Amor Faminto
5 Capítulo 4: Viver
Notas iniciais

“Onde estiveste ontem à noite?”
“Não tens nada a ver com isso.” Ryan devolveu.
Alec tirou o capacete e pousou-o ao lado do seu irmão.
“Com a Octavia?”
“Sério, meu, não tens nada haver com isso.”
“Meninos, parem. Por favor.” O seu pai interveio. “Podemos apenas conversar calmamente?”
“Eu estava a tentar, mas o Ryan não pareceu entender.” Alec disse.
“Não, tu estavas a tentar meter-te na minha vida!” O seu irmão levantou-se.
O resto da família foi atraída, para aquele canto do pátio, pelo volume de Ryan. Todos estavam, provavelmente, curiosos sobre o que seria a discussão desta vez.
“Tu metes-te na vida de toda a gente! Ou pensas que ninguém reparou na tua tentativa falhada de te meteres na vida da popular da equipa de volley, uh?” Ryan aproximou-se. “Tu sentes-te sozinho e pensas que a vida dos outros vai preencher o teu vazio!”
“Cala-te.” Alec cerrou os seus punhos.
“Ryan-.” A sua mãe avisou.
“Tu intrometes-te na vida de todos porque não tens uma própria, não é?! Bem, nós estamos todos fartos de ter pena de ti! Porque sequer haveremos de ter pena de ti?!”
Alec tentou controlar-se, acumular a raiva dentro de si, mas com a última acusação de Ryan, a pressão tornou-se impossível de aguentar. Ryan preveu o que estava por vir, mas o seu ágil movimento foi demasiado lento. Duas mãos fortes agarraram-lhe o pescoço. Os irmãos estavam cara a cara e ninguém se atreveu a separá-los.
“Eu não preciso que tenham pena de mim, nem quero.” Alec murmurou por entre os dentes cerrados.
“Eu sei.” Ryan devolveu com um sorriso desafiador.
Quando Wes tocou cuidadosamente nas costas de Alec e este relaxou. Largou o seu irmão que manteve o sorriso desafiante. Mathews afastou-se. Todos os olhavam preocupados, especialmente os seus pais.
“Tudo bem, tudo bem.” Alec levantou os braços. “Peço desculpa, exagerei.”
Ryan riu e aproximou-se, deu uma pancadinha nas costas de Alexander.
“Vamos ver quem marca mais?”
E então, todos se riram como se nada tivesse acontecido. Afinal, era um Sábado como todos os outros dos tantos séculos que se passaram.
Para Lydia também seria só mais um Sábado, só mais um atarefado Sábado, até ter encontrado a sua melhor amiga em problemas. Aí as coisas complicaram-se.
“Tens a certeza que está tudo bem com ela?” Amelia perguntou mais uma vez.
“Sim, ela apenas ficou mesmo bêbada ontem à noite e achou melhor vir cá ficar.” A rapariga dos cabelos vermelhos mentiu. “Sério, mãe.”
“Se tu o dizes.”
“Ah, só preciso de te pedir um favor.” Lydia deu um pequeno sorriso.
“Diz, querida.” A sua mãe olhou-a.
“Podes olhar pela Octavia enquanto vou à Sopa dos Pobres?” Ela pediu. “Juro que não me demoro, vou até pedir à Elena para sair mais cedo e-.”
“Lydia,” Amelia agarrou a cara da sua filha com carinho. “tudo bem, ok? Demora o tempo que quiseres, eu tomo conta da Octavia.”
“Obrigada, mãe.”
“Estou tão orgulhosa de ti, querida.” E beijou-lhe a testa.
Lydia não se conseguia concentrar nas refeições. Apesar de saber que a sua mãe estava de olho em Octavia ela não conseguia parar de tentar imaginar o que havia acontecido à sua melhor amiga a noite passada. Mas sabia que tinha sido, certamente, assustador.
“Lyds?” Jason chamou a sua atenção. “Obrigada pelos bolos.”
“Oh, de nada, sério.” Ela sorriu.
“Está tudo bem?”
