Amnesia
3 Capítulo 3 - Sobre memórias ruins
Notas iniciais
Àquela manhã estava relativamente fria se comparada aos outros dias de dezembro. A chuva caía, tendo por vez ou outra os raios iluminando os céus.
Eren estava sentado na larga cama de casal olhando para o espelho à sua frente. Era um péssimo dia para se estar vivo.
Não falava com Levi a mais de uma semana e isso estava o deixando louco.
Ele se levantou e andou até a cozinha. Pegou uma xícara de café e sentou-se no sofá, observando a televisão desligada e os porta-retratos em cima na estante.
– O que foi que eu fiz pra você agora? — se perguntou sem tirar os olhos do rosto sério de Levi registrado na fotografia.
A verdade é que Levi nunca fora muito “estável” e conforme o tempo passava, Eren só achava que isso o machucava mais. As vezes estava tudo bem, como quando o silêncio habitual dava lugar a alguns grunhidos de felicidade ou sorrisos de canto.
Mas as vezes Eren achava que a melhor coisa a se fazer era terminar o relacionamento, e por muitas vezes ele já havia ficado sozinho naquele apartamento mediano cheio de memórias.
Foi quando o som do trovão se misturou ao som dos soluços de Eren.
Ele queria entender porque Levi era assim. Queria saber se seus sentimentos eram verdadeiros.
Mas tudo aquilo mais parecia tortura psicológica à qualquer outra coisa.
Era por volta das seis da tarde quando Eren tomou em mãos o celular. Olhou fixamente para a última mensagem de Levi, recebida há alguns dias.
“Preciso pensar um pouco. Só quero passar um tempo sozinho.” Foi tudo o que ele disse. E mesmo depois de mais de cinquenta mensagens de Eren, tudo o que restara fora o seu silêncio.
*
A chuva finalmente tinha amenizado, mas os olhos de Eren ainda estavam cheios de lágrimas.
E foi ali, olhando para aquele aparelho em cima da cama, esperando que algum milagre divino tocasse sua alma e o enchesse de coragem para que ligasse par ao mais velho, que o jovem sentiu o celular vibrar.
É ele.
Atendeu rapidamente e ouviu o som da respiração ofegante.
– Espere por mim. – ele disse, dando uma pausa – Estou chegando. – e desligou.
Ele estava voltando.
Eren começou pensar no que cozinhar para o namorado para que os dois pudessem jantar em silêncio, porém felizes.
Pensou em fazer macarrão, já que era a única coisa que podia cozinhar sem se preocupar se conseguiria ou não fazer sem queimar.
Levantou-se da cama e foi até a cozinha, onde tirou os ingredientes da dispensa e os separou em cima da mesa. Macarrão feito com alguns temperos e muito amor deveriam agradar Levi.
Mandou uma mensagem para Levi, para avisar que estava cozinhando para caso ele soubesse o que teria acontecido caso chegasse e a casa estivesse em chamas.
Tudo o que recebeu em resposta foi “Estou ansioso para provar.” O que não parecia muita coisa para muitos, mas deixou Eren realmente feliz. Ficou imaginando Levi dizendo isso com um sorriso de canto e um tom debochado.
*
Terminou tudo por volta das sete e pouco da noite e esperava ansiosamente sentado no sofá. Olhava o celular a todo instante para ver se não havia novas mensagens ou ligações do mais velho.
Os minutos passavam lentamente enquanto Eren apertava o botão de bloqueio de tela do celular para ver o horário.
Ele está demorando muito.
Continuou nessa agonia por longos dez minutos até que a tela do celular se iluminou com o nome “Riva ♥ ” na tela e começou a vibrar.
– Finalmente! Onde dia--- — começou, mas foi interrompido.
– Me desculpe ligar do nada, senhor. Seu número estava dentre os de números de emergência do celular do paciente.
– P-Paciente? — as mãos de Eren começaram a tremer. – Levi! Onde está Levi?
– Senhor, por favor, se acalme.
Foi quando a mulher ao telefone disse o que havia acontecido e onde estava Levi.
*
– Um caminhão te acertou enquanto você voltava pra casa. – suspirei com os olhos marejados. Odiava lembrar disso. – Seu estado estava péssimo e você só sofreu o acidente porque estava distraído.
– Distraído? — ele me olhou confuso. Puxei o celular e mostrei a ele.
– Você me mandou uma mensagem. Nem deu tempo de notar que o sinal de pedestres estava fechado.
Ele parou por um instante e eu não deixei de fita-lo. Ele estava me encarando, mas desviou o olhar e então disse baixinho:
– Quero ficar sozinho. – e aquelas palavras me acertaram em um lugar tão profundo que mal dá para descrever.
– Mais do que já ficou? — retruquei sem me mexer na cadeira sentindo meu corpo todo queimar de raiva. – Os dois meses em coma, mais a semana que passou fora de casa. Você não acha que já passou muito tempo sozinho? — aumentei o tom de voz sem perceber e ele me lançou um de seus “olhares”.
– Ficar sozinho deve ser bem melhor do que ficar com você. – ele respondeu, agora com um tom indiferente.
Fiquei boquiaberto e então me levantei e, silenciosamente, sai da sala. Me sentei em uma das desconfortáveis cadeiras de hospital e apoiei a cabeça nas mãos enquanto me controlava para não desabar.
– Eren? — olhei para cima e vi o homem alto de cabelos louros e sobrancelhas grossas até de mais. – Cheguei em má hora? — Erwin perguntou.
– Eu não sei bem. – respondi. – Para mim é, mas talvez ele queira vê-lo.
– Se importa se eu...? — eu gesticulei com as mãos como quem não se importasse e pedisse para ele entrar.
O pesadelo estava enfim completo.
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