Amor E Auto-hipnose
10 Capítulo 10: Lynne
Notas iniciais
Deitado em meu lençol sujo, estou com meu braço apoiado no olho esquerdo, e com o direito, olho para o céu. O lençol de ontem ficou encharcado, assim como eu. Tudo está secando agora. Hoje talvez seja um dia decisivo. Não sei a razão dessa sensação... é como se eu estivesse morrendo... não sei, é um vazio enorme. Acho que depois que vi Emily com aquele cara, meu coração simplesmente quebrou. Não paro de chorar desde então. Eu acho que... não tenho coragem de chegar lá e matar os dois. Ainda sou um ser humano, apesar de não ser humano comigo mesmo... só de ver o meu estado já dá para concluir isso. Charles sou eu, agora um morador de rua, stalker, que anota tudo o que a pessoa que o ama faz. As cicatrizes amargas se formam em seu rosto, ainda vermelho por causa dos cortes daquele dia. O meu rosto não se parece mais com o de antes. Não tenho mais dois dedos da mão direita... tudo ao meu redor se desfez em altas doses de tristeza. Acho que mesmo eu tendo aguentado tudo até agora, não significa que irei aguentar isso para sempre. Tenho saudades de todas aquelas regalias da minha casa, das minhas idas à escola, das minhas brigas com os valentões. É bom sentir adrenalina de vez em quando. Na verdade, ninguém iria gostar de ser irritado toda hora pois dois caras chatos, mas nesse tipo de situação que eu estou, até nisso as pessoas iriam sentir saudade. Pois ao menos você vive de forma intensa. Não na forma de sobrevivência. Eu pego o meu MP4, coloco os fones. Espero qual música aparece na playlist...
" Uma cabra negra sussurrou-me:
A linha branca
É mais lenta
Apanha o comboio da linha cinzenta "
- Lynne... — é uma música da Hatsune Miku. Talvez eu tenha gostado por causa do videoclipe dela... o ritmo. Ficar ouvindo a canção e sentir o vento no rosto talvez traga uma leve sensação de alegria, mesmo eu sabendo que eu não sou feliz agora.
" Um gato ao lado perguntou-me:
Para onde
é que estás a ir?
De qualquer maneira
vais morrer por aqui. "
Essa música não tem nada a ver comigo... mas também não vou achar nada melhor do que escutar música, pelo menos por enquanto. Bebo um pouco de água. Nem estou com fome. Talvez ver aquele garoto com ela tenha mexido muito comigo. Ela não me ama mais...? Acho que nem por agora a auto-hipnose está funcionando mais. Eu sou realmente um idiota... Quem você acha que é, Charles? Sair por aí acreditando que isso vai fazer com que uma pessoa que nunca falou com você direito vá te amar do nada.
" Com o meu punho vermelho,
Vagueio sozinha como uma erva sem raízes,
Bebi um pouco de água passada,
Para a próxima estação. "
- Chega disso. — pego a faca da Wusthof e aponto para o meu pescoço. Mas antes de eu sequer ter pensado em me cortar, a porta bate de uma porta tão violenta que eu me assusto e deixo a faca cair no chão. — VOCÊ É UM NOJENTO! VOCÊ NUNCA FEZ NADA POR MIM! VOCÊ SÓ SABE BRIGAR COM OS OUTROS!! E ALÉM DE TUDO, É POSSESSIVO! — a porta abre, e quem vem correndo é Emily.
" Ama-me mais uma vez como puderes,
Não há nenhum comboio de volta onde quer que procures. "
Ela tira o meu capuz, tira os meus fones de ouvido, segura o meu rosto com as duas mãos e me dá um beijo inesperado. As lágrimas escorrem pelo meu rosto como uma fonte seca que acaba de receber uma água que nunca veio antes.
" Diz-me darlin (querido),
darlynne (querido),
darlin (querido).
