Amor Contratado
6 Tente não surtar
Notas iniciais
A dor que meu corpo sentia, me fez abrir os olhos com preguiça. Tentei me localizar e percebi que não estava na cama e sim no chão gelado, as cobertas enroladas em minhas pernas.
Que ótimo. O número de vezes que eu havia acordado daquela maneira estava ficando surpreendente; e tudo por conta da minúscula caixa de fósforos que eu chamava de cama.
Droga de vida.
Rumei sonolenta até o pequeno banheiro — tudo naquele lugar era pequeno-, tropeçando nas cobertas durante o processo.
Enquanto eu realizava todo o ‘tratamento bucal’ e afins, pensei ter ouvido o som da campainha, porém ignorei aquilo ciente de que estava ficando doida e continuei escovando meus dentes preguiçosamente.
Franzi o cenho ao constatar que, realmente havia alguém tocando a minha campainha as nove da manhã, quando mais uma vez o som irrompeu em meu apartamento com um pouco mais de impaciência. Me arrastando até a porta com minhas pantufas de urso, me perguntei quem –além do sindico desgraçado – não tinha medo da morte.
Eu, sinceramente, já estava pronta para cuspir toda minha pasta de dente na cara daquele mal comido que infernizava a minha vida desde que eu havia me mudado, quando abri a porta e percebi que o homem parado ali não era um velho cheio de rugas com um rosto de quem tinha chupado limão, mas sim um gostoso com tanquinho e um olhar de “que droga é essa” para a minha situação.
Não que ele estivesse mostrando o tanquinho no momento, mas eu sabia que estava lá.
Espera.
Pausem um segundo essa cena.
Dei uma olhada no que estava vestindo e constatei que, oh Deus! Eu estava mesmo usando uma camisa enorme e nada atraente –tinha ganhado de Judy como presente de aniversário, para deixar claro – dos personagens da “Hora de Aventura”, meu cabelo parecia um algodão doce no palito e estava usando pantufas de urso, com creme dental na boca parecendo um cachorro raivoso.
Então, não me culpem se o meu primeiro instinto soltar um grito agudo. Já meu segundo instinto – me orgulhei muito daquilo depois – foi dar um tapa na cara de Kyle. E meu terceiro e mais óbvio instinto, foi fechar a porta em sua cara.
Sou uma pessoa muito intuitiva.
__Mas que droga...? – Pude ouvir Kyle indignado do outro lado da porta, começando a soca-la enquanto eu corria de um lado para o outro tentando parecer apresentável – KATHERINE HEED! NÃO ME FAÇA ARROMBAR ESSA PORTA!
__POR QUE VOCÊ ESTÁ AQUI SEU TAPADO?! – Gritei com ele enquanto pulava para colocar o short jeans e caindo no chão durante o processo.
__VOCÊ ME MANDOU UMA MENSAGEM SUA MALUCA! DISSE QUE ERA PARA ESTAR AQUI AS NOVE EM PONTO OU VOCÊ ARRANCAVA MEUS CABELOS COM UMA PINÇA!
Ah.
Enfiei uma regata de uma banda qualquer pela cabeça e amarrei meu maravilhoso tufo rosa em um rabo de cavalo.
Abri a porta novamente e dei de cara com um Finnigan muito irritado, me encarando como se eu tivesse algum problema mental.
Tudo normal para mim, na verdade.
__Devia ter ligado.
__Eu liguei sua esquisita – Ele revirou os olhos – Vai me deixar plantado aqui?
__É uma ótima opção.
Ele bufou com o meu deboche e me empurrou para o lado com aquelas mãos enormes como se eu fosse uma mosca inútil.
__Você parece meio irritado – Comentei casualmente, comprimindo os lábios. Finnigan parecia querer matar alguém e infelizmente, eu era a única naquele cômodo.
Alto perigo. ‘Meio irritado’ era um belo eufemismo para aquele momento.
__Mackenzie, enchendo o meu saco mais do que o normal – Ele se sentou cansado no sofá de couro, esfregando as mãos sobre o rosto na esperança de se acalmar – Essas palavras não eram para você, desculpe.
