Amigo que é amigo...
1 Amigo que é amigo...
No mundo infantil, as ameaças estão onde os adultos menos esperam. E deveriam esperar, afinal, já foram crianças um dia. Parece, porém, que quando ficamos adultos nossas memórias são cobertas por uma espécie de véu.
Se Jorgito, o ex-trambiqueiro e atual aspirante a ator de novela mexicana, tivesse se lembrado de seus medos infantis, provavelmente não faria o que acabou fazendo naquela manhã ensolarada.
Era uma manhã bonita, de céu azul quase esmaltado, estriado aqui e ali por nuvens finas e delicadas que haviam sobrado da tempestade que caíra logo ao amanhecer. Parecia que o mundo tinha tomado banho, as plantas do jardim do Condomínio Zodíaco ainda ostentando gotas em suas folhas que pareciam mais verdes do que nunca.
Crianças e adultos gostam de manhãs assim, embora por motivos diferentes. Crianças amam as poças de lama que sobram da tempestade, enchem os olhos com a beleza que se mostra e ficam radiantes em poder brincar fora de casa de novo. Já os adultos… bom, adulto sempre gosta de coisas práticas, e aquele sol era prático para os afazeres domésticos. Era o que pensava Jorgito.
Mas estávamos falando dos medos infantis, então pulemos para o momento em que o filho de nove anos de Jorge, o pequeno Gêmeos, retornava da escola junto com seus amiguinhos de condomínio para almoçar.
Ah, o sorriso de criança que se desfaz em segundos, os olhinhos heterocromáticos se arregalando em choque ao vislumbrar aquela cena que não aparecia sequer em seus piores pesadelos de tão impensável…!
O varal, embora inócuo para os mais crescidos, pode representar o terror de uma criança. É o mural da vergonha, o local onde se expõem sem qualquer censura seus maiores embaraços: lençóis molhados de xixi noturno, roupas vergonhosas… e aquilo. O maior segredo de Gêmeos ali, estendido no varal para que seus amigos e o mundo todo pudessem ver! Por que os quintais das casas daquele condomínio precisavam ser expostos daquele jeito, mais elevados que os muros?!
— O que é aquilo, Gê? — Apontou o vizinho da frente, curioso, ao ver o enorme coelho de pelúcia, malhado em preto e branco, pendurado pelas orelhas secando ao sol.
— Parece um coelho de pelúcia… — Disse outro garoto, estreitando os olhos pra ver melhor — Caraca, que coelhão gigante! É seu, Gegê?
Ante o olhar zombeteiro dos garotos, o pequeno geminiano apenas bufou.
— É da minha prima Gema, ela passou a noite em casa no sábado e esqueceu…
— Mentira, a gente fez festa do pijama na casa dela sábado! — Sua amiga Áries franziu a testa.
— Eu tô achando que esse coelhão é do Gêmeos… — Um menino mais corpulento se riu do bicolor — Que bonitiiiiiinho, tem uma pelúcia maior que ele!
Os garotos do grupinho riram enquanto Gêmeos, ficando cada vez mais vermelho, negava de pés juntos a posse do objeto peludo.
— É da minha prima! Eu não tenho essas coisas de menina!
Foi interrompido, porém, pela voz da verdade. Ou do pai, como queiram.
— Hola, chicos, alguém quer almoçar com a gente hoje? Fiz lasanha! — Jorge se aproximava — Filho, parece que a janela ficou aberta e a chuva molhou o Marshmallow! Mas não se preocupe que já dei jeito nele, ele tá secando agora, tá? Ué… tá com febre…?
Jorge pousou a mão sobre a fronte vermelha do filho, mas o contato não durou mais que alguns segundos — o menino, morrendo de vergonha, correu para dentro de casa sob as gargalhadas estrepitosas da maioria dos colegas.
Ari, por sua vez, suspirou.
