Amor Faminto

26 Capítulo 25: Presa


LYDIA

Lydia não havia parado de chorar, não sabia muito bem como ainda tinha lágrimas para chorar. Talvez o seu coração se estivesse a desfazer em água. O seu melhor, tudo o que ela poderia fazer por Octavia, não tinha sido o suficiente. No fundo, sabia que era culpa o que sentia. Todos lamentamos quando é demasiado tarde, não é mesmo? Mas desculpas não consertam nada, é apenas algo que usamos para nos sentirmos melhor.

Parou de chorar no dia do funeral. Sim, houve um. Quando morremos os nossos amigos e familiares ficam devastados, há um enterro e, por meses, as pessoas levam flores à campa. Mas então, superam. É essa a verdade, seguem em frente, esquecem-se que alguma vez existimos. E essa é também a verdade sobre a morte. Quando morremos, a história continua, as pessoas continuam. A vida continuava para todos eles, menos para Octavia.

"A minha avó costumava dizer-me que quando morremos, tornamo-nos estrelas, a olhar por aqueles que amamos, fazê-los felizes. Temos um objetivo."

"Obrigada, Lydia." A Sra. Cooper puxou-a para um abraço e chorou, "Obrigada por tudo, por tentares salvar a Octavia. Obrigada por ela não ter... morrido sozinha."

Afastaram-se, a ruiva queria gritar-lhes, aos pais desesperados e perdidos, que ela, a melhor amiga da sua filha morta, poderia ter feito mais. Pode-se sempre fazer mais.

"Vamos, querida?" Amelia aproximou-se.

"Obrigada." O Sr. Cooper repetiu a sua esposa, "Por tudo."

As Jones limitaram-se a assentir, nenhuma delas parecia saber o que dizer. Voltaram-lhe costas, os olhos verdes repararam nas pessoas que haviam ido ao funeral. Estava cheio com pessoas da escola que, muito provavelmente, nem sabiam quem estava dentro do caixão, exceto a Amber e a Malia, que choravam a um canto. Depois, viu os Mathews. Os Conselhos também estavam lá o que era engraçado, estavam no funeral, mas onde haviam estado enquanto Octavia morria nos braços de Lydia?

"Queres ir falar com ele?" A sua mãe olhou-a.

"Não." E voltou a andar.

Quando chegaram a casa, Lydia voltou a chorar. Amelia não podia fazer nada, apenas abraçá-la, embalá-la. Não que isso fosse resolver o problema da ruiva, o que ela realmente precisava era de esquecer. Esquecer aquela noite, esquecer tudo.

ALEXANDER

Alec queria sentir-se bem com o faco de não ter estado lá naquela noite, havia chegado demasiado tarde, tinha visto a mensagem demasiado tarde. Mas a verdade, era que ele não estava bem. Os últimos dias tinham sido horríveis. O instinto de Alexander dizia-lhe para deixá-la ir, que não a merecia. Havia-a visto no funeral, lembrava-se que ela era tão despreocupada e bonita, não que ela não estivesse bonita no funeral, mas estava em sofrimento. Alec conseguiu ver a dor de Lydia e era difícil saber que, parcialmente, havia sido culpa sua culpa.

A campainha tocou, todos olharam para porta de vidro, era Lydia. Ela estava encharcada, a chuva continuava a cair, e Ryan foi quem se levantou para a receber. Embora não o dissesse, Alec sabia que o irmão também se culpava, na verdade, todos se sentiam culpados.

"Ei." Ela tentou sorrir e falhou miseravelmente.

"Ei, Lyds." Ryan baixou um pouco a cabeça, "Lamento."

Alec sabia que o seu irmão não havia amado Octavia, mas sentira um carinho especial. Provavelmente, se não houvesse um fantasma que o assombrasse, o fantasma da Iris, ele poderia tê-la amado. E talvez, apenas talvez, as coisas teriam sido diferentes.