__Ah tudo bem, já recebi coisas piores – Fiz um gesto com a mão indicando que não precisava se preocupar com aquilo – O que aquela oxigenada fez agora?
Ele soltou um riso nervoso.
__Não vai querer saber.
Ótimo.
__Pode me contar Finnigan.
Ele bufou e revirou os olhos.
__Isso não tem importância agora Heed. Só quero ter essas aulas o mais depressa possível. Não sei se você sabe mas o encontro com a minha família está chegando.
Foi a minha vez de soltar um riso estrangulado.
__Não precisava ter me lembrado disso.
__Ainda não entendo porque você fica tão nervosa quando eu falo sobre isso. Não é de verdade, só vamos fingir.
__Eu sei que não é de verdade Finnigan! Apenas é... desconfortável mentir para tanta gente.
Só que não.
Eu sabia que aquele não era o real motivo para que eu ficasse nervosa cada vez que ouvia as palavras “encontro com a minha família”.
Por que eu não falava a verdade? A resposta era bem óbvia. Eu estava começando a me importar demais.
Isso não podia acontecer. Mas eu sabia que chegaria o momento em que começaria a ter sentimentos. Não era difícil se tornar amiga de um cara como Kyle; ele era gentil, companheiro, bonito demais para o próprio bem e ingenuamente amável.
Não que eu estivesse apaixonada por ele! Eu sabia que não estava. O problema era por quanto tempo isso duraria. O contrato que eu havia feito, veio com um juramento de minha parte: Não ter qualquer tipo de sentimentos com o contratado. Ser amiga de Kyle Finnigan ia contra aquilo de todas as maneiras. Se eu me apegasse a ele, quando o fim do próximo mês acabasse, eu não conseguiria sair daquilo sem nenhum machucado.
E Katherine Heed odiava se machucar.
__Eu sei que isso não é verdade Kate – Kyle falou afável. Arregalei os olhos, surpresa – Mas se não quer me contar qual é o problema, eu não vou te pressionar.
__Isso não está ajudando Finnigan! – Disse me jogando ao seu lado no sofá.
Ele me olhou confuso e abri um sorriso.
__Deixa pra lá! Vamos nos concentrar no que é mais importante no momento – Me empertiguei no lugar e soltei um pigarro, falando de forma profissional – Eu vou te tornar irresistível!
Ele tossiu e suas bochechas começaram a adquirir o tom avermelhado.
Soltei uma risada com aquilo. Tornar Kyle irresistível? Não seria muito difícil.
__O primeiro passo – Me levantei e pus as mãos atrás das costas, quase como um general ensinando seu soldado formas de aniquilar o inimigo – É ter confiança. A base da atitude é a confiança. Você não pode deixar que os outros te levem para o fundo do poço Finnigan, lembre-se disso. Você desce, eles sobem; é assim que as pessoas fazem para se sentirem melhor. Acredite apenas nas pessoas que estão sempre ao seu lado.
__Você pareceu quase culta agora – Ele falou me olhando com um sorriso de canto e me inclinei para dar uma tapa em sua nuca – Ai! Isso dói sua maluca!
__Fica quieto Hulk. Eu não terminei.
Ele bufou, mas ficou em silencio.
__O segundo passo, ao contrário do que muita gente diz, é ser gentil com as pessoas, principalmente com as mulheres. Você não ganha nada sendo machista e autoritário. Mas não seja muito gay Finnigan! Apesar de que isso vai ser complicado para você, vou ter que dar um jei... Ai, que merda Kyle! Porque você me beliscou?
__Eu não sou gay Heed!
Tentei parecer brava, mas seu rosto furioso me fez soltar um risinho sacana.
__Tudo bem, que seja!
Tirei um cigarro do bolso e pus sobre os lábios, ainda apagado. Precisava me concentrar e aqueles músculos sobre sua camisa não ajudavam.
__Ok. Vamos para o terceiro passo. Ter estilo é essencial Finnigan, a primeira coisa que as pessoas veem onde quer que seja, são suas roupas. Não adianta negar, a sociedade é fútil.
