigo.

Olhei para as conhecidas paredes de um tom azul bastante bonito, e para os ainda mais familiares pôsteres de times de futebol, em especial de craques da história do Botafogo, como Garrincha, Nílton Santos, Jairzinho e outros. Ele também tinha amplas estantes e prateleiras repletas de livros, sendo a leitura um hábito muito incentivado em sua família por conta de ambos os pais terem escolhido uma carreira acadêmica. Seu violão antigo, herança de seu tataravô, estava colocado em cima da ampla escrivaninha que cobria quase toda uma parede do quarto.

Meu melhor amigo pôs-se a ligar sua televisão e seu console de PS3, aguardando o jogo inserido dentro dele carregar. Tratava-se de mais uma edição de Fifa, e logo Luíza se levantou, revirando os olhos, reclamando que só pensávamos em futebol.

Sua irmã assim saiu do quarto, fechando a porta. Daniel estava em silêncio, focado em uma partida do modo “carreira” que jogava. Sentindo-me mais relaxada, deitei-me em cima de seus travesseiros, bocejando e acompanhando o jogo.

— Vai tomar banho, sua porca — meu amigo reclamou, sem tirar os olhos da tela. Seus dedos se moviam rápido entre o analógico e os botões do controle. — Depois vai deixar meus travesseiros fedendo a ‘cecê’.

Para provocá-lo, passei a esfregar meus pés, ainda com meias, nas suas costas. Não estava cheirando mal, mas aproveitei para desempenhar mais uma das nossas implicâncias de sempre.

— Para, pentelha! — ele reclamou, pausando o jogo e largando o controle em um lado da cama. Passei a dar pequenos chutinhos em suas costas, e meu amigo me puxou pelo pé esquerdo, me arrastando sem dificuldades por sua cama.

Em seguida, arrancou meu meião do Chelsea que cobria meu pé, e passou a fazer cócegas nele. Cortorci-me pela cama, me debatendo de tanto rir, tentando chutá-lo enquanto ele insistia naquela tortura. Eu tinha muita sensibilidade nos pés. Na verdade, eu tinha muita sensibilidade às cócegas em geral. E Daniel sabia disso, tanto que era um de seus principais golpes contra mim.

Talvez esse seja o momento de esclarecer porque eu mencionei que ficamos, e que nossa história a respeito disso era conturbada.

Bem, digamos que tudo começou por causa de cócegas.

A primeira vez em que nos beijamos eu tinha quinze anos, e Daniel dezesseis. Naquela época, ele ainda insistia em tentar ‘peneiras’, que são as chamadas provas e testes que os clubes de futebol incutem aos aspirantes a tornarem-se jogadores profissionais.

Quando estava perto de completar quinze anos, meu melhor amigo foi dispensado da equipe do time Sub-15 do Vasco por ser muito franzino, de compleição frágil corporal. Fora uma época muito difícil para ele, lembro-me bem de como aquilo arrasara sua autoestima.

Mas eu sinceramente nunca duvidei de seu potencial.

Nem eu, nem o técnico da escolinha que ele passou a frequentar, justamente na sede do Fluminense. Por algum tempo, ele auxiliou Daniel a treinar e se preparar para as possíveis contratações. Meu amigo inclusive chegou a fazer exercícios de malhação para fortalecer seus músculos, acompanhado de profissionais que elaboravam suas séries.

Entretanto, ele foi sumariamente negado por diversos clubes, até que no terceiro ano desistiu, ao menos temporariamente, de insistir em seu sonho. A escola demandava muito sua atenção, e seus pais queriam que ele se formasse e tivesse nível superior.

Porém, durante esta época de preparação, enquanto estávamos no segundo do ensino médio, muitas vezes, eu saía de minha escolinha de futebol e ia até a dele. Lá, esperava e assistia seus treinos até que pudéssemos voltar juntos, por vezes passando na casa dele ou na minha.

Em uma noite até então banal, o aguardei treinar com outro grupo da escolinha que frequentava, me distraindo com meu celular. Estava sentada do lado de fora do campo, que era cercado por uma grade, em uma mesinha perto de uma pequena lanchonete. Quando o treinamento acabou e a maioria dos rapazes já havia saído do campo, ele chutou a bola forte na grade bem em frente ao meu rosto, como se para me assustar e reclamar de minha falta de atenção.

