Amor Doentio - My Shallow Heart
1 Boulevard Of Broken Dreams
– É tarde demais para se desculpar Nathan!
A garota ficou esperando ele dizer alguma coisa. Podia ser um "Eu te amo", ou "Por favor, me dê mais uma chance".
– Apenas diga algo seu idiota! Qualquer coisa! — Ela começou a se irritar — Você acha que pode me trair com uma vagabunda de balada e não precisar me dar uma explicação? Eu mereço respostas!
Ele continuou em silêncio!
– Quer saber? Eu cansei de tudo! Você sempre faz isso! Arrasa comigo! Não me dá atenção! É você pra cá, você pra lá! E eu nada né? Essa foi a última vez que me fez bancar a idiota! Não vai haver uma nova chance cara!
E ela se levantou e saiu correndo. Todos olharam curiosos. E Nathan ficou ali. Tentando fingir que ninguém estava comentando sobre o escândalo que acabara de ocorrer. Esperou um pouco para não correr o risco de encontrá-la novamente quando saísse.
¤ — ¤ — ¤
A noite estava fria! Ele ajeitou o casaco e tomou a direção de sua casa. Após alguns metros, escutou uma voz que seria muito bem vinda nesse momento:
– Hey garanhão! Arrasou mais um coração hoje?
Melanie era uma boa garota. Mas o longo tempo de amizade com ela impedia Nathan de tentar alguma coisa.
– Haha! Talvez eu mude daqui pra frente! — Brincou o garoto enquanto abraçava sua amiga.
– Você sempre diz isso quando termina com alguém!
– Na verdade Mel, são elas que terminam comigo.
– O que torna você mais canalha ainda! Mas e aí? Como foi dessa vez?
– Como todas as outras. “Você não me dá atenção!” “Não tenho espaço para os meus sentimentos!” Essas coisas que vocês sempre falam!
– Um dia isso vai acabar te machucando Nathan! Não podemos ficar brincando com os sentimentos de todo mundo.
O garoto sabia disso. Mas não conseguia se apegar emocionalmente a ninguém. Não depois de tudo o que passou na infância. O que os outros viam era um falso Nathan, que ele criou para poder superar todas as dores. O verdadeiro estava escondido, esperando a pessoa certa para se mostrar.
– Eu sei. Só estou tentando achar uma garota que eu não precise me esforçar para gostar.
– Então acho que suas opções nessa cidade acabaram. Não há uma garota daqui que você ainda não tenha tido algum tipo de relacionamento.
– Pelo menos eu estou tentando. Qual foi o seu último namorado?
– Eu tenho outros métodos para achar a pessoa certa.
A conversa deles foi interrompida pelo celular de Nathan que começou a tocar. Ele viu o número e suspirou. Atendeu com má vontade.
– Estou há duas quadras de casa mãe!
E desligou.
– Já está atrasado. Sua mãe deve estar quase ligando para a polícia. — Melanie tirou sarro.
– Isso me irrita às vezes!
– Às vezes? Cara, ela é praticamente a sua sombra! Não larga do teu pé.
– Eu a entendo. Não é fácil enfrentar tudo que nós passamos. Ela só quer me proteger.
– Você vive falando sobre isso que aconteceu na sua infância e tudo mais, mas nunca me contou nada.
– Prefiro que continue assim.
– Você quem sabe. Só acho que falar sobre isso poderia te ajudar. Enfim, é melhor entrar logo antes que ela comece a pensar que foi sequestrado.
– Valeu Mel. Por ser minha amiga.
– Não precisa agradecer. E não se atrase hein? Vou voltar pra cá daqui uma hora mais ou menos.
Nathan se preparou para o drama que teria de enfrentar quando entrasse em casa.
¤ — ¤ — ¤
– Nathan! Estava preocupada. Onde você estava? Já não falei que não gosto quando você some desse jeito?
O tom dramático de Estella já era conhecido por Nathan.
– Mãe, estou fora só há uma hora. Não precisa se preocupar.Estou bem.
– Está mesmo? Você parece triste. Não quer conversar?
– Não precisa mãe. Já disse. Estou bem. Vou pro meu quarto.
