Amor
1 único
Às vezes Zoro se perguntava como seria a sensação de estar apaixonado. Tinha a impressão que era quase a mesma sensação de quando seu pai passava a mão na sua cabeça e agradecia pelo trabalho na oficina, Zoro sabia o quanto era importante ser reconhecido por ele, porque na maior parte do tempo o via numa condição miserável, caído e estirado no chão de tanto beber. Ou quando sentiu alívio por saber que a munição da arma, que apontava para uma de suas têmporas, havia acabado bem na sua vez durante uma “brincadeira” com alguns colegas problemáticos da escola. Também podia ser a mesma sensação de chupar um limão, assim como também podia ser a sensação da pele envolvida com o caldo da fruta queimando sob o sol.
Ver o horizonte era bonito, costumava passar pelo campo de baseball só para olhá-lo e se sentir pequeno. Talvez o amor seria seus passos indo para longe dali, acabava correndo e terminava com as mãos nos joelhos, ficava ofegante e o horizonte continuava longe. Tinha tardes que corria tanto e acabava se perdendo, e ele pensava se amor poderia ser também a confusão que residia em sua mente nessas horas.
Entre os colegas problemáticos da escola, tinha um loiro de sobrancelha engraçada. Fumava tanto quanto Zoro bebia — hábito que herdou de seu pai —, mas achava estranho seu olhar estar sempre no horizonte como o dele. Será que Sanji correu até lá também? Achou algo ou não havia nada?
— Não há nada lá.
Zoro disse subitamente, nunca havia ficado a sós com Sanji no campo de baseball. Fazia frio e ele abraçava seus braços secos, os alisando volta e meia. Assim que ouviu a voz do colega que se aproximou, passou a encará-lo em vez do horizonte.
— Você já foi lá pra dizer isso?
Ele sorria de um jeito que os outros não sorriam, talvez porque Sanji lhe parecia melancólico e muito na dele.
— Não, embora eu ter corrido bastante. E nada.
— Mas isso não quer dizer que não há nada, marimo.
Apesar de não serem muito íntimos — a verdade era que eles esqueciam de memorizar seus nomes —, eles se referiam a cada um com apelidos. Zoro costumava chamar Sanji de sobrancelha enrolada ou outra coisa qualquer que envolvesse a espiral nela, e Sanji chamava Zoro de marimo ou qualquer coisa que remetesse a cor verde, afinal, o rapaz tinha cabelos esverdeados.
Zoro observou a respiração condensada saindo da boca de Sanji, assim como também seu nariz vermelho e escorrendo.
— Por que não pegamos o trem?
Sanji piscou os olhos com a sugestão de Zoro. — É verdade, talvez só com o trem chegamos em algum lugar.
Não entendia direito por que se uniu a Sanji naquele dia para simplesmente viajarem por aí, ou pelo menos, até a próxima cidade em que havia o mar. Eles não conversavam muito, se conheceram através de um amigo extrovertido que gostava de usar um chapéu de palha e estavam na mesma gangue mas, por algum motivo, sentiam ranço um pelo outro, ainda que não houvesse uma discussão.
Porém, acharam curioso os dois terem o desejo de cruzar o horizonte, talvez não fossem aquilo que pensavam um do outro. E tanto para Zoro quanto para Sanji, essa foi a primeira vez que puderam falar sobre isso com alguém.
Era um alívio, sentiam seus ombros mais leves só por saberem que há alguém como eles naquela cidade.
Na estação, ficavam na fila esperando o trem chegar. Volta e meia, Zoro se esbarrava em Sanji, deixando-o aborrecido, embora Zoro não tivesse culpa do lugar estar lotado de gente. No entanto, o marimo até que gostava da aproximação, diferente de Sanji, porque sentia seu cheiro. O sobrancelha enrolada não fedia somente a cigarro, ele cheirava a verão, sendo que estavam em pleno inverno!
Se amor fosse alguma estação do ano, não seria primavera e nem outra, a não ser verão.
Zoro tinha certeza disso.
E aquele corpo menor que o dele lhe enchia de nostalgia apenas roçando seu nariz nas madeixas loiras do cabelo volumoso de Sanji. Odor de ar quente, joelho ralado, cigarras, céu azul sem nuvens, mar...
