Estela observou eles partirem com um peso no coração, Auterpe estava em perigo, William queria ser um salvador da pátria, Artemisa era um perigo ambulante e Perseu estava longe para a controlar.

—Você está ficando louca? — Estevão encarou a esposa — Como você fica oferecendo um dos dragões para sabe-se lá o que?!

—Os dragões são meus, Estevão, faço com eles o que eu quiser — Estela o olhou com desdém, viu a fúria, que era tão bem conhecida, escalar pelo corpo dele, deixando o rosto vermelho e fazendo sua mão voar nos cabelos dela, a derrubando no chão com a mesma velocidade costumeira. A rainha caiu contra uma mesa de apoio, o que machucou suas costas e quando tentou equilibrar, seu pulso torceu.

—Depois de tantos anos ainda não aprendeu? — ele rosnou — Achei que você tinha mudado, aprendido seu lugar no meu reino. — Estevão falou indo em direção à porta e a fechando.

—Seu reino teria sido destruído se não fosse eu — ela sibilou — Toda a sua força vem de mim, dos meus filhos e dos meus dragões — o marido a chutou no estômago, ela tossiu e uma dor irradiou por seu baixo ventre abraçando suas costas.

—Você é minha — ele se abaixou na altura que ela estava — São meus filhos e são meus dragões — disse entredentes — Agora levante, Biana ainda está aqui — Estevão a puxou por um braço, quando ficou de pé, Estela sentiu algo escorrer por suas pernas, levantou a saia sem pensar nos bons modos, era sangue, muito sangue. — O que foi? O que é isso?! — ela arregalou os olhos, seu sangue não vinha há mais de uma lua…

—Estou abortando — Estela balbuciou segurando as lágrimas. Estevão agiu rápido, levando ela para o quarto e chamando Linor na sequência; quando o curandeiro entrou, ela já estava chorando, não queria mais filhos, mas perder um era dolorido.

—Majestade, preciso que deite — Linor disse parado nos pés da cama, Liandra colocou a mão no ombro dela e a guiou ao leito, ela deitou e o homem começou a fazer o procedimento de retirada, Estela não lembrava o quanto doía, o quanto era incômodo. Estevão ficou na antessala ouvindo o choro dela, não houve gritos. — Sinto muito pela perda, majestade — Linor disse ao sair — A rainha ficará bem, só precisa descansar — o rei assentiu e levantou no momento que o curandeiro saiu.

—Estela? — Liandra limpava a cama enquanto a rainha estava ao lado, afagando os braços, tremia, seu corpo doía, seu coração também.

—Deite, majestade, precisa descansar — a criada abriu as cobertas e ela escorregou para dentro. Liandra acenou para Estevão e saiu.

—Como foi? — ele sentou ao lado dela e passou um braço pelos ombros.

—Como as outras vezes — virou o rosto — Vá ser anfitrião para a garota. Ela aprecia bastante sua companhia — se encolheu.

—É você que eu amo — beijou o ombro dela —Desculpe, eu não quis… — a rainha não respondeu, apenas assentiu, as portas foram abertas e as crianças entraram.

—Liandra nos contou — Elisa disse se aproximando da mãe e a abraçando — Eu sinto muito, mamãe — Estela beijou a filha demoradamente, quase todos estavam ali, exceto Evie, mas era de se esperar. Elia foi colocada em cima da cama e caminhou até a mãe, sendo recebida por um abraço, todos os filhos seguiram o exemplo e quando Estela percebeu, sua cama estava cheia de crianças e Estevão ainda a abraçava, toda sua família estava ali, ao menos grande parte dela, esse pensamento arrancou um leve sorriso.

—Obrigada, crianças — ela sorriu beijando cada um deles.

—Eu quero que saibam que amo vocês mais que tudo no mundo — Estevão sorriu para eles — Cada um de vocês — beijou a testa da esposa — Obrigado pela família incrível que me deu — Estela estava magoada com o marido, mas não poderia deixar de sorrir.

