Amo te odiar
21 Nova chance ao amor. Uma possibilidade.
Notas iniciais
Malu adora trabalhar como jornalista, principalmente, na área esportiva. Escreve matérias, produz textos de análise e conteúdo para os programas, confere e confirma informações, enfim, ela se sente bem e feliz com o que faz. Ainda mais em 2021, ano em que seu time, Atlético Mineiro, vem ganhando espaço na mídia por seu bom desempenho no Campeonato Brasileiro, acompanhar e escrever sobre este momento, é um deleite para ela.
Um dia, Malu foi surpreendida com a notícia de que iria acompanhar e escrever uma matéria de um jogo da série B, mas não seria qualquer jogo, seria um jogo do Cruzeiro. Além da surpresa, a curiosidade também a tomou, como seria um jogo do time celeste?
Em uma sexta-feira à noite, vestindo uma blusa de malha branca e calça jeans, Malu foi para o estádio Mineirão. Quando chegou, já começou os preparativos para o seu trabalho.
...
Aquilo que Marcelo ou qualquer torcedor cruzeirense imaginava que jamais aconteceria, aconteceu: O Cruzeiro estava disputando a segunda divisão do Campeonato Brasileiro, e havia mais um detalhe, era seu segundo ano na competição. Pois, o clube foi rebaixado em 2019, não conseguiu o acesso em 2020 e tenta voltar para a elite do futebol em 2021.
Desde o rebaixamento do clube, algumas noites de sexta para Marcelo foram diferentes, pois, ele fazia questão de acompanhar cada jogo que o Cruzeiro fazia em casa. Marcelo vestia a camisa de seu time e ia acompanhado por amigos ou até mesmo sozinho ao estádio. Nesse dia ele foi com seu pai e enquanto se encaminhavam para os seus lugares na arquibancada, foram conversando.
— Estou me lembrando de uma vez em que assisti a um jogo do Cruzeiro acompanhado. — Disse Nathan.
— É mesmo, pai? E com quem que foi? — Perguntou Marcelo, curioso.
— Com a sua mãe. — Respondeu Nathan, deixando o filho espantado. — Não me lembro contra que time foi, mas me lembro que a sua mãe estava grávida de você, devia estar com cinco ou seis meses, Carla estava linda com aquele barrigão. Brinquei muito com ela, pois, o Cruzeiro havia vencido. E foi ali que decidimos que você torceria para o mesmo time que eu. Eu ficava falando que você torceria para o Cruzeiro, já tinha até comprado a roupinha. Sua mãe ficava rindo e dizia que isso não era possível, então, eu fiz a proposta, a convidei para ir a um jogo comigo e se o Cruzeiro vencesse, o nosso primeiro filho torceria para o mesmo time que eu.
— Imagino a cena, a mamãe atleticana assistindo a um jogo do Cruzeiro, e o senhor comemorando uma vitória.
— Aquele dia foi muito divertido. Assim que o jogo acabou, eu passei a mão na barriga dela e falei: “O nosso primeiro neném vai ser cruzeirense”.
— Primeiro? Então, naquela época o senhor já estava prevendo a chegada do Fernando? — Perguntou Marcelo, se sentando na cadeira.
— Não diria que estava prevendo a chegada do seu irmão. — Nathan também se sentou, soltando um gemido baixo com a dor nas costas. — Mas é que desde que me apaixonei pela sua mãe, sempre quis ter muitos filhos com ela. Só que aí, quando eu falei que você torceria para o Cruzeiro, sua mãe automaticamente disse “Então, nosso próximo filho vai torcer para o Galo.” Foi assim que o Fernando se tornou torcedor do mesmo time que a sua mãe.
— Parecia que a mamãe compartilhava do mesmo desejo que o senhor. Mas como dizem, o mundo não gira, ele capota, agora, é a mamãe quem está rindo do senhor e de mim. Aliás, ela está dando pulos de alegria, pois, o Galo está muito bem no Brasileiro, sonhando até com o título, o que eu acho bem improvável.
— É mesmo, também penso o mesmo. Quando o Fernando vai lá em casa, ele e sua mãe se unem para comemorar.
...
