Amor Faminto
16 Capítulo 15: Prazer e Paraíso
A semana tinha passado depressa, os preparativos para a festa foram feitos. Lydia estava contente com o plano que tinha arranjado, estava entusiasmada e manteve-se ocupada toda a semana, sem pensar muito bem nas consequências do que iria acontecer naquela sexta-feira à noite. Alexander, por outro lado, sentia-se revoltado. Odiava aquele plano e tudo o que o envolvia. Ela não tinha poderes especiais, não era imortal, mas tinha uma coisa muito mais valiosa, e ao mesmo tempo muito mais perigosa, coragem. Alguma coragem é bom, muita é mortal.
"Não sei o que aconteceu."
Tom sentou-se no sofá, e olhou à volta para ter a certeza que ninguém os ouviria. Especialmente não o Conselho, mas eles estavam todos ocupados a ajudar a Lydia e a Octavia com a preparação da festa.
"Tu quere-la." O seu pai conclui. "É normal."
"Não estás a percebe, pai. Foi mais do que isso. Eu quase a mordi." Alec contou-lhe a medo. "E eu fui caçar todos os dias, mas quando a via no corredor eu tinha de correr na direção oposta. A caça não me sustenta, pai. É o sangue dela que eu realmente desejo. E eu não sei o que está errado."
"Nada está errado, filho. É o que acontece quando nós nos envolvemos dessa maneira com os humanos."
"É como se eu a quisesse que ela satisfizesse a minha fome para sempre." Ele assustou-se com as suas próprias palavras. "Eu não a quero magoar."
"Uma característica da natureza imutável dos vampiros é que eles se acasalam para a vida. Regra geral, apenas o vínculo entre os companheiros é forte o suficiente para sobreviver ao impulso competitivo pelo sangue." Tom explicou-lhe.
"Mas não foi assim." Alec suspirou. "Eu queria fazê-lo."
"Mas não o fizeste, certo?" O seu pai chamou-o à razão. "Porque não poderias."
As palavras de Tom acalmaram-no. Se havia algo que ele nunca se perdoaria seria de infringir-lhe qualquer tipo de dor.
"O que vai acontecer com a Lydia, pai?" Decidiu perguntar.
"Eu não sei, Alec." Confessou-lhe. "Depende inteiramente de ti."
"Eu não consigo estar longe dela." Alexander disse-lhe. "Eu acho que me estou a apaixonar por ela."
"Eu sei." Tom sorriu.
"Porque estás a sorrir?" O outro olhou-o confuso.
"Nunca pensei que te veria a apaixonar novamente."
"Não é como se desta fez fosse menos doloroso." Alec suspirou. "Eu não a posso ter."
"Tu podes." Tom lembrou-o.
"Não, não se isso significa que ela fica agarrada a mim para sempre."
"Porque não?" O seu pai tentou entender.
"Porque eu quero saber que ela tem a possibilidade de se ir embora se quiser. E se eu a marcar, ela deixa de ter essa hipótese." Alexander fechou os olhos, e suspirou. "Não a vou prender a mim para o resto da vida dela."
"Então ela viverá infeliz o resto da vida."
Isso era se ela ainda continuasse a ter uma vida no final da noite. Esse era o maior medo de Alexander, o resto ele podia resolver depois, aquela noite era sobre manter Lydia a salvo. Não que a rapariga lhe fizesse a tarefa muito fácil, mas, no fundo, Alec sabia que ela só queria ajudar. Ela queria apanhar aquele vampiro tanto quanto ele, só que, por vezes, devido à sua constante convivência com vampiros nos últimos tempos, Lydia esquecia-se que não era imortal.
"Estás nervosa?"
A festa tinha acabado de começar e o descampado estava cheio de desconhecidos, ambas as espécies. Qualquer um deles poderia ser o vampiro, então, sim, ela estava nervosa, mas não o mostraria.
"Não." Mentiu.
Alec assentiu e encostou-se também à parede de tijolos. Lydia percebeu o olhar de todas as pessoas da escola, todas as raparigas, no rapaz ao seu lado. E de repente, ela queria vomitar.
"Estás a ver?" Ela perguntou-lhe.
"O quê?" Mathews olhou à volta confuso.
"As raparigas?"
"Que raparigas?" Ele franziu a testa. "Não sei do que estás a falar."
"As raparigas estão-se a babar a olhar para ti." Lydia explicou-lhe.
Alexander riu, e isso deixou-a confusa e zangada.