000
Gêmeos correu para o quarto e se afundou na cama. Estava acabado! Sempre havia sido ele a zoar os coleguinhas, mas daquela vez… haviam descoberto seu maior segredo! Ririam dele pro resto da vida… ah, queria tanto abraçar seu coelhão Marshmallow naquele momento, mas nem isso poderia fazer!
Ouviu a campainha e, logo em seguida, o pai atendendo.
— Hola, chica… Gêmeos não parece estar muito bem, tá trancado no quarto… aceita lasanha?
— Valeu, tio Jorgito, mas vou falar com o Gê… dá licença!
— M-mas…!
Ouviu os passos decididos chegando cada vez mais perto — lógico que Ari não faria caso e invadiria sua casa… conhecia bem o temperamento decidido da amiga. As pancadas na porta não deixavam dúvida.
— Abre a porta agora!
— Por favor, Ari, não tô querendo ver ninguém agora…
— Tô nem azul, abre isso aqui agora ou eu quebro tudo!
Sem alternativa, o geminiano abriu a porta do quarto, dando passagem a uma irritada ariana.
— Cê não vem com essa conversinha de não ver ninguém não, seu Gêmeos! Tá de palhaçada comigo?
— Mas eu tô acabado, miga! — Gêmeos se exasperou — Os meninos devem estar rindo de mim até agora! Devem estar dizendo “Ai, o Gêmeos tem coelho de pelúcia”, “O Gêmeos gosta de coisa de menina”...
— Ah, larga de ser frouxo! — Ari colocou as mãos na cintura — Cê tem coelho de pelúcia, E-D-A-Í, eu tenho uma ovelhona! E se você vier com esse papinho besta de “Ah, é que você é menina” eu vou te bater!
Gêmeos engoliu em seco e nada disse. Não duvidava nada de que a amiga cumprisse a ameaça… ainda mais ela sendo maior que ele! Áries pareceu se dar por satisfeita ao notar o bicolor quietinho e se sentou na cama, continuando a bronca:
— Olha só, se você acredita nessa besteira toda de coisa de menino e de menina, só te digo isso: cê é muito burro! Papai fala que criança precisa brincar, e eu acho que é isso mesmo! Se cê tá brincando com um coelho de pelúcia, cê vai continuar sendo menino, ué! Ou eu não sou mais menina porque jogo bola com vocês? Esse povo que quer mandar no que a gente brinca é tudo bobo!
— Mas eles riram de mim!
— Riram porque são burros! Burros que ficam com medinho de encostar em coisa rosa e não brincam com o que acham legal só porque acham que os outros vão zoar. E se você continuar aí choramingando por causa deles, vou te chamar de burro também! Cê tem um coelhão, migo, olha que legal! E esse povo que fica te zoando pra você parar de brincar com ele, sabe o que é isso? É tudo re-cal-que! — Ari havia aprendido aquela palavra havia pouco tempo e se apaixonado por ela — Olha que coelhão grande, bonitão, aposto que é mó macio!
— O Marshmallow é maior que eu… — Gêmeos sorriu de leve.
— Aí, viu que legal? Quando eu era pequena gostava de ficar deitada na minha ovelhona. Hoje eu abraço mas já sou maior que ela. Viu como é legal ser tampinha, migo?
— Quem você tá chamando de tampinha?! — Gêmeos inflou as bochechas.
— Ninguééém, magina… — A garota cutucou o nariz do menor, sorrindo. O amigo parecia mais tranquilo, o que era ótimo! — Ó, cuida bem do Marshmallow que no feriado eu trago a minha ovelhona e a gente brinca junto! A Aristolfa é muito maravilhosa!
— Tá… — Gêmeos sorriu, assentindo com a cabeça — Obrigado, miga. Quer ficar e comer lasanha?
