–Lá vem ele de novo. Esse cara não desiste mesmo não é? — Galadriel tinha um sorriso irônico nos lábios. Naquela sexta-feira ele aparecera cedo e com sua aparência normal, o que era estranho. Na verdade, ele vinha se comportando de modo diferente desde que Rafael aparecera, notara Samantha, o humor de Galadriel estava completamente imprevisível, por vezes ele parecia furioso com algo e a atormentava de todos os modos possíveis, mas em outras parecia de tão bom humor que limitava-se a fazer-lhe companhia ao longo do dia quase como um amigo, ela não fazia a menor ideia do que estava acontecendo. — Dessa vez irei assistir a conversa, ou melhor, a discussão. Vocês mortais podem ser divertidos as vezes…

Dizendo isso Galadriel mudou de lugar deixando o assento á frente de Samantha livre, ele sabia que Rafael sentaria ali.

– Bom dia. — a voz dele era amigável e calorosa como sempre.

Ela o encara de modo hostil.

– Você não vai desistir?

Samantha estava espantada com a determinação do garoto, desde que trombara com ela no corredor ele tentava se aproximar dela de todas as maneiras possíveis. Não importava o quanto ela fosse hostil e mal educada, ele sempre voltava sorrindo no outro dia.

– Por quê deveria?- perguntou ele ainda sorrindo.

–Por quê não?- devolveu ela.

Rafael parecia não ter resposta para isso e Galadriel deleitava-se com a derrota dele, ria do quanto era fraco e deixava que Samantha o atingisse com tamanha facilidade. “Idiota”, pensou ele, “não importa o quanto tente, ela já é minha, não pode mais ser salva.”

Samantha terminou o copo de suco e levantou-se, satisfeita por ter conseguido calá-lo, apesar da pontada de medo de ele não voltar mais, um medo tão primtivo e idiota que ela simplesmente ignorou, não se permitia mais a esse tipo de infantilidade. Ela saiu do refeitório com um passo rápido e firme.

– Você está ficando boa nisso docinho. — Galadriel ria enquanto andava ao lado dela.

Ela voltou ao dormitório, terminou de se arrumar, pegou a mochila e saiu do quarto lentamente, caminhando para a primeira aula com o mesmo desânimo de costume.

Enquanto caminhava via os mesmos rostos sem vida de todas as manhãs. O Internato Portbelle não era um lugar alegre ou acolhedor, todos ali eram filhos de pessoas influentes e ricas, a mensalidade do lugar não era pra qualquer um, mas o que todos tinham de mais próximo não tinha nada a ver com a conta bancária, todos sem excessão tinha problemas com os pais ou a família em geral, todos estavam ali porque ninguém mais conseguia lidar com eles. Problemas psicológicos era o que não faltava, entre os mais comuns estavam TDAH e depressão, havia inúmeras orientadoras e psicológas, tantas que tinham um prédio apenas para elas, onde ficavam seus consultórios e as salas de “recuperação alternativa”. O internato era um depósito de crianças problemáticas.

Enquanto caminhava pelo corredor se misturando a multidão ela sentiu um puxão no ombro. Quando se virou, viu Rafael a encarando, ele a segurou pelos ombros e olhou dentro de seus olhos:

– Eu não vou desistir. Uma hora você vai ter que me dar uma chance. Olha, amanhã a atividade extra vai ser o festival do pessoal de arte e o almoço vai ser um grande pique-nique. Me encontre 9h30 na porta do anfiteatro. Por favor. Tudo o que eu peço é uma chance.

O olhar dele parecia derrete-la de dentro pra fora, ela estava quase se esquecendo de ser mal educada, quando o bom senso lhe retornou a mente.

– Olha aqui… — sua voz era rude e ela não teria parado se não tivesse visto Galadriel com o canto dos olhos. Ele sorria, mas não era o seu sorriso irônico comum, era um sorriso de satisfação, como se ela estivesse fazendo exatamente o que ele queria. Isso a fez mudar de ideia. — Na verdade… eu não ia fazer nada amanhã mesmo… E como você não desiste, bom, acho que te dar uma chance não vai fazer mal…

Ela tentou sorrir de modo sincero, o melhor que conseguiu, passara tanto tempo sendo rude e afastando todos que estava esquecendo como se comportar, como agir, como ser humana. Apesar da tentativa esfarrapada, o resultado foi positivo. Rafael deu um largo sorriso e disse:

– Combinado então olhos azuis.

Ela ia reclamar do apelido, mas não teve tempo, ele desapareceu no meio da multidão e ela resolveu fazer o mesmo, mas antes de qualquer movimento ela reparou da expressão de Galadriel: surpresa, raiva, frustração. Tudo se misturava na mesma expressão. Ela sorriu em triunfo.

As aulas da manhã se arrastaram como sempre, o almoço não teve nada fora do comum, a tarde a aula extra era de latim. Rafael não veio mais atrás dela, ela o viu apenas uma vez conversando animadamente com a mesma garota de cabelos cacheados de antes.

Galadriel desaparecera depois da cena no corredor e ela não voltara a vê-lo. O dia terminou sem novidades e ela foi dormir com a mente inquieta, pensando em como seria o dia seguinte.

A mente não a deixou dormir mais uma vez, acusações e mortes se seguiam sem descanso, até que ela acordou chorando como de costume. Não pensou que Galdriel estaria lá, mas ele estava, e dessa vez quando a abraçou sussurrou:

– Ele nunca poderá fazer isso, ele nunca entenderá. Você tem apenas a mim e sabe disso, por isso desistirá do encontro idiota amnhã.

Na manhã seguinte ela acordou surpeendentemente bem e mal podia esperar para encontrar Rafael, estava curiosa para saber algo mais sobre ele, mesmo que não admitisse ele a intrigava. Tomou um banho, colocou o jeans mais claro que tinha (um azul escuro) e encontrou no fundo da gaveta uma camiseta vermelha, um resto dos dias de cor, conseguiu até mesmo encontrar o gloss que Alice lhe dera certa vez, único motivo pelo qual o havia guardado.

Se arrumou e olhou no espelho como há muito não fazia, mal se reconheceu, tinha um pouco de luz no olhar, um pouco de luz que a assustava depois de tanto tempo na escuridão. Estava prestes a sair quando Galadriel apareceu com duas sacolas na mão.

– Onde você vai? — ele a olhava de cima a baixo, sem esconder a expressão de espanto, fazia muito tempo que não a via daquela maneira.

– Você sabe aonde eu vou. — respondeu ela firme.

– Mas é sábado. — insistiu ele.

– E?

– Os sábados são meus.

– Não mais. — diz ela saindo pela porta.