"Posso falar contigo, Alexander?" Os olhos verdes encararam-no, estavam vermelhos do choro, "Apenas... falar."

"Claro." Alec levantou-se, "Vamos para o meu quarto."

"Ok."

Lydia não se atreveu a olhar mais ninguém, apenas seguiu o rapaz. Subiram as escadas, que pareciam nunca mais acabar, e caminharam pelo longo corredor. Ele nunca a havia levado ao seu quarto, era estranho. Quando pararam em frente à porta do quarto, ele abriu-a e deixou-a entrar primeiro.

"É bonito." Foi a primeira coisa que lhe disse.

"Obrigada..." Ele sorriu.

A ruiva sentou-se na cama, não pediu autorização e, certamente, não o olhou. Ele não se importava. Sentou-se também, e olhou-a. Ela estava de rastos, parecia que estava à espera que a tristeza a matasse. O ambiente estava desconfortável, ficaram um momento em silêncio. Ela encarava o vazio e normalizava a sua respiração.

"Era uma mulher." Lydia começou, "Cabelo platinado, curtinho, era bonita."

"Conhece-la de algum lugar daqui?" Ele perguntou-lhe, com cautela.

"Não, nunca a tinha visto antes, mas foi ela que matou aquelas pessoas e atacou a... Octavia." Continuou, "Acho que ela está por detrás de tudo, para ser sincera."

"Ela disse-te o nome dela?" Alec arqueou as sobrancelhas, "Ou o que quer?"

"Quer que eu te magoe. Não importa como, apenas que eu te destrua." A ruiva disse-lhe e, então, olhou-o, "Eu estava..."

"O quê?"

"Tão assustada." Lydia fungou, "Eu não consegui fazer nada."

Alexander aproximou-se e abraçou-a, deixou-a chorar. Nunca a havia visto chorar daquela maneira, não assim, sem controle. Ela estava tão vulnerável.

"Diz-me só quando para de doer, por favor." Ela sussurrou-lhe.

Ele afastou-se e olhou-a nos olhos, "Um dia, vais ver."

"Prometes?" Jones disse, como que uma criança.

"Sim." Alec acariciou-lhe a face.

"Nunca senti tanta dor."

Foi apenas um sussurro no quarto, iluminado pela luz do entardecer. Mathews inclinou-se e pegou na mão de Lydia, acariciou-lhe os pequenos dedos com os seus, uma respiração trêmula escapou dos pulmões dela enquanto engolia com dificuldade.

"Eu não consigo-," Lydia quebrou.

Ela sabia que não tinha de continuar o que estava a dizer. Alec sabia. Ele sabia que ela estava a sofrer, e também sabia que tipo de dor essa era. Era familiar com essa dor, na verdade.

Alexander puxou-a para mais perto, sentiu o corpo de Lydia colidir com o seu, e envolveu-a completamente.

"Eu estou aqui," Ele prometeu, o nó na sua garganta demasiado grande para engolir, "Eu vou estar sempre aqui."

"Eu sei. Essa é a única razão porque eu ainda estou aqui."

"Juro-te, se eu pudesse secar-te as lágrimas e roubar-te a dor, eu fá-lo-ia, Lydia." Alec suspirou.

"Tu podes tentar." Ela engoliu, "Beija-me."

Talvez fosse possível tirar a dor de alguém como um beijo, oh como ele queria que isso fosse verdade. E por isso, beijou-a. As suas mãos envolveram-lhe a cintura e as delas agarraram-lhe o cabelo, com delicadeza. O beijo ficou mais quente, mais forte, ela puxava-o para perto com tanta intensidade que Alec podia jurar que Lydia o queria tanto quanto ele a queria. Não houve nenhum momento da sua existência em que quisesse alguém tanto quanto queria Lydia Jones, nem mesmo Evelyn.

A ruiva subiu para o seu colo, o que levou o corpo de Alec a cair para trás, foi amparado pelo colchão. Ela procurou a sua boca, outra vez.