__Uau, quase pareceu uma hipster agora. Ai!
Outro tapa na nuca, mais forte daquela vez.
__Cala a droga da boca Kyle!
O desgraçado estava rindo feito uma hiena do meu rosto furioso. Da onde aquele imbecil tinha aprendido a ser debochado?
Bufei enquanto ele limpava as lágrimas.
__Desculpe. Não consegui resistir. Continue.
Uma ideia surgiu em minha mente junto com um sorriso macabro e Kyle me olhou com uma ponta de medo.
__Vamos para a segunda etapa agora.
[...]
__Não acredito que vamos mesmo fazer isso Heed – Ele disse enquanto eu colocava meus óculos escuros, tentando enxergar alguma coisa com aquele vento batendo no rosto.
__Eu já disse Finnigan, ter estilo é essencial.
__Tudo bem, essa parte eu entendi. Só não sei porque estamos indo para o shopping a essa hora da manhã – Ele me olhou irritado e por um segundo, pensei ter visto alguma coisa em seus olhos. Sua testa vincou e seu olhar voltou para a estrada, parecendo perturbado.
Ok. O que tinha acontecido?
__Kyle? – Seus dedos ficaram brancos sobre o volante e o vi trincar os dentes.
__Você poderia, por favor, tirar os pés dai de cima?
Olhei para meus tênis sob o painel e franzi a testa, me inclinando para limpar o que quer que fosse.
__Pronto, já limpei. Não vai sujar nada.
Novamente, ele me olhou irritado. Engoliu em seco, olhando rapidamente para as minhas pernas, antes de apertar o volante com mais força e focar na estrada.
__Tire. os. pés. daí Heed.
__Qual é o seu problema? Eu já falei que não vai suj...
Parei de falar por um instante, quando um pensamento veio a minha mente.
Não poderia ser o que eu estava pensando, poderia?
Não. Impossível.
Me mexi no banco, fingindo desconforto e os olhos de Kyle vacilaram.
__Droga de short jeans, são desconfortáveis nesses bancos – Inocentemente, movimentei minhas pernas sobre o painel e vi os músculos de Kyle retesarem.
__Vou jogar você para fora desse carro antes que eu mate nós dois em um acidente – Ele murmurou entre dentes.
Oh. Meu. Deus!
Kyle Finnigan estava realmente se desconcentrando olhando para minhas pernas? Parem tudo que eu vou fazer a dancinha da vitória.
__Nossa, relaxa Finnigan. O carro nem é tão novo assim pra você dar um piti desses – Gargalhando internamente, dei um soquinho amigável em seu braço e ele soltou o ar, irritado.
__Chegamos – Foi apenas o que disse antes de sair e bater com força a porta do carro, enquanto eu ainda me controlava para não rir.
[...]
__Ok. Vamos fazer isso! – Espalmei as mãos, esfregando-as e olhei em volta, procurando uma loja que me chamasse a atenção.
__Não entendo o que tem de errado com as minhas roupas – Ele olhou para si mesmo e aproveitei para dar uma conferida em seu corpo.
__Não são feias, mas você não sabe valorizar o que tem Finnigan.
Ele me olhou confuso. Tão inocente.
Dei um sorriso malicioso e peguei em seu pulso, o arrastando até uma loja enquanto ouvia risinhos agudos de algumas garotas enquanto passávamos.
Tentei ignorar a parte maluca da minha mente que estava criando cenas onde eu, amavelmente arrancava a cabeça daquelas sem cérebro como uma rolha de champanhe.
Entramos na loja e comecei a avaliar algumas blusas, pensando em qual ficaria melhor no corpo de Finnigan enquanto o dito cujo estava parado feito um poste no meio da loja sem saber o que fazer.
Rolei os olhos e me preparei para chama-lo delicadamente, mas antes que tivesse a chance, de algum lugar brotou uma daquelas atendentes sorridentes. Ela parecia mais contente por atender Kyle do que deveria e percebi que todas as outras atendentes da loja possuíam uma cara decepcionada.
__O que posso fazer por você, senhor? – Seus olhos piscaram rapidamente e seu sorriso se alargou mais ainda. Era só eu ou aquela frase teve um duplo sentido?
