Perseu respirou fundo, Artemisa estava tão linda, era tão linda, os olhos dela brilhavam de curiosidade com tudo que viam, ela parecia em casa, porque estava.

—Como está sua mãe, Ar...Evie? – Perseu sorriu fingindo que não iria errar o nome da garota.

—Bem, rei Perseu – Evie sorriu, ela tinha seu sorriso, com os olhos azuis era sua cópia perfeita.

—Uau! Vocês são muito parecidos! – Orion exclamou se afastando e observando a cena, sua prima riu e seu tio virou o rosto engolindo em seco.

Perseu olhou para Saphiral quando seu reino surgiu no horizonte e suspirou, não conseguia acreditar que tanta coisa ruim havia acontecido com sua filha, como Estela pode deixar o garoto ser tão ruim? Por que Estela não a protegeu?! Tudo era culpa dela, se Estela tivesse aceitado ficar em Saphiral, nada disso teria acontecido e eles poderiam ter formado uma família feliz, Artemisa se sentiria em casa, seria amada e protegida, ficaria longe daquele garoto maldito que puxou o gene ruim do pai!

—Nossa, é incrível! – Evie sorria largamente girando em seu próprio eixo, o que arrancou um sorriso sincero de Perseu – Esse é o lugar mais bonito que já vi.

—Espere só até ver o castelo, tio Perseu reformou ele inteirinho! – Orion puxou a mão dela, Perseu sorriu para os adolescentes, que o seguiram.

Eveline foi devidamente apresentada como “A princesa de Calasir”, mesmo que todos verificassem a semelhança absurda entre ela e o rei, não havia o tirar nem pôr, era a versão feminina do monarca. O rei deixou o sobrinho no quarto e caminhou lado a lado com a princesa, seu coração acelerado no peito, o anseio em a abraçar, a beijar, dizer que tudo ficaria bem, dizer que papai estava ali para ela.

—Seus pais te falaram desse lugar? – perguntou.

—Não muito, contaram que eu e Eilon nascemos aqui e que mamãe quase morreu no parto – ela encolheu os ombros pensando no pânico que sua mãe teria quando não a encontrasse.

—É, sua mãe foi muito forte – um sorriso escapou dos lábios de Perseu, que lembrava com carinho do rosto delicado, dos cabelos brancos macios, do corpo quente junto ao seu – Esse é seu quarto. – ele girou a chave e abriu as portas, Evie suspirou, era um belo quarto, com enormes janelas para o mar, não era enorme, mas era acolhedor, passa a um sentimento de lar.

—Majestade, ele é...não posso aceitar – virou para o rei, que murchou o sorriso – É perfeito, não quero estragar nada.

—Você não vai – ele tornou a sorrir – Sinta-se em casa – depositou um beijo demorado na testa dela, o que aqueceu o coração da princesa, não sabia porque exatamente, mas aqueceu. – Nos vemos na refeição.

Em Calasir o sol já brilhava, Estela levantou antes do marido e quando questionada disse que iria ao quarto de Eveline antes que ela descesse para o desjejum; a rainha queria conversar com a filha, pedir perdão por tudo que havia feito e pelo que deveria ter feito. Queria ter sido uma mãe melhor, mas só percebeu isso quando era tarde demais. A porta estava estranhamente aberta, Estela espiou para dentro, as velas estavam apagadas, havia uma pilha de roupas sobre a cama e uma bolsa aberta, porém vazia.

—Eveline sumiu! – ela gritou no corredor, fazendo Estevão levantar da cama aos tropeços e ir ao encontro da esposa ainda com a camisa aberta – Estevão, ela fugiu! – a rainha entrou no quarto, procurando por algo que pudesse a guiar, mas não havia, as botas de montaria haviam sumido, assim como algumas peças de roupa e a mochila de viagem.

—Meu bem, acalme-se, Eveline deve ter ido passear ou algo assim – o rei falou antes de entrar nos aposentos reais e analisar a situação – Guardas! – gritou com meio corpo para fora do quarto – Revirem a fortaleza. Encontrem Eveline! – os jovens que prestavam guarda naquela manhã saíram correndo sem questionar.

