Amor Faminto

29 Capítulo 28: Sai


CAPÍTULO 28

Quando Lydia acordou, a sua mãe foi a primeira a abraçá-la. Ficaram ali horas, apena a olharem uma para a outra, não falaram muito. Nenhuma delas sabia muito bem o que dizer. Alexander manteve-se a olhar pela janela, Lily estava ao seu lado. Ele sabia o que queria dizer à ruiva, o que precisava de lhe dizer: que a amava.

Amelia saiu do quarto e sorriu para ambos os Mathews, com lágrimas nos olhos.

"Podem entrar."

Lily olhou o seu irmão, quando a Sra. Jones se afastou, "Podes ir tu primeiro."

Alexander assentiu e suspirou alto antes de entrar no quarto de hospital. Lydia levantou, imediatamente, a cabeça, tão rápido que se sentiu tonta. Recuperou assim que olhou nos olhos azuis de Alec, agora mais perto.

De repente, ele não sabia mais o que dizer. Agora, ali, a olhá-la naquele estado, coberta de fios e tubos, assustou-se. Se ele encontrasse alguma forma de lhe roubar todo o sofrimento, então ele faria, sem hesitar. Que sentimento terrível, amar alguém e não ser capaz de ajudá-los, não é mesmo? Ele amava-a, sim. Mas dizer-lhe algo assim como se fosse a coisa mais feliz à face da terra, quando o facto de a amar era exatamente o porquê de Lydia se encontrar naquela cama. Quão egoísta poderia Alexander ser?

"Eu estou bem." Lydia quebrou o silêncio.

Ele abriu um leve sorriso, mas de preocupação, estranho, "Não te vou deixar sozinha."

As palavras haviam-lhe saído da boca de rajada, não pensou. Sabia que havia uma pequena possibilidade de lhe estar a mentir, mas também sabia que naquele momento precisava de o dizer porque Lydia precisava de o ouvir.

"O que foi, Alexander?" Jones estreitou os olhos.

"Nada." Ele sentou-se na beira da cama e agarrou-lhe a mão, "Só estou aliviado por ver-te acordada."

"Não te vais livrar de mim assim tão facilmente." Ela tentou rir.

Alec forçou uma risada.

"A minha mãe disse-me que a mataram, a vampira." Lydia comentou, "Eu sabia que conseguíamos resolver isto sem ter de fazer o que ela queria."

"Tu quase morreste." Ele olhou-a nos olhos, sério, "Não brinques com isto."

"Não estou."

"Sim, tu estás, Lydia." Alexander balançou a cabeça, "Isto não é uma brincadeira. Eu pensava que te ia perder!"

"Ei," A ruiva alcançou a face do vampiro, "Eu estou aqui, estou viva."

"Eu só não sei... o que faria se-."

"Shh." Lydia beijou-lhe os lábios com carinho, "Está tudo bem."

Quando ela se afastou, Alec continuava longe, pensativo. Ela procurou analisá-lo, mas, como sempre, ler os pensamentos dele era uma tarefa difícil. Diria quase que impossível.

"Diz-me, por favor." Ela pediu-lhe.

"Estava só a pensar." Ele disse enquanto os seus olhos se fechavam com força, a sua mão ainda a apertar a dela.

"Sobre?" Lydia perguntou, curiosa, enquanto admirava a face dele, como se ele fosse todo o universo.

"E se não é suposto nós estarmos juntos? Se, em algum tempo, aparece uma casualidade que vai destruir isto, nós. E se o universo já deixou suficientes sinais, como este, mas nós ignorámo-los porque estamos a forçar o que nós queremos."

Lydia franziu a testa, claramente nada contente com a teoria.

"Por favor!" Ela rolou os olhos, "Isso é algo que eu diria, não tu. Onde foste buscar isso?"

"É só que... tu és tão tu. Tão meiga e inocente e-."