"Eu preciso de ti, Alexander Mathews, eu preciso de tanto de ti."

Então ele notou, Lydia começou a chorar lágrimas quentes sobre a sua pele enquanto lhe beijava o pescoço e fungava suavemente. Era estranho ouvi-la dizer aquilo.

"Tu estás vulnerável, Lydia e-." Ele tentou pará-la.

"Eu sei o que quero." Jones olhou-o nos olhos, "Eu preciso que a dor pare, e tu és o único capaz disso. Por favor."

"Lydia, tens a certeza?" Alec afastou-lhe os cabelos vermelhos da face, "Tu já-."

"Eu já tive sexo, sim." Ela assentiu, "Mas não posso dizer que já fiz amor."

Ele olhou-a com devoção, os dois eram puro desejo. Os pensamentos traiçoeiros sumiram rapidamente. Tudo o que importava era a Lydia. Venerar o corpo dela. E amá-la. No final da noite, ele sentiu-se tentado. Quase disse eu amo-te quando sussurrou boa noite. Sentia a necessidade de o dizer, mas as palavras apenas não saíam.

LYDIA

Alexander deixou-a em casa na manhã seguinte, a sua mãe levou-a para dentro e sorriu para o rapaz, antes de fechar a porta.

"Pareces melhor." Amelia disse-lhe.

"Sim, eu precisava de falar ou ia... explodir." Ela gesticulou.

"Queres comer o pequeno almoço?" Perguntou.

"Não, obrigada. Não tenho fome."

Lydia subiu para o seu quarto, sentia-se exausta. A sua mãe poderia estar que ela estava melhor e a verdade é que estava, mas não estava curada. É como aquelas doenças chatas, que nunca desaparecem, mas melhoram. Tristeza era uma doença também.

Entrou dentro da cama e dormiu o resto da noite, era a única forma de se esquecer, afinal os calmantes não a deixavam ter pesadelos. Ignorou o seu telemóvel e a sua mãe, que se deslocou até ao quarto para ver como ela estava, provavelmente para ver se ainda estava viva.

No outro dia, levantou-se com alguma dificuldade e foi até à casa de banho, olhou-se ao espelho. Então, tirou as roupas e entrou dentro do duche, a água estava gelada e ela sentia-se gelada por dentro também. A água começou a confundir-se com as lágrimas e Lydia encolheu-se num canto, apenas a sentir a água cair-lhe no corpo.

"Lydia, querida, estás aí?" Não respondeu, então Amelia voltou a bater à porta, "Lydia? Vais à escola?"

"Sim." Disse, baixinho.

Desligou a água e saiu do duche, enrolou-se no toalhão e abriu a porta da casa de banho. A sua mãe ainda ali estava, esperava-a.

"Não tens de ir." Ela descruzou os braços, "Se não te sentes preparada..."

"Tenho de encarar o mundo um dia." Lydia encolheu os ombros, "Porque não hoje?"

Ambas saíram de casa juntas, o caminho para a escola foi sossegado, nenhuma das Jones falou. Amelia parou o carro e ambas se despediram. Todos pararam para a olhar, mostravam pena ou respeito. Lydia não queria nenhuma dessas coisas. Pena não traria a sua melhor amiga de volta e saber que estavam a mostrar respeito deixava-a maldisposta. Ela não havia fieito nada para merecer esse respeito. Nada.

"Ei, Lyds." Malia aproximou-se, "Como estás?"

"Como estás tu?" Ela desviou a pergunta.

"Oh, a superar." A sua amiga deu um sorriso fraco.

"Sim, todos estão."

Ouviu-se o toque e Mali foi obrigada a abandoná-la e, finalmente, todos os outros alunos que a olhavam dispersaram-se. Lydia também se dirigiu à sua aula de Biologia Aplicada, Sr. Styles já os esperava na sala e, rapidamente, iniciou a matéria. A cadeira ao seu lado estava vazia e ela levou o tempo todo a olhar para ela, com lágrimas nos olhos.