—De novo isso? – ela olhou com os olhos cheios de lágrimas – Evie não tem ninguém com quem queira casar, ela não fugiria por isso – Estevão a abraçou e beijou o topo de sua cabeça, sentia muito pelo tanto que Eveline havia dado de dor de cabeça para a mãe, muitas das brigas deles eram porque Estela queria a defender ou queria fazê-lo mudar de ideia quanto o casamento com Eilon, e também uma pequena raiva por aquela fatídica tarde de verão.

Havia ocorrido há anos, quando Elora havia acabado de completar sua terceira estação, naquela altura os gêmeos tinham sete anos e Eveline havia aprendido a fugir da mãe pelas escadas secretas da fortaleza, Estela há pouco mais de uma lua havia descoberto que estava grávida, Linor havia pedido repouso, já que o bebê anterior não havia vingado e o aborto aconteceu no período mais delicado, mas a rainha pensava que após quatro luas e meio não haveria riscos, então não cumpria o pedido do curandeiro à risca. Foi por esse motivo que Estela correu escadaria abaixo atrás de Eveline, que se recusava a ouvir os chamados da mãe atrás dela, a garota desceu pelos degraus até sair no jardim, onde a família brincava, Estevão viu quando Evie colocou o pedaço de madeira para dificultar a passagem do arco por onde saiu, porém não teve tempo para avisar a esposa, que, numa busca cega pela filha, se deixou tropeçar e cair de cara no chão, Eveline gargalhava quando o pai correu em direção a mãe, ela ria e dizia que havia ganhado o pega-pega, mas quando Estevão colocou Estela de pé, o vestido foi ensopado de sangue e a risada cessou. O rei lembrava dos olhos apavorados da rainha, que dizia que tudo estava bem, mas também lembrava da risada da garota ao fundo, aquela perda era culpa dela; ele lembrava do grito que saiu de sua garganta mandando ela calar a boca e lembrava de Estela dizendo que Linor estava errado e que o bebê estava bem; lembrava das horas intermináveis até a expulsão do natimorto, que era outro menino, era minúsculo e cabia na mão do rei; lembrava do quanto sua esposa chorou e no quanto o pedido de desculpas de Eveline foi ridículo. Estevão entendia que ela era uma criança na época, mas isso não tirava a culpa dela, se tivesse obedecido eles quando chamaram para brincar no jardim com seus irmãos, se ela fosse obediente, Estela não teria perdido o menino, ali foi a virada de chave, Estevão nunca mais tentou agradar Eveline, e qualquer coisa minimamente errada era punida.

—Por favor, Estevão – a voz da esposa o tirou do transe – Encontre Eveline – ele a beijou.

—Claro, meu amor, vamos trazê-la para casa – Estela o abraçou forte, tentando procurar no marido alguma segurança, alguma paz.

—Eu ouvi bem? Evie fugiu?! – William apareceu na porta do quarto – Para onde ela foi sem me avisar? – ele passou os dedos nos cabelos de forma nervosa e sem deixar os pais falarem – Vou falar com Orion, ele deve ter uma ideia – o grito que William deu terminou de acordar o resto do pessoal que dormia, Eilon e Elisa saíram na porta, assim como Ethan e Elora saíram de seus quartos, todos ainda vestiam pijamas – Orion fugiu! – William saiu no corredor arrancando os cabelos.

—Ótimo, dois desaparecidos! – Mandrik revirou os olhos antes de voltar para dentro e se trocar.

—Ethan e Elora? – Leodak perguntou sentando na cama, estava sonolento.

—Orion e Eveline! – o conselheiro respondeu enfiando um pé na bota.

—Bem que eu achei que rolava um clima entre eles... – O loiro começou, Navi encolheu-se na cama, sentia que algo estava errado e que com certeza não havia uma paixão entre Evie e Orion, céus, Perseu o mataria pessoalmente se a menina sumisse ou sofresse um acidente, sabia que sim, não haveria amizade no mundo que faria as chamas de Perseu apagar antes de consumir seu corpo por inteiro. Mas e se o pegasus tivesse levado ela para o outro lado do portal? Pelos Deuses, isso parecia uma hipótese tão ruim quanto, Eveline era filha de Perseu, neta daquela criatura horrenda, era uma alvo ambulante.