Xinguei-o audivelmente, e larguei minha mochila em cima da mesa, guardando meu celular de qualquer jeito dentro. Trotei em direção ao campo, e contemplei o técnico pedir que meu amigo o aguardasse um pouco, explicando que conversaria com a outra turma no vestiário, mas que logo viria repassar algumas técnicas com ele. Daniel assentiu, e voltou seu olhar para mim, levantando as sobrancelhas.

Sorri em resposta, entendendo que queria jogar de improviso comigo.

Saí correndo em sua direção, pronta para tirar a bola de seus pés, mas era inegável o quanto sua habilidade como jogador era superior a minha. Ele me humilhou, driblando-me com inúmeros chapéus, sem a menor dificuldade.

Já estávamos suados quando finalmente consegui puxar a bola em minha direção, meu pé esquerdo finalmente alcançando-a, pisando delicadamente em cima dela e levando-a para mim. Em seguida, driblei meu melhor amigo com uma caneta, vingando-me e rindo gostosamente. Enquanto corria, já tendo voltado para a bola, dava risadas em provocação.

Porém Daniel não deixou barato. Levantou-me pela cintura e me jogou para o lado, se aproveitando de sua estatura e força física maiores, e riu debochado, por sua vez, divertindo-se com minha reação enfurecida.

Ao disparar em sua direção e alcançá-lo, passei a segurá-lo pela camisa, deixando qualquer vestígio de jogo limpo para trás. Finquei meus pés na grama do campo e puxei o tecido de sua camisa com toda a minha força, dizendo-lhe palavrões, levemente irritada. Ele se virou, sorrindo, e fui forçada a soltá-lo.

Ao chegar próximo de mim, Daniel balançou a cabeça, como se reprovasse debochado minha conduta, seus cachinhos dançando pelo ar com o movimento. Mordeu a língua enquanto sorria, e eu vi que ia me arrepender do que fizera.

Antes que eu pudesse correr para longe dele, pude apenas gritar um “sai”, minha voz aguda, enquanto ele enchia as minhas costelas, por cima de minha blusa do uniforme de minha escolinha, de cócegas aflitivas.

Ri tanto que dobrei os joelhos, irresistivelmente, caindo sem forças. Ainda assim Daniel não parou, abaixando-se junto comigo e falando seu mantra debochado de “respeita os mais velhos”.

Eu já sentia lágrimas nos olhos de tanto rir, e meu corpo quedava para trás, enquanto eu me contorcia pelas cócegas. Pouco a pouco, ia deitando-me acima da grama do campo, minhas risadas já sem fazerem ruído pela falta de ar. Só conseguia pedir para que cessasse, silenciosamente, quase sem respirar.

Assim que ele parou com aquilo, respirei fundo, devagar, com medo de insultá-lo e fazer com que começasse outra vez. Soltei um som aflitivo, aliviada pelo fim das cócegas. Mas ele se mantivera parado na mesma posição, em cima de mim, suas mãos em minha cintura.

Comecei a sentir a presença de uma sensação pitoresca em meu corpo. Como mencionei antes, a intimidade entre nós sempre foi algo autêntico. Eu não me sentia desconfortável em abraçar Daniel, agredi-lo, irritá-lo por meio do toque ou ocasionalmente dar-lhe beijinhos carinhosos no rosto, geralmente em saudações e despedidas, ou em comemoração de algo.

Naquele momento, o contato também era espontâneo, mas me despertou algo instintivo. Que eu não sentira em nenhuma outra vez que ele me tocara.

Eu queria que ele agisse, como se estar assim, quase deitado acima de meu corpo, suas mãos tocando de leve minha cintura, seu rosto tão próximo do meu... Fosse o prenúncio de algo que eu desejava, que precisava ser feito. Concretizado.

— Sai, seus cabelos ‘tão pingando suor em cima de mim — falei, forçando uma careta de nojo, querendo disfarçar a sensação arrebatadora que me surpreendera. Senti minhas bochechas quentes, e sabia que não era apenas pelo esforço físico.

Pela primeira vez na vida, estava sem jeito de olhar nos olhos de Daniel. Foquei-os na grama, evitando seu olhar.

— Acho que eu sei como dar um jeito nisso — ele falou baixo, quase sussurrando. A mão esquerda de meu amigo subiu até meu rosto, enquanto meus olhos enfim se voltaram na direção dos dele. Seus orbes de um castanho tão claro quanto seus cabelos estavam fixos nos meus, e ele sorria um sorriso curto, sutil, sem mostrar os dentes.