"Estás com ciúmes?"
Então foi a sua vez de rir, "Ciúmes? Por favor."
"Aquela é sem dúvida bonita." Apontou para a morena que dançava perto da fogueira, com provocação notável na voz.
Ele soou bastante entusiasmado quando o disse e Lydia desejou que ele não tivesse assim tanto. Não que ela estivesse com ciúmes. Nada mesmo.
"Talvez se eu pintasse o meu cabelo daquela cor eu teria uma chance contigo."
Só quando o olhou, percebeu o que havia dito. Ele estava surpreso e parecia não saber o que dizer, ela sentiu as suas bochechas queimarem naquele exato momento.
Sou tão estúpida, repreendeu-se.
Então, Alec voltou-se para a ruiva e agarrou-lhe numa mecha de cabelo, olhou-a nos olhos verdes e sorriu-lhe.
"Não quereria o teu cabelo de outra cor qualquer, não loiro, não castanho. Nenhuma cor a não ser-."
"Vermelho." Lydia completou-o, e sentiu-se um pouco melhor.
"Sim, vermelho." Mathews acariciou-lhe a face então. "Não serias a Lydia Jones se fosse de outra maneira."
As bochechas dela tomaram, novamente, um adorável tom de vermelho para combinar com os seus longos cachos, e ele sorriu.
"Sabes o que se dizia nos tempos medievais? Que o cabelo vermelho estava associado com degradação moral e intenso desejo sexual." Alec contou-lhe, entusiasmado. "Raparigas com cabelos vermelhos eram consideradas vampiras, lobisomens e bruxas. A inquisição espanhola incentivou a perseguição. Acreditavam que os seus cabelos tinham roubado os fogos do inferno."
"Uou. Como sabes essas coisas?" Jones olhou-o fascinada, então ele baixou a cabeça, com um sorriso escondido e ela percebeu. "Oh. Quantos anos tens tu mesmo?"
"17." Alexander provocou-a.
"Não. Quantos anos tens tu mesmo?" Lydia repetiu-se.
"Muitos." Ele acabou por lhe dizer.
Ela perguntou-se quantos, talvez centenas? Milhares? Era impossível saber ao certo, e talvez até ele mesmo tivesse perdido a conta. Ao fim de um tempo torna-se desnecessário, certo?
Lydia voltou a tomar atenção às raparigas, elas deitavam-lhe olhares fumegantes e para Alec piscavam o olho. Ela sentiu-se desconfortável.
"Eu não estava com ciúmes." Ela disse em voz alta. "Só realcei o óbvio. Elas realmente estão a babar-se."
"Bem, a única rapariga que eu beijaria agora mesmo és tu."
Lydia aproximou-se, agarrou-lhe o braço, e quando se preparava para concretizar o desejo dele, um grito rompeu pela música. Olharam-se alerta. Ninguém mais pareceu se importar, exceto os membros do Conselho que a ruiva conseguiu ver se retirar discretamente para a floresta, tanto o Richard e os restantes do Conselho Vermelho, como os membros do Conselho Vermelho.
Os Mathews vieram ao encontro de Alexander.
"Acho que o teu plano resultou, Lydia." Lily sorriu-lhe.
Não, Jones pensou. Era suposto ela ser o isco, ela ter dado aquele grito, não uma pobre rapariga qualquer. Ela já devia saber, não se beija em trabalho.
"Os Conselhos já foram. Devíamos ir também." A rapariga dos cabelos vermelhos preocupou-se.
"Tu não vais a lado nenhum." Alec parou-a.
"Isto foi o meu plano!" Lydia lembrou-o.
"Sim, e será o teu funeral também se entrares naquela floresta." Ele devolveu sarcástico.
"Meninos, por favor." Andrea sussurrou. "Vamos todos juntos, ok?"
Alexander olhou a mãe e abriu a boca para dizer algo, mas arrependeu-se e decidiu que era melhor estar sozinho, então partiu para o interior da floresta.
"Vamos?" Ryan quebrou o gelo.
"Vamos." Lydia suspirou.
Quando entraram na floresta, depararam-se com a densa escuridão. Mas para a sorte de todos, Mark tinha sido esperto o suficiente para trazer uma lanterna para cada um dentro da sua mala. Lydia quis abraça-lo naquele momento, mas achou que teria tempo de o fazer mais tarde.
"Mantém-te por perto, ok?" Tom olhou a pequena.