— Ah, não… — Ari se levantou — Preciso cuidar da lição…
— Lição? — O bicolor a olhou confuso — Mas a professora não passou nada pra amanhã… ou eu não prestei atenção? Foi na hora que eu tava tacando bolinha no Touro, será? Aimeudeus, miga, o que que é pra fazer?!
— Ai, relaxa, migo, não é lição de escola, não!
— Mas então…?
Áries apenas sorriu para o amigo e deixou o quarto, despedindo-se de Jorge e saindo. No caminho, arregaçou as mangas do uniforme…
000
Já era fim de tarde e Gêmeos, um pouco mais tranquilo, estava ajudando Jorge a tirar Marshmallow do varal. O coelho estava seco e macio e Gêmeos sorriu, roçando a bochecha no seu querido companheiro. Foi quando notou um grupo se aproximando da casa.
— Hey, Gê, beleza…?
Era o grupo que viera com ele da escola horas antes. Mentalmente começou a repassar a conversa que tivera com Ari em busca de argumentos contra qualquer zoeira que tentassem. Se quisessem zoeira, teriam de enfrentar o mestre dela!
Mas...
— Hum, a gente veio… ah… pedir desculpa, Gê.
— É, a gente não devia ter rido… a gente brinca com o que a gente gosta, e o seu coelhão é muito legal!
— A gente foi bobo de zoar você, desculpa… não tem problema ter bicho de pelúcia!
— Eu tenho um porquinho de pelúcia, o Zé Linguiça!
Os garotos começaram a se atropelar nos pedidos de desculpa e Gêmeos apenas olhava, confuso. O que tinha dado neles? Não era como se pedissem desculpas por cada brincadeira que faziam! Foi quando notou que, vez ou outra, os meninos olhavam disfarçadamente, receosos, para um ponto a alguns metros dali. Acompanhando o olhar assustado, viu Ari ali, de braços cruzados e batendo o pezinho, vigilante.
Oh, então estava explicada aquela cena. E também, claro, os curiosos hematomas que não estavam nos meninos mais cedo…
— Tá sussa. Sobrou lasanha do almoço, se alguém quiser…
— Ah… não, não, melhor eu ir pra casa tomar um banho…
— É, t-também vou indo… prazer em te conhecer, Marshmallow!
Os garotos foram praticamente correndo para suas casas — alguns meio mancando — enquanto Ari se aproximava calmamente.
— Gê, tudo bom? Sobrou lasanha, foi?
— Sobrou, miga, vem comer! — Gêmeos abriu um largo sorriso enquanto viu a amiga se dirigir à entrada da casa.
Ari, por sua vez, ajeitava tranquilamente as mangas de seu uniforme. Da próxima vez traria Aristolfa — não quis que a pelúcia se sujasse, então não a havia trazido. Cantarolava distraidamente para si mesma:
— Amigo que é amigo não separa briga, amigo que é amigo chega na voadora… ~
FIM
Notas finais
(Na verdade eu tenho uma oneshot incompleta em que ele aparece de leve... era pro Dia do Irmão, mas tive algumas coisas pra fazer e, enfim, vou ver se me animo de voltar a ela e postar antes do fim do ano).
Imaginei um condomínio cheio de casas parecidas e ligeiramente elevadas em relação à “calçada”, então o quintal seria visível por cima de um muro baixo. Inclusive Gêmeos, na última cena, poderia falar com os meninos por cima do murinho mesmo sendo nanico. Espero que não tenha ficado muito confuso x.x
Falando nos meninos, cheguei a cogitar colocar personagens de Zoróscopo e Zodícopo como sendo os coleguinhas de condomínio de Gêmeos e Ari, mas por algum motivo não gostei da ideia de a Ari bater em alguns deles (tinha chegado a escrever Leão e Sagi na cena). Por isso acabei deixando como figurantes, mesmo.
Espero que tenham gostado! Até uma próxima!
P.S.: Eu sou da paz e qqq Mas acho essa filosofia final uma coisa bem ariana XD
Fale com o autor