“Sim, só estou um pouco cansada.” Jones mentiu.
Os seus olhos desviaram-se novamente para a fachada de janelas na frente do estabelecimento.
“Está mesmo tudo bem?” Jason insistiu.
“Porquê?” A rapariga devolveu.
“Parece que estás à espera de alguém.” Ele respondeu.
“Quando eu preciso dele é que ele nunca aparece.” Lydia murmurou.
“Quem é ele?” Miller atreveu-se a perguntar.
“Oh, ninguém importante. Um colega da escola. Ele apareceu por aqui uma vez e-.” Jones suspirou. “E eu apenas preciso de falar com ele. Coisas da escola, nada demais.”
“Ok, bem se precisares de alguma coisa sabes que podes contar comigo, certo Lyds?”
“Claro, Jason.” Ela sorriu-lhe.
Alexander não apareceu na Sopa dos Pobres naquele Sábado. Havia sido arrastado pela sua irmã mais nova para uma longa caminhada. Contra a sua vontade, para dizer a verdade.
“Onde me estás mesmo a levar, Lily?”
“A um sítio que vai fazer-te ficar maluco, acredita em mim maninho.” Ela prometeu.
A subida seria cansativa para qualquer pessoa normal, mas para aqueles dois era apenas entediante. Alec já tinha passado por ali uma vez ou outra, em busca de um lugar sossegado para tocar guitarra, mas nunca tinha chegado ao topo.
“Chegamos!”
E quão arrependido ele estava por nunca ter lá chegado. Aquilo sim, era de tirar o fôlego. Não era apenas uma cidade coberta de nuvens e cores próximas do laranja. Era mais, era uma beleza de um outro tipo e de repente, Alec viu-se na Califórnia outra vez.
“É lindo, não é?” Lily respirou fundo.
“Estou sem palavras.” Ele confessou.
“O quê? Alexander Mathews sem palavras? Isso é algo que pensei nunca testemunhar.” A pequena brincou.
Alec riu. “Há uma primeira vez para tudo.”
“Sim, até mesmo para viver.” Ela divagou.
“O que queres dizer, Lily?” Mathews olhou-a curioso.
“Não sinto que tenha vivido. Não até agora.” Lily sorriu triste. “Eu não vivi, não em setecentos anos de existência. Eu só… existi. Não acho que tenhamos vivido de todo, Alec.”
“Não sejas idiota. Nós viajámos, conhecemos pessoas incríveis e ambos-.” Alexander engoliu em seco. “… nos apaixonámo-nos.”
“Isso não é viver, maninho. Não, não, estás enganado.” Ela voltou-se para ele. “Nós tivemos uma existência cruel, só isso. Viver é a coisa mais rara no mundo, Alec.”
Lily aproximou-se do precipício, com um sorriso largo no rosto e então fechou os olhos.
“Isto, mesmo aqui, agora, é viver.”
A pequena estendeu a mão para Alexander, e continuou com os olhos fechados.
“Nós podemos começar a viver agora mesmo, mano.”
Alec aproximou-se e enlaçou os seus dedos nos de Lily, colocando-se ao seu lado, e fechando também os seus olhos. Ele sabia o que aquilo significava, o porquê da sua irmã o ter levado ali e ter feito aquilo. Para o obrigar a seguir em frente.
E finalmente Alec achava que estava pronto.
Lydia tinha outros problemas para resolver naquele momento e tinha apenas um nome: Octavia. Já era difícil o suficiente de lidar.
“Sim, Sra. Cooper. Ela apenas quer mesmo muito passar a esta disciplina.”
“Ok, então. Muito obrigada por teres ligado, Lydia.” Ela agradeceu. “Adeus.”
A linha ficou muda e a rapariga dos cabelos vermelhos pousou o telemóvel, e largou um longo suspiro preocupado. Os seus olhos verdes voltaram-se para a sua melhor amiga, que estava a vestir-se em frente ao espelho.
“Era a minha mãe.”
“Sim, ela estava preocupada.” Lydia disse.