"Sim." Ela sorriu-lhe.
Eles andaram para mais longe da festa, alerta. Não havia rastro do vampiro, nem de quem teria gritado daquela maneira. E isso preocupava-a.
E foi então que ela o ouviu.
"Lydia."
Jones voltou-se, deu três voltas completas e não encontrou ninguém. Nem mesmo os Mathews, ela tinha ficado tão perdida nos seus pensamentos que se tinha perdido, e agora estava presa com alguém dentro da sua cabeça.
"Eu sempre te encontrarei, querida."
"Encontra-me então," Lydia gritou para o vento. "filho da mãe."
"Olá."
Jones voltou-se num movimento brusco, e finalmente lembrou-se da sua face. Era ele, o vampiro que todos andavam à procura na floresta. Estava mesmo ali.
"Tu atacaste-me! Tu atacaste a Octavia! Tu mataste todas aquelas pessoas!" Acusou-o. "Tu és um monstro!"
Ele aproximou-se e ela teve uma melhor visão sua. Ele era lindo, tinha cabelo loiro e olhos de um doce castanho, e ela quase se esqueceu quem ele era. O que ele era. Quase.
"Diz isso outra vez! Eu sou um diabo perfeito!" Gritou-lhe, com um sorriso. "Diz-me! Faz-me sentir bem!"
Lydia olhou-o com nojo e procurou afastar-se, mas era tarde. Ele estava ali, não havia sítio algum para onde ela pudesse fugir.
"Onde pensas que vais, Lydia?" Ele cantarolou. "Eu planeei tudo isto para ti."
"Tudo o quê?" Jones perguntou-lhe confusa.
"As mortes. A Octavia. Tudo." Explicou. "Então, finalmente, eu posso marcar-te."
"Não!" Ela apontou-lhe o dedo. "Não, tu não vais!"
"Bem, eu não acho que tenhas uma escolha, querida."
"Pede a um dos Conselhos que te dê alguém da lista!" Lydia gritou-lhe. "Porque eu não vou ser o teu fantoche!"
"Mas eu não quero mais ninguém," Ele aproximou-se, e ela em reflexo recuou. "eu quero-te a ti."
"Bem, então vai para o Inferno."
O vampiro riu e, num momento de distração, Lydia voltou-lhe costas e correu pela floresta adentro. Ela sabia que provavelmente isso não a salvaria, ele acabaria por a apanhar, mas dava-lhe uma chance para encontrar os Mathews.
"Alexander!" Tentou gritar, mas a sua respiração ofegante e escassa não a permitiu.
"Lydia, Lydia." Ele estava perto.
Jones continuou a correr. Os seus pulmões pareciam estar a arder, assim como os olhos. Gotas de suor escorriam-lhe pelas costas, mas ela continuou. As suas pernas doíam-lhe, e ela só conseguia ouvir as batidas do seu coração e as suas arfadas dolorosas, mas não parou.
"Olá, amor."
A rapariga dos cabelos vermelhos parou bruscamente quando se deparou com a figura à sua frente, não era quem ela procurava, era quem a perseguia. Era ele.
"Acho que começamos da maneira errada, certo?" Ele sorriu-lhe. "Eu sou o Ethan."
Jones limitou-se a acalmar a respiração e a olha-lo sem vestígios de humor.
"Depois de eu te marcar as coisas vão ser muito melhores." Assegurou-lhe.
"Se eu vou ser marcada, não vai ser por ti!" Lydia gritou-lhe.
Ela viu o sorriso de Ethan transformar-se numa linha reta, ele aproximou-se. Parecia chateado e ela percebeu que os seus olhos castanhos escuros se haviam transformado num bonito castanho brilhante, quase dourado, e ainda assim aterrorizante. E depois ela viu as presas brancas, quase ofuscantes, difíceis de ignorar.
Ela afastou-se.
"Deixa-me."
Jones voltou-se a virei para o deixar quando ele lhe agarrou o pulso. Ela sentiu os seus dentes lhe perfurarem a artéria, antes que pudesse pensar no que estava a acontecer, e as suas mãos apertavam-lhe o braço.
Quando se separou dela, a sua boca estava manchada de vermelho.
"Eu vou-te marcar! Eu!" Ethan gritou-lhe. "Não vais pertencer a mais ninguém! Não a tive a ela, mas vou ter-te a ti, querida!"
"O quê?" Lydia levou o seu pulso ferido para o peito.
