Amor?
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Quando o amor nasce?
Como o amor nasce?
Qual é o momento exato em que isso acontece?
É uma explosão espontânea que te surpreende, te arrebata para algo completamente novo e desconhecido? Ou é algo sem forma que é construído aos poucos, solidificando-se gradativamente com pequenos gestos que passam despercebidos, negligenciados pela rotina?
Duas almas predestinadas, conseguem identificar-se na multidão através de um breve olhar perdido que dura algumas frações de segundos?
Nós somos realmente como uma metade inacabada de outra pessoa que precisa desesperadamente encontrar seu norte?
Ou tudo isso é fruto da sandice de algum apaixonado que viveu aprisionado em seus desejos e lamentos e acabou escrevendo livros açucarados com altas doses de glicose séculos atrás.
Existe uma confusão muito grande entre amor e paixão, entre bem querer e desejo, entre ternura e vontade. São sentimentos conflitantes que algumas vezes se misturam e nem sempre conseguem andar lado a lado sem te enlouquecer.
Era mais um dia comum como outros tantos em sua vida. Era final de tarde o sol já se despedia no horizonte com seus raios alaranjados rasgando o céu, os carros parados no congestionamento buzinando freneticamente, as pessoas passavam apressadas pela calçada sem ao menos nota-la. Sentia a brisa fresca bater contra seu rosto e balançar seus cabelos, seguia calmamente o caminho habitual que usava para ir para casa, sem pressa, apenas caminhava com passos cadenciados entre os outros pedestres ouvindo musica em seu fone de ouvido displicentemente com as mãos enfiadas no bolso da jaqueta, sentiu seu ombro se chocar contra algo e caiu de joelhos no chão.
— Desculpe.
Foi a primeira palavra que ouviu ao tentar se levantar ainda aturdida pelo impacto. Sakura olhou para cima, para o dono da voz e viu uma mão estendida em sua direção, automaticamente aceitou a ajuda e colocou-se em pé novamente.
—Desculpe novamente. Eu não te vi, estou distraído.
Ela não conseguia responder nada, ficou imersa naquele momento hipnotizada pelo sorriso mais encantador que seus olhos já vislumbraram.
Tudo ao seu redor deixou de existir, dissipou-se como uma névoa, as pessoas, os objetos perderam o contorno tornando-se disforme, os sons que segundos atrás se misturavam como um alvoroço de uma grande Babel agora eram completamente inaudíveis. Em algum canto obscuro do seu cérebro reconheceu o som melodioso daquela voz, ela lhe soava tão familiar, tão próxima, para Sakura aquela voz se assemelhava ao som de uma sinfonia celestial.
—Você está bem? “Perguntou” o garoto tirando-a de seus devaneios.
—Sim.
Sakura continuava a encara-lo como se tivesse revendo um velho amigo de infância que se perdera no passado.
—Nós já nos conhecemos de algum lugar? “Perguntou” finalmente.
—Impossível, eu me minha família nos mudamos para essa cidade hoje.
—Você já teve aquela sensação estranha de esta fazendo algo pela segunda vez?
—Deja vu.
—Hum?
—O nome disso é deja vu.
—Pode ser.
Ele continuava a encara-lo sem o menor pudor, analisando milimetricamente cada centímetro do seu rosto, sentia um calor aconchegante vindo daquele desconhecido, igual a uma xícara de chocolate quente em uma noite fria de inverno em que nada é capaz de te aquecer.
—Eu preciso ir agora, como eu te disse acabei de me mudar e estou procurando um endereço. "Falou" o garoto constrangido.
—O que você esta procurando?
—O conservatório de musica.
Sakura ficou pensativa por alguns instantes.
—É próximo daqui. Venha! Eu te mostro onde é, fica no meu caminho mesmo.
Eles caminharam calados, um ao lado do outro até chegarem a entrada do conservatório, Sakura escondia as mãos nervosas dentro do bolso para que seu tremor não denunciasse seu estado de espirito alterado.
—É aqui. “Disse” ela apontando para uma placa de identificação que ficava ao lado da porta.