—Precisamos achá-los! – Navi levantou num pulo, vestindo a primeira roupa que encontrou e saindo ao mesmo tempo que Mandrik, eles se reuniram no hall de entrada, todos os cavaleiros de dragões estavam devidamente vestidos para montaria.

—Ter uma ninhada tão grande tem seus problemas – Mandrik falou com um meio sorriso no rosto encarando Estela, que parecia preocupada. – Vamos procurar pela cidade com cavalos – ele olhou para Estevão, que assentiu – Nos encontramos no almoço.

Os grupos se dividiram sem muita conversa, Estela ia na frente dos filhos com passadas longas e rápidas, estava em pânico, jamais poderia dizer o nome de Perseu sem sentir culpa, ela só tinha uma missão e aparentemente havia falhado nessa! Eilon subiu a escadaria do covil de mãos dadas com Elisa, ela parecia preocupada com a irmã, enquanto Ethan resmungava de fome.

—Por que não podemos comer primeiro? – o menino perguntou.

—Desculpe, querido, prometo todo bolinho do mundo para você quando encontrarmos sua irmã – Estela entrou no covil primeiro, Jaspe sacudiu a cabeça, ela olhou em volta, havia um dragão a menos – Eles levaram Ruphi.

—Então não estão longe, Ruphi é muito mais lenta que os outros dragões, aquela frango não fica muito para trás – Eilon falou calmamente fechando a sela de Ronar – Vamos achar eles, mamãe – ele abraçou a mãe, Estela retribuiu demoradamente.

—Vamos nos separar, certo? – ela olhou para os outros filhos – Elisa, vá para Dragoi; Eilon, faça o trajeto daqui até Interlok; Ethan, faça o percurso até Verena, Vieno é veloz, tenho certeza que não irá demorar; Elora, sobrevoe as redondezas de Drakoj. Nos encontramos aqui no almoço – Estela beijou a testa cada filho antes de saírem todos juntos, Jaspe rugiu quando os filhotes se separaram, mas Sinler permaneceu ao seu lado, voando pouco abaixo dele.

Estela tomou o caminho do mar, olhava para o oceano com um certo medo, agarrou o pito com força antes de retomar as buscas. Lembrou-se que Evie ia muito nas ilhas ao redor do continente, Elora não iria procurar por lá, então ela foi, pousando na praia das lavandas mais uma vez, as patas de Jaspe amassou as flores, o que fez seu nariz ser invadido pelo perfume, ela lembrou de Perseu e da forma que eles caíram ali há muitos e muitos anos antes, seu estômago embrulhou, precisava achar Evie, precisava achar a filha do rei de olhos azuis.

Estevão e Mandrik cavalgavam lado a lado, agradecendo internamente que William não havia os acompanhado e preferido ficar na fortaleza para realizar a busca. O grupo se dividiu, Navi e outros foram para o sul da cidade, Mandrik e Estevão para o norte; o cheiro de pão quentinho chegava às narinas deles fazendo seus estômagos roncarem, o rei olhou para seu conselheiro, que assentiu sem trocar uma palavra. Eles pararam na pousada de onde vinha o cheiro de pão e amarraram os cavalos, entrando no estabelecimento na sequência.

—Vossa majestade, a que devo a honra? – o dono sorriu e fez uma reverência.

—O cheiro dos pães está maravilhoso, poderia nos servir por favor? – Estevão sorriu, o homem assentiu indo imediatamente preparar o solicitado.

—Você está preocupado com o desaparecimento dela? – Mandrik perguntou encarando o amigo a fim de captar alguma mentira.

—Sendo sincero? Não – suspirou – Seria um alívio se ela só sumisse.

—Então por que viemos procurar ela? – o conselheiro arqueou a sobrancelha.

—Por Estela, óbvio! – o dono do estabelecimento chegou com um prato com fatias de pão e um cubo de manteiga, como também um bule de chá – Obrigado – Estevão sorriu e o outro se afastou – Estela morreria se a garota sumisse, sabe como ela é protetora com a menina.

—Qual seu plano? – Estevão fechou os olhos pensando se tinha algum.