"Tu estás tão errado, Alexander. Tão, mas tão errado. Não sou nada disso, nada. E tu vais perceber isso. Ainda estás cego pelo ideal que tens de mim, porque eu vou à Sopa dos Pobres e porque ajudo as pessoas." Lydia suspirou e endireitou a sua postura, "Mas acredita, não há nada de bonito em mim, já faz algum tempo."

Alexander não sabia o que dizer, estava ainda petrificado com as palavras de ambos.

"Mas queres estar comigo?" Jones perguntou.

"Claro." Ele deu-lhe um pequeno sorriso.

"Então para de inventar coisas. E se nós colidirmos com o que quer que seja a casualidade que vamos enfrentar? O que tem?" Ela encolheu os ombros, com um largo sorriso, "Eu ainda te iria querer com cada bocadinho que restasse de mim."

Alexander não resistiu e beijou-a. Conseguiu sentir cada gota de dor na boca dela, cada pinga de sangue, e era horrível. Lydia gemeu e ele afastou-se, num rápido movimento brusco.

A face da ruiva estava contorcida devido à dor, ela estava agarrada ao seu abdómen e, então, Alec percebeu que havia sido ele a magoá-la, mais uma vez, quando lhe havia envolvido a cintura.

"Desculpa-me." Ele acariciou-lhe a face, "Desculpa."

"Tudo bem," Lydia tentou sorrir através da dor, "Estou bem."

"Talvez eu devesse ir-me embora." Mathews baixou a cabeça.

"Não." Ela pressionou os seus lábios contra os dele, "Deixa-me fingir, por apenas um momento, que há um universo no qual tu e eu podemos estar juntos sem caos ou sofrimento, apenas nós."

"Eu não iria querer acabar com isso." Ele sorriu-lhe.

E abraçaram-se. Apenas se deixaram ficar ali, naquele universo inventado, abraçados, apenas a sentir o calor um ao outro. Os olhos fechados, e quase acreditaram, embora soubessem que bastava abri-los e tudo se voltaria a transformar na horrível realidade.

"Posso?" Lily estava, com um largo sorriso, encostada à umbreira da porta.

Ambos se separaram e Lydia rapidamente pediu para que a loira se aproximasse. Alexander levantou-se para dar o lugar à irmã, sabia que já havia roubado tempo suficiente da visita, e isso não era justo.

Ele deitou um último olhar à rapariga de cabelos vermelhos, um olhar preocupado e inseguro.

"Podes ir." Lydia assegurou-lhe, "Eu fico bem."

"Ok." Ele assentiu, "Vejo-te mais logo, Lily."

Olhou os olhos verdes mais uma vez à saída do quarto e só os largou quando se tornou impossível andar e olhá-la ao mesmo tempo. Sabia, no fundo, que com Lily ela estava segura.

"Bem, estás com um péssimo aspeto, devo dizer." A loira franziu o nariz.

Lydia revirou os olhos exageradamente, "Obrigada."

"Desculpa." A outra riu.

As feições de Lily tornaram-se sérias, analisou os ferimentos da rapariga, pelo menos aqueles que conseguia ver. A sua testa tinha um grande penso branco atravessado e o seu abdómen estava, totalmente, envolvido com faixas. Assemelhava-se a uma múmia.

"Estás bem?"

"Sim." Lydia ficou em silêncio por algum tempo e, só então, olhou a loira à sua frente, com uma expressão dolorosa, "Só dói quando ando e quando... respiro."

O coração de Lily partiu-se naquele momento, lágrimas formaram-se nos seus olhos azuis. Sentia-se triste e lisonjeada, afinal Lydia havia-se aberto para si e isso, de alguma forma, era algo semelhante a um elogio. Mas via o sofrimento dela, também. Lydia havia rido com Alexander, dito-lhe mentiras para ocultar a sua dor e Lily jurava nunca ter visto semelhante prova de amor.