Evie estava em seu quarto, pensava no quanto Elisa era de sorte e no quanto Orion foi um traidor, deveria ter o atingido com muito mais força, feito ele pagar por ter salvado a irmã, mas se eles achavam que ela seria boazinha, estavam enganados, ela acharia algo melhor para atingir a garota, tinha certeza que sim.

Orion dormiu o suficiente para se recuperar da noite de trabalho e quando soube do acidente com sua tia, foi vê-la imediatamente, Elisa e Elora estavam com ela, a mãe parecia bem, não sangrava, o que era um bom sinal; ele fez companhia para elas por um tempo.

Biana partiu naquela tarde sem avisar ninguém, não queria casar com um rei do outro lado, não queria ver sua família apenas uma vez ao ano, se fosse o rei Estevão, ela não pensaria duas vezes, seria uma ótima rainha de Calasir, tinha absoluta certeza.

Quando Perseu e William atravessaram o portal, o rei não se atentou que não o fechou completamente, mas alguém percebeu que sim, alguém percebeu que outro lado estava vulnerável e que além do portal estavam duas crias da maldição.

Drakoj acordou em festa naquela manhã, Estela não estava com clima de festejos, mas era sua obrigação como rainha participar de celebrações para os deuses do país. Ela se vestiu calmamente, Estevão havia voltado para a face de bom marido, então a acordou aos beijos e carícias, deu flores e um colar novo, era sempre esse roteiro, ela já conhecia muito bem. Elisa estava se vestindo sob os olhos atentos de Eilon, que dizia que ela não estava totalmente recuperada.

—Eu estou ótima — Ela disse arrumando os fios da franja.

—Estou preocupado — ele caminhou até ela e a beijou.

—Vou ficar bem — Elisa sorriu, Eilon retribuiu — Será que mamãe me empresta uma pulseira? — a garota arrumou os cabelos do marido.

—Espere — o príncipe caminhou até a mesa de cabeceira e abriu a gaveta, tirando uma caixa de veludo rosa e a abriu, a pulseira um simples aro de ouro com uma pedra verde — Eu ganhei em Saphiral, quando nasci. Acho que você usará mais que eu — Eilon sorriu colocando no pulso dela, Elisa o beijou como agradecimento.

A família real saiu com uma comitiva, o povo os recebeu com aplausos e salvas, todos acenavam em resposta. As crianças mais novas foram brincar sob supervisão das babás, Orion tentava se manter longe de Evie, que caminhava emburrada, não queria estar ali, não queria participar do teatro de família feliz. Elisa e Eilon acenavam tal como os pais, os habitantes acreditavam que o futuro de Calasir seria esplêndido aos cuidados do casal. Mandrik observava tudo, incomodado com a proximidade do pessoal com a corte, não porque não gostava dos plebeus, mas porque um ataque era perigoso.

Houve um tumulto, um homem surgiu, era alto, moreno, assustadores olhos vermelhos e cabelos negros como a noite, ele admirou a família real, o garoto de Auterpe estava ali, mas haviam muitas garotas de cabelos brancos.

Estevão estava ocupado quando aconteceu o primeiro golpe, ali, na praça central, sob os olhos de todos, Koppa, um mercenário do outro lado conhecido por sua agilidade, acertou a princesa e futura rainha do reino, Elisa caiu nos braços de Eilon, havia um ferimento de uma ponta a outra de sua barriga, ela pousou as mãos sobre a vertente de sangue e olhou para o marido como se pedisse socorro. Estevão virou no exato momento que o homem ia em direção ao Orion, ele saltou com a espada na mão, dando tempo de bloquear o primeiro golpe.

—Saía, Orion! — Ele gritou para o sobrinho, que se afastou.

—Por favor, eu só quero dois deles — Koppa riu — Só o garoto de cabelo diferente e aquela ali — apontou com a cabeça para Eveline.

—Nenhum deles — Estevão rosnou, as lâminas se forçaram uma contra a outra. Evie ficou surpresa com a atitude do pai, sempre acreditou que ele a entregaria na primeira oportunidade — É minha filha e o meu sobrinho.