—Sei lá, esperar que ela volte, porque ela vai – deu de ombros – Mas precisamos seguir procurando para minha esposa ficar feliz – Estevão sorriu falsamente antes de sua atenção se tornar apenas o café.

Eilon esperou Drakoj se afastar antes de pousar, conhecia aquela vila, havia parado ali com seus pais em alguma viagem até Interlok, era um lugar bonito, simpática, o povo era receptivo e pelo que ele lembrava havia uma loja com os melhores biscoitos de Calasir, provavelmente levaria alguns dos bolinhos favoritos dos irmãos, principalmente o bolinho de frutas vermelhas, o favorito de Elisa.

—Meu príncipe! – o padeiro falou ao vê-lo entrar – A comitiva real está junto? No que posso ajudar vossa alteza hoje? – o garoto sorriu antes de fazer seu pedido, pagar com as moedas que havia trazido e caminhar tranquilamente até Ronar onde se acomodou para se alimentar.

Ethan parou na primeira vila depois de Drakoj, Vieno causou olhares de admiração enquanto pousava, o príncipe desceu de seu dragão e abanou para as crianças menores que olhavam de longe, por mera formalidade ele usava uma das coroas de príncipe; o garoto entrou na primeira loja que vendia alimento, pedindo bolinhos, estava faminto e não iria procurar Eveline com fome.

Elora também pousou assim que Jaspe sumiu, ela estava faminta e ainda não tinha acordado direito.

Elisa pousou em Dragoi, espreguiçou-se antes de caminhar em direção a fortaleza. Os guardas receberam ela com surpresa, ainda mais porque sozinha, mas abriram os portões imediatamente.

—Princesa, no que podemos ser úteis? – o mestre do castelo sorriu para ela.

—Bom dia – ela sorriu – Eu gostaria de me alimentar – as criadas assentiram – Estou em busca de minha irmã, a princesa Eveline. Não a viram por aqui?

—Não, vossa alteza, a princesa não veio para Dragoi – o mestre não pareceu surpreso com a fuga, mas ele evitou quaisquer comentários.

—Certo – Elisa arrumou a camisa – Vou comer o desjejum no solário e depois vou rezar, tudo bem?

—Como vossa alteza quiser – a princesa entrou, sentou-se no solário onde pode aproveitar um delicioso desjejum, por que sua irmã precisava inventar essas fugas?

Orion chamou Evie baixinho depois que haviam deitado para dormir, a garota levantou e abriu a porta receosa.

—Vem, quero te mostrar algo – ele a puxou pelo pulso suavemente, a levando pelo corredor – Lembra que eu disse que Pardóx é cheia de histórias e lendas? – Evie assentiu, pensando no quanto o castelo não ficava assustador mesmo no escuro, a fortaleza lhe causava pânico só de lembrar dos longos corredores escuros. Eles subiram um lance de escadas – Aqui é os quartos das rainhas e é aqui que tem a lenda que mais me intriga.

—Rainhas? E os Reis? – Evie juntou as sobrancelhas com dúvida.

—Tio Perseu é o primeiro rei depois de muito tempo – eles caminharam, Orion girou a chave e a porta destrancou, o quarto era iluminado perfeitamente pela lua, Evie suspirou pela beleza dele, era perfeito, um quarto dos sonhos – Esse quarto é minha lenda favorita.

—O quarto é uma lenda? – Eveline parou no meio do quarto, observando cada mínimo detalhe, os laços, as chaves aladas pintadas na parede, a cama que parecia macia e a faixa com o nome “Artemisa”.

—A dona dele, na verdade – Orion dedilhou as decorações – Contam que algum tempo depois do nascimento, não sei quanto, nasceu em Saphiral a herdeira que tio Perseu sempre desejou. Todo o reino, os deuses e os monstros ouviram o timbre do nascimento, o sinal que Saphiral recebera seu futuro governante – ele sorriu pensando no quanto seu tio poderia ser feliz com sua filha – Nenhum habitante chegou a conhecer a princesa, apenas sabiam que ela nasceu. Contam que a mãe era uma criatura singular, tão bela quanto o rei de Saphiral, dizem que eles seriam os pais perfeitos para a pequena.