Lydia sabia que não estava bem, todo o seu corpo lhe doía, o corte na sua testa ardia cada vez que abria um sorriso. Além de toda a dor física, ela sentia-se a desmoronar. Sentia saudades da Octavia, lembrava-se de quanto havia sido operada para retirar o apêndice e a sua melhor amiga lhe havia enchido o quarto de rosas brancas. Ela tinha resmungado, mas no fundo havia adorado o gesto. Fez o mesmo por Octavia quando a morena havia partido a perna.

"Tu podes dizer ao Alec, Lyds." Lily fungou, "Ele pode exagerar, mas podes dizer-lhe."

Ela não iria sujeitar Alexander à sua dor. Não seria o peso no tornozelo dele, se Lydia fosse ao fundo do poço não o arrastaria consigo.

"Não importa." E caiu-lhe uma lágrima.

Perante o desabafo da rapariga de cabelo vermelho, Lily acariciou-lhe a mão quente e suada. Aguentou as lágrimas nos olhos azuis pelo máximo de tempo que conseguiu.

"Quando dói tanto que não se pode respirar, é assim que sobrevives." Elogiou-a.

Lydia levantou o olhar, um insignificante sorriso rasgou os seus lábios, apertou-lhe a mão, também, e balançou a cabeça.

"Obrigada, Lily."

"Não me agradeças." A loira olhou-a e sentiu culpa, "Sério, não me agradeças."

Lily conhecia os pensamentos de Alexander, ouvira-o falar com Lydia sobre as suas teorias, ouvira-o também na outra noite. Conhecia os seus medos mais profundos, incluindo o medo de perder Lydia, não para a vida, mas para a morte. E sabia que ele ponderava deixá-la. E ali, a olhar a rapariga dos cabelos vermelhos, sentiu a futura dor dela. E era horrível.

"Vou deixar-te descansar." Levantou-se, "Põe-te boa para irmos caminhar, outra vez."

"Sim." Lydia assentiu, com um leve sorriso.

No corredor, Lily cruzou-se com um rapaz, era bonito, muito mais alto que ela. Percebeu dirigir-se para o quarto de Lydia, então voltou-se, ficou atenta.

"Jason." Jones colocou o seu melhor sorriso, "Entra."

A loira suspirou de alívio e voltou costas. Despediu-se da mãe de Lydia e encaminhou-se para a saída do hospital. Sabia que a rapariga estaria segura, afinal a vampira estava morta e, mesmo que não estivesse, dois agentes da PIP, um vampiro e uma humana, encontravam-se à porta do quarto.

Lydia sentia-se desconfortável com a presença dos agentes, mas estava demasiado entretida com o seu colega de trabalho, que era na verdade um amigo. Conheciam-se há demasiados anos para lhe chamar apenas um colega.

"Não acredito que quase-." Jason começou.

"Por favor, não digas." Ela pediu.

"Desculpa, Lyds." Ele suspirou, "Eu só... tive tanto medo."

"Eu sei." Jones assentiu, compreensiva.

"Tu és a minha melhor amiga. Lembraste de quando nos conhecemos? Tu tinhas seis anos, eu sete. Eu era o teu amiguinho estranho do outro lado da rua." Jason sorriu.

Lydia, então, continuou, "Sim, eu estava a escrever algo e tu entraste em minha casa porque a tua mãe tinha dito para chamares o meu... o meu pai."

"Sim, e depois eu vi-te na cozinha e pensei: ela é um anjo. E foi isso, eu estava rendido."

Ele largou uma risada que abafou o significado das suas palavras. Para sua sorte, Lydia riu também, não percebeu. Na verdade, ela nunca percebia.

"Um anjo." Jones continuou a rir.

O seu riso era diferente, diferente do riso que ela havia dado a Alexander. Esta era uma risada por cortesia, por simpatia. Não se sentia pronta para partilhar com Jason toda a dor que lhe haviam infligido, nos últimos tempos. Com Alec era uma forma de o poupar, era amor.

Jason ficou sério de repente, "Ele vê-te como um anjo, também?"

"Ele?" Lydia franziu a testa e, imediatamente, queixou-se com dor.