“Eu mandei-lhe uma mensagem.” A outra encolheu os ombros.
“E achas que isso seria suficiente? Octavia, tu foste atacada por um vampiro!” A ruiva exaltou-se. “E tu-.”
“Tão dramática.” O riu.
“Qual é a piada?” Lydia cruzou os braços. “Tu fazes ideia de como estavas?!”
“Eu diverti-me um pouco demais, foi só isso Lyds.” A morena balançou a cabeça. “Porra, acalma-te. Pelo que eu me lembro nós fazemos isso, lembraste? Nós e o resto dos nossos amigos?”
“Exceto que nós nunca fomos mordidas por um vampiro e drogadas.” Jones devolveu. “Ah e tu não estavas com os nossos amigos, estavas com o Ryan Mathews que é, só por acaso, um vampiro.”
“E então? Ele gosta de mim e eu dele, ele entusiasmou-se talvez um pouco demais, e depois?” Octavia encolheu os ombros. “Desculpa se te preocupei, Lyds.”
“Estou a avisar-te, O. Aquela família é sinónimo de problemas.”
“Ei.” A morena agarrou a sua melhor amiga pelos ombros. “O que aconteceu à rapariga que gosta de festejar até cair para o lado, correr riscos?”
“Ela encontrou a sua melhor amiga coberta de sangue a alucinar.” Lydia devolveu.
“Ouve, eu agradeço o que fizeste por mim. Sério, Lyds. Não podia pedir uma melhor amiga melhor, mas eu estou bem, ok?”
Antes que a rapariga pudesse responder, Octavia já a tinha abraçado. Lydia esperou até que se afastassem para falar novamente.
“Eu sei, O. Eu sou cruel e fria e muitas outras coisas que não mostram que me importo, mas eu preocupo-me contigo, ok?” Jones sorriu. “Eu não sei o que faria se algo te acontecesse.”
“Não vais ter de descobrir, Lydia.”
“Juro, se dizes a alguém o quão lamechas eu estou a ser-.” Lydia começou.
Octavia levantou o seu mindinho e esperou que a ruiva entrelaçasse o seu no dela.
“Nunca.”
Ambas sorriram como se não tivessem uma preocupação no mundo.
Alexander sentia-se, por mais estranho que isso fosse, mais leve. Tal como as duas melhores amigas, como se não tivesse nada que o prendesse, agora. Nem uma única preocupação.
“Diz-me, quem é esta popular da equipa de volley que o Ryan estava a falar.”
Alec olhou para Lily, que lhe sorriu, antes de voltar-se novamente para os seus pais.
“Oh ela é apenas uma rapariga. Acho que ela está perdida.” Ele confessou.
“Perdida?”
“Sim. Ela é alguém de quem todos pensam muito bem. Alguém sem imperfeições, sem fraquezas. Alguém que engole o sofrimento, a dor, a solidão e luta por si mesma. Alguém que não mostra o que sente, só para agradar a todos.” Alec engoliu. “E em vez de a ajudarem, eles põem-na num pedestal por isso.”
“Ela é, sabes-.” A sua mãe hesitou, preocupada.
“-Especial para ti?” O seu pai concluiu o pensamento de Andrea.
“Não.” Ele rapidamente respondeu. “Ela é apenas mais uma das pessoas que pensa que está a viver, mas na verdade limita-se a existir.”
Existir. Era essa a palavra que definia Lydia Jones, numa palavra. Ela existia, mas não por ela, para todas as outras pessoas, mas nunca por ela. Isso fazia dela a melhor pessoa do mundo, talvez, mas com aquele ritmo quanto tempo ela duraria?
“A Octavia, como está?”
“Melhor.” Lydia respondeu.
Amelia pegou na chaleira e vazou a água a ferver para dentro das duas canecas, em cima da mesa. Então, colocou as saquetas do chá lá dentro e duas colheres de açúcar em cada. Lydia seguiu todos os seus movimentos.
“Aqui tens, querida.” A sua mãe estendeu-lhe a caneca.
