Amnesia
2 Medo
A criatura tinha uns três metros.Sua pele avermelhada parecia banhada de sangue,as garras de suas patas eram do tamanho de minhas pernas.Suas bocas...isso mesmo,a criatura possuía três cabeçorras,que olhavam sedentas para me devorar.
Não sabia o que fazer.Pensei em correr mas meu corpo não respondia.Os olhos da criatura acompanhavam meus movimentos.Estava pronta para atacar.
Não sei se foi milagre.Ao longe,cortando o enorme silêncio da masmorra,ouvia-se um baque salvador.Um dos olhos da criatura foi acertado por uma pedra,fazendo-a se balançar de dor.Quem o fez ?Não tive tempo para pensar.Ao fundo,por trás dos urros de dor da criatura,uma voz quebrara o silêncio e despertou meu corpo.
-Corra !-Dizia ela.Não hesitei.Corri o máximo que pude.Mais atrás,ouvia o barulho da criatura.Ela recobrara os sentidos.
Parar...não era uma opção.Ouvia o som da besta vindo logo atrás..Mas então um vulto passou por mim.Não pude ver seu rosto,mas era um homem alto e forte.Sua pele parda cintilava com a luz da tocha ao fundo.Seus cabelos loiros e encaracolados balançavam nas sombras.Ele brandia uma espada e ia em direção a criatura.
Ao passar por ele,senti meu coração batendo.Parecia que iria sair pela boca.Senti uma dor enorme em meu peito,como se estivesse deixando para trás algo importante.
Ao fundo ouvi o grito de agonia do homem,o homem que se sacrificou por mim,mas não parei.Corri tanto que não ouvia mais o som da criatura.Quando dei por mim,estava em frente a um grande portão.Ele era feito de mármore,estava todo rachado e desgastado.Havia duas gárgulas entre o portal.Logo acima,estava escrito algo.Não entendi muito bem por estar em outra língua.
Revertere Ad Locum Tuum
Não sabia o que significava e também não ficaria ali para descobrir,a criatura ainda pode estar me procurando.Então algo me chama a atenção.Ouço passos vindo em minha direção.Não sei de onde.Pra onde quer que eu olhe,só enxergo a escuridão.
Forçando bastante a visão,enxergo um vulto mais ao longe.Não era a criatura de antes.Conforme ele se aproxima,materializando-se nas sombras,me tranquilizo.Era uma pessoa.
Um velho,coberto por um manto negro,pra ser mais exato.Não conseguia ver seu rosto.Caminhava torto,apoiado a uma bengala.Bengala...era algo assustador.Em sua ponta havia um crânio decorativo,seus olhos vermelhos,por um instante,pareceram mover-se,fixando-se em mim.
-faz tempo que não vejo uma mulher tão pura em um lugar como esses.-Disse o velho,sua voz rouca parecia se misturar com o assobio do vento,chegando a dar calafrios.
-Obrigada!-Foi a única coisa que pensei em dizer.Havia tantas perguntas à fazer,não queria assustá-lo.-Onde estou ?-Ele não respondeu de imediato,na verdade pareceu ignorar a pergunta,voltando sua atenção para o portal.
-Volte para o lugar de onde vieste.-disse o velho.Não entendi o que quis dizer com isso,mas pensei...
-É isso que aquela frase quer dizer ?-Ele olhou para mim.Atrás do véu preto,tentei reparar em seus olhos.Pareciam esferas cintilantes cinzas.
-Diga-me senhorita,seu coração ainda bate ?-Agora eu realmente não entendi.Porque meu coração não bateria ?Coloquei a mão sobre meu peito,sentindo a leve batida do meu coração.
-Sim.-Respondi,sem entender muito.-Porquê a pergunta?-O velho começou a me encarar.Parecia estar me avaliando.
-Sim!Você é uma peça rara!-Exclamou,se aproximando.-Ainda há sangue fluindo em seu corpo.-Ele começou a apalpar meu rosto,suas mãos enrugadas eram frias e cinzentas,como se estivessem mortas.
-Quem é você ?-Novamente,ele não respondeu.Apenas se virou para a porta.Não sei se era coisa da minha cabeça,mas ele parecia estar cochichando algo.
Então,com uma batida de sua bengala no chão,a porta,com um ranger ensurdecedor de rochas sendo arrastadas,se abre.
A visão é horrível.Haviam inúmeros túmulos espalhados por toda a sala.O chão fértil era terra pura.Os corvos voavam adoidadamente pelo céu,como quem esperando a hora do lanche.
-siga-me.-Disse o velinho,adentrando a sala.Não queria segui-lo,mas não tinha opção,a criatura ainda podia estar atrás de mim.
-Onde estamos ?-Perguntei inocentemente.Silêncio...um silêncio mútuo quebrado apenas pelo som de nossos passos.Então ele respondeu:
-No recanto de descanso das almas.É aqui onde há a conexão entre a vida e a morte.
Não entendi muito bem o que ele quis dizer,mas continuei perguntando:
-Um cemitério ?-Ele fez um gesto com a cabeça,indicando que sim.
-É aqui onde as almas vindas do mundo humano se materializam.-Continuei sem entender.O velho parecia impaciente.Vivia resmungando”Ahhh...esses humanos...hipócritas...não sabem a verdadeira essência da vida.”Não consegui me segurar.
-Você se refera aos humanos de tal maneira,mas ainda é um de nós!-Exclamei,mas me recolhi rapidamente.O velho estava me encarando.Seus olhos cinzas analizavam-me por inteira.
-Eu?Humano?-Soltou uma risadinha de desdém.-Como ousa fazer tamanha comparação ?-Perguntou,balançando sua bengala ameaçadoramente.Os olhos da caveira cintilavam para mim.
-Então...-Tentei medir minhas palavras.-Quem é você ?-Ele parou de me encarar.Virou-se de costas e começou a alisar a estátua de um túmulo.
-Eu tenho muitos nomes.-Respondeu.-Chega a ser confuso até pra mim as vezes.Mas...para um ser humano como você...pode me chamar de Morte
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