Notas iniciais
Não, eu não morri (apesar de apostar que tem gente com vontade de me matar por ficar demorando tanto). Desculpem-me pela demora, sei que faz muito tempo que não posto. É que andei enrolada com a escola e mais um monte de coisas, agora que estou de férias vou tentar postar mais. Acho melhor eu parar de tagarelar e deixar vocês lerem logo esse capítulo.

Ela sentia o sangue se esvaindo de seu corpo, mas a vida se recusava a deixá-la. Samantha trincou os dentes. Não iria chorar, não daquela vez. Galadriel ainda estava lá com o sorriso irônico e o olhar ensandecido. Há muito tempo ela não o via daquela maneira.

- Eu disse que os sábados eram meus não disse querida? Mas você nunca me escuta... — a voz dele era fria e controlada. — Lembra da primeira vez que eu te avisei que coisas ruins aconteceriam e pessoas começariam a morrer? Mas você não acreditou, não até ver com os próprios olhos... Você se lembra? Lembra dele engasgando com o próprio sangue? Lembra do desespero em seus olhos naquele momento derradeiro? Lembra?

Samantha sabia o que ele estava fazendo, conhecia aquela tortura mental, lenta e enlouquecedora, mas não poderia deixar de se lembrar...

*****

Dia 2

A garota acordou cedo naquela manhã. O sono fora agitado e ela não dormira bem. Era sábado, portanto não tinha nada para fazer aquela hora, por isso ficou simplesmente enrolando na cama.

As imagens do pesadelo da noite anterior ainda estavam presas em sua mente, mas não fazia mais sentido do que fizera enquanto ela sonhava. Tudo não passava de um borrão de imagens e dela gritando desesperadamente por aqueles que amava, mas nenhum deles atendia ao chamado, não importava quão alto ela gritasse. A sensação de desespero ainda estava ali.

E ainda havia a figura misteriosa que aparecera no quarto dela um dia antes, aquilo a deixara inquieta. O que significava afinal? Estaria ela ficando maluca?

É só estresse, nada demais. ela decidiu se levantando da cama.

Samantha tentou se distrair lendo, fazendo bolo ou ajudando a mãe. Até que finalmente chegou a hora de se arrumar, iria ao shopping encontrar Pedro, seu namorado. Isso com certeza a animaria, ele a fazia bem.

Chegou em frente a bilheteria lá estava ele, cabelos claro e cacheados caindo sobre os olhos, alto com ombros largos. Usava jeans, camiseta e tênis como sempre. Quando a viu seu rosto se iluminou com um sorriso.

— Estava com saudades. — disse ele puxando-a para um beijo.

— Você me viu ontem!

— O que posso fazer? Sou um romântico incorrigível.

— Meloso.

— Coração de pedra.

Ela sorriu. Nem se lembrava mais dos pesadelos ou do estranho em seu quarto no dia anterior. Mas não deveria ter esquecido.

Eles tomaram sorvete, conversaram, riram e se beijaram. Felicidade... sentimento passageiro fadado a se transformar em cinzas, pra sempre perdida nos horrores de nosso mundo e nos delírios da doentia mente humana.

Samantha e Pedro andavam despreocupadamente pelo shopping quando ouviram a gritaria. Ao olharem para o lado perceberam a agitação e as pessoas correndo, Samantha entendeu mais rápido o que estava acontecendo e tentou puxar Pedro, mas já era tarde demais.

Os assaltantes, um alto e musculoso e o outro menor e um pouco magrelo, ambos com o rosto coberto, tinham conseguido abrir caminho pela multidão, mas os seguranças já estavam em seu encalço e por um instante ela acreditou que eles conseguiriam pegar os dois e tudo estaria acabado, mas esse instante acabou e ela sentiu um puxão em sua cintura e o cano frio da arma em sua têmpora esquerda.

— Ninguém se mexe! — gritou o maior dos dois com uma voz anasalada.