"Oh, tu achavas que eu tinha viajado toda esta distância apenas por ti? Lamento desiludir-te." Ele forçou uma risada. "Isto é sobre o teu pai. Como ele me tirou tudo!"
Lydia arregalou os olhos, e a sua boca abriu-se. Os seus olhos verdes encheram-se de água e ela teve de controlar para não as deixar cair em frente dele, ela poderia guardá-las para mais tarde.
"Oh, tu não sabias? Sobre o teu pai?" Ethan provocou-a. "A tua mãe nunca te contou?"
"Do que estás a falar?" A rapariga fungou. "Tu estás louco."
"Oh," Ele soou magoado e desiludido. "Ela pediu para a fazerem esquecer."
"Eu não entendo, o que-."
Lydia foi interrompida.
Ela assustou-se quando Ethan caiu à sua frente, uma figura vestida de escuro estava em cima dele. Era Candice, outras das colegas de Alfie, percebeu depois. Os outros Mathews chegaram logo atrás, mas no momento em que se preparavam para o ajudar, Ethan soltou-se e desferiu um golpe no membro do Conselho Azul.
Então, olhou a rapariga de cabelos vermelhos. "Eu vou voltar por ti."
E assim, ele foi-se.
Alycia e os outros membros do Conselho Vermelho seguiram-no pela floresta. O outro Conselho retirou-se, provavelmente para ingressarem numa busca pelo grito que alertou todos os presentes na festa, cientes do plano, pelo menos. Os Mathews ficaram, todos olhavam Lydia preocupados, mas ninguém teve a coragem de se aproximar.
Lydia não sabia o que pensar. Ethan tinha-lhe dado mais uma razão para odiar o seu pai, se isso ainda fosse possível. Afinal, depois de tantos anos longe, depois de ter abandonado a sua família, ele ainda conseguia magoá-las.
Alexander rompeu pelo grupo. Jones manteve-se a olhar o nada, perdida no mar de pensamentos, a pensar se realmente o vampiro estava a dizer a verdade ou era apenas um truque para a deixar vulnerável. Ela estava dormente, de facto.
"Talvez devessem ir." Alec olhou a sua família. "Eu vou levá-la a casa."
Tom assentiu e todos lhes voltaram costas. A rapariga dos cabelos vermelhos ainda viu Lily olhá-la de relance, com um pequeno sorriso. Ela quis sorrir-lhe de volta, mas parecia estar paralisada.
Então, Alexander aproximou-se. "Lydia."
"Não," Ela parou-o. "Não."
"Eu devia ter estado contigo, meu deus." Ele culpou-se. "Desculpa."
"Para."
Jones abraçou a sua cabeça, quando a dor de cabeça a atacou. Era a maior dor que ela havia sentido e, assim, ela caiu de joelhos na terra. Sabia que Alec estava a falar com ela, mas o ruído dentro da sua cabeça não a permitia ouvir. E ela sabia que era o veneno.
"Lydia," Alec puxou-a para o seu colo e obrigou-a a olhá-lo. "Ei, sou eu. Está tudo bem."
"Por favor, faz isto parar..." Então ela largou um grito agonizante.
Alexander afastou-lhe o cabelo vermelho da face, e balançou a cabeça. Parecia estar a discutir consigo mesmo em silêncio, mas Lydia não tinha muito mais tempo. Ela lembrava-se, as alucinações só ficavam piores. A dor podia ficar pior.
"Alexander, por favor..." Suplicou-lhe. "Faz algo."
"Não posso, eu..." Hesitou, e ela pode distinguir as lágrimas nos seus olhos azuis. "não posso."
Jones largou outro grito com a dor de cabeça alastrou-se para o resto do corpo e ela não conseguia controlar mais a agonia. Deixou-se embebedar de sofrimento e limitou-se a gemer.
"Lydia, por favor." Alec agarrou-lhe a face. "Aguenta, ok?"
"Alexander..." Ela conseguiu murmurar. "Dói tanto."
"Desculpa-me, Lydia."
O olhar penoso de Alexander é a última coisa de que se lembra antes do alívio que se seguiu. Era prazer e paraíso. Era todo o contrário do que ela tinha sentido até há poucos minutos.
A última coisa de que se lembrava antes de adormecer é ver os olhos azuis brilhantes dos quais ela uma vez sentira medo e, então, o sangue que lhe pingava para a blusa e se confundia, lentamente, com o vermelho do seu cabelo.
Lydia estava em paz.
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