"Senhorita Jones."

A ruiva levantou a cabeça e fungou, "Sim?"

"Está bem? Precisa de um momento?" Sr. Styles perguntou, preocupado.

Lydia desviou o olhar para a sua direita, era Alexander. Ele olhava-a também e parecia pronto para a segurar, como se esperasse que ela se desmontasse ali mesmo.

Ela olhou de volta para o professor, "Eu estou ótima."

Não se incomodou a fazer mais perguntas, apenas continuou a aula. Todos parecem muito preocupados, mas é apenas isso... aparências, ninguém realmente se importa, só torcem para que digam sim, para que possam continuar com as suas vidas.

Depois veio a hora de almoço, Lydia limitou-se a sentar-se sozinha. Ninguém se atreveu a sentar-se ao lado da ruiva, talvez com medo do quão danificada ela poderia estar. Ninguém tinha a certeza. Bem, não ninguém, os Mathews sabiam e por isso, tomaram os lugares vazios.

"Ei." Wesley sorriu-lhe.

"Ei." Ela retribuiu, com a voz fraquinha.

"Parece que ainda ontem foi o Natal e estamos quase na Páscoa." Mark comentou.

"Sim, é verdade." Ryan tinha os braços cruzados e a cabeça baixa.

"Antes que percebamos... acabou." Alec assentiu.

Isso deixava-a triste, perceber que Octavia nunca teria a chance de se graduar, ou de sequer ver os enfeites de um novo Natal, deus, ela nem sequer teve o direito de chegar à Páscoa. Ela adorava os ovos de chocolate e, apesar de já não ser nenhuma criança, ela gostava das surpresas no interior. Octavia era uma lufada de ar fresco que, agora, se havia extinguido.

"Este tipo na minha aula de Inglês contou-me uma piada, querem ouvir?" Wes arqueou as sobrancelhas, "Prometo que é engraçada."

Mas não era, pelo menos não para Lydia. Quando se perde alguém, isso pode afetar tudo na vida. Aquela piada que deixou de fazer rir porque aquela pessoa não está ali para rir também. As músicas na playlist são apagas porque deixam de fazer sentido, sem a outra pessoa para gritar o lyrics. É estranho e doloroso.

"Bem, nós temos de ir."

Wesley e Mark levantaram-se, não disseram mais nada e apenas deixaram a mesa. Ryan começou a mexer-se desconfortável, Lydia conseguiu perceber que ele não a conseguia encarar, e então ele acabou por se ir embora também, com uma desculpa qualquer. Só restou Alexander.

"Eu sei que é difícil, Lydia." Ele inclinou-se, "Mas nós estamos a fazer o que podemos para encontrar o Ethan e a vampira."

"Ok."

"Tu tens de seguir em frente." Alec disse-lhe.

"Como?" Lydia olhou-o, em busca de ajuda, "Eu sinto-me presa!"

"É difícil, eu sei. É exaustivo e tu... vais sofrer." Ele agarrou-lhe a mão, "Mas tudo o que tens de fazer é continuar."

"Eu não sei como." A ruiva baixou a cabeça.

"Tu apenas... continuas." Mathews deu-lhe um pequeno sorriso, "Apenas lembra-te de atar os sapatos para não tropeçares no caminho."

"E se eu tropeçar?" Jones disse, esperançosa, "Não vais estar lá para me salvar?"

"Claro."

E, pela primeira vez, em dias, Lydia sorriu. Não era o seu sorriso normal, que ia de uma ponta a outra da cara e que lhe subia as bochechas de uma forma adorável, não. Mas era algo, era um começo, um sinal de que, sim, ela estava disposta a continuar, a seguir em frente. Afinal, como Amelia havia dito à sua filha, não vale a pena ter pena dos mortos. Não há nada que possamos fazer por eles. É triste, mas é a verdade.