E subiu rapidamente antes que ela encontrasse algo para se preocupar. Tomou um banho rápido. Escolheu uma muda de roupa limpa. Colocou debaixo do travesseiro. Vestiu um pijama qualquer, e desceu para a cozinha. Tomou um copo d'água, e foi para a sala, onde sua mãe estava assistindo a novela.
– Boa noite mãe. E não fique se estressando por coisas bobas.
– Boa noite filho. E não fique até tarde no computador. Amanhã você tem aula cedo.
– Com certeza mãe! -Nathan deu uma risada abafada. -
Chegou ao quarto, deitou e ficou esperando. Depois de uns quinze minutos, sua mãe entreabriu a porta e espiou. Sorriu ao ver o filho aparentemente dormindo e voltou para a sala. Nathan pulou da cama e começou a se trocar. Depois de pronto e de colocar alguns travesseiros em baixo do lençol, foi para a janela e pulou para o jardim. Verificou sua mãe. Ela continuava a assistir televisão. Foi caminhando até a rua e viu Melanie acenando do carro. Correu até ela.
– Quinze minutos de atraso mocinho!
– Desculpe Mel. Não é fácil fugir de casa com uma mãe igual à minha.
– Sem problemas, assim fazemos uma entrada triunfal naquela festa.
– Festa que eu estou praticamente sendo obrigado a ir?
– Não faça drama Nathan. Vai ser muito bom pra você. Tem várias pessoas de fora da cidade. Quem sabe você não encontra a sua amada?
– Duvido muito.
¤ — ¤ — ¤
Demoraram meia hora para chegar até o local da festa. Nathan reconheceu a maioria dos rostos, mas alguns eram novos. Inclusive o de uma garota, que estava caminhando até eles.
– Caroline? É você mesmo? — Pelo jeito Melanie conhecia a menina.
– Oi Melanie!
Elas se abraçaram fervorosamente. Caroline cumprimentou Nathan com um beijo tímido.
– Nossa, desde quando você está aqui? — Melanie ainda estava surpresa com a chegada da garota. -
– Cheguei hoje mesmo! Minha tia foi transferida e tivemos que nos mudar para cá de novo.
– Sério mesmo? Isso é muito bom! Estou muito feliz! Ah, Nathan, essa é a Caroline. Nós éramos muito amigas no colégio, mas ela teve que se mudar pra uma cidade vizinha. Agora está de volta!
– É aquela garota do porta-retrato da sua cabeceira? — Nathan sempre admirou aquela menina da foto. Mas agora que a conhecera pessoalmente, parecia ser bem diferente. -
– É ela mesma!
Caroline parecia desconfortável com a presença de Nathan. Ele resolveu pegar algumas bebidas para quebrar o clima tenso!
Do bar ele viu as duas conversando. Melanie olhou para ele e sorriu disfarçadamente. Caroline ficou vermelha. Não se podia negar, ela chamava a atenção. Mas o garoto não sabia o porquê dela estar tão retraída daquele jeito. Melanie sempre a descrevera como uma garota alegre e que não tinha vergonha de nada. Talvez alguma coisa que aconteceu enquanto estava fora da cidade a deixou desse jeito.
– Grande Nathan! Finalmente resolveu dar as caras.
O garoto assustou-se com a aparição repentina de Thomas, o antigo namorado de Melanie.
– Thomas! Não esperava que aparecesse por aqui.
– Acontecem poucas festas nessa cidadezinha. Tenho que aproveitar cada uma delas. — Ele tomou um gole da bebida que estava segurando. — Mas e aí? Veio sozinho?
O outro apontou para a mesa onde Caroline e Melanie continuavam conversando.
– Ah! A Mel continua linda, mas a outra eu não conheço. Quem é?
– Uma amiga dela dos tempos de colégio. Uma tal da Caroline.
Thomas observou melhor a novata.
– É. Ela é bem bonita. Espero que já não esteja de olho.
Nathan não havia pensado nessa possibilidade ainda. Pela primeira vez olhou para Caroline com um jeito diferente. Mesmo ela sendo bonita e atraente, não despertou o interesse do garoto.
– Não! Não estou de olho nela! Se quiser, acho que está livre.
