Amor Faminto
21 Capítulo 20: Escuridão
LYDIA
Lydia carregava o tabuleiro com as duas mãos, tendo de recorrer às costas para abrir a porta do quarto. Estava escuro, parecia que a sua mãe ainda dormia. Ou então fingia.
"Mãe?" Nada.
Com cuidado e com a pouca luz vinda do corredor, pousou o tabuleiro em cima da mesinha de cabeceira e caminhou até à janela, afastou os cortinados, e abriu-a um pouco para deixar circular algum ar fresco. Quando se voltou, a sua mãe já a olhava.
"Fiz-te o pequeno almoço." Lydia apontou para o tabuleiro.
A sua mãe sorriu quando viu, e acabou por puxá-lo para o seu colo, logo após se sentar devidamente, ainda coberta pelos lençóis que a protegiam da brisa fria.
"Obrigada, querida."
Depois, a ruiva sentou-se ao lado da sua mãe na cama aconchegante.
"Eles mataram-no?"
"O Ethan? Não. Vão entregá-lo à PIP, provavelmente." Lydia respondeu. "Ou esperar que os membros do Conselho Vermelho venham, não sei."
"Lydia..." A sua mãe olhou-a com preocupação. "Como te meteste nisto?"
"Aconteceu." Ela encolheu os ombros. "As coisas acontecem por uma razão, certo?"
Amelia limitou-se a olhá-la, não emitiu um som. Nenhuma palavra, não se mexeu. Parecia estar a digerir tudo, o que parecia estar a resultar bem, pelo menos ela não estava a chorar. Era bom.
"Tu costumavas dizer isso." Lydia lembrou-a. "O pai foi-se embora por uma razão, tudo acontece por uma razão. Era o que dizias."
"Eu sei." Amelia então sorriu-lhe, pela primeira vez naquela manhã. "Os Mathews são boas pessoas... eles salvaram-te daquele... monstro."
"Mãe, não o chames isso." Ela engoliu em seco.
"Porque não? Esse Ethan atacou-te! Matou pessoas inocentes!" A sua mãe gritou-lhe. "Ele é-!"
"Mãe para!"
Amelia parou, olhou a sua filha perplexa, em confusão. Então, depois os seus olhos arregalaram-se, pareciam mais verdes do que nunca, a sua boca entreaberta. E Lydia sabia que ela se havia lembrado.
"Ethan." Repetiu quase que para si mesma e, só então, para a ruiva. "Tu falaste-me dele no outro dia. Disseste que ele me amava. Um... vampiro?"
"É uma longa história." Lydia disse-lhe, "para outro dia."
"Não!" Amelia gritou-lhe, "Eu sou a tua mãe! Acabam-se os segredos agora, Lydia! Tu foste atacada, podias ter morrido e nunca me disseste nada! Acabou! Eu sou tua mãe e tu deves-me a verdade!"
A ruiva nunca tinha visto a sua mãe tão chateada, nem mesmo quando ela tinha chegado a casa completamente drogada, com Octavia. Nem mesmo quando ela tinha tirado uma negativa a artes plásticas no sexto ano, não. Amelia nunca tinha levantado a sua voz daquela maneira, e ainda assim tinha desempenhado o seu papel de mãe na perfeição.
"O Ethan disse-me uma coisa..." Lydia respirou fundo e então continuou, "Sobre ti e o pai, e que ele te amava e depois o pai apareceu. Roubou-te. E tu pediste a algum vampiro para esquecer... tudo."
"O quê? Esquecer?" Amelia franziu a testa.
"Isso. Tu estavas lá." A sua filha explicou. "Tom Mathews diz que te conhece."
"O que estás a tentar dizer, Lydia?" A mulher olhou-a insegura.
"Ethan estava a dizer a verdade, mãe."
ALEXANDER
Alec tinha-a nos braços, no sentido mais literal possível. Ele estava ali, deitado na terra com o sol a bater-lhe nas pernas, e ela estava ali também, com as suas costas encostadas ao peito dele. Parecia um bom dia, exceto que Lydia estava pensativa, perdida algures na sua cabeça.
"O que foi?" Ele acabou por perguntar.
"Estou apenas a pensar." Jones respondeu.
"Sobre...?" Alec devolveu, curioso.
"É estúpido." Ela balançou a cabeça, "Não importa."
"Nunca é estúpido." Ele beijou-lhe o cabelo, "Eu adoro a forma como pensas."
Lydia riu, sabia bem ouvi-la rir. Saber que tinha a capacidade, não só de causar lágrimas e sofrimento, mas também alegria. Algo mais para além de morte e agonia.
"Eu contei à minha mãe." Jones contou-lhe, "Sobre o Ethan e o que ele... me disse. Tudo."
"E agora?"
"Não sei." Lydia encolheu os ombros. "Ela quer se lembrar. Talvez devêssemos deixá-la."
"Não sei se essa é a escolha certa." Ele disse-lhe, sincero.
A ruiva voltou-se um pouco, para o poder olhar. A primeira coisa que notou foram os olhos verdes, aqueles que lhe diziam tudo o que precisava de saber sobre ela, todo o sofrimento e felicidade. Eram lindos.