—Ahn… — Koppa riu — Claro — ele investiu contra o rei, que prontamente o bloqueou — Eu não iria vir atrás de uma filha sua — sussurrou, Estevão se desconcentrou e o encarou, o que ele queria dizer com isso? Evie era sua filha, meio às avessas, mas sua filha. — Mas por uma filha de Perseu… — Estevão não conseguiu segurar o próximo golpe, estava mais confuso do que alguma vez esteve na vida, ele apenas sentiu a lâmina afundar em seu peito, era frio, era ardido, o golpe foi seguido por um grito de Estela, que estava ao lado da filha desfalecida, Mandrik agiu no impulso, afundando a espada que Nakkuma lhe deu nas costas do homem moreno, que gorgolejou sangue. A rainha correu para o lado do marido, se ajoelhando no chão e chorando, verificando o tamanho da ferida, a coroa de rei estava no chão naquela altura.

—Estela… — Estevão sussurrou a pegando pela mão.

—Shiiu — ela pediu aproximando o rosto do dele — Vai ficar tudo bem — Estevão negou levemente com a cabeça.

—Não — tossiu sangue e mais do líquido vertia do corte no peito — Obrigado pela família que me deu — disse apertando a mão dela com a força que restava — Desculpe por todas as vezes que não fui o marido que você merecia — o sangue que saía da ferida já havia feito uma poça no chão e manchava a saia do vestido da rainha.

—Está tudo bem, eu perdoo você, mas fique comigo — havia um conflito dentro dela, uma pequena parte queria se livrar de Estevão por tudo que ele havia feito para ela, outra não sabia como viveria sem o marido, afinal ele era tudo que conhecia — Mandrik! Ajuda! — ela virou para o conselheiro, que já corria em busca de socorro. Orion estava em choque, não conseguia acreditar que não estava seguro nem no outro lado do portal — Você vai ficar bem, meu amor — seu rosto estava tomado pelas lágrimas, ela oscilava entre olhar para Elisa e Estevão.

—Eu amo você, minha princesa dragão — os olhos do rei fecharam e a mão do rei soltou a mão da rainha. O grito de Estela atravessou a multidão.

Estevão, filho de Connor e Joice, o conde e condessa de Interlok, do condado das esmeraldas, rebelou-se contra a antiga coroa aos vinte e dois anos, subiu ao trono aos vinte e quatro anos, casou-se com uma estrangeira com dragões aos vinte e oito anos e governou por exatas vinte estações. Teve seis filhos legítimos e uma bastarda que jamais desconfiou até seus últimos momentos de vida.

Estevão, rei de Calasir, que adotou o sobrenome da esposa e fundou a Casa Balaur neste lado do mundo, morreu pelo golpe da espada de um assassino de herdeiros de Pardóx, enquanto tentava salvar sua filha mais velha e seu sobrinho. Ele tinha 44 anos.

Estela se debruçou sobre o peito do marido chorando copiosamente, ela soluçava. Eilon, agarrado em Elisa, chorou ao ver o pai falecer. Ethan abraçou Elora rapidamente, escondendo o rosto da menina em seu peito, lágrimas escorriam pelo rosto dos dois. Evan e Elia estavam no colo das babás sem saber exatamente o que tinha acontecido. Mandrik se aproximou, seus olhos cheios de lágrimas, seu melhor amigo estava morto. Max encarava o pai, estava assustado, não entendia porque haviam atacado o rei.

—Estela — o conselheiro pousou a mão sobre o ombro dela — Precisamos levar ele.

—Não! — ela gritou — Ele vai acordar! — virou para o homem. Mandrik se abaixou na altura dela e a abraçou — Ele vai acordar, não vai? — o cavaleiro negou enquanto a abraçava mais forte.

—Majestade, precisamos levar a princesa — Navi disse pegando Elisa no colo.

Estela foi levada por Mandrik, ela chorava tanto pelo marido morto quanto pela filha ferida, não conseguia entender isso, não queria acreditar que estava viúva. Eilon chorou todo o percurso, observando a carruagem que levava o corpo do pai, os irmãos estavam ao redor dele, todos abraçados.

Elisa foi colocada na cama, seu vestido estava sujo de sangue, mas ela ainda respirava. Linor começou a limpar as feridas rapidamente, costurando o corte, não poderia perder a princesa.