Os seguranças pararam de correr e ela sentiu seus músculos virarem geleia com o medo. A única coisa que conseguiu distinguir no meio da multidão foi o rosto de Pedro, tomado pelo terror.

Os dois começaram a puxá-la para fora do shopping ainda a ameaçando com a arma. Chegaram ao estacionamento e não a largaram como ela torcia para que fizessem.

— Você vem com a gente lindinha. — sussurrou um deles ao seu ouvido.

Então ela escutou o som de uma pancada e os dedos que a apertavam afrouxaram, ela aproveitou a oportunidade para dar uma cotovelada nas costelas de quem a segurava e escutou o som da arma caindo no chão. Antes que pudesse começar a correr sentiu um pontapé que a derrubou no chão.

Samantha sentiu uma mão puxando o seu braço e com alívio percebeu que era Pedro, mas antes que ele terminasse de colocá-la de pé uma mão comprida fina agarrou seu cabelo, seus belos cachos dourados e o puxou para trás.

— SAMANTHA! — ele gritou, a última coisa que ele teve tempo de gritar

A garota jamais se esqueceria: a mão clara, comprida e fina; o brilho do canivete aberto e afiado; os olhos brilhantes e maldosos daquele que segurava a lâmina;o corpo de Pedro se debatendo desesperadamente, e o sangue, o sangue vermelho, escuro e infindável escorrendo rápido do grande corte na garganta.

— NÃO!- ela gritou tarde demais.

Samantha cambaleou até ele e se ajoelhou ao seu lado, chegando mais perto e sentindo o sangue manchá-la. Ele ainda se debatia como um peixe fora d'agua, mas já estava perdendo a força. O olhar em seu rosto era assustado e os olhos estavam arregalados. Ele morria e ela chorava.

Os seguranças chegaram ao estacionamento assim como a multidão de curiosos e encontraram um garoto morto e uma garota despedaçada.

Então Samantha escutou uma voz alta e clara, uma voz que só ela conseguiu ouvir, e a reconheceu imediatamente. A voz dizia: Eu avisei querida.

*****

Ás lágrimas desciam descontroladamente pelo seu rosto. Droga. Ela jurara não chorar dessa vez.

— Vejo que você se lembra perfeitamente. — ele teve a ousadia de rir na cara dela.

— Por que não me mata logo seu monstro?

— E que graça teria? O que é um monstro sem uma criança pequena e assustada pra brincar?

— Tudo bem. — disse ela enxugando as lágrimas e se deixando cair de vez no chão do quarto. — Brinque com uma criança exaurida.

— Por quê sempre tem que ser tão difícil com você?- suspirou ele.

Então ela sentiu a cabeça pesando como se estivesse com muito sono e soube que os pesadelos viriam. Mas não foram nada além do normal, apesar de parecerem diferentes. Então ela acordou, mas não estava chorando dessa vez, nem Galadriel estava lá.

Estava prestes a voltar a dormir quando viu uma forma escura apoiada na parede do quarto. Era Galadriel, sem aparência de cadáver desta vez.

Samantha se levantou e andou o mais silenciosamente possível para perto dele, reparando pela primeira vez no abdome perfeitamente definido a mostra.

— Não se pode matar alguém que já está morto. — Galadriel olha na direção dela, mas seu olha a atravessa, como se ele não notasse a presença dela. — Não sinto dor, fome, tristeza, amor ou nenhuma outra miséria humana. Não envelheço. Nem mesmo a mulher mais bonita poderia partir o meu coração. Nem mesmo o homem mais forte poderia me vencer em uma luta. Por tudo isso deveria se a criatura mais feliz neste planeta insano, pois não é isso que a vaga imaginação humana sonha desde os primórdios do tempo? A solução de todas a sua miséria, dor e desamor. Vou te dizer como é a solução de tudo isso: um corpo vazio, um zumbi andante sem alma. Não sinto nada, vivo em um topor enlouquecedor, nem mesmo a mais afiada faca ao penetrar a minha pele causa algum tipo de reação.