—E o que aconteceu? – Evie deu dois passos curtos em direção a Orion.

—Não sei – ele deu de ombros – Ninguém sabe, talvez tio Perseu, mas ele não fala nesse assunto – o sorriso do garoto se desmanchou – Um mestre contou que a princesa estava com seu pai pela manhã e à noite não estava mais. Artemisa nunca dormiu em seu quarto. – Evie alisou a faixa com o nome, era macia – Meu tio ficou devastado. Nenhum habitante sabe que fim ela teve, se está viva, morta ou protegida. Não sabem se os deuses cuidam dela ou o quê – Orion tamborinou os dedos nas caixas de presente – Tio Perseu deixa um presente todo ano, porque sabe que sua herdeira voltar.

—Mamãe sempre diz que o sangue é o elo mais forte que existe – Evie sorriu, mas Orion não retribuiu.

—É, pode ser – o garoto deu de ombros – Alguns acham que ele está preso numa ilusão.

—Você seria um ótimo primo – dessa vez o menino sorriu de volta – Quer trocar histórias?

—E você tem alguma? – Evie olhou para ele parecendo um tanto ofendida.

—Mamãe me contava uma há alguns anos atrás – eles sentaram no tapete, um de frente para o outro – A história era a seguinte...

“Há muitos anos, em dois reinos completamente diferentes, existiam um rei e uma rainha, eles eram bem parecidos, mas não eram parentes. A rainha era casada com um rei cruel, sádico e possessivo, ela vivia com medo e sua vida era em volta de deixar seu marido feliz. Então um dia os reis se encontraram, formaram uma aliança e o rei do outro lado e a rainha do rei cruel se apaixonaram. Eles se completavam. Um dia o rei teve que voltar para seu reino, deixando a rainha sozinha esperando um bebê dele, ela criou a criança como filha dela e do rei cruel, escondendo a verdadeira paternidade para que ambas sobrevivessem. A rainha nunca mais procurou o rei porque eles estavam destinados a não ficarem juntos”

Perseu estava em seu quarto, limpava as lágrimas, estava odiando Estela, por que era tão fraca? Por que não conseguia proteger sua filha? Por que ficou presa nesse ciclo de engravidar e parir e não deu atenção para a menina que realmente importava?! Artemisa devia ser protegida, amada, cuidada, não ficar vulnerável para aquele garoto a machucar.

Ele ouviu um barulho, vinha dos quartos das rainhas, saiu de seu próprio quarto em silêncio, caminhou calmamente até o corredor dos quartos, a porta do quarto de Artemisa estava aberta, ele tremeu, será que era um invasor? Não, um invasor não seria tão certeiro em ir apenas no quarto dela. Perseu chegou na porta e viu a dupla sentada no tapete, ouviu a história que sua filha contava, Estela havia transformado em lenda a história deles, provavelmente para a menina entender o lado da mãe quando a verdade fosse revelada. A parte do “...eles estavam destinados a não ficarem juntos” doeu em seu coração, eles poderiam sim terem ficado juntos, óbvio que poderiam, era só Estela ter aceitado ficar em Saphiral quando os gêmeos nasceram, era só aceitar enfeitiçar Estevão para ele retornar para Calasir com seu filho tão desejado.

—O que vocês fazem aqui? – Orion travou com a voz do tio.

—Desculpe, tio Perseu – Orion levantou puxando Evie junto.

—Você sabe que eu não gosto que venham aqui – ele colocou a mão no ombro do sobrinho, o puxando para fora, Evie estava envergonhada. – Vá para seu quarto, Orion – o príncipe saiu correndo em direção ao seu quarto. Eveline o olhou.

—Desculpe, rei Perseu, mas o que aconteceu com sua filha? – Perseu queria falar para a menina que muita coisa ruim havia acontecido com a filha dele, mas agora tudo estava bem, porque ela estava com seu pai.

—A mãe dela a levou – ele deixou a verdade sair num sussurro.

—E por que o senhor não impediu? – eles começaram caminhar devagar, Orion já não estava no corredor.

—Porque eu não poderia tirar um bebê dos braços da mãe – Evie deixou uma risada escapar. – O que tem de engraçado?