Senti de imediato um gostoso torpor tomar conta de meu peito, aquecendo-o completamente por dentro.

Já vira muitas expressões no rosto de meu melhor amigo: deboche, alegria, raiva, tristeza, desânimo, frustração, carinho, determinação, júbilo... Conhecia todas elas de cor, e podia prevê-las. Mas jamais vira nada como aquilo. Não dirigida a mim.

Meu coração bateu forte enquanto ele desceu o rosto e me beijou.

Na hora eu não pensei no que fazia. Como tudo o que tinha relação com nós dois, foi muito natural.

Apenas reagi, instintivamente. Foi realmente muito prazeroso. Levantei meus braços e envolvi seu pescoço, passando uma das mãos em seus ombros e outra em seus cabelos suados, apertando-os sentindo a textura aprazível de seus cachos.

Éramos água: pura umidade, suor e lágrimas, geradas por suas cócegas, misturando-se em nossos rostos que se tocavam languidamente. Eu me deleitava não apenas com a sincronia de nossas bocas, como com o toque de suas mãos subindo por baixo de minha camisa da escolinha de futebol, explorando minha barriga, cintura, e enfim passando pelas minhas costas, envolvendo-me ainda mais no corpo dele.

Os beijos foram tão bons que o treinador de Daniel teve de falar alto, da entrada do campo, para nos interromper.

O que aconteceu depois ainda terá de esperar. Por enquanto, basta apenas dizer que não lidei muito bem com a... Intensidade de tudo aquilo.

De volta às cócegas daquela noite de quinta-feira, meu amigo enfim parou quando pedi desculpas e falei que tomaria banho. Levantei-me, tirando as mudas de roupa da minha mochila, e fui para o banheiro no fim do corredor.

Sucedidos alguns minutos, já limpa, voltei ao seu quarto, meu cabelo enrolado em um turbante improvisado com uma toalha rosa. Vestia uma camiseta larga do Juventus e uma calça legging preta. Como eu já disse antes, não tinha nenhuma vaidade na frente de meu melhor amigo.

Ele seguira para outra partida no modo carreira, e critiquei seu egoísmo, falando que também queria jogar. Dessa vez, deitei-me em sua cama sem que ele me criticasse, estalando minhas costas enquanto me espreguiçava em seu colchão.

Depois, passei distraída minhas mãos pelos travesseiros, e logo encontrei um objeto inusitado, tecido em um material delicado e sedutor: uma calcinha fio dental, de renda.

Joguei a peça de roupa íntima na direção dele, reclamando audivelmente:

— Que nojo, Daniel! Não deixa essas coisas jogadas desse jeito! — Fiz uma careta, e imaginei Sandra se sentindo vingada por ter ‘marcado território’ na casa de seu namorado.

— Porra garota, larga mão de ser folgada! — ele respondeu, rindo incrédulo, jogando a calcinha de volta para os travesseiros. — É a minha cama, no meu quarto, esqueceu? — meu amigo debochou, voltando a atenção para o jogo.

— Esconde isso aí, não quero que minha mãe ache — Daniel pediu, sério.

— Belo esconderijo, de fato — trocei, me recusando a tocar na peça de roupa íntima outra vez.

— Guarda essa porra aí embaixo, deixa de ser fresca — o garoto insistiu, sem noção.

— Pois é, bem deve ter porra nisso. Eu que não mexo. — Levantei uma sobrancelha.

— Ah, quer convencer quem que tem nojinho? — meu amigo me provocou.

— Para de ser grosso, garoto! — Dei-lhe um pontapé nas costas. Arrependi-me instantaneamente, lembrando das cócegas de alguns minutos atrás.

— Não posso fazer nada se sou grosso e cheio de veias — Daniel fez a piada batida e eu revirei os olhos, soltando o ar, exasperada.

— Esse departamento é com a sua namorada, não comigo. Eu dispenso. — Levantei-me. Busquei minha escova de cabelos na bolsa da escola, retirando a toalha de meus cabelos para penteá-los. Depois de alguns minutos, com meus fios molhados já desembaraçados, meu celular zumbira alto em minha mochila. Fui conferir.

A tela se abriu diretamente no aplicativo de troca de mensagens gratuitas. Recebera uma de um número desconhecido.