– Que bom cara, porque acho que estou começando a me apaixonar! — Thomas riu de si mesmo e tornou a virar a garrafa. -
– Deixe de bobeira Thomas. Se apaixonando? Você nem sequer falou com ela ainda.
– Ué Nathan, as pessoas se apaixonam. Isso é mais comum do que pensa. -Ele deu mais um grande gole. -
– Eu não acredito em amor à primeira vista.
– Você não acredita é no amor.
Thomas tomou o resto de sua bebida e se encaminhou, cambaleando, para a mesa das garotas.
– Ei! O que você está fazendo? — Nathan começou a se preocupar. Geralmente surgiam problemas quando Thomas estava bêbado. E essa não parecia ser uma boa noite para se criar problemas.
– Vou conhecer minha futura esposa.
– Você não está se achando um pouco apressado demais não?
– Essa é uma das vantagens da bebida meu caro. Ela faz o que você nunca teria coragem de fazer.
– Eu não preciso encher a cara para conseguir uma garota Thomas.
– É aí que nós nos diferenciamos Nathan, você é um tremendo cafajeste.
– Parece que as pessoas gostam de me lembrar disso.
Os dois se sentaram à mesa. Thomas cumprimentou Melanie primeiro.
– Como vai Mel?
– Vou bem Thomas. E achava que você também. Mas pelo jeito me enganei.
– Nunca estive tão bem. — Thomas olhou para Caroline, que se encolheu envergonhada — E quem é esta garota tão encantadora?
Melanie olhou severamente para Thomas, que a ignorou. Ele voltou a encarar Caroline
– Hmmm, parece que ela é meio tímida. Que tal deixar eu te pagar uma bebida? Assim você pode se soltar mais. — A cada palavra, Thomas chegava mais perto da garota. -
– Isso me faz lembrar porque eu terminei com você. — Melanie empurrou Thomas para longe de Caroline. -
– Você terminou comigo porque queria ficar com todo mundo, que nem o nosso amigo Nathan...
– Acho que já deu por hoje Thomas, pegue um táxi e vá para casa. — Nathan se levantou e ajudou o amigo a fazer o mesmo. -
– Para o nosso azar, não passa nenhum taxi nessa região. Vou ter que levar o nosso querido bêbado para casa. — Melanie também se levantou e ajudou Nathan a carregar Thomas até o carro.
– Você vem com a gente Carol? — Nathan perguntou. -
– Não. Eu vim no meu próprio carro.
– Bem que você poderia dar um carona pra ele Carol. — Melanie sugeriu enquanto ajeitava o ex-namorado no banco traseiro. — Com certeza vou ter que colocar esse inútil para dormir, e Nathan precisa chegar logo em casa.
– P... Po... Por mim tudo bem. — Caroline ficou um pouco mais envergonhada com a possibilidade de ficar a sós com o garoto dentro de um carro. -
– Ótimo, então eu já estou indo.
Melanie se despediu dos amigos e arrancou rapidamente.
– É! Parece que somos só nós dois agora. — Nathan olhou para a outra garota. — Onde está o seu carro?
– Meu carro? -Caroline parecia confusa. — Ah! O meu carro, claro.
Ela se virou e começou a andar rapidamente.
¤ — ¤ — ¤
Durante a primeira metade do trajeto, Nathan tentou puxar assunto com a garota, mas ela sempre dava respostas curtas. E na maioria das vezes, se atrapalhava na hora de falar. Ele achava isso muito engraçado.
– Você mora só com a sua tia? Ou seus pais ficaram na outra cidade? — O garoto perguntou, mais por formalidade do que curiosidade. -
– Meus pais morreram no dia do meu aniversário de quinze anos. Eles estavam indo trocar o vestido que eu usaria na minha festa. Eu tinha ganhado um roxo, mas fiz birra porque queria um rosa. – Caroline se envergonhou quando disse isso. — Meu pai perdeu o controle do carro. Ele morreu na hora, mas a minha mãe sobreviveu mais alguns dias. Só para eu vê-la morrendo diante de mim e não poder fazer nada. Eu me culpava no começo. Se não tivesse dado um escândalo por causa de um simples vestido, eles poderiam estar aqui ainda. Minha tia acabou ficando com a minha guarda e me criando até hoje. Ela sempre diz que não foi culpa minha, que eu era só uma adolescente.