"Talvez nos possa ajudar, Alexander." Lembrou-o, "Que mal pode fazer?"
"Que bem pode fazer, Lydia?" Alec devolveu, "Nós já o apanhamos, não há nada mais que possamos fazer. Estás a salvo."
"Mas a minha mãe-."
"Ela teve uma razão para pedir aquilo ao meu pai. E ambos sabemos que não pode ter sido boa, vamos deixar o passado onde está. Enterrado." Ele suspirou, "Pelo melhor."
"O teu pai não sabe?" Jones arqueou as sobrancelhas, curiosa.
"Não. Ele disse que ela nunca lhe disse nada, só lhe implorou para que o fizesse." Alec respondeu-lhe. "Mas o meu pai disse que ela parecia... desesperada."
"Por um lado, eu quero saber." Ela confessou.
"Eu sei." Mathews acariciou-lhe a face, "Mas talvez seja assim que deva ser."
"Sim, talvez." Lydia respirou.
Então, ele olhou-a nos olhos mais uma vez, ainda envolvendo o pequeno corpo nos seus braços, protegia-o da aragem fria. Ela também o olhava, com um sorriso gigante nos lábios.
"Parece que estás à espera de alguma coisa, Lydia." Alec disse.
"Hm, que coincidência. Eu estou mesmo à espera de alguma coisa." Ela devolveu, os grandes olhos verdes a olhá-lo. "Beija-me, idiota."
E assim, os lábios de Alexander juntaram-se aos dela. Durante as seguintes duas horas, beijaram-se como se nunca se fossem ver outra vez.
LYDIA
"Onde estiveste?"
Lydia já estava à porta de casa antes mesmo da sua mãe entrar, de braços cruzados, com uma expressão preocupada no rosto. Ethan poderia estar na cave dos Mathews, mas ele não era o único vampiro que andava por ali.
"Estive com a Andrea Mathews," Amelia fechou a porta. "a fazer compras para o Natal."
"Espera, o quê?" Lydia franziu a testa.
"Não me digas que te esqueceste..." A sua mãe largou uma risada.
"Não." Ela sorriu.
"Eu sei, querida. Como poderias?" A outra piscou-lhe o olho.
Amelia passou pela sua filha, segurava um conjunto infindável de sacos e assim que entrou na cozinha pousou-os todos em cima da mesa de madeira. Começou a desempacotar as coisas, havia bacalhau, batatas, queijo, molhos de todos os tipos.
"Uou, vocês esmeraram-se mesmo." Lydia comentou.
"O que se passa aqui?"
As Jones voltaram-se com a melodiosa voz, era Octavia. Estava de pijama, afinal eram quase oito da noite, e os seus olhos estavam arregalados. Sim, ela quase que adorava tanto comida quanto adorava o seu gato Noir.
"Para o Natal em casa dos Mathews." Amelia respondeu-lhe, e riu.
"Também devias vir, O." Lydia disse-lhe, com um pequeno sorriso.
"Nah, o meu irmão vem de França e eu quero passar tempo com ele e, além disso..." Ela mordeu o lábio, enquanto se aproximava, "eu e o Ryan demos um tempo."
"O quê?" A ruiva olhou-a perplexa.
"Oh querida, lamento." A mãe de Lydia deu-lhe um sorriso triste e sincero.
"O que aconteceu?" A pequena Jones aproximou-se da outra.
"O Ryan não quer uma relação e eu acho que eu... quero." A sua melhor amiga suspirou, "Ele é demasiado bom para isso, certo?"
"Talvez ele vá mudar de ideias." Amelia interveio.
"Não, tudo bem. Talvez seja pelo melhor. Namorar com um vampiro... O que eu estava a pensar?" Octavia encolheu os ombros, "Raparigas como eu não acabam com rapazes como ele."
"O, não digas isso." Lydia balançou a cabeça.
"Não acabamos com ninguém, na verdade."
"Octavia, tu vais encontrar alguém, ok?" Ela agarrou a face da sua melhor amiga, "Alguém que te ama mais do que tudo, quase tanto quanto eu te amo a ti."
"Lyds." O sorriu-lhe, emocionada, "Eu também te amo."
"Quem quer lasanha??" Amelia olhou as raparigas, com um sorriso.
Octavia, então, arregaçou as mangas e caminhou para perto das embalagens, para ajudar com a preparação da refeição. Lydia limitou-se a olhá-las e a sorrir, e só depois se juntou ao duo. Este era um daqueles momentos que ela sabia que nunca ia esquecer, algo que não se percebem bem porquê, mas é inesquecível.
ALEXANDER
Alec desceu as escadas, estava escuro lá em baixo. A porta estava aberta atrás de si o que, de alguma forma, permitia a entrada de alguns raios de luz. Os suficientes, pelo menos. Mathews conseguiu identificar Ethan num canto, acorrentado à parede, parecia ter sido drenado de toda a cor que o fazia humano, vivo. Neste momento parecia mais um cadáver.
"Alexander."
