Amo te odiar
8 A boa e velha rivalidade no futebol
Notas iniciais
A capital mineira se divide quando os dois principais clubes de futebol da cidade se enfrentam, principalmente em uma final de campeonato. No colégio Santa Mônica, todo clássico, os alunos se dividem em aqueles que torcem para o Atlético Mineiro e os que torcem para o Cruzeiro, porém em 2008 essa rivalidade ganhou um tempero a mais.
O clássico era a final do campeonato estadual, por si só, o jogo já mexe com a emoção dos torcedores, sendo uma final então, era o jogo perfeito para um domingo à tarde. Só o que ninguém esperava era que no primeiro jogo, viesse uma goleada de 5 a 0 do Cruzeiro sobre o Atlético, Marcelo pulou no sofá vibrando de alegria e gritando “Zêro, Zêro”, ele fez isso até sua mãe lhe dar uma bronca e pedir para parar ou então ele quebraria o sofá. Já Malu, estava incrédula, como seu time leva uma goleada e fica sem reagir? Ela também pensava nas zoações que iria ouvir no dia seguinte, mentalmente, Malu se preparava para o que iria enfrentar.
Na manhã de segunda, o colégio Santa Mônica parecia mais um estádio do que uma escola, quem torcia para o Cruzeiro vibrava, cantava e zoava quem torcia para o Atlético, Malu recebeu bem as brincadeiras e até riu de algumas, mesmo se sentindo um pouco incomodada por estarem zoando o seu time. Mas o que ela não imaginava é o que estava por vir. Marcelo chegou e a primeira coisa que fez foi ver se Malu foi à aula, quando a viu, abriu um largo sorriso atentado e mentalmente disse “Perfeito, ela veio”, mas não foi diretamente até ela, afinal, teria uma aula inteira para perturbar a garota.
João se aproximou das meninas e logo fez uma de suas brincadeiras.
— Bom dia minhas amigas, o dia começou lindo, não? Tanto que até o céu está na cor do vencedor de ontem. Malu, como está? Teve uma tarde agradável ontem? – Disse João enquanto dava pequenas risadas.
— Bom dia, João, estou bem. E sobre ontem, estou tranquila, claro que um pouco chateada com o que aconteceu e da forma como aconteceu, mas tudo bem, perder faz parte no esporte. Já lhe dou os parabéns pelo título mineiro, pois do jeito que está jogando, o Galo não vai conseguir reverter cinco gols. – Disse Malu tranquilamente.
— É uma dama, mesmo com o time dela levando uma lavada, não perde a calma e a elegância.
— Isso porque você não me viu assistindo ao jogo ontem, quase fiquei doida.
— Já eu não sou tão tranquila. – Disse Melissa. — Não gosto que fiquem me zoando, meu time perdeu, jogou mal, fez até gol contra, mas, isso não é motivo para ficar esfregando na minha cara, é muito chato e me irrita. Aliás, você João, está comemorando o que, hein? Campeonato Mineiro que não dá vaga para nada? Me poupe.
— Calma, Melissa, é só um jogo de futebol, não leve tão a sério, é só uma brincadeira e também, logo esse assunto esfria e perde a graça. – Disse Fernanda tentando amenizar a situação.
— Fernandinha querida, não sabe como a Melissa é? Se o Galo perde, não pode brincar ou mexer com ela que logo se estressa. É uma garota dificílima. Tudo bem Melissa, se quer assim, não vou mexer mais com você e já vou avisar aos outros para fazerem o mesmo. – Disse João. — Com licença meninas, vou conversar com os meus amigos.
João saiu e logo interagia com os seus amigos, Melissa de longe observava e reclamava:
— Garoto idiota, só faz me provocar, como eu o detesto.
— Cuidado Melissa, se te virem falando assim, vão pensar que você tem uma quedinha por ele. – Disse Fernanda em tom de brincadeira.
— Quedinha? Pelo João? Eu? Ora Nanda faça-me o favor, que coisa mais sem sentido.
— Você vive de implicância com ele, parece que quer esconder que sente algo pelo João. Não é assim que fala comigo em relação ao Marcelo? Agora você sentiu o que eu passo quando fala essas coisas, Melissa.— Pensou Malu dando um leve sorriso para disfarçar.