Caroline disse tudo isso muito rápido, deixando de lado, por algum tempo, a timidez. Parecia que ela, há muito tempo, estava precisando desabafar com alguém.
– Desculpe te fazer escutar tudo isso. Quando vi, já estava falando tudo. Coisas que nunca havia dito a ninguém antes. — Ela estava voltando ao estado de timidez.
– Não precisa se desculpar. Às vezes é bom conversarmos sobre esse tipo de coisa com outras pessoas!
Nathan ficou chocado com a história da garota. Quem a via nunca imaginaria que passou pelo que havia acabado de contar.
O silêncio voltou a reinar dentro do carro, que só foi quebrado pelo som do celular do garoto.
– Oi Mel. Vai nos pedir ajuda para colocar o nosso bebê para dormir? -Thomas brincou, porém o tom sério da resposta de Melanie voltou a deixá-lo preocupado. — Como assim ele sumiu? ... Estamos indo! Nos espere na beira da estrada. — E ele desligou o aparelho. -
– O que aconteceu com Thomas? — Caroline já havia entendido que algo grave estava ocorrendo. -
– Melanie disse que ele sumiu. Não deu muitos detalhes, mas precisamos ajudá-la. Dê a volta. Ela está nos esperando na outra estrada.
A garota obedeceu. Estava nervosa, e algumas vezes quase batera o carro. Mesmo assim conseguiram chegar inteiros onde Melanie os esperava. A expressão no rosto dela mostrava que estava totalmente em pânico.
– Como ele foi sumir? — Caroline e Nathan perguntaram quase ao mesmo tempo. -
– Ele pediu para descer do carro porque queria se aliviar. Eu estava vigiando, para o caso dele fazer alguma besteira. Mas minha mãe me ligou, e me distraí enquanto atendia o celular. Quando me dei conta, ele já havia sumido. Procurei por todo o canto. Não encontrei nenhum sinal daquele imbecil.
– Calma Mel. Ele está bêbado, não tem como ter ido muito longe. Vamos nos separar e procurar com calma. — Nathan disse isso já se encaminhando para a floresta que beirava a estrada. — Carol, coloque o carro de frente para a mata, e ligue os faróis. Vamos precisar de luz para encontrá-lo.
– Não deveríamos chamar a polícia? — Caroline parecia estar com medo de entrar no meio das árvores durante a madrugada. -
– Não. — Nathan respondeu com firmeza. — Chamar a polícia iria complicar as coisas para o nosso lado. Vamos tentar encontrá-lo sozinhos primeiro. Só vamos pedir ajuda em último caso.
As garotas viram que nada faria ele mudar de ideia, então se juntaram na busca pelo amigo desaparecido.
¤ — ¤ — ¤
– Thomas seu filho da mãe, se estiver brincando com a gente, eu juro que vou quebrar a tua cara.
– Falando sozinha Mel?
– Só estou tentando controlar a minha raiva Nathan. Já poderíamos estar em casa se aquele idiota não tivesse resolvido sumir.
– Calma, vamos encontrá-lo logo. E sinceramente Melanie, acho que já deveria estar acostumada. Isso sempre acontecia enquanto vocês namoravam.
– E foi justamente pra me livrar disso que eu terminei. Mas mesmo assim ainda tenho que ficar bancando a babá. Isso sem falar na Carol, que mal chegou à cidade e já tem que ficar se enfiando no meio do mato procurando por um bêbado.
– Pois é! Eu me lembro que você sempre falava que ela era extrovertida e alegre, mas até agora ela está bem quieta.
– Ela só é meio tímida com pessoas que acabou de conhecer.
– Pode ser, mas tenho a impressão de que ela fica incomodada quando estou por perto.
– Ela te achou interessante, só isso.
Os dois olharam para o lado e viram Caroline procurando por Thomas. A garota estava bem nervosa.
– Parece que ela não gosta muito de florestas. — Nathan riu do jeito de Caroline. -
– Vou ser direta. Nós somos amigos há bastante tempo, e gosto muito de você. Mas se fizer com a Carol o que fez com todas as garotas dessa cidade, não vou te perdoar. — Melanie disse isso num tom sério, que surpreendeu Nathan. -
– Nossa! Se queria me intimidar, conseguiu.