Olhei em volta para ver se mais alguém estava vendo aquele descaramento mas ninguém parecia se importar.
__Ah, bem, eu estou procurando um estilo novo – Kyle pôs as mãos no bolso da calça e seus músculos se contraíram.
Ah, ele tinha que parar de fazer aquilo!
Os olhares de todas as mulheres no local rumaram para seus braços e a atendente o avaliou de cima a baixo. Finnigan não pareceu notar aquilo.
__Vamos ver o que eu posso fazer por você.
Inconscientemente, peguei uma blusa qualquer da arara a minha frente e rumei em direção ao “casal”.
__Amor! Achei a blusa perfeita para você! – Com uma voz mais fina e afetada que o normal, me pendurei em um de seus braços e Kyle me olhou como se eu tivesse adquirido três cabeças magicamente.
Acho que ouvi alguns rosnados das atendentes quando fiz aquilo.
__Você é a namorada dele? – A voz da atendente sorridente voltou ao normal ao falar comigo e seus olhos me fuzilaram infinitamente.
__É claro que eu sou! – Sorri como uma garotinha indefesa, mas meus olhos perigosamente enviam um sinal de “Não chegue perto dele vadia!” e ela sabiamente deu um passo para trás – Mas... você está bem? Sua voz estava meio estranha antes. Parecia um esquilo afogando, devia tomar um pouco de água. Eu cuido dele, pode deixar. Obrigada!
Apertei o braço de Kyle com mais força. Ela arregalou os olhos com raiva e saiu marchando furiosamente.
__Você está com algum problema na garganta Heed? – Finnigan continuava me olhando como se eu fosse um ser mágico indefinido e mandei meu olhar mais mortal em sua direção. Novamente, ele não pareceu notar – Por que sua voz está tão fina e enjoada? São os cigarros não é? Eu falei que essa coisa fazia mal.
Soquei seu braço com força, enquanto rolava os olhos.
__Só cale a boca e vamos embora daqui.
__Mas nós nem...
__VAMOS EMBORA FINNIGAN! – Comecei a puxa-lo em direção a saída como se fosse a mãe de uma criança de 7 anos fazendo birra.
A cena era cômica, eu tinha que admitir. Uma baixinha de cabelos rosa, gritando e arrastando um cara alto e musculoso, quase duas vezes maior que ela.
__O que deu em você sua maluca?! – Ele soltou minha mão do seu pulso quando já estávamos fora da loja – Pensei que íamos fazer compras ou alguma coisa assim.
__Ah, isso não é tão importante assim – Kyle ia abrir a boca para retrucar mas o interrompi – Agora vamos, como você não me deixou comer meu café da manhã, estou morrendo de fome. Poderia matar um cavalo agora mesmo.
Finnigan me enviou um olhar atravessado — já estava me acostumando- e murmurou um “esquisita” antes de seguir para a praça de alimentação. Apenas sorri e saltitei feliz ao seu lado.
[...]
__Tudo bem. Você não é normal –Ele disse quando me sentei a sua frente, colocando a bandeja com uma porção de fritas, coca e hambúrguer extra-grande – Me diz que você pegou tudo isso para dividir.
Soltei uma risada irônica.
__Dividir minha comida? Ficou maluco Finnigan?
__Não é humanamente possível alguém do seu tamanho comer tudo isso Heed. Não mesmo.
__Apenas observe.
__Você não tem medo de... Ter colesterol alto? Morrer de obesidade?
Dei um gole no meu refrigerante antes de responder.
__Você é médico por acaso? Não. Então para de ser chato. É só um lanche.
Kyle bufou contrariado e moveu o canudo de seu suco natural.
__Você vai me ensinar alguma coisa afinal?
Eu ri de sua cara irritada.
__Claro que sim. Espere e veja só – Me acomodei melhor na cadeira e olhei para todo o local, esquadrinhando as pessoas – Escolha qualquer garota daqui e vamos fazer com que ela fique na sua.