Início de aula são os últimos minutos que os alunos têm para colocar a conversa em dia, antes do professor chegar e começar a aula. O clima estava animado, muitos risos, gargalhadas, brincadeiras, as vozes dos alunos até se misturavam tamanho o falatório. A conversa parou por um instante, quando ouviram a voz de Marcelo perguntando:
— Onde está a Malu?
— Malu é, Marcelo? – Perguntou Diego mexendo com o amigo.
— Não comece, Diego. Estou tão feliz que até me esqueci de pensar nesse detalhe, mas cadê ela? Eu sei que ela veio.
— Está certo, Marcelo, a Malu veio sim, mas ela foi ao banheiro e logo volta, não preocupe. – Disse Fernanda.
Alguns minutos depois, João viu que Malu estava voltando para a sala e logo avisou Marcelo.
— Ô Marcelo, a Malu está vindo.
Marcelo, mais do que de imediato, se levantou e foi para a porta, iria aproveitar cada minuto do dia para zoar Malu. Ele esperou ela não apareceu, ela estava se escondendo dele? Se já estava vindo, por que demorava tanto para aparecer? Mas logo Marcelo se animou. Malu surgiu na esquina, estava bem distraída, quando se aproximou da sala, levou o maior susto.
— OI, MALU! – Disse Marcelo com bastante empolgação.
— Oi, Marcelo. Nossa, que susto. – Disse Malu colocando a mão no peito, tentando se recuperar do susto.
— Viu o jogo ontem?
— Vi sim e já lhe dou os parabéns.
— 5 a 0, hein? Aliás, o seu time ajudou a construir este placar, principalmente com o gol contra. – Marcelo falou entre uma gargalhada e outra.
Marcelo ria e se divertia com as caras de tédio que Malu fazia. E ele não parava, falava o tempo todo, até narrou cada um dos cinco gols, a garota até que soltou alguns risos, mas havia vezes que não suportava ouvir a voz de Marcelo, o garoto só parou quando o professor chegou na sala.
...
Era evidente o mal humor de Melissa. Além de ouvir as diversas piadinhas sobre a derrota do seu time, ela não suportava olhar a proximidade de Marcelo e Malu, mais um detalhe que a deixou mais mal-humorada é que o garoto só mexia com Malu e isso deixou Melissa rangendo os dentes.
Era evidente o mau-humor de Melissa. Além de ouvir as diversas piadinhas sobre a derrota do seu time, ela não suportava olhar a proximidade de Marcelo e Malu, mais um detalhe que a deixou mais mal-humorada é que o garoto só mexia com Malu e isso deixou Melissa rangendo os dentes.
— Melissa, pare de fazer esse barulho, é irritante e pode lhe fazer mal no futuro. – Disse Thaís.
— Que barulho que estou fazendo? – Perguntou Melissa.
— Esse ranger de dentes, dá gastura só de ouvir, cê tá bem?
— Tô sim, tô ótima. – Melissa respondeu com certa irritação.
— Não parece. E percebi que só faz esse barulho quando olha para o Marcelo e a Malu. Por acaso está com ciúmes?
— Ciúmes de quê? Daqueles dois? Nada a ver o que disse, estou irritada assim por causa dessa zoeira interminável, sabe que não gosto que fiquem me zoando devido à derrota meu time. Se estou fazendo esse barulho de ranger de dentes, não percebi. E se ficar me incomodando com esse falatório, pode ir, pois, não estou com humor para ficar ouvindo a sua voz o tempo todo, principalmente com coisas inúteis.
— Bem que o João falou, você está insuportável hoje. Tudo bem, Melissa, eu vou, porque não quero ficar do lado de uma mal-humorada, que só fica dando patada nos outros.
Thaís se levantou e mudou de lugar, deixando Melissa sozinha e reclamando baixo, enquanto terminava de fazer a sua atividade.
...
No intervalo, Marcelo continuava a irritar Malu, ele não parava, nem na hora em que estavam comprando lanche. Apesar de se irritar um pouco, Malu estava gostando de ter Marcelo por perto, de vê-lo rir e até que entrava em algumas brincadeiras dele, ele também gostava de estar perto dela, de a provocar, de a irritar, de fazê-la rir, pois ficava um pouco encantado com o sorriso metálico dela, a boa e velha rivalidade no futebol, os deixou próximos. Os dois se aproximaram do seu grupo de amigos, que estavam sentados em uma das mesas.