—Então tá, preciso entrar estou atrasado como sempre. Me desculpe mais uma vez.
Ela ficou parada, observando aquela silhueta esguia subir as escadas e olhar para trás uma vez para acenar se despedindo, se pudesse eternizaria aquela imagem em sua memória, os cabelos dele refletiam o dourado fraco dos raios de sol, a pele pálida contrastava com os olhos negros e os lábios possuíam um leve tom avermelhado. Sempre detestou aulas de história, pois as consideravam inúteis, chatas, mas nesse momento lembrou-se de Adônis e Apolo. Esperou até que ele sumisse de seu campo de visão e voltou a caminhar, agora mais lentamente, seus passos se tornaram pesados e arrastados, era como se seu corpo não quisesse se mover, seus músculos queriam permanecer imóveis, ali, em frente a entrada do conservatório de musica, esperando que aquele desconhecido saísse de lá e eles pudessem conversar até se tornarem finalmente conhecidos.
Esses pensamentos confusos lhe causaram um certo estranhamento, afinal como era possível alguém que ela sequer sabia o nome despertar tantas sensações em tão pouco tempo, obviamente já se sentira atraída por alguém que acabara de conhecer ,mas isso que estava sentindo era diferente não era apenas um interesse sexual ou curiosidade, o que ele estava sentindo era algo novo e estranho e isso a assustava, a incomodava ,irritada conclui que aquela inquietude em sua alma era fruto do seu cansaço ,das sua noites mal dormidas, derrotada chegou em casa e jogou-se no sofá ainda imersa e perdida na imensidão negra dos olhos daquele desconhecido.
Seus afazeres cotidianos a absorveram e a manteve ocupada o mês todo, mas algumas vezes durante o dia, e principalmente alguns minutos antes de adormecer, era surpreendida pelas lembranças daquele sorriso que a assombravam e a perseguiam até em seu subconsciente durante seu sono.
Sentia que uma parte de sua alma permanecia presa a aquele momento infame, em que ele foi literalmente atropelada pelo destino e arremessada ao chão.
Sua mente lhe traia sempre o fazendo recordar detalhadamente de cada gesto, cada palavra, o som melodioso da voz aveludada que algumas vezes saia em falsetes, do movimento assimétrico que seus lábios faziam ao se moverem, as orbe negras como o céu noturno, até do cabelo que caia displicentemente sobre a testa quase cobrindo os olhos.
Sem perceber, Sakura começou a procurar o rosto daquele desconhecido, em todas as pessoas anônimas que cruzavam com ela pelas ruas, mas nenhuma delas era ele, sequer pareciam-se com ele. A verdade é que seria impossível Deus ter criado alguém que se assemelhasse a ele.Ele era uma obra de arte, único, perfeito.
Chegou a cogitar a possibilidade de ir até o conservatório de musica e procura-lo... Mas por quem procuraria, se não sabia nem seu nome, e se o encontrasse casualmente nos corredores ou na entrada do prédio, o que diria?
Talvez não dissesse nada, ficaria em silêncio por minutos infindáveis, apenas contemplando sua beleza, uma oração silenciosa em agradecimento aos deuses por ter-lhe agraciado com a perfeição.
Não queria parecer inconveniente e muito menos ser motivo de deboche já que era orgulhosa demais, e se fosse recusada como iria conseguir conviver ou sobreviver a isso?
Só lhe restava esperar que essa agonia que estava sentindo, fosse igual a uma chuva de verão, que surge repentinamente e desaparece mais rápido ainda, e que muito em breve esse desconhecido seria uma simples lembrança tola de seus caprichos em querer sempre o impossível, igual a uma criança birrenta que quer o brinquedo do amigo.
Sakura era fascinada pela noite uma baladeira nata. Queria embriagar-se e esquecer aquele estranho. Decidiu que sairia a noite e como sempre fazia, encontraria uma companhia agradável como sempre acontecia. Ele sabia da sua boa aparência sem falsa modéstia, sempre usou muito bem seus atributos físicos para atrair olhares.