Foi então que ela notou a faca grande e cheia de entalhes cortando a pele dele repetidas vezes e em diferentes lugares, mal a pele era cortada, já estava cicatrizada, restando apenas uma fina linha rosa que logo desaparecia. Uma raiva há muito acumulada tomou conta dela.

— Você acha que tem qualquer direito de sentir pena de si mesmo? — ela gritava tão alto que sua garganta doía. — Depois de todas as vidas que você arruinou, depois de tudo você destruiu, das mentes que enlouqueceu, acha que tem algum direito de se lamentar? De achar que merece algum tipo de solidariedade de qualquer um? Nem mesmo a mais patética das criaturas mostraria qualquer compaixão por você. Esse vazio que você sente é a destruição que causou nos outros e agora reflete em você mesmo. Nada mais que o merecido.

Galadriel a olhou surpreso como se estivesse notando pela primeira vez a sua presença. Samantha aproveita o momento de distração e toma a faca da mão dele enterrando-a com força em seu abdome definido. Não que ela esperasse qualquer efeito, apenas queria descontar a raiva.

Então algo inesperado aconteceu: Galadriel deu um grito de dor enquanto puxava a faca para fora de sua barriga. Samantha o olhava estupefata enquanto via o sangue jorrar de sua barriga.

— O que você fez?!- a expressão dele estava cheia de raiva, mas ele não conseguia esconder a dor.

— E-eu não sei!- ela ainda não entendia... Como aquilo acontecera?

Galadriel se apoiou na parede com cara de quem parecia prestes a desmaiar. Samantha ainda não entendia o que acontecia só conseguia ver o sangue escorrendo do corte grande e fundo.

— Você não pode ficar aí assim. — decidiu ela subitamente passando a mão pela cintura dele.

— Vai cuidar de mim querida?- ele tentou fazer piada enquanto se apoiava nela para chegar até a cama.

— Não vai se acostumando.

Samantha entrou no modo automático. Deitou- o na cama, pegou a caixa de primeiros socorros que todo aluno deveria ter em seu próprio quarto, ela nunca achou que seria útil até aquele momento. Limpou a ferida e a cobriu o melhor que pode fazendo um curativo desajeitado.

— Acho que já estou melhorando. — observa ele depois de um tempo. — Até de manhã deve estar melhor, só não sei porque está demorando tanto pra curar desta vez.

— São as misérias humanas. — brinca ela. — Acho que você não vai sair da minha cama até amanhã de manhã não é?

— E perder a chance de ver você tentar se espremer comigo aqui? De jeito nenhum. — o sorriso dele é diabólico.

— Você sabe que eu te odeio não sabe?

— Com certeza. — ele ri, um riso mais leve dessa vez.

Ela se espreme ao lado dele na estreita cama de solteiro. Porque com ele é assim um ódio profundo e irrevogável emaranhado com outro sentimento ao qual ela não sabe dar nome, algo profundo e enraizado dentro dela. O misto de emoção entre os dois é algo tão antinatural e contraditório que nem eles sabem como se comportar. Uma tristeza tão profunda que esconde uma alegria fácil e simples. Um caminho tortuoso e cheio de acidentes pelo caminho, escondido nas sombras levando á algum lugar que nenhum deles é capaz de ver.

Samantha olha pra ele e percebe que apesar de tentar esconder ele sente dor apertando os olhos com força e com os músculos tensionados para não deixar escapar nenhum ruído que demonstre fraqueza.

— Eu me esqueci como era isso... como era sentir dor... — ele sussurra.

— Não se preocupe querido. — ela diz enquanto beija a testa dele. — Foi só um sonho ruim.

Notas finais
Obrigada pela leitura *-*
-Leiam também Liberdade Morta e Nightmare Whispers
- Até a próxima
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.