—É que o senhor e meu pai possuem pensamentos muito diferentes – Perseu a analisou – Estevão arrancaria cada filho dos braços de minha mãe, mas não os deixaria com ela. – o rei baixou a cabeça, sabia que a menina falava a verdade, Estevão jamais deixaria qualquer filho com Estela.

—Em quantos vocês são?

—Em sete, era para sermos nove se mamãe não tivesse perdido um e eu não tivesse... – ela engoliu em seco.

—Você o que? – Perseu levou a menina por outro caminho, um que eles tivessem mais tempos juntos.

—Depois de Elora, mamãe engravidou e perdeu o bebê logo depois da descoberta – ela nunca havia contado para ninguém o motivo que a levou fugir de Estela naquela tarde, mas o rei do outro lado parecia compreensivo e, o principal, estava a ouvindo com atenção – Ela ficou muito mal – Perseu viu a menina olhar para o chão, tinha algo estranho, ela não parecia arrependida – Mas daí ela ficou grávida de novo – Evie ergueu a cabeça – Porque mamãe é muito boa nisso – riu – Meu pai ficou a mimando, a protegendo, fazendo todas as vontades dela. Linor mandou mamãe ficar de repouso, o que era péssimo, ela não podia mais brincar conosco por culpa do bebê – um brilho diferente brincou nos olhos azuis dela, o que arrepiou Perseu – Então eu resolvi que estava cansada de irmãos, corri por uma escadaria secreta que levava ao jardim, Estela veio atrás para me procurar e eu corri dela. Quando terminei de descer os degraus, coloquei um obstáculo e mamãe tropeçou, o bebê não sobreviveu – Perseu estava surpreso com a história, havia sido um erro deixar Artemisa ir para Calasir, ela deveria ter ficado em Saphiral, onde a maldade da criatura cruel com a qual ela dividia o sangue seria controlado – Aquela vez sim, mamãe ficou muito mal, gritou por horas, chorou por dias. Meu pai me obrigou a pedir desculpas.

—E você não se sente mal por isso? – ele precisava estudar a filha, Artemisa não poderia ter puxado a personalidade repudiante daquela coisa.

—Não, meus pais tem filhos demais – deu de ombros e então ela se deu conta do que havia acabado de contar – O senhor também me acha cruel?

—Você era uma criança, querida – ele acariciou o rosto dela. – Mas não foi uma coisa legal – abriu a porta do quarto da menina – Tenha uma boa noite – beijou a testa dela antes de fechar a porta.

Perseu refletiu, provavelmente daí vinha o ódio de Estevão, obviamente qualquer um que fizesse algo contra algum de seus filhos seria punido, o problema era que havia sido sua filha a fazer tal coisa. Será que Artemisa havia realmente pego os genes cruéis de Efellya?

Em Calasir, parte do grupo já se reunia para o almoço, Estela ainda não havia aparecido, ela era a única que realmente procurava Eveline com afinco, revirava cada centímetro das ilhas, nem percebeu que o sol já descia para o oeste. Estela entrou no castelo ainda desatinada, chorava copiosamente, Estevão a abraçou, afagando as costas dela com cuidado.

—Cadê minha filha?! – Estela perguntou chorando.

—Vamos achar Eveline, eu prometo – beijou os cabelos dela.

—Como vou explicar para Auterpe que Orion fugiu?! Como?! – William desceu a escadaria aos berros.

—Jonan também sumiu! – Sunny gritou – Já procuramos por todo o castelo e não tem sinal dele. Ele não levou dinheiro, nem roupas!

—Pelos Deuses, mais alguém quer desaparecer?! – Estevão gritou olhando ao redor.

Sua fortaleza estava um caos.

A manhã em Saphiral começou tranquila, Evie acordou, se lavou, arrumou seus cabelos e colocou um belo vestido, estava feliz, se sentia em casa, se sentia acolhida. Ela sorriu para seu reflexo, estava muito bonita, estava muito parecida com o rei que a recebeu, talvez ela fosse uma boa filha para ele, talvez ele a acolhesse como a filha perdida, talvez ele visse capacidade de governar que ela sabia que tinha.

Eveline poderia ser Artemisa.