Notas iniciais
Bom, esse é o primeiro capítulo, espero que gostem...

Dia 543

Abriu os olhos e viu o teto branco e as paredes cor de creme de seu pequeno quarto no internato Portbelle. O quarto contava com uma cama de solteiro encostada na parede esquerda, de frente para a porta, um tapete cinza ao lado da cama, uma cômoda com seis gavetas que ficava no canto direito do quarto e embaixo da janela branca havia uma escrivaninha e uma cadeira. Todos os móveis eram cor marfim. Ao lado da cômoda havia uma porta que dava para um banheiro pequeno. Não havia pôsteres nas paredes, nem porta-retratos na cômoda, nenhum objeto pessoal, nada que indicasse que aquele espaço fosse dela, a única coisa que havia era um caderno onde ela contava os dias. Já haviam se passado 543 desde que o tormento começara.

Abriu uma das gavetas da cômoda, pegou um jeans escuro, uma camiseta bege e o costumeiro moletom preto. Era sábado, o que significava que não teria que usar o ridículo uniforme da escola, significava também que não precisaria fazer nenhuma atividade obrigatória. Aos sábados e domingos sempre haviam eventos ou atividades diferentes na escola, mas nada era obrigatório, desde que você não se metesse em problemas.

Tomou um banho, se vestiu, calçou os coturnos, pegou o mp3, colocou os fones de ouvido e aumentou o volume no último. Sentou-se na cadeira esperando.

Escutou o barulho de tiros e um corpo apareceu no tapete ao lado da cama. Ela fechou os olhos, mas sabia exatamente cada traço do cadáver. Era um garoto alto, pele muito branca, magrelo, olhos castanho muito escuro, cabelo castanho claro. Usava jeans pretos, camiseta branca e tênis. Mas a camiseta não era mais branca, sangue saía de uma ferida aberta em seu peito manchando-a. O rosto com belos traços tinha um longo corte na diagonal acima da sobrancelha direita que brilhava com sangue viscoso e vermelho. Aquele costumava ser seu melhor amigo.

Ela abriu os olhos e o cadáver estava em pé ao seu lado.

- Bom dia, querida. – disse ele sorrindo, como se tivesse acabado de ouvir uma piada.

- Está atrasado. – disse ela em um tom de voz vazio.

- Você quem acordou cedo demais docinho, o que foi? Tendo sonhos ruins?

- Você sabe quais são.

- Ah… Mas é claro que eu sei… Escuto seus gritos todas as noites e quando você acorda desesperada eu sou o único que está aqui para te abraçar e dizer que vai ficar tudo bem. Não é com isso que todas as garotas sonham? Você deveria se sentir sortuda. – enquanto dizia isso a mancha em sua camiseta ia aumentando e o corte no rosto escorria sangue, manchando seu sorriso irônico.

- Ah, mas é claro que eu me sinto sortuda, o que seria de mim sem você? – a ironia já era natural.

- Com certeza ainda seria aquela garotinha assustada e sem graça, mas olhe para você agora, a escuridão a deixou forte, a dor endureceu você, agora você sabe cuidar de si mesma. Até mesmo lhe ensinei a lutar… Lembra quando te atacaram na noite que você fugiu e você deixou todos eles sangrando?

Ela se lembrava. Havia sido no 328o dia. Ela ainda morava com os pais.

*****

Já faziam 62 dias que ele a ensinava a lutar. Naquele dia os pesadelos haviam sido piores do que de costume e quando ele apareceu naquela manhã sangrando e cheio de machucados com a aparência do primo que havia sido espancado até a morte, aquilo foi demais pra ela, ela simplesmente saiu cedo de casa e não voltou mais, andava pelas ruas com os fones no último, tentando fugir, mas ele parecia gostar ainda mais do jogo, aparecia do nada atrás de pessoas e de vitrines no centro, emitia gritos de dor que a música não abafava e chegava perto o bastante para que ela pudesse sentir o cheiro de sangue.

Eram mais de onze horas da noite e as ruas estavam desertas. Estava frio, ela levantara o capuz do moletom para tentar barrar o vento. Foi então que eles apareceram. Eram três. Pareciam magrelos, mas ela sabia que aquilo não era sinônimo de fraqueza.

- Está perdida docinho? Quer ajuda para achar o caminho pra casa?- disse aquele que aprecia ser o mais velho, os outros dois riram e puxaram as facas.

Ela estava cercada, eles se aproximavam cada vez mais, fechando o círculo. Um deles se aproximou mais que os outros, abriu o moletom dela, puxou o capuz e encostou a faca sobre a fina camiseta.

- Nós iremos cortá-la todinha a não ser que tenha algo de interessante nos oferecer. – sussurrou ele e ela sentiu o bafo de bebida.

Ele empurrou ainda mais a faca e ela sentiu o sangue escorrendo. Nessa hora alguma coisa despertou nela e nunca soube como, mas aplicou tudo o que havia aprendido e quando terminou os três estavam gemendo e sangrando.

- Odeio que mexam no meu moletom. – disse por fim e saiu andando como se aquilo fosse um acontecimento corriqueiro.

*****

-Diga a verdade, a sua vida era bem sem graça antes de mim. – a voz de Galadriel a despertou de seus devaneios.

- Com toda certeza. – respondeu Samantha cansada, eles faziam aquilo todos os sábados, ficavam relembrando o passado como velhos amigos. Ela nunca saía do quarto aos sábados, preferia ficar com ele sozinha onde podia contê-lo do que no meio da multidão onde ele adorava dar um show e brincar com ela.