– Só estou te falando. Caroline não é como as outras.
– Não vou fazer nada com ela. Pode ficar tranquila.
– É bom mesmo. A propósito, já não nos afastamos muito da estrada? Você mesmo disse que ele não iria muito longe.
– É verdade. Agora estou começando a ficar realmente preocupado. — Nathan parou e ficou olhando para todos os lados, esperando que visse o amigo. -
– E se alguma coisa grave aconteceu com ele? Eu não devia ter deixado ele sozinho.
– Melanie, não foi sua culpa. Ele sabe que as coisas ficam complicadas quando bebe. Mesmo assim não consegue se controlar. Por favor, não se culpe. Vamos continuar calmos e...
– Nathan! Melanie! Acho que o encontrei!
Caroline estava acenando e gritando para eles. Os dois correram até ela.
– Onde você o viu?
– Ele estava correndo e pulando feito um louco lá! Venham!
Caroline correu na direção em que havia apontado. Nathan e Melanie não se demoraram em segui-la.
A medida que foram adentrando mais na floresta, puderam escutar um som de água. Nathan se lembrou que ali por perto havia uma enorme cachoeira. Alguns passos à frente, seu coração quase parou.
Thomas estava de pé, na beira da queda d'água, com milhares de litros correndo debaixo dele. Caroline e Melanie tiveram a mesma reação. Ficaram paralisadas de terror. Aquela altura poderia facilmente matar o garoto se ele pulasse.
– E aí pessoal? Esse parece um ótimo mergulho. Porque não me acompanham? — Thomas estava perigosamente chegando mais perto da beirada.
– Vamos deixar para outro dia cara. Melanie tem que ir para casa. Essa seria uma ótima oportunidade para você fazer companhia a ela! — Cautelosamente, Nathan estendeu a mão, torcendo para que o outro a segurasse. -
– Você é muito frouxo. Tá com medo de pular. — Thomas se virou e olhou para baixo. Os vários metros pareceram não amedrontá-lo. -
Nathan percebeu que ele iria pular, e tentou agarrá-lo, mas já era tarde demais. Para os três só restou a esperança de que o garoto sobrevivesse ao mergulho.
Vários segundos já haviam se passado sem que Thomas emergisse. Nathan, não pensou duas vezes. Mergulhou atrás do amigo.
O pouco tempo que passou caindo foi torturante, para depois ser engolfado por uma escuridão total. Ficou um pouco atordoado pelo impacto com a água, mas ainda estava inteiro. Sentiu a correnteza conduzindo seu corpo através do rio. Não poderia entrar em pânico. Começou a procurar por Thomas. Olhou para todos os lados. Mas a falta de luz era um grande empecilho. Só conseguia enxergar poucos metros à frente. Foi à superfície para tomar fôlego e escutou as garotas gritando enquanto desciam o barranco que ficava ao lado da cachoeira. Tornou a submergir. Procurou pelo seu celular, torcendo para que ainda funcionasse. E incrivelmente o aparelho ainda emitia luz. Fraca, mas ajudava bastante. Já estava ficando tonto por causa do tempo sem respirar, mas não podia subir para tomar ar novamente. Tinha que encontrar Thomas, e rápido. Já estava perdendo as esperanças quando vislumbrou o amigo alguns metros a frente. Foi até ele, segurou sua mão, e começou a nadar com todas as poucas forças que ainda tinha. Ele era um bom nadador, mas não estava preparado para puxar oitenta quilos debaixo d’água, e ainda quase desmaiando por falta de ar. Estava chegando à superfície quando suas forças acabaram de vez. Tentava a todo custo continuar nadando, mas seus membros não correspondiam mais. O pouco que conseguia enxergar tornou-se um borrão. Estava quase perdendo a consciência quando sentiu seus braços sendo puxados por pequenas mãos. Sabia de quem eram. Mal pode acreditar quando sentiu o ar entrando novamente em seus pulmões. Ficou aliviado. As garotas conseguiram tirá-lo da água e agora estavam tentando reanimar Thomas. Tentou levantar-se, mas ainda não havia recuperado o controle do seu corpo. Olhou para as estrelas, que hoje em especial brilhavam de forma diferente, e se entregou a escuridão que o abraçava gentilmente.