Uma garoa fina caia fazendo com que apertasse mais seus passos para chegar rapidamente na porta da boate, não gostava de desarrumar seus cabelos, essa era uma de suas características gostava de estar sempre impecável, cumprimentou os funcionários na entrada com um leve gesto com a cabeça ,reviu vários rostos conhecidos que sorriam alegremente e alguns exibiam alguma malicia.
Sentou-se no final do balcão, ficando de costas para a pista de dança, não estava com vontade de ver as pessoas se exibindo de forma sensual enquanto dançavam fazendo cara de sexo bom e fácil. Pediu uma bebida para umedecer a garganta e aliviar a tensão, precisava beber, precisava ter o controle da sua vida de volta, não podia permitir que um encontro casual a aprisionasse dessa forma, mantendo-a refém da sua própria paixão.
Dizem que a paixão pode amadurecer e se transformar em amor, mas invariavelmente a paixão se transforma em loucura e obsessão.
Depois da quinta doze de Whisky, as luzes piscantes a fumaça, os perfumes, os risos tudo se embaralhava em sua mente, teve a impressão de tê-lo visto sentado na outra beirada do balcão conversando com alguém que a principio não soube identificar se era um homem ou uma mulher.
Uma euforia se apossou de Sakura, a embriagando, deixando-a em estado de torpor.
Não era possível que justamente agora quando ela resolve esquece-lo ,o destino o coloca bem diante de seus olhos.
Ele estava ali, próximo, palpável, não era mais uma mera imagem em sua memória, era real, assustadoramente real. .Ele parecia uma pintura inacabada de Michelangelo no esplendor de todos os seus tons e matizes, sentado com altivez mantendo as costas eretas, mas com o rosto sereno e olhar perdido.
Sakura pensou que talvez esse encontro casual fosse uma travessura ou uma brincadeira de extremo mau gosto da vida.
Pediu outra bebida para o barman e a bebeu de uma única vez.
Precisava se armar com coragem para aproximar-se, não entendia como aquele desconhecido conseguia ceifar toda sua autoconfiança sem fazer absolutamente nada para isso. A simples presença dele no recinto a deixava vulnerável, insegura, e ela odiava isso.
Odiava se sentir prostrada diante do acaso, da incerteza. Odiava se sentir manipulada pelas mãos vingativas do destino que certamente o punia pelos seus pecados, deixando cicatrizes invisíveis em sua alma.
Sempre achou divertido seduzir as pessoas mais improváveis, para poder se gabar depois de suas conquistas com suas amigas, mas agora, ela era a piada, e não achava a menor graça.Não conseguia rir da sua desgraça.
Quando ela estava prestes a se levantar, e ir finalmente falar com aquele que lhe roubou a paz, seus olhos presenciaram algo que não conseguia acreditar. Uma mulher com formas generosas que jogou nos braços dele, beijando-o com volúpia.
Sentiu como se uma adaga perfurasse seu peito dilacerando todos seus sonhos e desejos.
A dor a cegou momentaneamente, paralisando-a, suas forças se esvaiam de seu corpo deixando-a inerte, quase sem vida.
Seus doces sonhos juvenis se dissiparam, e se tornaram um pesadelo amargo.
Sakura viu o desconhecido se levantar e envolver a cintura da mulher com as mão em um gesto de proteção, ele a conduzia até o caixa que ficava bem atrás dela para pagar a conta.
Seus ombros chocaram-se novamente, mas o estranho não se deu ao trabalho desculpar-se continuou seu caminho indiferente, alheio ao olhar carregado de paixão e dor que Sakura ostentava em seu rosto.
Eles continuavam a beijar-se em sua frente.
Nunca um beijo teve um gosto tão amargo, parecia um veneno mortal que lentamente corroía cada célula de seu corpo, matando-a lentamente.
Ela observou atônita o casal se distanciar, a imagem parecia ter sido feita através de uma lente desfocada, porque estava turva, disforme, então percebeu que eram os seus olhos que estavam embaçados, marejados por lagrimas transparentes e salgadas que insistiam em se derramar.
Desolada e desarmada ficou mais uma vez imerso nos olhos negros daquele desconhecido.
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