Depois de um tempo, o jogo foi para o intervalo e nenhum dos times havia aberto o placar. Marcelo aproveitou e foi comprar um lanche, perguntou para o pai se ele também queria, ele disse que não, mas ficou agradecido com a preocupação.
Marcelo andou e chegou na lanchonete, esperou um pouco na fila e quando foi atendido, pediu um misto quente e refri. Enquanto aguardava o seu pedido, ele ouviu uma voz vinda da fila ao lado:
— Por favor, um sanduíche simples e um refri.
Marcelo gelou, reconheceu a voz, mas pensava que era improvável a escutar novamente. Quando se virou, viu uma moça de cabelos cacheados de perfil, e tinha a impressão de que a conhecia. Quase que ao mesmo tempo, os lanches chegaram, a moça pegou o lanche e foi embora, Marcelo também fez o mesmo e após alguns passos, perguntou para a moça:
— Maria Luíza?
Ela se virou e ficou espantada ao ver Marcelo. Ele teve a certeza, era ela, Malu, quer dizer, Maria Luíza. O coração dele começava a bater mais forte, o mesmo acontecia com o dela, enquanto o olhava.
— Marcelo? Nossa, mais uma vez te encontrei por acaso. — Disse Malu.
— O que está fazendo aqui?
— Estou trabalhando na cobertura do jogo, vou escrever uma matéria. Era improvável que eu estivesse aqui, mas confesso que está sendo interessante acompanhar um jogo do Cruzeiro.
— E o que está achando do jogo? Para você, como jornalista e deixando o clubismo de lado, o Cruzeiro sobe?
Os dois se sentaram em uma mesa, enquanto lanchavam e conversavam. Foi uma conversa amistosa, falaram sobre o jogo, sobre suas profissões, compartilharam histórias engraçadas, riram, estavam se divertindo como se fossem velhos amigos de infância. O que ficava claro e evidente entre Marcelo e Malu era o encantamento dos dois um pelo outro. Estava quase na hora do jogo recomeçar, mas Marcelo queria conversar mais com Malu, então, teve a ideia de perguntar, se ela tinha alguma rede social. Malu respondeu que sim, então, compartilharam os perfis e aceitaram a amizade um do outro, Marcelo falou que assim, poderiam conversar melhor por mensagem quando quisessem e Malu concordou. Quando se despediram, foi diferente da última vez, eles deram um beijo no rosto do outro, algo que, internamente, mexeu com os dois e que dava para se perceber nos olhares deles.
...
O jogo havia terminado com a vitória do Cruzeiro, Marcelo estava feliz, mas não era apenas pela vitória de seu time, Nathan percebeu isso e quando entrou no carro, comentou, enquanto colocava o cinto de segurança:
— Percebo um sorriso no seu rosto. E duvido muito que seja apenas pela da vitória do Cruzeiro. Você voltou diferente do intervalo.
— Não, pai. Está enganado. O meu sorriso é pela vitória sim. — Marcelo disfarçou, enquanto ligava o carro.
Durante o caminho, Nathan continuava o assunto:
— Marcelo, não adianta disfarçar. Eu te conheço, esse sorriso é um sorriso apaixonado. O que aconteceu durante o intervalo, que te deixou assim? Pode me falar, filho.
— Tá bom, tá bom. Lembra de quando eu era adolescente, tinha uma garota que era nova no colégio, e que falei que era apaixonado por ela?
— Lembro. Você até contou que se beijaram pela primeira vez. Acho que me lembro do nome dela: Maria Luíza. Acertei?
— Tá com a memória boa, hein, seu Nathan. É isso mesmo. Depois do colégio, a Maria Luíza se mudou para Porto Alegre e ficou um bom tempo por lá. Agora, ela está de volta a BH e a reencontrei, primeiro foi no shopping, depois foi lá no Mineirão. Ela está trabalhando como jornalista. Não sei se o senhor vai lembrar, mas a Maria Luíza é...
— Atleticana.
— Exato. Ela é jornalista e foi escalada para acompanhar um jogo do Cruzeiro e escrever uma matéria. Nos encontramos durante o intervalo e conversamos. Imagina uma atleticana assistindo a um jogo do cabuloso, principalmente com uma vitória? Deve bem engraçado.
— Deve ser mesmo. Então, devo dizer que esse reencontro foi o motivo do sorriso em seu rosto.