¤ — ¤ — ¤
Aos poucos, Nathan foi recobrando a consciência. Abriu os olhos e novamente viu estrelas. Porém, essas eram de plástico, e brilhavam no escuro. Preenchiam todo o teto do quarto onde estava. Era um pequeno espetáculo, já que não estava acostumado a ver as verdadeiras brilhando no céu. Ficou observando-as por vários minutos, até que percebeu que não estava sozinho no aposento. Sentou-se rapidamente, o que o deixou um pouco tonto. A pessoa que lhe fazia companhia correu para evitar que ele fosse ao chão. Só então o garoto percebeu que era Caroline. Seus cabelos e roupas ainda estavam molhados. Quando viu suas próprias vestes levou um susto. Estava vestindo um short curto e uma camisa apertada. Olhou para Caroline envergonhado.
– Precisávamos tirar suas roupas molhadas. Melanie disse que poderia te trocar. As únicas roupas que tenho aqui em casa são do meu primo. E ele é bem menor que você. – Caroline se explicou enquanto tentava esconder a vermelhidão no seu rosto. -
– Onde ela está agora? – Nathan perguntou enquanto se enrolava em uma coberta que achou jogada na cama. -
– Ela já foi para casa. E levou Thomas junto. Ele está bem. Eu e a Mel conseguimos tirar vocês dois do lago. – Houve um pequeno momento de silêncio. — Quer continuar aqui até de manhã ou prefere ir para sua casa agora?
– Prefiro ir para casa. Minha mãe nem sabe que não estou lá.
Nathan se levantou procurando por suas roupas. O quarto estava pouco iluminado, mas conseguiu ver alguns porta-retratos que o decoravam. Observou-os rapidamente. Na maioria havia uma garota pequena. Provavelmente Caroline. Um deles se destacava bastante dos outros. Não só por ser maior ou mais enfeitado, mas porque na foto havia um casal segurando uma Caroline sorridente. A história que ela havia contado mais cedo veio à mente do garoto. Desviou o olhar e continuou a busca pelas suas roupas.
– Elas estão secando na sala. – Caroline adivinhou o que ele procurava. -
Os dois saíram do quarto e foram direto para a sala. Nathan avistou suas roupas em cima do sofá.
– Se quiser pode por cima dessas que está usando, amanhã você me devolve.
Em poucos minutos já estavam saindo da casa. Nathan se surpreendeu ao enxergar a sua logo à frente. Ele riu.
– Pelo jeito vamos ser vizinhos Carol.
– Melanie já tinha me contado. Que bom. Assim você chegará rápido em casa.
Os dois deram um abraço meio desajeitado, e o garoto se encaminhou para o outro lado da rua. Poucos segundos depois de começar a andar, ouviu Caroline chamando seu nome.
– V... Voc... Você foi muito corajoso hoje ao pular para salvá-lo. Não sei se conseguiria fazer o mesmo.
– Obrigado. Você também ajudou bastante hoje.
– Que bom.
– Apesar de toda essa loucura, foi muito bom te conhecer.
– Eu também acho isso. – Caroline enrubesceu mais ainda. –
– Então... Boa noite? — Nathan não sabia direito o que falar. -
– É, acho que é boa noite mesmo.
E pela primeira vez em toda a noite, a garota sorriu. Ela ficou surpresa quando percebeu isso. Nathan desconfiou que já fazia algum tempo que isso não acontecia. Retribuiu o sorriso e voltou a andar em direção à sua casa.
Enquanto caminhava se deu conta de tudo que aconteceu. E concluiu que fora uma noite realmente agitada. Melanie estava certa. Aquela garota era diferente de todas as outras. Nathan só não sabia o quanto.
Verificou sua mãe que dormia tranquilamente. Riu ao imaginar se ela descobrisse tudo o que ele apronta.
Antes de entrar pela janela de seu quarto, Nathan deu uma última olhada para o céu. E se espantou ao ver que mais estrelas apareceram. Mesmo com Thomas e ele quase morrendo afogados, se sentia feliz. Sem dúvida aquela fora uma noite muito especial.
Notas finais
* A música tema deste capítulo é Boulevard Of Broken Dreams, do Green Day.
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