Elisa estava numa praia de areias brancas e água azul claro, transparente no que encontrava com a areia, ela sentia a brisa salgada, um aroma de fresco de flores e havia dragões no céu. A princesa caminhou pela praia e chegou no que parecia uma vila, no fim da rua central, feita de pedras, havia um grande templo, bem parecido com o de Dragoi. Um homem vinha ao seu encontro, tinha os cabelos longos e brancos e vestia uma túnica cor creme com um cordão verde na cintura.

—Estela… — O homem disse abrindo os braços e sorrindo, seu sorriso se desmanchou ao notar a menina — Você não é Estela.

—Não, meu lorde. Sou Elisa, sou filha dela — a garota olhou ao redor — Onde eu estou?

—Em Deragona — o homem girou no próprio eixo. — Meu nome é Nandor, eu vi sua mãe crescer.

—Por que estou aqui? — Elisa juntou as sobrancelhas, não lembrava de muita coisa, apenas que estava na festividade com sua família quando um homem pulou na sua frente e a atingiu com a espada. — Eu morri? — Nandor a analisou e seus olhos pararam na pulseira que usava no pulso, um sorriso desdenhoso brincou em seus lábios, era a pulseira que ele deu para o menino do outro lado há catorze anos.

—Não — olhou para ela e sorriu, a pulseira era a passagem de volta, ele próprio havia escolhido esse atributo para a joia — Ainda não — Elisa não teve tempo de perguntar mais nada antes da escuridão a engolir.

Ela caminhou por um túnel onde havia várias portas, cada uma mostrava uma cena diferente, a princesa parou em uma onde estava sua mãe, Estela chorava encolhida no chão, Liandra afagava suas costas e pedia para ela se acalmar, dizia que o casamento com o rei seria bom. Elisa andou mais um pouco, em outra porta mostrava seus pais, mas não era o quarto da fortaleza Balaur, era outro, bem luxuoso, mas bem menor, ela viu o pai jogar a mãe no chão e gritar algo com ela; a próxima porta era a cena de sua mãe em uma caverna, havia muito sangue ao redor dela, ela sabia qual momento era aquele, era o aborto do primeiro bebê. Caminhou mais um pouco, parando em uma porta mais distante, era sua mãe caminhando na praia com outro rei, não era seu pai, mas a cena estava incompleta e cortava para a parte de Estevão gritando com Estela no quarto, Elisa engoliu o choro, seu pai sempre pareceu um marido tão dedicado, nunca imaginou que ele seria capaz de agredir a esposa. A próxima porta era da sua mãe sangrando pela boca, a barriga enorme e contraída, Perseu também estava naquela visão, ele gritava que precisavam salvá-la. As próximas portas eram momentos das vidas da família e a última estava entreaberta e emanava uma luz branca, ela entrou e então acordou, sentou na cama de súbito, sua barriga doeu, ela olhou por dentro da camisola e viu os pontos.

—Alteza, melhor ficar deitada — Linor pediu.

—Onde está Eilon? — o curandeiro respirou fundo, não queria ser o portador de más notícias, mas precisava.

—Seu irmão está com Mandrik cuidando do velório de… — Elisa o encarou — De seu pai. — Ela caiu em lágrimas e soluços — Eu sinto muito, princesa — ela o abraçou e chorou.

—Querida — Eilon falou ao entrar no quarto, ele tinha o rosto vermelho pelo choro.

—Eu quero vê-lo — ele assentiu e a pegou pela mão, a guiando pelos corredores até a sala dos embalsamadores, onde dois homens já tratavam de enrolar o rei, Estela estava ao lado, abraçada ao corpo do marido, molhando o rosto do homem de lágrimas — Mamãe — Elisa choramingou e foi abraçada pela mãe.

—Majestade, iremos o sepultar? — o embalsamador mais velho perguntou, a faixa estava enrolada até a cintura do rei. Mandrik olhou para Estela.

