Amor De Verão Nunca Foi Clichê
6 Manual de não sobrevivência da Sophie.
Notas iniciais
Capítulo cinco:
POV Sophie Holt
– Sophie! – ouvi um sussurro ao longe. Meus olhos estavam fechados e minhas pálpebras, pesadas. Virei a cabeça e cobri meu rosto com o cobertor, tentando mandar a pessoa que estava me acordando desistir sem ter que fazer muito esforço. Bom, não adiantou. – Alô! Acorda, a gente tem um convite pra você! – a menina continuou. Consegui reconhecer a dona da voz: Helena.
– A gente? – gemi, ainda com os olhos fechados.
– É! Você pode abrir os olhos, por favor? – Helena pediu com uma voz risonha. Abri o olho esquerdo. Não que eu quisesse abrir apenas um olho. Juro que me esforcei pra abrir os dois, mas o direito ficou ali, quase que no meio do caminho, lutando comigo para não se abrir. Com o olho que me restou, vi em cima de mim algumas cabeças inclinadas, todas me olhando com atenção.
– É... Oi? – falei, ainda mole, e comecei a piscar forte para tentar acordar.
– A gente quer te fazer um convite! – uma menina oriental falou – Você ta afim de ir?
Afim? Oi? Eu posso pelo menos saber pra onde? Eu teria perguntado tudo isso se não estivesse tão mole para falar, então apenas murmurei um "Hum?"
– É que a gente tem uma tradição por aqui... Era pra ser algo só de veteranos, mas a gente decidiu chamar você também porque achamos que merecia.
– Na verdade, por ter jogado o Anthony na água, merecia que a gente te servisse no jantar durante todas as férias – a menina oriental disse, rindo com o resto das garotas. – A gente gosta dele, é claro, mas convenhamos: ele merecia.
– A gente vai ficar aqui conversando ou podemos ir logo? – uma garota de cabelos compridos e pintados de vermelho perguntou. Paciência é pra poucos, né...
Helena não esperou por uma resposta minha e já foi tirando meu cobertor e me puxando pra fora da cama. Digamos que a minha vontade de levantar naquela hora era aproximadamente zero, mas não tive muita escolha. Além disso, como poderia ser ruim? Um monte de adolescentes irritantes, no meio da madrugada, em uma noite absurdamente fria, fazendo sei lá o que. Promissor.
Coloquei uma calça jeans e um casaco, escovei os dentes e acompanhei as meninas em um caminho pelo meio do mato. Todas falavam ao mesmo tempo e de vez em quando alguém soltava um gritinho por causa de um bicho no meio do caminho, e no meio de tudo isso, eu estava questionando a existência do universo. Sim, minha mente foi longe por causa do sono que eu ainda estava sentindo. Após alguns minutos de caminhada, chegamos a uma clareira. Tinha bastante gente ali, uma música eletrônica tocava em um aparelho, um isopor grande estava ali ao lado e pra fechar com chave de ouro, havia uma fogueira.
– Olha só quem veio! – Daniel falou assim que me viu, e veio em minha direção com os braços abertos. Abraçou-me rapidamente e colocou um copo com uma bebida rosa na minha mão. Encarei aquele líquido estranho com uma cara nada boa. Podia jurar que aquilo estava emitindo radiação. Com aquela cor gritante, só podia...
– Eu tenho quase certeza que ingerir líquidos radiativos não faz bem pra saúde... – falei pro Daniel, que já estava com o braço sobre meus ombros me levando pro meio do pessoal.
– Eu juro que é gostoso. – ele disse, soltando um riso sem mostrar os dentes. Provei um gole, e realmente, era bem gostoso. Quer dizer, as chances de eu ficar diabética no final daquele copo eram bem grandes, mas fazer o que, não?!
– Eu pensei que isso aqui fosse só pra veteranos... – falei, observando as pessoas. Tinha bastante gente. Reconheci vários dos meninos que jogaram futebol comigo quando tomei a pior decisão inconsciente da vida: dar uma rasteira no Anthony. Não que eu não tivesse ficado feliz porque ele machucou o pé, mas aquilo do pai dele me fazer ficar acompanhando ele pelas atividades do acampamento não tinha me agradado nem um pouquinho. Eu ainda nem tinha começado, mas minhas expectativas estavam lá embaixo (no centro da terra, pra ser um pouco mais específica).
– E é! Todo mundo aqui é veterano. O pessoal vem aqui desde pequeno! – ele falou, e eu arregalei os olhos. Quais eram as chances de alguém me reconhecer? Eu realmente não queria que ninguém lembrasse da Sophie desastrosa que eu era antes. Bom, eu não tinha reconhecido ninguém além do Anthony, então é possível que não lembrassem de mim também.
– Olha só, Sophie Holt! Minha mais nova assistente! – ouvi a voz irritante do Anthony atrás de mim e virei-me com a melhor cara de tédio que eu conseguia fazer. Ele estava de toca, casaco e jeans, e suas mãos estavam com band-aids, provavelmente por conta dos ferimentos que as muletas fazem nas mãos.