— Dá para você parar de me cheirar?!
Sanji se virou para encará-lo e entender por que Zoro parecia querer lhe tocar.
— C-cheirar?! — Seu rosto se tornou rubro. — Só estou irritado com o cheiro de cigarro que você tem!
— Melhor cheirar a cigarro do que a suor de dias sem tomar banho!
— Quê?! Quem te disse isso?!
— Luffy.
Zoro deu um suspiro, tinha que ser ele... — Mas tá muito frio pra tomar banho todo dia. — Lamuriou.
Sanji revirou os olhos, se tivesse alguma suspeita de que Luffy falasse a verdade ou não, não tinha mais. A fila começou a andar e eles entraram no trem com os demais passageiros. Estavam escorados próximos a porta, observando a paisagem da cidade em desenvolvimento.
— Perto da minha casa tem uma trilha de trem. — Falou Zoro de repente, e Sanji passou a fitá-lo depois de corrigir a postura.
O marimo olhava a cidade com um olhar apático que fez o outro pensar se ele odiava aquele lugar também.
— Deve fazer muito barulho.
— Faz.
Morar perto de uma linha de trem era quase sinônimo de ser pobre. Afinal, quem que pagaria para morar perto de algo que faria muito barulho?
— Mas não tinha antes.
— Ah, entendo. A cidade tem crescido depressa.
Zoro se permaneceu calado com os braços cruzados e olhos na paisagem que passava correndo. Usava um casaco parecido com o dele, Sanji pensou mais uma vez se o marimo não gostasse daquela cidade.
Ela se tornava cada vez mais cinza.
Preferiram andar a pé da estação até a praia do que pegar ônibus ou uber, por mais frio que estivesse fazendo. Ambos esfregavam as mãos mesmo envolvidas por luvas e tiveram que puxar o capuz, porque desceu uma fina chuva de neve antes do fim da tarde. Assim que chegaram na praia, continuaram a andar e molharam a sola de suas botas na água fria do mar.
— Aqui também tem um horizonte. — Disse Sanji em risos e Zoro também riu.
— Talvez um barco chegue lá.
— Vamos sentar na areia, estou morrendo de frio. — Comunicou Sanji e se virou na direção da praia, Zoro o seguiu.
Eles se sentaram na areia coberta por neve e passaram a observar novamente um horizonte além do baseball.
— Por que odeia essa cidade? — Disseram em uníssono.
Piscaram os olhos e riram com aquela sincronia bizarra. Talvez os dois fossem íntimos, e nem sabiam.
— Posso falar primeiro? — Perguntou Sanji, abraçando suas pernas. Zoro assentiu. — Eu sempre tive curiosidade do que há fora dela... tentar entender por que meu velho se acha muito melhor do que eu... acredito que preciso viver mais...
— Engraçado, o meu se acha um lixo. Ele é alcóolatra.
Sanji não demonstrou surpresa, e Zoro achou isso legal de sua parte.
— O meu é muito exigente, ele pretende que eu fique com os negócios do restaurante depois que ele morrer.
— Isso é ruim, porque parece que você não vai moldar seu próprio futuro pra atender o desejo de seu pai.
— Isso! — Sanji se empolgou com a observação de Zoro. — É uma merda você nascer e já ter um destino. — Queixou-se desanimado.
— Mas é uma merda também você crescer sabendo que não vai ser nada.
O sobrancelhas compreendeu o que Zoro estava dizendo, devia ser difícil as coisas na família dele, quando seu pai era um viciado e provavelmente não se preocupava com o futuro do filho.
— Eu choro. — Disse Sanji. — Você chora também?
Desde que se sentou ali, Zoro permanecia com os olhos fincados no mar, enquanto Sanji sempre virava o rosto para encará-lo. E foi exatamente desse modo que Zoro respondeu.
— Gosto de pensar que essa sensação de impotência pode ser amor.
O coração de Sanji se mergulhou em melancolia e, sem pensar duas vezes, o abraçou bem apertado. Aos poucos, Zoro envolveu o corpo franzino dele com seus braços fortes e, da forma mais sutil, tocou os lábios de Sanji. Havia conhecido alguém que podia compreendê-lo e talvez Zoro parasse de associar o amor com a solidão.
Fale com o autor