—Não — suspirou — Estevão amava os dragões como só um deragoniano poderia amar — ela contornou o rosto do falecido, que mantinha uma expressão de paz — Faremos como em Deragona — Olhou para Ed, que segurava a faixa — Faremos uma pira funerária e iremos enterrar os ossos em Dragoi.

—Ele não faria diferente — Mandrik afagou o cabelo de Elisa.

A bandeira do castelo foi baixada a meio mastro, o reino ficou silencioso, o corpo do assassino do rei foi pendurado na praça e despedaçado pelos habitantes, Estela e seus filhos largaram o verde e vestiram o preto, não havia mais brincadeiras nos corredores, a única risada vinha do quarto de Evie, que achava pouco o que o pai tinha sofrido, a única parte que ela gostou foi a de usar outra cor. A manhã começou fria, um vento cortava a península, a família real e a corte estavam reunidos passando o bosque, havia uma pilha de madeira com o corpo do rei enfaixado em cima, todas as crianças estavam abraçadas a mãe, exceto Eveline, que se mantinha afastada, próxima de uma árvore. Estela olhou para o covil, de onde saiu Jaspe, o dragão que deu toda a identidade da dinastia, ele desceu, parou em frente a pira, abriu as asas e cuspiu fogo, incendiando as madeiras e o corpo do rei. Eles observaram queimar até sobrar os ossos, Estela abraçou Elisa e Elora, que estavam mais próximas, e seguiu em direção ao castelo.

—O teatro já acabou? — Eveline perguntou.

—Nosso pai morreu e você não sente nada? — Elisa a olhou enraivecida, não conseguia se virar, nem ficar totalmente ereta, mas conseguia sentir raiva.

—Claro que eu sinto. — ela sorriu — Sinto alívio!

—Nosso pai morreu para salvar você, ingrata! — Eilon avançou sobre ela, mas se conteve quando Max o segurou.

—Não vale a pena — o outro falou.

—Vamos, Eilon, temos coisas a resolver —- Mandrik pousou a mão no ombro do príncipe, o guiando para dentro. Estela não quis prestar atenção no comentário ácido da filha, apenas levou os outros para o castelo e deixou cada um em seu quarto, o conselheiro a acompanhou na missão. Elisa entrou no quarto e estendeu a mão para Eilon — Vocês não. — O casal se entreolhou, deram as mãos firmemente e seguiram a mãe e o cavaleiro, que estava acompanhado de Max. Eles entraram na sala do pequeno conselho.

—O que precisamos resolver? — Eilon olhou para a cadeira que seu pai normalmente sentava, seu coração doeu.

—A coroação de vocês — Mandrik disse.

—Não estou com clima para isso — o príncipe se encolheu na cadeira.

—Quando um rei morre, o herdeiro precisa assumir o trono antes de qualquer ameaça — Max completou, se solidarizava com a dor do amigo, mas responsabilidades eram responsabilidades.

—Ninguém vai tentar assumir meu trono — o garoto rosnou, seus olhos estavam inchados de chorar a morte do pai.

—Filho — Estela se aproximou e sentou ao lado dele, puxando as mãos dele e fazendo se encararam — O sonho do seu pai era te ver rei — organizou os cabelos dele — Ele ficaria decepcionado se você demorasse a assumir algo que ele construiu para você — o lábio do menino tremeu — Cada pedra encravada no castelo, cada rua organizada na cidade, cada condado, cada aliança, tudo que está sob nosso poder, tudo foi feito e organizado para você — ela contornou o rosto do filho.

—Eu não sei se consigo — uma lágrima correu pelo rosto do príncipe — Eu…eu não sou como papai — olhou para o chão envergonhado.

—Você fugiu para casar com a menina que ama, desafiou a todos para isso, não consigo imaginar nada mais parecido com seu pai — Mandrik sorriu afagando as costas do menino.

—Mas… — Eilon olhou para Elisa, que ainda chorava — É diferente — disse com um nó na garganta — Eu não vou conseguir, não sei se serei um bom rei.

—Seu pai também não sabia se seria um bom rei quando quis conquistar Calasir, mas foi — Mandrik não sabia o que falar, ele, tal como Estela, não sabia como seguir sem Estevão.