"Aqui tens." Alec colocou o copo no chão.
Ethan não proferiu uma palavra, apenas agarrou no copo e emborcou-o. Deliciou-se com o conteúdo vermelho que estava, antes, dentro do plástico. O copo estava vazio em segundos, e quando acabou o vampiro lambeu os lábios, nem um vestígio de sangue sobrou.
"Bem, agora que estás alimentado talvez possamos conversar."
"Acho que não." Ethan disse-lhe.
Alexander ignorou-o e sentou-se à sua frente, pernas esticadas. Os seus olhares cruzaram-se, os olhos amarelados do outro pareciam vazios, nem um pequeno sinal de medo.
"Nenhum dos Conselhos vai aceitar essa resposta." Alec avisou-o.
Ethan riu. "Tens razão, vão executar-me."
"Não se te mostrares útil." Ele encolheu os ombros.
"Útil?" O outro franziu a testa, voltou a falar num tom sarcástico, "Eu acho que tens uma ideia errada do Conselho."
"Eles não me mataram." Mathews contou-lhe, "Eu matei uma humana."
"Certo."
"Olha, vamos tentar outra vez." Alec inclinou-se, "Eu sei que quiseste ser apanhado, de maneira alguma te terias exposto daquela maneira se não quisesses. Eu sei que há mais."
"Não, não há." Ethan desviou o olhar, "Tu ganhaste a Lydia, ela é tua. Toda tua."
"Isto não era só sobre a Lydia, era?"
"Sobre o que mais seria?" O outro arqueou as sobrancelhas.
"Não sei." Alec encolheu os ombros, "Isto é sobre a Amelia Jones?"
"Oh, caro amigo." Ethan suspirou, "Eu já curei a minha ridícula obsessão pelo amor há algum tempo. Nós éramos um romance no meio do oceano. Esse tipo de paixão em si é suficiente para uma existência."
"Então sobre o que é isto?" Ele olhou-o confuso, "Vingança?"
"Hm, talvez."
Alexander levantou-se, sabia que o vampiro não ia dizer mais nada. Não tinha mais nada a perder, a sua vida, ou o que que fosse que sobrava dela, já estava perdida.
"O que importa é que tu estás preso e os Conselhos estão a caminho." Alec disse-lhe, "E a Lydia pode dormir com a porta destrancada e a janela aberta."
Então, voltou-lhe as costas. Não era completamente verdade, os Mathews não tinham avisado a PIP, nem o Conselho Azul. Irião esperar pelo Theodore e Richard, Alycia aconselhou-os assim. O Conselho Azul iria querer a cabeça de Ethan, então, tecnicamente, estavam a salvá-lo. Não que merecesse, na verdade.
"Sabes, ela podia ser minha filha, devia ter sido." Ethan contou-lhe, isso fê-lo parar, "Isso não me faz menos interessado no seu bem-estar."
Mathews voltou-se e forçou uma risada, "Tu atacaste-a!"
"Sim, pois foi." Ele assentiu, e então olhou-os nos olhos azuis, "Protege-a, Alexander."
"De ti? O trabalho está feito." Alec deu-lhe um sorriso irónico.
"De mim, sim." Ethan então puxou o outro pelo casaco e aproximou-se do ouvido dele e murmurou, "E dos outros. Mais estão a caminho."
Alexander afastou-se o suficiente para olhar o vampiro nos olhos, os seus estavam arregalados e os dele desesperados. Não havia visto Ethan com tanto medo, desde que o apanhara, quanto naquele momento. E isso atribuía alguma veracidade à sua afirmação.
Ele engoliu em seco, "Do que estás a falar?"
"Não sou o único, Alexander." Ethan olhou à volta, parecia aterrorizado, "Uma guerra está por vir. Eles vêm pela tua família."
"Alec!!"
O vampiro soltou-o num movimento brusco, e ele conseguiu equilibrar-se. Ainda perplexo e sem saber muito bem o que dizer, voltou-se para a saída da cave.
"O que estás a fazer aqui?" Lily desceu as escadas, "Está tudo bem? Parece que viste um fantasma."
"Não sei." Alec balançou a cabeça ofegante.
Ambos os Mathews se voltaram para olhar Ethan que lhes devolveu um olhar abatido, parecia derrotado. Desesperança era notável.
"Cuidado, rapaz." Ele então olhava as suas mãos, "Porque a escuridão está a caminho por todos nós."
Lily olhou confusa o seu irmão, ele estava igualmente desorientado. Não tinha uma resposta para o que acabara de ouvir, nem entendia. Ou simplesmente não queria.
"Vamos, Alec." A loira puxou-o consigo.
Quando fecharam a porta da cave, suspiraram. Acharam, por uns momentos, que fechar Ethan à chave significava que conseguiam impedir a escuridão, mas arrancar-lhe as palavras não era provar que era mentira, apenas queria dizer que temiam a verdade. E temiam.
"O que raio foi aquilo?" Lily falou pela primeira vez, em alguns minutos.
"Não sei, Lily." Alec olhou-a então, "Mas acho que a guerra está aí."
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