__Isso é impossível.
__O que? Ficar na sua?
__Não. Escolher qualquer uma.
__Finnigan, Finnigan; você não sabe do poder que tem. É isso que eu quero que descubra, é o ponto chave.
__Você ta viajando não é?
Sorri de canto e vi uma garota na mesa ao lado. Ela parecia perfeita para o que eu queria mostrar.
__Tudo bem. Eu escolho uma para você. Essa garota na mesa do lado já estava olhando para você por algum tempo – Eu não sabia, na verdade. Pff, até parece que ia ficar notando essas coisas. Mas como todas as garotas do local estavam olhando para Kyle, era fácil adivinhar – Pegue o número de telefone dela.
__O que?
__Só faça o que estou falando Finnigan.
Ele começou a se levantar – como eu previa que faria – mas segurei seu braço e o empurrei de volta ao assento.
__Não assim, idiota.
Ele me olhou com um olhar confuso. Rolei os olhos.
__Isso vai parecer machista. E é. Mas, ela precisa vir até você. Não o contrário.
__O que?! – Ele falou ainda mais perdido e confuso do que antes.
__Chame ela com os olhos. Ela é oferecida o suficiente para funcionar.
__Isso é coisas que garotas fazem Heed. Quer que eu dê risinhos e pisque os olhos rapidamente? Sem chance.
Segurei a risada, porque era verdade.
__Garotos também fazem isso. Bem, não exatamente isso – Percebi que aquilo não iria dar em lugar nenhum e me concentrei, o encarando profundamente – Faça exatamente o que eu disser e vai dar certo.
Ele bufou, mas me olhou esperando que continuasse.
__Primeiro, como eu já tinha dito antes, precisa mostrar confiança. Nada do que fizerem vai te abalar. Consegue fazer isso?
Kyle pensou por um momento e logo depois, pareceu se transformar em outra pessoa. Me assustei com a forma que seus ombros relaxaram, os olhos ficaram mais inexpressivos, misteriosos, nenhuma emoção; um sorriso de canto despreocupado brotou em seus lábios e seu corpo pareceu ficar mais imponente.
Aquele Kyle... Eu não conseguia desviar meus olhos dele. Era como se alguma coisa me puxasse. Ele tinha mudado completamente a postura, mas eu sentia que era só uma fachada. Sua personalidade gentil, carinhosa e ingênua ainda estava ali, em algum lugar.
Não, não era possível que ele conseguisse ser o cara perfeito.
Limpei a garganta antes de continuar. Aqueles olhos castanhos estavam me deixando desconfortável e hipnotizada. Kyle possuía um olhar de bad boy que estava acabando com a minha sanidade aos poucos.
“Pare de olhar assim para mim! Por favor!” Era o que eu queria dizer. Eu estava a ponto de corar e Katherine Heed nunca corava.
__Hm, ótimo. Muito... bem- Falei, me forçando a não abaixar a cabeça. Podia ver claramente a ponta de diversão brilhando por trás daquele rosto irônico.
Jesus Cristo. Kyle estava rindo da minha cara do modo mais sexy que eu conseguia pensar.
Na verdade, pensar não estava sendo bem o meu forte naquele momento.
__O que eu faço agora? – Ele disse se manifestando pela primeira vez e... Minha nossa! Voz rouca não estava incluída no pacote de confiança que eu havia pedido.
Tentei enviar o máximo de oxigênio para o cérebro que conseguia. Eu devia parecer ridícula, é claro. Mas era algo que eu não estava preparada e não sabia como lidar.
Sabia que Kyle cheio de atitude seria diferente mas...
Não esperava por aquilo.
__A-Agora, você precisa olhar para ela. Se ela estiver olhando – “E é claro que vai estar” pensei. Depois dessa aura masculina que emanou de Finnigan, eu duvidava que houvesse alguma garota olhando para outro lugar a não ser para a nossa mesa – você dá um sorriso de canto, abaixa a cabeça como se estivesse tímido e depois de três segundos, levanta de novo e sorri de verdade.
Ele piscou duas vezes e pude ouvir sua pergunta muda “É só isso?”. Afirmei com a cabeça.