Ouvi a tua voz, ou pelos vistos pareceu-me. "
Nossas línguas se enroscam, e a expressão do garoto que ela namorava é de espanto e raiva. Emily se vira para ele, antes que ele comece a correr. — Você nunca me deu prazer algum nessa nossa breve relação. Eu tinha que ter seguido os conselhos da minha mãe, de não namorar esses garotos populares que qualquer garota se apaixonaria. Eles simplesmente te usam... te tratam como objeto e depois te largam. Eu sempre percebi que Charles podia gostar de mim, tanto que ele sempre me tratava bem, e estou completamente arrependida de nunca ter chegado perto dele, e sim ter chegado perto de você. Um dia desses eu olhei pela janela após ter escutado um grito. Eu vi a horrível cena de alguém cortando o próprio rosto. Eu fechei a janela na mesma hora. Então uns tempos depois acabamos discutindo nesse beco. E percebi que tinha alguém morando aqui, falei com a minha mãe e ela pediu para eu entregar uma cesta com algumas comidas para esse morador de rua. Quando ele me agradeceu, eu percebi que conhecia aquela voz de algum lugar... e a silhueta do rosto que eu tinha visto naquele dia antes dele se cortar me era muito familiar. Então agora eu confirmei... era o Charles. Eu também o via com várias fotos minhas. Eu nunca pensei que ele estava fazendo isso por mim. Mas fez. Pois ele realmente me ama. Diferente de você, Bernardo. — Emily diz, e eu começo a chorar. Me sinto completamente realizado. Mas antes de ficar feliz, o tal Bernardo agora corre em nossa direção, me levanto do lençol e corro para proteger Emily. Ele me soca mas eu defendo.
- Desgraçado... vou acabar com raça dos dois!! — Bernardo diz, com uma expressão de ódio. — Não, não se eu não deixar. — digo. Desfaço a defesa e ataco com o outro braço, ele me segura, mas eu consigo abaixá-lo pelo outro braço e dar uma rasteira, mas ele puxa. Ambos caímos. Ele consegue ver a faca no chão, e a pega. — Não..! — Emily percebe, e corre para o meu auxílio. — Não, Emily!! NÃO VEM!! — empurro-a de volta, e recebo uma facada de raspão na cintura. Rolo para o fim do beco. O sangue escorre pelo chão sujo. Bernardo se levanta. Levanto-me correndo e pego o lençol, me jogo para o chão, jogando o lençol para cima, puxando Bernardo com toda a força, e paro quando eu bato na grade, ele quase se esfaqueou por causa do lençol... — Não tem sentido ficar brigando...! — digo. — TEM SIM! VOCÊ ROUBOU MINHA GAROTA! — Bernardo grita. — EU NÃO LHE PERTENÇO! — Emily grita. No meio da raiva do tal garoto, consigo tirar a faca da mão dele e jogo-a para longe. Começo a socá-lo no abdômen e depois no rosto. Pego ele pela cabeça e vou prensando ele contra a parede e correndo, ralando metade da face dele. Ao final bato com a cabeça dele na parede de tijolos, e ele cai desmaiado. — Charles...! — Emily fica preocupada. — Ele tentou nos matar. O que eu fiz foi legítima defesa. Chame uma ambulância, eu vou pegar as minhas coisas... — digo. Ela pega o celular e disca o número. Abro o cubículo e guardo tudo nas malas. — Você vai para aonde..? — ela pergunta. — Para a minha casa... — digo. — Você... por favor, primeiro fique na minha casa. — ela diz. — Razão..? — pergunto. — Eu não lhe beijei por impulso... todo esse tempo na escola...
" Não consigo ver
Eu choro, eu choro.
Enquanto procuro pelos meus sentimentos...
Diz-me darlin (querido),
darlynne (querido),
darlin (querido) ... "
- Eu lhe amava. Sempre lhe admirei. — Emily diz, com lágrimas nos olhos.
Agora entendi... essa música que eu escutei tantas vezes... simplesmente dizia o amor de Emily que não deu certo. Que coincidência. Coloco as mãos no rosto e começo a chorar. Emily chega perto de mim e me abraça, me consolando.
Notas finais
O que sempre foi importante.
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