“Obrigada.” Ela bebeu um pouco, deliciando-se.
Amelia sentou-se em frente à sua filha, preocupação assombrava-a.
“Lydia, sabes que me podes contar tudo, certo?”
“Claro, mãe.” Lyds deu um pequeno sorriso.
“Eu fiz o melhor que consegui, sabes. Eduquei-te da melhor forma que consegui. Dei o meu melhor.” Amelia afirmou. “E eu acho que fiz um ótimo trabalho.”
Lydia sorriu largamente, e agarrou a mão da sua mãe por cima da mesa. Deu-lhe um aperto carinhoso, não deixando de olhar as duas pérolas verdes semelhantes às suas.
“E eu agradeço-te por isso.”
“Sabes que te amo, não sabes?” A sua mãe puxou-lhe a mão para a beijar.
“Eu também te amo, mãe. Sempre.”
Alec estava bem-disposto na segunda-feira. Estava bem alimentado, ele e Ryan estavam bem. Lily estava certa, viver era bom. Então, as portas principais da escola abriram-se, deixaram Octavia e Lydia entrarem. A morena parecia cansada e a sua amiga parecia em busca de algo desesperadamente.
“Já volto.” Alec ouviu Lydia sussurrar para a outra.
Quando percebeu, a rapariga dos cabelos vermelhos estava a marchar na sua direção. Alexander ficou curioso e desencostou-se da parede, já antecipava a chegada de Lydia.
“Precisamos de falar.” Foi tudo o que ela disse.
“Não estás preocupada que as pessoas comentem o porquê de estares a falar com um falhado?” Alec devolveu sarcástico.
“Cala-te, sério. Não estou para as tuas idiotices.”
Lydia puxou-o pelo braço para dentro da sala de Biologia Aplicada. Ele podia ter resistido facilmente, mas a verdade é que estava curioso.
“Ok, o que é assim tão importante que estás disposta a arriscar a tua popularidade?”
“Sério, a tua árvore genealógica deve estar amaldiçoada, porque são todos uns idiotas.” A rapariga acusou.
“Ei, não-.”
“Que tipo de vampiros são vocês que andam para aí a atacar humanos?” Lydia cruzou os braços.
“Do que estás a falar, Jones?” Ele estava confuso.
“A Octavia foi sair com o Ryan na sexta à noite. E quando a encontrei tinha o pescoço mordido!” A rapariga dos cabelos vermelhos exaltou-se. “Mas que merda é que-.”
“Ryan?” Alec repetiu.
“Ouve se não me dizes nada, então vou eu mesma falar com o Ryan.”
Lydia voltou-lhe costas, a um passo de abandonar a sala de aula. Então, Alexander agarrou-lhe o braço não medindo a força. Ela gemeu com dor.
“Deixa-me. Agora.”
“Desculpa.” Ele rapidamente largou-a. “Ouve, deixa-me ser eu a falar com o Ryan, ok?”
“Porque haveria de fazer isso?” Lydia olhou-o desafiante.
“Porque eu sou a tua melhor hipótese.” Alec declarou o óbvio.
“Hm, não é verdade. Eu sou bem capaz de-.”
“Podes apenas confiar em mim nisto, Lydia?” Ele pediu.
“Eu não te conheço.” Jones lembrou.
“Sim, mas eu conheço-te.” Alec devolveu com um pequeno sorriso.
Lydia afastou-se, com um suspiro.
“Ok. Dá-me o teu telemóvel.” Ela exigiu.
Alexander não hesitou, apenas levou a mão ao bolso das calças e colocou-lhe o telemóvel preto na mão. Viu os seus dedos a trabalharem habilidosamente.
“Aqui.” E devolveu-lho. “O meu número. Quando tiveres falado com o Ryan, avisa-me.”
Lydia voltou-lhe as costas novamente.
“Nem um obrigado?” Alec tentou.
Ela olhou-o por cima do ombro. “Vais ter de o merecer, Alexander.”
E assim, ela deixou-o sozinho na sala de aula sozinho, a olhar para os dígitos no telemóvel.
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