"Estás bem?" O rapaz preocupou-se.

"Sim, sim." Ela assentiu, e voltou ao assunto, "Ele quem?"

"O Alexander." Jason disse-lhe.

"Eu não sei." Jones encolheu os ombros.

"Onde estava ele?" Ele contorceu-se, "Onde estava ele quando tu foste atacada, uma e outra vez? Onde estava ele enquanto a Octavia morria nos teus braços? Onde-."

"Para!" Lydia arranjou forças para lhe gritar, "Apenas para! O que estás a fazer?"

"A abrir-te os olhos, Lyds!" Jason olhou-a nos olhos, "O Alexander é um vampiro. Tu estavas muito bem antes de ele aparecer na tua vida, todos nós estávamos. Olha para ti! Olha para o que ele te fez!"

"Para!" Ela encolheu-se nos lençois, e então olhou-o, "Ele salvou-me a vida. Ele salvou-me tantas vezes a vida que ela agora lhe pertence."

Os olhos do rapaz à sua frente arregalaram-se, ele estava perplexo com as palavras proferidas por Lydia. Não queria acreditar no que ouvia. Ambos se olharam. Jason não sabia o que dizer, o seu coração doía ao saber que Lydia, a rapariga que ele amava desde os seus sete anos, havia se entregue a um monstro. Havia-a perdido no sentido mais horrível da palavra.

"Eu não acho que tu entendas, Lyds." Jason tentou, "Eu não acho que entendas o quão importante és para pessoas que não ele."

"O quê?" Lydia olhou-o, tentava compreender o que ele lhe estava a dizer.

"Tu não existes num nada, ok?" Ele disse-lhe, "A tua importância não está relacionada com a dele, em nenhum sentido."

Os olhos verdes de Lydia estavam presos no seu amigo, estava petrificada com as palavras dele. Não compreendia, Jason não podia compreender tudo o que envolvia Alexander e Lydia porque ele não era nenhum deles os dois. Algumas vezes, nem mesmo ela entendia e, enfim, era ela. Eles eram algo fora do normal, verdade, mas ela tinha a certeza que existia uma Lydia sem Alec, só não tinha a certeza se era uma Lydia melhor.

"Sai."

"O quê?" Jason franziu a testa.

"Sai!" Lydia gritou-lhe.

Ele apenas ficou ali, a olhá-la. Lágrimas formaram-se nos seus olhos quando percebeu que, no fim, havia perdido Lydia de todas as formas possíveis. Era pior ainda saber que tudo o que queria era salvá-la e acabara por perder a sua amizade, o pouco dela que ainda era seu.

"O que se passa, querida?"

Amelia surgiu na porta do quarto, um olhar preocupado. Ficou confusa quando percebeu que só Jason e Lydia se encontravam no quarto de hospital.

"O Jason está de saída." Ela olhou-o com repugnância.

"Lydia-."

"Não!" Jones empurrou-lhe o peito, "SAI!"

Jason levantou-se, cambaleou até à porta. Quando levantou o olhar, uma lágrima escorreu-lhe pela bochecha. Amelia olhou-o com lamento, não havia ouvido a conversa, mas conhecia a filha que tinha, sabia o quão distraída Lydia era e que, muitas vezes, magoava as pessoas precisamente por causa disso. Sabia o quanto Jason a amava. E, infelizmente, também sabia que Lydia não o amava.

Quando o rapaz saiu do quarto, Lydia caiu em si. Lágrimas começaram a escorrer pela sua cara. Rapidamente, a sua mãe sentou-se ao seu lado, puxou-a para o seu colo, e embalou-a.

"Pronto, pronto." Amelia aconchegou-a.

A rapariga de cabelos vermelhos soluçou, não sabiamuito bem porque chorava. Qual seria a razão? Seria por ter perdido o seu melhoramigo naquela noite ou por saber que havia alguma verdade escondida nas palavrasdele? Muito provavelmente, ambas.