Marcelo sorriu e disse, empolgado:
— Pai. Posso falar sinceramente? Eu adorei esse reencontro. Eu sempre achei que nunca mais iria ver a Malu, que ela ficaria no passado e seria uma história para contar. Mas nos reencontramos e todas as conversas que tivemos, foram ótimas, agradáveis, divertidas e que deixaram um sentimento bom em mim, uma alegria que não sentia a muito tempo. Toda vez que a encontro, meu coração bate mais forte, o mesmo que eu sentia quando era adolescente. Ah e tem mais, agora vou poder conversar com ela pelas redes sociais, nós nos adicionamos.
— Faz um bom tempo que não te vejo sorrindo, alegre e empolgado com uma garota. Só te vejo assim com algum projeto novo do trabalho. — Observou Nathan. — Tenho a impressão de que está surgindo uma oportunidade de você se apaixonar novamente, Marcelo.
— Do que está falando, pai?
— Ora, Marcelo, você sabe muito bem. Entendo perfeitamente que você teve um namoro difícil com a Estefani, e que o término entre vocês o traumatizou. Mas não acha que está na hora de deixar outro amor em seu coração? Eu percebo que quando você olha para o Fernando com a Tati, se sente sozinho, até um pouco triste, querendo ter alguém por perto, para amar. A minha opinião é que deveria dar uma oportunidade ao amor, e talvez seja a Maria Luíza, que apareceu em seu caminho como uma nova chance ao amor.
— O senhor não é a primeira pessoa que me diz isso, o Diego e o Fernando também me falaram a mesma coisa, claro que de formas diferentes, mas com o mesmo significado. O Diego pensa como o senhor, a Maria Luíza voltou para que eu possa amar novamente. E o Fernando disse que estava na hora de eu me apaixonar novamente e que quando isso acontecer, vou me sentir no melhor dos mundos. — Marcelo parou de falar e pensou um pouco. — E se não der certo? Se a Maria Luíza não quiser ter um relacionamento romântico comigo? E se ela me quiser apenas como amigo? Ficarei com um amor não correspondido dentro mim e serei infeliz.
Marcelo parou em frente a uma casa, Nathan retirou o cinto de segurança, se despediu do filho, agradeceu pelo passeio e disse:
— Marcelo, você nunca vai saber o que vai acontecer, se não tentar. Eu sei que está inseguro, mas escute o seu coração e tenha coragem. Fale com a Maria Luíza o que sente.
— Mas se ela disser que me quer apenas como amigo? — Marcelo perguntou receoso.
— Se isso acontecer, vocês serão apenas amigos e você vai procurar um outro amor. — Nathan colocou a mão no ombro de Marcelo. — O importante é tentar.
Assim que o pai saiu do carro, Marcelo disse:
— Mande um beijo para a mamãe. E pai, eu vou fazer o que está me pedindo, vou tentar e dar uma nova chance ao amor.
Nathan sorriu e disse:
— Muito bem, meu filho. Eu quero te ver sendo feliz.
...
No dia seguinte, Malu trabalhava na redação escrevendo a matéria sobre o jogo da noite passada. Quando foi escrever sobre o jogador que havia dado a vitória ao time celeste, sorriu, por coincidência, o nome dele é Marcelo. Malu riu de si mesma, revirou os olhos e terminou a matéria. Quando terminou, foi tomar um pouco de café, no caminho, se lembrava do encontro que teve com Marcelo, no Mineirão. Como se divertiu conversando com ele, como foi bom reencontrá-lo. Quando chegou à máquina de café, pegou um copo, colocou um pouco de café, tomou e ficou pensando, já fazia muito tempo que não sentia o seu coração bater tão forte, quanto sente ao estar perto de Marcelo, nenhum de seus ex-namorados a fez se sentir assim. Se estivesse ali, Mariana diria que destino está dando uma ajudinha para ela se apaixonar, reaproximando os dois. E talvez ela estivesse certa, quem sabe esses reencontros inesperados, signifiquem que o amor a achou? E que estava na hora de viver um novo amor? Voltando para a sua mesa, Malu imaginava como seria divertido e apaixonante namorar Marcelo. Mas isso só na imaginação, na vida real, vai deixar a vida fluir.
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