- Você ainda se lembra como tudo começou?

- É claro que me lembro.

*****

Fazia algum tempo que ela vinha vendo-o, de relance, no meio de multidão, ele aparecia e sumia, ninguém mais o via, chegou a se perguntar se não estava ficando louca. Ainda não começara a contar os dias, mas começaria naquele.

Era uma sexta-feira como qualquer outra, chegara da escola e almoçara. Depois de tomar um banho deitou na cama e pegou um livro pra ler, foi quando ele apareceu.

- Olá querida. – havia um riso incontido na sua voz, como se toda a situação fosse engraçada. Naquele primeiro dia ele não apareceu como um cadáver. Era alto, tinha as costas largas e a pele levemente bronzeada, os olhos eram de um azul tempestuoso, beirando o negro, ela nunca havia visto aquela cor de olhos, o cabelo castanho escuro com pontos mais claros era bagunçado, como se ele não penteasse a meses, mas ainda sim era bonito.

- Quem é você?- sobressaltou-se ela.

- Fale mais baixo amorzinho, você já deve ter percebido que ninguém além de você pode me ver e não queremos que ninguém pense que você é maluca não é mesmo?

- Quem é você? Qual o seu nome? O que você quer? Como entrou aqui?- ela continuou firme.

- Sempre as mesmas perguntas… – suspirou ele. – Vocês mortais poderiam ser um pouco mais criativos não acha?

- Responda. – dessa vez ela teve que se esforçar para manter a voz firme, havia algo de assustador nele, como se algo obscuro lutasse para se libertar.

- Me chame de Galadriel e minha função é basicamente atormentar a sua vida. E foi fácil entrar aqui, pois como eu disse só você pode me ver.

- Você não pode fazer isso. Saia.

- Não. – dessa vez a voz dele estava firme e grossa, nenhum sinal de riso, tinha algo assustador e sombrio ali. – Você foi escolhida, não há como escapar. As pessoas a sua volta começarão a morrer, todos aqueles com quem você mais se importa terão fins horríveis e você verá todos eles e eu não a deixarei esquecer nenhum. Serei seu lembrete diário de que eles morreram por sua casa. Serei o único que jamais lhe abandonarei.

Ela estava assustada, não queria acreditar, mas havia algo de verdadeiro e sombrio nas palavras dele, algo que a atingiu profundamente. Lágrimas escorriam por sua face e ela tremia, mas ainda sim encontrou forças para perguntar:

- Vo-Você é um demônio?

- Pode chamar assim se quiser docinho, sou todo seu agora. – o riso estava de volta a sua voz.

- Por quê? – dessa vez sua voz era mais firme, ela sempre foi forte, ele não a abalaria.

- Por que eu escolhi você. – e com isso ele desapareceu.

*****

- Ainda me lembro como se fosse hoje, você deitada na cama com aqueles shortinhos curtos e uma camiseta laranja, você gostava de cor naquela época, seu cabelo incrivelmente negro contrastava com essa sua pele de cera e esses seus olhos azuis ficaram arregalados quando me viram… Ah, você costumava ser bonita. – suspirou Galadriel enquanto o sangue ainda escorria pelo seu corpo. – Mas agora minha querida, você tem algo mais, essas marcas embaixo dos seus olhos e o fato de você estar tão magra que parece que vai quebrar, mas ainda sim conseguir bater em qualquer um que se engrace com você… Isso a torna especial, eu a fiz especial…

- Você adora se vangloriar não é mesmo? Acha que foi só você que me transformou em um monstro?

- É claro que não minha querida, você já era um antes mesmo de me conhecer, ou pensa que eu não sei que tudo na sua vida era falso, pensa que eu não sei que você ensaiava sorrisos e acenos no espelho desde pequena? Como uma cobra bem treinada… Você fez todos amarem você…

- Eu também os amava. – gritou ela.

- Amava? Ou isso é apenas culpa? Seja sincera. Você é como eu, sempre foi.

- Nunca!

- Sabe, eu já atormentei muitas vidas, já enlouqueci muitos, já vi muitos cometerem suicídio, mas você foi a única que me aceitou de bom grado, a única que se acostumou comigo, a única que parou para bater papo, admita, no fundo você gostou que eu tivesse aparecido, assim você não precisa mais esconder o monstro que realmente é.

Lágrimas escorriam pelo rosto dela. Como ele sempre conseguia afetá-la daquela maneira? Talvez fosse porque ele tivesse certa razão…

- Ah, não chore… Venha cá. – a voz dele soava quase triste. Ele a ergueu da cadeira e sentou-se na cama com ela e a abraçou.

Ela sentiu o sangue em seu rosto, mas nem ligou… Perdera a conta de quantas vezes ele a abraçara com o sangue escorrendo…

Já haviam sido 6 mortes.

O namorado morrera no segundo dia.

A melhor amiga no décimo.

O primo no vigésimo segundo.

O melhor amigo no centésimo.

A prima no centésimo qüinquagésimo sétimo.

A irmã no ducentésimo décimo terceiro.

No ducentésimo vigésimo dia a mãe entrou em depressão profunda e não a olhou mais no rosto.

No trecentésimo qüinquagésimo primeiro o pai não a pode mais suportar a mandou para o internato.

E em todos os últimos 543 dias Galadriel aparece para ela como uma das pessoas que amava agora mortas. E em todos os últimos 543 dias, não houve nenhum em que não tivesse pesadelos. O único problema é que quando abria os olhos eles não acabavam.

Notas finais
-Obrigada por ler *-*

-Próximo capítulo em breve

-Leiam também: Liberdade Morta