—Eilon, meu filho, olhe para mim — Estela ergueu o rosto do menino com o nó do dedo indicador — Nós somos o reinado de fogo, aço e uma coroa de chamas, mantenha isso.

—Eu não sou meu pai — o príncipe tremeu.

—Não, não é — Estela sorriu fraco — Você é Eilon, da casa Balaur, rei de Calasir e manterá o reino unido sob fogo e aço — ele ficou sério e olhou para a mãe assentindo, ele iria governar antes do que esperava.

Estela foi para seu quarto e chorou, Estevão nunca mais entraria pela porta com flores ou joias, nunca mais iria a aquecer nas noites quentes, mas também nunca mais iria a violentar ou a agredir. A rainha encolheu na cama e chorou até dormir.

William e Perseu chegaram no campo de batalha, William sentia o cheiro de sangue e de caos, era tudo que ele precisava. O rei de Saphiral andou rapidamente entre os soldados, procurava por Auterpe, mas não precisou procurar muito, a rainha de Ruphira estava em uma das tendas, havia um corte em sua cabeça, um curandeiro limpava a ferida.

—William, o que você está fazendo aqui?! — ela gritou ao ver o homem.

—Vim dizer que aceito casar com você! — ele correu ao encontro dela, se ajoelhando na sua frente e beijando suas mãos.

—É perigoso — Auterpe olhou para o irmão — Por que deixou ele vir?!

—Não iria impedir o amor — Perseu deu de ombros — Como está a situação?

—Péssima. Perdemos muitos soldados. Estão avançando rápido — eles ficaram sozinhos na tenda, ela engoliu o vômito.

—Você está bem? — William perguntou a analisando.

—Prometem não surtar? — ela deu um sorriso amarelo, William a olhou confuso, o irmão, por sua vez, olhou desconfiado. — Eu estou grávida — Auterpe mexeu na faixa e liberou a barriga, não estava enorme, mas saliente — Teremos mais um bebê — Sorriu segurando as mãos de William.

—Você está louca?! — William levantou abruptamente — Como veio lutar grávida?

—William, eu sou uma rainha de Pardox, é óbvio que eu viria lutar mesmo grávida! — Auterpe levantou e tornou a sentar — Nós vamos lutar e vamos vencer essa batalha, depois vamos casar.

—Não, eu não quero esperar mais — William revirou seus bolsos e pegou duas alianças — Vamos casar — Auterpe sorriu largamente e levantou.

—Você nos abençoa, Perseu? — o irmão assentiu sorrindo enquanto eles buscavam uma vela. Perseu fez os ritos de casamento, citando o poder que essa união tinha e o quanto eles eram importantes um para o outro. Auterpe beijou William apaixonadamente, estavam casados, mesmo que ela não soubesse se viveria muito mais.

Naquela noite a batalha foi assídua, Perseu lutou em seu máximo, assim como Auterpe e William, no entanto, em algum momento que os homens não perceberam, uma marreta acertou a cabeça da rainha de Ruphira, a fazendo voar longe e cair desmaiada, William apenas viu o homem e saiu correndo atrás dele, agarrando a marreta que ele usara no caminho, ele desferiu um golpe no braço, o que fez o homem se desequilibrar e cair, William o montou, levantou a marreta acima da cabeça e desceu com força, estilhaçando o crânio, mas mesmo coberto de sangue, fragmento de ossos e massa encefálica, ele não parou, ficou batendo até que não sobrasse mais nada, foi quando Perseu colocou a mão no ombro dele, o fazendo parar, todos olhavam apavorados para o mortal raivoso.

—Auterpe! — William saltou, Perseu o segurou.

—Ela está viva, mas está em coma — sussurrou.

—Ela morreu? — o outro balbuciou.

—Não…Ela está…dormindo — Perseu viu a estrutura de William desmoronar — Ela vai acordar, só não sabemos quando.

—Eu vou matar esses filhos da puta! — ele gritou virando para o exército inimigo — Eu não sou minha cunhada, mas farei questão de atear fogo em cada um de vocês! — ameaçou, adoraria ter os dragões de Estela naquele momento, iria derreter aqueles homens em dois toques.