– Eu devia ser paga pra te aguentar. De graça não ta dando não. – respondi, seca – foi gostoso seu mergulho de hoje?
– Foi ótimo. Da próxima você vai comigo – falou, com um sorrisinho debochado na boca, e piscou pra mim.
– Desculpa interromper a briguinha de vocês, mas queria dizer que tá na hora do benzo. – Daniel falou, praticamente se colocando no meio de nós dois.
– Benzo? – perguntei, confusa.
– É tipo o nosso brinde. É bem legal. – ele falou, e subiu em cima de um pedaço grande de madeira que tinha no chão e levantou as mãos pro alto – Galera! Vamos fazer o benzo! – ele gritou para todo mundo, e uma movimentação de pessoas indo encher seus copos com mais bebida — tinha até um pessoal que ia brindar com água ou refrigerante – começou. Assim que estavam todos prontos, ergueram os copos. Eu não havia erguido o meu porque estava distraída demais observando aquele pessoal estranho fazendo algo estranho como o tal do “benzo”, mas então senti uma mão tocando no meu punho e o erguendo. Olhei pro lado, e era Anthony o dono daquela mão quente que me tocara. Depois de alguns segundos, assustei-me com a voz de todos falando em uníssono:
“Benzo que te benzo, benzo que te benzerei, benzo pela branca e pela amarela, benzo por tudo o que desce pela goela! Antigamente eu bebia, fumava e fodia, a vida era uma alegria! Hoje não bebo, não fumo e não fodo, a vida é uma porcaria. Vou voltar a beber, a fumar e a foder, porque quem bebe, fuma e fode é porque pode! Abra-te goela, fecha-te bucho, que vai descer o artigo de luxo!”
Assim que acabaram, todos viraram as bebidas dos copos que estavam em suas mãos, e tomaram todo o líquido. Eu tentei tomar tudo, mas meu copo ainda estava muito cheio e não aguentei. Comecei a rir daquilo tudo. Era muito legal! Quer dizer, eles tem o próprio brinde!
– Sophie, preciso da sua ajuda aqui – Anthony interrompeu meus devaneios, vindo em minha direção com muletadas – me segue.
– Pra quê? Pede pro Daniel.
– Ele tá ocupado. Vem! – pediu de novo, e foi andando em direção ao mato. Olhei em volta. Frederick não estava, e Daniel e Helena estavam conversando com pessoas que eu não conhecia. Se eu não fosse, ficaria ali, parada e sozinha. Então me adiantei para alcançar o Hoffman.
– Você tá planejando me estuprar?
– É isso que você pensa de mim? Sou um cavalheiro, faço sexo consensual apenas. – falou, levantando os ombros. Fiquei impressionada por ele saber falar coisas como “sexo consensual” e saber, também, o conceito por trás disso. Acho que ele aprende coisas quando não está sendo um completo babaca.
– Sério, o que você quer? – perguntei, entediada. Nós já havíamos entrado muito na mata, e eu já estava completamente perdida.
– Preciso da sua ajuda pra pegar madeira pra fogueira.
– Minha ajuda? Por que não pediu pra outra pessoa? Já viu o tamanho do meu braço?
– Você é bem fortinha. Meu pé que o diga, inclusive. Para de reclamar. Pega, por favor, o máximo de toras que você conseguir. – eu não me mexi.
– Meu filho, não sou obrigada.
– Você prefere continuar a festa sem uma fogueira? – perguntou, revirando os olhos e jogando o peso do corpo sobre as muletas. Pensei por alguns segundos. Eu gostava da fogueira. E já estava ali mesmo, por que não pegar algumas toras?
– Saiba que estou fazendo isso porque eu quero que a fogueira continue acesa. Porque eu, absolutamente, não sou obrigada mesmo. – dei ênfase no “mesmo”. Dei alguns passos e me abaixei para começar a pegar algumas toras. Juntei alguns pedaços grandes e coloquei o máximo que consegui nos braços.
– Ok, vam... – falei, mas quando virei-me para trás, Anthony não estava mais lá.
Olhei em volta, procurando algum sinal daquela mula que erroneamente chamam de ser humano. Não havia nada. Nem ninguém. Só eu e o mato. Eu, o mato, e meu senso de localização de merda. Tentei ouvir algum som de música, mas nada. Nem a luz da fogueira. Coloquei a mão no bolso, procurando pelo meu celular, mas eu o havia deixado no quarto. Minha respiração começou a ficar ofegante, e minha garganta estava quase fechada. Eu estava em pânico. Sozinha, no meio do mato.
Joguei as madeiras no chão e comecei a caminhar na direção que eu pensava ser aquela de que eu e Anthony viemos, mas se passaram cinco minutos de caminhada, e nada. Não achei ninguém, e ali estava ainda mais escuro do que o local em que eu estava pegando madeira. Sentei-me no chão e coloquei as mãos na cabeça. Aquilo não podia ser nada bom...
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