“Cecília, que matéria quer estudar sexta-feira?”

Senti minha pulsação subitamente aumentar. Minhas mãos tremeram levemente, enquanto eu aguardei para responder.

— Daniel, que prova temos segunda-feira? — perguntei, ao lembrar apenas que sexta-feira teríamos prova de literatura.

— Química. Orbitais híbridos e tudo que tem relação com isso — ele falou, suprindo minha certeza de que não falharia em comprovar-se mais uma vez um aluno aplicado, em dia com a matéria.

Digitei a seguinte mensagem, reproduzindo integralmente a fala de meu amigo:

“Química. Orbitais híbridos e tudo que tem relação com isso.”

Veríamos como meu professor particular se sairia agora. Mordi os lábios, sentindo-me ansiosa e, ao mesmo tempo, estranhamente divertida com aquilo.

Vi que Bento estava online. Seu ícone carregou para uma foto simples, na qual ele estava sentado atrás do que parecia ser uma mesa de palestras, com um microfone disposto a sua frente. Estava com óculos que caíam bem em seu rosto, e parecia discursar para uma plateia.

Engoli em seco, reparando em como eu o considerava atraente.

Pisquei algumas vezes, ao constatar que ele digitava uma resposta. Esperei, meus dedos apertando meu celular, e percebi que meu maxilar estava rijo. Eu trincava os dentes de expectativa.

“Bem, não é exatamente meu campo de atuação. Mas acho que posso te ajudar. Se puder separar seu livro didático seria de grande ajuda.”

Posso separar meu livro didático para batê-lo na sua cara, que tal? Pensei, sentindo a raiva que minhas descobertas a respeito dele despertaram em mim.

Ao invés disso, respondi:

“Ok. Boa noite.”

De início, seria ríspida com ele. Apenas para ver como reagiria depois que eu... Mudasse de comportamento.

“Boa noite, Cecília. Parabéns pelo jogo.”

Franzi as sobrancelhas, percebendo que ele ou assistira o jogo do Corinthians ou se dera ao trabalho de descobrir o placar. Ignorei o que ele disse, mas ele logo passou a digitar outra vez.

Em seguida, enviou-me uma única palavra:

“Beijos.”

Encarei a tela do celular por algum tempo, até que ela se apagou por minha falta de ação. Passei uma das mãos pelo rosto, e digitei de volta:

“Beijos.”

Por que até mesmo uma saudação simples como aquela parecia... Sugestiva, quando relacionada com ele?

Ao meu lado, Daniel havia desligado o videogame, e bisbilhotava por cima do meu ombro.

— Quem é esse tiozão, Ciça? — ele perguntou, levantando-se da cama. Abriu a porta de seu armário e colocou uma camisa qualquer de algodão.

— Meu professor particular. Meu tio o contratou — expliquei em curtas palavras. Parei de olhar fixamente o celular, para evitar possíveis desconfianças por parte de meu amigo.

— É por isso que você foi bem na prova... — Daniel debochou, e eu olhei para ele, irritada. Infelizmente ele tinha razão.

— Não, sem sacanagem. Bom para você. Mas toma cuidado com esse carinha — ele falou, indicando com o queixo o celular.

Ergui-me de sua cama e o segui porta afora. Caminhamos pelo corredor enquanto perguntei:

— Por quê? — Embora já soubesse a resposta.

— Esses velhos aí são todos um bando de tarados. Se amarram em uma novinha. Não deixa ele tentar nada contigo — meu melhor amigo falou em tom de profunda sabedoria.

— Bem, ele é amigo do meu tio, parece. E... Conheceu a minha mãe — respondi, dando de ombros. Claro, omiti alguns detalhes importantes.

— Ah, menos mal. Então acho que você pode ficar de boa, ele deve te deixar quieta. Ninguém seria tão filho da puta assim... — meu amigo concluiu, e ficamos em silêncio enquanto íamos em direção a sala, onde a mãe de Daniel já nos chamava para jantar e me saudou com um abraço forte.

Em seguida, abracei seu pai, e tomamos nossos lugares à mesa, enquanto Daniel implicava com sua irmã por algum motivo bobo qualquer. Mas eu já não prestava atenção.

Eu sentira um calafrio com seu comentário. Fora de fato bem atinente.

Notas finais
Aguardo comentários, pessoal! =D