Kyle ajeitou seu corpo na cadeira e fez o que eu pedi. Não ousei olhar para aquilo. Minha sanidade já não existia mais e não sabia o que eu poderia fazer se visse a cena de Kyle paquerando uma garota na minha frente.
Levou uns cinco minutos até eu ouvir uma cadeira sendo arrastada e um barulho de saltos se aproximando de onde estávamos.
Um papelzinho foi colocado na frente de Kyle, que não esboçou nenhuma reação além de um olhar entediado e um sorriso de canto, seus braços cruzados sobre o peito evidenciavam os músculos sob a camisa e assim como eu, a garota também notou aquele pequeno detalhe.
__Me liga – Foi a única coisa que disse antes de ir embora rebolando. Kyle seguiu seu corpo até sair de vista e assim que aquilo aconteceu, sua fachada se desmoronou e ele me olhou fascinado, parecendo uma criança que acabara de ganhar um presente de natal que esperava a muito tempo.
Aquilo foi o bastante para me fazer engasgar com a saliva pela súbita mudança de atitude.
__Isso foi demais Heed! Como sabia que iria dar certo?
__E-Eu... – Respirei fundo e sorri animada, com esse Kyle eu conseguia lidar – Você sabe que eu sou incrível Finnigan. Deixe-me ver isso aí.
Arranquei o post-it amarelo de suas mãos e olhei o que a garota tinha escrito. Soltei uma risada.
__”Me ligue qualquer dia desses. Vou estar esperando. Xoxo, Suzy.” – Gargalhei outra vez com a mensagem – Olha só! Ela até fez coraçõezinhos! Que meigo.
Antes que ele pudesse arrancar o papel de minha mão, o amassei e o joguei em algum lugar às minhas costas.
__Ei! Por que fez isso?!
__Vai por mim. Não é uma garota assim que você quer.
__Não é?
Suspirei e o olhei como se ele fosse um cachorrinho abandonado.
__Pobre Kyle. Ainda tem tanto o que aprender...
Agarrei a alça da minha bolsa e me levantei, enquanto ele ficava me encarando, ainda tentando entender o sentido da minha frase.
__Vamos. Se eu ficar mais um pouco aqui, essas garotas vão fazer um furo nas minhas costas.
[...]
Já estávamos próximos a saída do shopping, quando lembrei de algo importante. Meus pés fincaram no chão e Kyle, que estava atrás de mim parou também e o impacto com o seu corpo quase me levou ao chão.
__O que foi agora? – Ele falou com uma ponta de irritação na voz.
__Esqueci de te ensinar mais uma coisa — Soltei um pigarro e fiquei a sua frente, sorrindo -Tudo bem. Um garoto precisa ter pegada. Se você tem pegada, já é meio caminho andado. Demonstra confiança e as mulheres adoram.
Kyle estreitou os olhos em minha direção.
__Pegada?
Arqueei uma das sobrancelhas em resposta.
__ É claro que você sabe o que é pegada não é Finnigan? — Tossi um pouco antes de continuar — Ah você é muito gay mesmo. Pegada é quando um cara...
Antes que eu pudesse continuar, Kyle passou um de seus braços rapidamente pela minha cintura e me puxou contra seu peito, enquanto eu arregalava os olhos surpresa.
__Eu já te falei Heed — Seu aperto em minha cintura ficou mais forte e meus olhos se arregalaram ainda mais com aquela voz irritada e muito, muito rouca — Não sou gay.
É, ele com certeza tinha pegada.
Contra a minha vontade, minhas mãos pousaram no peito forte de Kyle e afastaram seu corpo do meu. Me virei e comecei a andar rapidamente em direção ao carro, totalmente nervosa relaxada diante daquele contato repentino.
Senti a risada do meu falso namorado atrás de mim.
__Essa semana vai ser muito divertida. Mal posso esperar para te apresentar para os meus pais – Ele disse me provocando e senti um arrepio passar pela minha espinha.
Eu estava rezando com todas as minhas forças para que Kyle não percebesse o efeito que ele tinha em mim quando se tornava aquele Kyle Finnigan. O sexy, bad boy e confiante Kyle Finnigan.
Porque se ele percebesse, eu estaria completamente na palma de sua mão.
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