— Oi, pessoal, de boa? — Perguntou Marcelo.
— De boa, Marcelo, você e Malu estão se entendo? – Perguntou Cecília com um olhar de certa malícia.
— Como assim? Essa matraca cruzeirense que está me tirando do sério, isso sim, mas até que está sendo um pouco divertido. – Respondeu Malu olhando para Marcelo e dando um sorriso.
— Matraca? Eu? Que isso Maria Luíza? Eu nem falo tanto assim. – Disse Marcelo se fingindo de indignado.
— Não, não fala muito não. Hoje não parou de falar um minuto, por isso é que eu te chamo de matraca.
Todos na mesa riram com a pequena, leve e descontraída conversa dos dois.
— E cadê a Melissa que não está aqui conosco? – Perguntou Cecília.
— Ih! Não mexe com essa garota hoje não, tá? Ela tá bem mal-humorada. – Disse João.
— Tá mesmo, me deu até uma patada hoje. – Disse Thaís. – Melissa está difícil hoje.
— Quando estava vindo para cá, a Melissa estava conversando com a Fernanda e com o Leonardo. – Disse Diego antes de dar um gole no suco.
— Pobres Fernanda e Leonardo, estão tendo que aguentar as lamúrias daquela chata. – João colocou a mão na testa.
— Também não exagera, João. – Cecília chamou a atenção do amigo. — Melissa não é chata, só está um pouco irritada hoje.
— Um pouco? – Perguntou Thaís. — Te contei da patada que ela me deu hoje e você diz que Melissa está um pouco irritada? Está sendo boazinha demais, Cecília.
— Não quero me intrometer, pois, cada um tem sua vida e faz o que bem entender com ela, mas pelo que percebi, desde hoje cedo, a Melissa não suporta que fiquem zoando ela devido ao Atlético. Tudo bem, foi uma derrota, que todo mundo tem direito de brincar e de ficar chateado também, mas daí, ficar irritado e sair dando patada nos outros devido a futebol, aí já é exagero. – Disse Malu.
Melissa passou perto da mesa dos amigos, que conversavam e riam, ela percebeu que Marcelo estava sentado ao lado de Malu e passou direto, sem cumprimentar ou falar com alguém. Todos notaram Melissa passar, mas ninguém teve coragem de chama-la para se juntar ao grupo, devido à cara feia com que ela estava.
— Pessoal, vim aqui pedir para vocês pararem de mexer com a Melissa pelo jogo, principalmente os meninos. – Disse Fernanda. — Ela está bem chateada e vocês sabem muito bem que Melissa não gosta dessa brincadeira.
— Nem estamos mais falando do jogo, Fernanda, nós estávamos falando até de outro assunto. – Disse João.
— Eu sei, mas durante o restante da aula, não mexam mais com ela, não fiquem fazendo provocações ou tirando sarro, isso a deixa bem chateada e mal-humorada também.
— E isso é motivo para ela sair dando patada nos outros ou passar perto de uma mesa e nem cumprimentar os amigos? – Reclamou Thaís. — Melissa passou por aqui e nem cumprimentou a gente, estava com uma cara mais amarrada que nó de marinheiro.
— Ela tem os seus motivos e devemos respeitar, por isso vou reforçar o meu pedido...
— Não se preocupe Fernanda, ninguém mais vai mexer com a Melissa devido ao jogo. – Disse Malu. — Mas se eu fosse você, dava um toque na Melissa, ela pode ficar chateada, tudo bem, mas ela não pode sair dando patada, tratando mal os outros e nem cumprimentar. Também pede para Melissa desamarrar a cara, caso contrário, ela vai ficar com a cara toda marcada e pelo pouco que conheço dela, sei que odiaria isso.
Fernanda aceitou a sugestão de Malu e saiu andando pelo pátio. Ela apertou as mãos de nervoso, ela aguentaria guardar um segredo e não contar que o motivo pelo qual Melissa estava tão mal-humorada não era o jogo e sim Malu.
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