—E desde quando sua cunhada faz algo além de obedecer o marido? — Nakkumma olhou para William, ela lembrava que a rainha de Calasir nem respirava se o marido não mandassem.

—Vocês não conhecem Estela — foi tudo que William disse, naquele momento não era importante discutir a raiva da mulher, mas sim salvar Auterpe.

Ela estava sobre uma cama improvisada, parecia plena. William a vigiou todo o resto da noite, dormindo só quando o sol nasceu. Auterpe não acordou naquela noite e nem nas outras duas que seguiram, o que enraiveceu William de tal maneira que nenhum inimigo que cruzou seu caminho sobreviveu a fúria dele, ele escalpelou homens, arrancou unhas, dedos, membros inteiros, empalou outra dúzia de soldados e ateou fogo em cada corpo, o campo de batalha estava virando uma carnificina cruel.

—Por que o fogo? — um dos soldados de Auterpe perguntou.

—Porque minha cunhada sempre diz que o fogo é a única garantia de que a pessoa jamais voltará — William admirou o resto do corpo queimar e então retornou para a tenda. Perseu estava sentado próximo de Auterpe, uma carta estava em sua mão e ele parecia incomodado — Rendição? — perguntou para o cunhado.

—Não — Perseu engoliu em seco — William, senta — o homem obedeceu meio contra gosto e preocupado.

—Auterpe não está bem? — olhou para a mulher que ainda dormia.

—Ela vai ficar — Perseu respirou fundo, não queria noticiar tal coisa — É seu irmão.

—Estevão enlouqueceu de vez e veio atrás? — um sorriso brincou nos lábios de William, mas Perseu manteve-se sério — O que aconteceu com ele? — o tom saiu de brincadeira para nervosismo.

—Lembra que precisávamos manter Orion em um refúgio porque existem assassinos de herdeiros? —- William assentiu nervoso — Algum, não sei como, descobriu que o filho de Auterpe estava no outro lado, junto com… — ele engoliu o nó na garganta — Junto com minha filha — William arqueou a sobrancelha — Talvez tenha chamado quando liberamos os poderes dela — Perseu estava remoendo a culpa, Estevão não era exatamente um bom homem, mas sempre tentou ser o melhor com ele — Um mercenário atravessou o portal de alguma forma e foi atrás de Artemisa e Orion, Estevão, ao defender os dois, foi atingido fatalmente — os ombros de William despencaram.

—Estevão morreu? — Perseu assentiu — Como Estela está? E Orion? Estão bem?

—Segundo Navi, estão bem. Estão organizando a coroação de Eilon antes de haver alguma reivindicação — Perseu sabia qual era o medo de Estela, se Eveline quisesse exercer seu direito de herdeira e não fosse aceita, iria destruir Calasir de uma ponta a outra, Perseu tinha certeza. — A batalha aqui terminou — Perseu olhou para fora, não havia mais inimigos, não um número expressivo.

—Não, eu ainda não terminei de matar eles — William rangeu os dentes.

—Terminou sim — Perseu pontuou — Precisamos ir para Calasir.

—E Auterpe? Não posso abandonar Auterpe! — William apontou para a mulher.

—Vamos cuidar dela — Nakkumma falou, surpreendendo os dois que não haviam visto ela se aproximar — Eu a protegerei pessoalmente.

—Eu confio em você — Perseu acenou.

—Se meu cunhado confia em você, eu também confio — William beijou a boca de Auterpe — Eu volto logo, meu amor, preciso cuidar de nosso filho.

E William realmente precisava, pois com a anunciação da coroação de Eilon, Eveline estava cada vez mais incontrolável, havia agredido Ethan, derrubado Elora da escada, que não se machucou gravemente, ademais, tentou várias e várias vezes invadir o quarto de Orion, além de tudo isso, no silêncio da noite, voava com Gameon até a sacada de Eilon e Elisa, invadindo o quarto do futuro rei e envenenando a futura rainha pouco a pouco a cada noite.

Estela estava assustada com o sangue de Éffellya, o sangue que corria no corpo de Artemisa.